In The Name Of Love
1 Capítulo Único
Far Away
Na primeira vez que esteve naquela sala gigantesca de pisos verdes escuros, Arashi tinha apenas oito anos. Seus inocentes olhos azuis claros guardaram até os mais insignificantes detalhes do local e, se não fosse o grande controle das emoções, que ele tinha já naquele tempo, teriam saltado impressionados quando se depararam com os rostos das pessoas presentes — na época, os homens e mulheres mais importantes da galáxia. Ficara parado de pé, uns vinte metros à direita de sua atual posição, quando serviu de guarda-costas da pessoa mais importante do mundo.
Por um lado, aos oito anos, não possuía um quinto do poder que recebeu há poucos dias, poder que fez dele a pessoa mais importante do mundo. Por outro, quando criança, suas roupas eram muito melhores e mais bonitas do que aquele terno negro barato e aquela gravata cinza gasta que usava agora. Ser o dono do cargo de mais elevado prestígio no planeta e não ter dinheiro nem para comprar um paletó, uma gravata e uma calça decentes era o tema das piadas que Arashi mais fazia quando estava em casa com a esposa. Fazê-la rir era seu jeito de esquecer os problemas da falta de dinheiro e da crise que o mundo vivia, principalmente porque amava o sorriso de sua mulher.
Kin e ele enfrentavam os desafios de um casal jovem normal e os de um casal que precisa ajudar o mundo a sobreviver a uma crise econômica sem precedentes. Com muito esforço e bastante tempo economizando juntos, compraram uma casa, mas ela não tinha colchão, pia e nem fogão, tinha uma geladeira, mas, desnecessário dizer, ela estava quase que vazia. Vale mencionar também o rádio a pilhas que os dois, deitados na sala, escutavam até dormir. Se não fosse o cobertorzinho que aceitaram de presente de uma amiga, o frio da semana passada teria sido difícil de suportar.
Olhando pela janela a sua frente, através da qual o brilho do dia iluminava seu acastanhado rosto, Arashi refletia sobre as dificuldades que seu mundo estava sendo forçado a atravessar. Esse tem sido só o seu trabalho ultimamente: pensar sobre dificuldades. A palavra estava com um velho membro do parlamento. Sua mente, por sorte, sempre foi multitarefas. Ouviu com atenção cada frase do discurso do ancião que falava. Uma parcela dos sentados ao redor da grande mesa amarela de madeira, que ocupava quase toda a sala da reunião, havia se distraído. Arashi, por opção própria, era o único de pé.
— Err... podem me dar licença? — Kin educadamente interrompeu o senhor que falava, Arashi a olhou rápido por cima do ombro esquerdo. Ela estava sentada lá no final da mesa. — Eu preciso ir ao banheiro rapidinho, não demoro.
O homem com a palavra consentiu e sentou. Arashi se virou, acompanhou com os olhos a caminhada calma dela até as portas de madeira, a viu amarrar o casaco branco de renda e pensou, curioso, que aquela era a primeira vez que ela interrompia uma reunião para ir ao banheiro. Resolveu não fazer caso, jogou para trás, com as mãos, os fios de cabelo negros lisos que lhe caíram sobre a testa e esperou.
No corredor, Kin fechou a boca com força, levou a mão direita até ela e apressou o passo. Passou bem rápido por Haru e Sora, mas nem notou. Não via nada e nem estava interessada em ver algo além do banheiro. Abriu com força a porta branca de madeira, deu um pisão na porta verde da primeira cabine, se ajoelhou diante da privada, segurou os longos encaracolados cabelos dourados para trás e vomitou o pouco que comeu naquela manhã. Assim que terminou, os pisos de azulejo rosa claros que formavam o chão do banheiro e as paredes cinza escuras da cabine pareceram um colchão de plumas.
