In Your Atmosphere
1 Meu pesadelo,
Notas iniciais
Meu pesadelo, minha perdição...
Ma chérie.
Quase derrubei o martíni no terno quando o refletor iluminou o palco, revelando-a, ma petite perle. Perdi o foco. A estrela da noite, que até instantes atrás não me importava sequer em saber o nome, caminhou soberba até o palco, e levou consigo a minha elaborada explicação sobre o novo perfume da empresa. Entrou vestida de céu, num vestido negro encrustado de brilhantes, entretanto, embora comentassem baixinho sobre a minha atração pelo generoso decote, eu estava mais concentrado naqueles olhos tão conhecidos... Era ela.
Olhos acinzentados, como um início de tempestade, marcados com delineador negro e uma acalentadora frieza que me era completamente nova. Um nome artístico, de uma canção de ninar que eu já havia esquecido há muito, não negava a notável semelhança... E, embora todo o seu rosto se emoldurasse num sorriso angelical, conhecia perfeitamente aquela encantadora volúpia impressa nos olhos perolados, aquele quem sabe que a tornava inalcançavelmente interessante.
Era ela, tinha que ser.
Claire de Lune segurou o microfone, ajeitando charmosamente um fio da franja negra, e agradeceu a presença de todos com aquele sotaque sexy que não fez questão nenhuma de perder... E foi como, depois de uma eternidade sem pisar os pés na França, eu voltasse aos campos de jasmim da minha família e, após fugir da escola e dos meus próprios medos, encontrasse meu lugar de refúgio. Esparramada entre as mesmas flores que eu costumava odiar, com um uniforme folgado e quinze anos cheios de marcas, tocando aquela mesma música triste... Mas, dez anos depois, ela parecia cantar como quem havia finalmente conseguido fazer as coisas melhores com aquela melodia.
Mas eu ainda carrego o mundo nos ombros, e uma música boba dos Beatles não ajudou em nada... Hinata.
Virei-me de costas, tentando me concentrar por um minuto no gosto do vinho seco e nos negócios que eu abandonara momentos antes, mas, para o meu espanto, as mesmas pessoas que instantes atrás criticavam, exibiam agora sorrisos bobos, embebidos nas próprias lembranças. Nenhum daqueles velhos resmungões conseguiu resistir àquela voz, e, mesmo que eu tentasse ignorar com todas as forças... Meus olhos acabavam sempre voltando a ela, às suas vibrantes pérolas e seus lábios pintados de preto.
Era impossível.
Ah, Hinata... Achei que já tinha conseguido esquecer tudo aquilo.
Achei que já tinha conseguido me livrar de todos os fantasmas que me assombravam em Grasse, mas, pelo visto, os milhares e milhares de quilômetros de distância não conseguiram melhorar nada. Porque, mesmo que ela agora fosse o luar em seda negra, e preferisse um acompanhante ao piano ao seu velho Gianinni cheio de adesivos, seus gostos musicais permaneciam os mesmos... Sua voz continuava a me hipnotizar, doce e aveludada, como se não houvesse nada mais importante no mundo a não ser ela. Me deixando nervoso como uma criança apaixonada, e desenterrando aquela vontade oculta de me encolher entre as flores e chorar todas as mágoas, enquanto sentia seu abraço quente e ouvia uma promessa cantada de que tentaria me consertar. Infelizmente, Hina, ainda continuo quebrado...
Ouvi de longe a voz de Sasuke me chamando a atenção, tentando retomar uma reunião praticamente perdida, mas não fiz questão nenhuma em responder... E, mesmo se tentasse me explicar, também não sabia dizer o que estava acontecendo comigo. Ela era como a gravidade. Tomava toda a atmosfera do lugar e, mesmo que eu quisesse me concentrar novamente em projetos e elogios a velhos de ego inflado, tudo o que conseguia ver era minha linda Hinata iluminada por um único refletor, embriagando-me com sua voz...
Mesmo que a presença dela me aterrorizasse profundamente. Não tinha planejado encontrá-la daquele jeito. Não sabia o que dizer, o que pensar... Queria que alguém parasse o tempo e me desse uma pra chance de recomeçar as coisas, porque vê-la assim, tão subitamente... Não tinha certeza alguma de que poderia ser diferente de um idiota, que mal conseguiria construir uma frase, que misturaria sentimentos do passado e do presente, e ainda acharia que está apaixonado por ela. Não, Naruto, não se rebaixe a esse nível. Então, quis poder desaparecer dali. Não ter vindo a LA, não ter marcado essa reunião, escolhido este restaurante, este horário, este...
Mas, ao mesmo tempo, desejava que ela me visse. Que ela me reconhecesse por trás do cabelo arrumado e do terno caro, por trás da personalidade arrogante do empresário de sucesso que, ironicamente, eu havia jurado não me tornar... Que descesse do palco, tocasse meu rosto e destruísse minhas máscaras. Depois de tantos anos fingindo, talvez eu só quisesse uma noite de descanso...
Porque, enquanto ela cantava com melancolia um conhecido clássico sobre o tom de rosa da vida, tudo o que eu queria era que ela me notasse. Que eu tivesse uma segunda chance de me embebedar em sua voz doce, me perder no perfume de lavanda de seu cabelo e cantar um dueto desafinado sobre como eu queria dizer que sinto muito...
Até que ela se ergueu. Ajeitou o vestido preto, apoiando o peitoral sobre o piano de cauda, evidenciando, com um sorriso completamente duvidoso, o generoso decote. Mon Dieu; os acordes mudaram, num tom mais grave, e seus olhos se cruzaram com os meus ao cantarolar baixinho o refrão de uma música conhecida... Pedindo que eu me lembrasse dela.
