In Your Eyes

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Começou à toa, em um texto inspirado pelo sorriso do Daniel.

Eu sentia aquela dor no fundo do peito, mais precisamente no coração. Tinha certeza que sempre sentia isso, havia virado hábito. Não que seja um hábito bom, mas infelizmente havia virado.

Aquele dia em especial isto estava me intrigando, o aperto não passava, além de não ter motivos óbvios para ter surgido, simplesmente apertava. Eu tinha vontade de chorar, mas as lágrimas pareciam ter sumido do meu corpo. Eu tinha vontade de gritar, mas minha voz simplesmente havia feito greve. Eu queria deitar, olhar para o teto e pensar em você, sim, isso eu podia fazer, mas não o fazia.

Talvez pensar em você não fosse tão bom assim, pensar que você estava longe já não fazia mais meses, fazia anos. Agora já fazia sete anos. Sim, era por isso que eu sentia o aperto no peito, eu nunca me lembrava de datas, mas meu inconsciente tomava conta disso por mim. Não parecia, mas fazia sim, sete anos que você havia virado as costas e nem parado para olhar nos meus olhos, e também fazia sete anos que você havia me excluído do seu mundo.

Nenhum telefonema, nenhuma carta, nem sequer um e-mail, você parecia fingir que eu não existia, ou será que de fato você achava que eu não existia? Eu tinha total noção de que você era esquecido das coisas, mas... Não achava que fosse pra tanto. O tanto que você disse que eu fui especial pra você, não era pra ser esquecido assim tão rápido.

Tá, eu fui especial porque eu fui a primeira, e essas coisas a gente normalmente não esquece, mas parece que você achou gente melhor e simplesmente esqueceu que existiu uma primeira. O problema seria eu? Eu não fiz nada de errado... Até onde eu lembro. Não, eu não fiz nada de errado, nós passamos meses com essa idéia e tudo parecia ir tão bem, até o dia que você teve que ir.

Eu entendo que você teria que acompanhar seus pais, mas, dava pra ter me dado um tchau descente? Você me disse adeus, simplesmente se virou e foi embora. Tá que nós éramos duas crianças de onze anos cada, mas eu me lembro perfeitamente, seu adeus foi dito de uma forma crua, não consegui pegar nenhum sentimento nele, não me lembro se sua voz tinha tristeza ou se estava aliviada, mas me lembro dos seus olhos, seus olhos sempre me disseram de mais. Aquele dia em especial seus olhos estavam mais brilhantes que o normal, mas não brilhantes de felicidade, estavam brilhantes, pois passaram o dia marejados. Me lembro que no seu adeus você não conseguia me olhar nos olhos, levantei seu rosto pelo queixo e vi uma lágrima escorrer delicadamente sobre suas bochechas coradas que estavam particularmente mais vermelhas naquele dia. Então eu limpei aquele pedacinho de você que tentava ir embora, eu lembro que a minha mãe me ensinou que uma lágrima é um pedacinho de tristeza nosso que fica pelo caminho quando nós estamos muito cheios dela. Eu falava isso para você. Eu dizia que ia limpar todas as suas lágrimas, pois eu não queria ver pedacinhos de tristeza sua jogados por ai, você me dizia que era bobagem ficar limpando suas lágrimas e lamber meus dedos depois disso, mas depois de um tempo você desistiu, e até começou a fazer igual.

Depois de limpar essa sua lágrima, eu não tive tempo nem de te dar um abraço apertado, você obedeceu rapidamente ao comando de sua mãe e simplesmente se virou, murmurando um ‘adeus’ e entrando no carro. Eu tenho certeza que você não viu, mas eu lambi meu dedo depois daquilo.

Foi o último pedacinho de tristeza de alguém que eu consegui fazer sumir.