In Your Eyes
4 Capítulo 4
Como se agora o destino começasse a trabalhar a meu favor, em dois dias eu consegui te ver, distante, lanchando do outro lado do refeitório, cercado de pessoas, sorrindo por simpatia. Era bom te ver assim ‘bem sucedido’, mas era péssimo te ver entre tanta gente e não conseguir sorrir sinceramente. Por outro lado, era extremamente engraçado como você os enganava, todos eles riam com você, todos. Eu tinha certeza que ali naquela mesa se dois sorrisos fossem sinceros, seria muito.
O mundo era extremamente falso para mim, as garotas bem arrumadas não passavam de camadas de maquiagem, os meninos eram todos fingidos, que brincavam de ser alguém na escola, os professores sorriam diante de uma sala cheia de gente que acabava com a vida de alguns deles, as pessoas que passavam por mim apontavam, como se fossem alguém de verdade para poder julgar uma pessoa, não que eu fosse de verdade, mas eu no mínimo deixava aparecer o que eu sentia.Naqueles dois dias em que passei gravando seus movimentos expressivos no refeitório, o sorriso não desaparecia do meu rosto, minha mãe comentou que eu estava mais corada, até o dono da padaria disse que nunca havia me visto tão bonita. Além do que eu via no espelho eu não acreditava em nada. Sim, eu sorria que nem alguém que ganhou algo muito bom, não que isso fosse mentira, mas, não era pra eu me sentir tão satisfeita apenas te observando.Talvez não fosse isso que me deixasse tão sorridente. Eu percebia que mesmo estando quase camuflada do outro lado do refeitório, você sabia que eu estava ali, você olhava para aquele canto cheio de pessoas, comigo perdida em um canto e seus olhos ganhavam vida.Mas eu comecei a pensar, por que você não viria até mim? Por que diabos você apenas me tentaria com esses olhares cheios de esperança? Por que você simplesmente se virou a primeira vez em que nós tivemos que nos separar e agora voltava assim, dando alguns tapas em meu rosto para que eu caísse na realidade? Mesmo que o mais próximo que nós chegamos foi a cerca de três metros.Não posso negar que eu estava vivendo daquilo naqueles dois dias, passar os vinte minutos mais bem aproveitados do meu dia te observando não era nenhum esforço, por outro lado, era um enorme prazer que eu tinha que ter. Mas, no terceiro dia não te encontrei no refeitório. Não preciso dizer que aquilo foi o fim dos meus dias de felicidade, mas mais do que nunca as lembranças suas cintilavam com tons azuis em minha mente, talvez por isso aquela noite tenha dado algo em mim e eu quis sair. Bom seguir o instinto algumas vezes, resolvi dar uma volta no parque, passear entre as árvores, lugar que você adorava me levar, quem sabe eu ainda lembrava o lugar onde nós cravamos com um canivete velho nossas iniciais. Andei por todo o parque, tudo que encontrei foram árvores maiores do que eu me recordava, de fato fazia muito tempo que eu não ia até lá. Havia crianças brincando, elas sorriam sinceramente, e o sorriso delas me lembrava o seu. Elas tinham olhares puros, os olhos brilhantes delas me lembravam os seus, acima de tudo, eu via pureza nos atos delas, elas faziam o que bem entendiam, quase sempre sem maldade alguma, quase sempre apenas por sentirem prazer naquilo. Isso era você, a pessoa que vivia tudo, por simples prazer, mas que ultimamente estava vivendo apenas para cumprir tabela e ser bem sucedido em algum lugar. Foi só ao ver aquelas crianças brincando que eu parei para pensar que você tinha perdido isso.A alma de criança, a pureza. Onde estava aquele menino que só andava com as pessoas que lhe agradavam e nunca se esquecia dos amigos e da família? Naquele exato momento, eu desejei com toda a força possível que apenas isso tivesse se mantido em você. E eu acho que havia se mantido, porque era com essa alma que você sorria, era com essa alma que você me olhava.Mais dois passos, a árvore com nossas iniciais estava a minha frente. A observei, o tempo havia passado, aquilo já havia ‘cicatrizado’ na árvore, e agora fazia parte dela, seria eterno. O sol já estava se pondo, me lembrei naquele momento que nós havíamos calculado, e que escrevemos nossas iniciais exatamente para o oeste, já que era lá onde o sol se punha, e era ao pé daquela árvore que nós gostávamos de passar as tardes o vendo sumir por trás de alguns prédios. Fiquei ali, até o sol se por, o que acontecia mais rápido agora, já que os prédios haviam crescido, ou talvez, acontecia mais rápido pelo simples fato que eu te sentia ali perto.Mal me lembrei de ver o sol se por.
Fale com o autor