In Your Eyes

7 Capítulo 7


Estávamos na mesma sala, como era bom quando juntavam as turmas do mesmo ano. Apesar da proximidade nós dois estávamos distantes, não dava pra disfarçar, trocávamos olhares significativos. Pena que as aulas duravam apenas cinqüenta minutos, no momento em que você estava saindo olhou para mim, sorriu e acenou. Eu já sabia o que fazer.

O dia nunca demorou tanto para passar, o intervalo que era para durar apenas vinte minutos demorou no mínimo uma hora, nem os seus sorrisos, nem a sua gargalhada o fizeram passar rápido. As duas últimas aulas foram perdidas entre números, talvez fosse a física, pegamos o tempo de duas aulas e adicionamos a alguém extremamente ansioso, isso resulta na velocidade do tempo, que sempre é praticamente nula.

Ao chegar em casa concluí que justo hoje que o tempo deveria voar, eu ficaria sozinha. Era fato que em casa o tempo passava mais lento que o normal. Eu me arrastava por cada minuto esperando a televisão ocupar minha mente que só pensava no que aconteceria hoje, talvez eu estivesse levando isso muito longe, mas eu tinha certeza, você acenou para mim. Não foi só um aceno. Nós havíamos criado um jeito exato de acenar, para que nossos pais não descobrissem que nós iríamos fugir a meia noite, ou antes. E você havia acenado assim para mim.

Não era difícil saber onde me encontrar com você. Eu iria ver o pôr-do-sol hoje. Poderia passar a tarde toda ao pé da nossa árvore esperando você, mas só sairia quando não faltasse muito para que o sol se fosse. A televisão já não funcionava mais, eu precisava de outra coisa. Fui procurar o que vestir. Não era um passeio, nem um encontro, era apenas você, porque eu deveria escolher uma roupa? Além de que nenhuma roupa parecia boa o bastante para o reencontro. Devo ter perdido duas horas revirando as coisas dentro do meu guarda-roupa que às vezes parecia um outro mundo, e lá no fundo achei aquele seu moletom, enorme, que na época ficava grande até pra você, e uma semana antes de nós recebermos a notícia de que você iria ‘embora’ eu o peguei emprestado em uma noite gelada. Agora ele ficava grande para mim, e provavelmente estava do tamanho perfeito pra ti, já passava da hora de devolvê-lo.

Quando me lembrei, já estava na hora de sair de casa, preciso me lembrar de mexer no guarda-roupa para o tempo passar.

Ainda estava sozinha, provavelmente ninguém em casa se preocuparia em saber se eu entrei ou deixei aquela casa, então simplesmente saí. Deixei o celular em cima da cama, ninguém iria me procurar. Coloquei os fones do iPod no ouvido, já que era cerca de vinte minutos de caminhada até o parque, sua música favorita tocou.

Ao me sentar ao pé da árvore o sol já começava a se esconder. Não te procurei. Esperei-te.

O sol já havia sumido, agora a luz que havia ali era das lâmpadas amareladas dos pequenos postes. Meu coração estava apertado, você não poderia ter se esquecido disso, foi você quem o propôs. Agora tudo passava pela minha cabeça.

Talvez eu realmente precisasse parar com tudo isso. Poderia ser que você apenas estivesse brincando comigo, poderia ser que você nem se lembrasse quem eu era, e só estivesse tentando se aproximar de uma menina nova, talvez, seu aceno não foi o nosso aceno, quem sabe minha mente não estava criando de mais e eu era apenas uma esquizofrênica e havia perdido todo o contato com a realidade, que a essa altura eu nem sabia se existia mais.

Não voltei caminhando para casa, corri. Já estava tarde, eu havia perdido muito tempo na minha agonia, ainda não havia ninguém em casa. Melhor, não precisaria dar satisfação.

As escadas não queriam me ver no meu quarto, entre três tropeços machuquei a palma da mão, estava sangrando, mas não importava, uma hora parava. Chegar ao quarto era meu maior objetivo no momento.

A cama estava meticulosamente arrumada para que nela eu caísse e abraçasse o travesseiro, era engraçado, mas naquele momento, eu não conseguia chorar por você. Mesmo tendo todas as piores idéias possíveis, minha mente ainda me dizia que não estava tudo acabado, por mais que eu quisesse por um ponto final em toda essa história agora.

Nesse momento, o tempo voava, olhei no relógio que marcava “23h59” e percebi que hoje eu também passaria a noite sozinha, havia se tornado normal todos saírem e não lembrarem de me avisar.

Ouvi alguns barulhos. Em um momento não os identifiquei, mas logo uma lembrança veio a minha mente.

Pedras na janela.

A essa hora apenas meu irmão poderia ter ficado trancado para fora. Me levantei sem empolgação, o sangue já havia tomado conta da minha mão, mas a essa hora ele já havia parado de sair e feito uma grande mancha no lençol. Acendi a luz, as pedras pararam. Nesse momento eu me dei conta de que não era meu irmão, o relógio já passava da meia noite. Corri até a janela e a abri, ali em baixo brilhava em seu rosto o sorriso.

Agora eu conseguia chorar por você novamente.