Engoli em seco. Impossível...
Não era Hinata, só uma cantora de Los Angeles fazendo perfeitamente o seu trabalho... Eu não era o único que se sentia completamente hipnotizado por ela, com certeza. Estava fantasiando como uma garotinha apaixonada sobre uma mulher que não vejo há dez anos, tudo apenas por um olhar... Ela não podia me ver. Mesmo que fosse Hinata, daquela distância ela não poderia saber que era eu, mas... Talvez fosse algo da minha cabeça, álcool demais, algum tipo de paranoia ou um desejo louco, mas eu sabia, eu sentia, ela estava cantando para mim.
Era ela. E nem precisava pedir; eu jamais conseguiria esquecê-la.
Mesmo com noites melhores, menos inseguras e emotivas, ainda acordava, suado e necessitado, por causa daquela maldita tarde no terraço da escola. O sabor da adrenalina, chuva, chiclete e saudade num beijo atrapalhado; roupas molhadas, arrancadas às pressas, apenas para poder observá-la, envergonhada e linda, sob a fraca luz do sol. E ela era linda, é claro que eu me lembrava. Era delicioso ouvir a maneira sôfrega com que a voz dela escapava, timidamente erótica, pelos cantos da boca; com certeza, a melhor música que ela poderia cantar pra mim. Não consegui esquecer a sensação única de ter em meus braços, pela primeira e única vez, a mulher que eu amava... O imenso prazer em deixá-la sem palavras pela primeira vez na vida, apenas por dizer aquilo que já era óbvio há uma eternidade e ela ainda não sabia.
Não posso esquecer disso, Hina.
Não conseguia tirar da cabeça a ideia de que minha casa estava entre aquelas curvas perfeitas, ondulando no vestido negro enquanto ela cantava, então resolvi me retirar o mais rápido possível. Não podia fazer nenhuma bobagem, não quando precisava daqueles velhos moralistas para sustentar minha empresa, mas minhas pernas tremiam, e eu estava emocionado demais para permanecer calmo... Levantei-me, atraindo uma série de olhares; mesmo em todos os meus sonhos mais selvagens, nunca achei que ficaria tão nervoso apenas por ouvi-la cantar.
Mas eu não posso. Tateei a caneta dentro do bolso, alimentando uma ideia da qual me arrependeria no dia seguinte, mas simplesmente peguei uma taça de champanhe de um dos garçons que passava... Precisava me acalmar de uma vez, pegar minhas coisas e voltar pra Washington o mais rápido possível. Precisava apagar da minha mente Hinata e a vontade insana de ter qualquer coisa com uma cantora qualquer, que apenas parece com ela...
Mas, ao mesmo tempo, queria ficar ali e observá-la cantar para mim pelo resto da vida. Continuar para sempre alimentando a esperança de que Claire é ela, e matar a saudade daquela época... Sentar, tomar um chá e conversar sobre Paris, sobre a irmã pentelha dela e a tatuagem de clave de sol que ela tinha na nuca. Saber de todas as coisas que aconteceram nesse enorme tempo perdido, ver suas mudanças de corpo, alma e sorriso e, quem sabe, ter a sorte de fazer amor sem aquela pressa de dez anos atrás. Ter a oportunidade de me desculpar por anos de uma vergonha boba... Fazê-la minha novamente, seguir à risca aquele plano de quando ainda éramos jovens demais para assinar papéis, e medrosos demais para largar tudo e viver apenas por nós... Antes de ela ser engaiolada num convento e eu, obrigado a assisti-la chorar ao me ver nas missas de Natal.
Sem chance, Naruto. Depois de tantos planos, tantas promessas não cumpridas, eu não tinha o direito de olhá-la nos olhos... Nem a coragem pra pedir desculpas. Arranquei a gravata borboleta do pescoço, tentando não chamar tanta atenção com a minha súbita saída; ainda conseguia sentir a pressão do olhar dela sobre mim, mas não conseguia voltar e encará-la. Ficava feliz por vê-la realizando seu sonho, vivendo de música – ao menos ela havia cumprido a parte dela do plano.
— Naruto! – Senti a mão de Sasuke sobre o meu ombro, me impedindo de sair do salão. Por um momento, ainda nutri a ridícula esperança de que fosse ela, mas... – Os acionistas! O que você tem na cabeça, cara?
— Elle, mon ami... – Não tinha aonde esconder aquela saudade vagabunda, então simplesmente admiti – Más lembranças. – Minha frustração devia estar estampada na cara, porque ele arqueou uma sobrancelha, estranhando o sorriso sem graça e o francês usado aleatoriamente... Mas eu não tinha tempo nem coragem suficientes para contar sobre Hinata, ninguém merece um cara velho chorar por uma história adolescente romântica e boba. – Qualquer coisa, estou no carro.
— Tudo bem. – Sasuke suspirou, provavelmente pensando na desculpa que inventaria para os velhos da mesa, e me deu dois tapas no ombro, com um sorriso complacente que normalmente me tiraria do sério – Vou mandar uma tequila... Você está péssimo.
Agradeci, saindo dali o mais rápido possível. Não antes de vê-la sorrindo, com um Gianinni velho nas mãos, começando os acordes de uma nova música... E olhando para a porta, no fundo dos meus olhos, como quem perguntava por que eu estava indo embora tão cedo.
“Eu vou evitar queimar na sua atmosfera,
Porque eu morreria se te visse, morreria se não te visse...”
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