— Acho que gastei dinheiro atoa com aquele teste de gravidez... — Reclamou, solitária. A pele agrisalhada de sua face oblonga ganhou uma palidez inaudita. Teria se deitado no chão mesmo se alguém não tivesse entrado no banheiro, então se sentou, ajustou a calça jeans preta e ficou de pé. Por alguma razão, a pessoa bateu justo na porta da cabine em que ela estava. Na segunda batida, Kin voltou os olhos castanhos escuros para o alto e deu uma resposta grosseira: — Vai no outro, não tá vendo que esse daqui tá ocupado?!
— Loira, sou eu! Yue! — A garota retrucou.
Kin olhou enojada e enjoada a própria camisa negra de mangas compridas para verificar se deixou algum resto de comida cair nela e, com a certeza de que não deixou, abriu a porta e saiu. Ignorou Yue, foi direto para o espelho retangular e lavou os lábios e os olhos. Yue cruzou os braços e manteve os olhos violeta nela. Kin, do espelho, disfarçadamente fitou de relance o rosto branco e curioso da garota e olhou para baixo. Sabia que Yue não sairia de sua cola até saber o que estava rolando e que desconfiaria de sua gravidez se soubesse que ela vomitou.
Decidida a fingir que nada aconteceu, Kin colocou um sorriso enorme na cara, virou-se para sua perseguidora e, numa tentativa desesperada de distraí-la, fez-lhe um elogio que sabia que ela adorava:
— Seu cabelo tá maravilhoso! Sempre tá, mas hoje tem alguma coisa especial nele!
— Jura? — Yue, toda boba, pôs as mãos nos cabelos azuis claros, curtos, mas compridos o suficiente para tocar seus ombros. Como sempre, prendeu os cabelos do lado esquerdo do rosto para trás com clips coloridos e deixou os do lado direito, levemente ondulados, livres, só o que havia de diferente neles eram as cores dos clips. Percebendo o que Kin estava fazendo, sacudiu a cabeça e perguntou: — Não acha melhor contar pra alguém...?
— Falar com quem? Do que você tá falando? — Kin fez duas perguntas sinceras. Não contou pra ninguém que suspeitava que estava grávida e só teve certeza agora.
— Da nova família que vai se formar no Reino de Órion. Eu sei que você tá grávida, sinto a força vital do bebê, ia falar alguma coisa ontem, mas não tive a chance. — Revelou, com a mão no ventre dela. Kin se esqueceu dessa sua habilidade.
— Shh! Eu só soube agora! — Sussurrou em réplica, a puxando para longe da porta de entrada do banheiro. — E você também não vai falar pra ninguém!
Yue apontou para a aliança de Kin e fez a pergunta de um milhão de dólares:
— Seu marido não tem que ficar sabendo?
— Não agora... — Discordou dela. — Arashi já tá com a cabeça cheia, tem que achar a solução dos problemas do mundo inteiro, me ajudar a achar a dos nossos... daqui a alguns dias, quando estiver tudo bem com o mundo, eu conto pra ele.
A ouvinte concordou em ficar de bico fechado. O segredo e o filho não eram seus, afinal. Ajeitou a camiseta branca com mangas curtas, o cinto negro de couro da calça, os pés nas sandálias marrons e foi até o espelho para saber, com certeza, se o elogio de Kin fora sincero. Levava seus cabelos muito a sério. Sorriu. A futura mamãe estava certa, eles eram sempre maravilhosos, então não tinha como saber a diferença. Kin, pasma, lembrou que tinha uma sala cheia de parlamentares a esperando, largou Yue ali na frente do espelho e correu para lá.
Arashi deu a conferência por encerrada quase duas horas depois de Kin voltar do banheiro. Sua esposa era a primeira ministra do Reino de Órion, além disso, ele mesmo vivia em Órion com ela, portanto, todos os impérios da Terra concordaram que era razoável e prático a primeira reunião com o propósito de discutir medidas e propostas para a supressão da crise mundial econômica ser realizada no Reino de Órion. Porém, ele prometeu voar para o Reino de Altair assim que deixasse sua cidade natal e, em seguida, ir direto para Lesath. Tinha uma semana estressante e cansativa pela frente.
Quase todos foram embora, Kin foi uma dos que ficaram, continuou sentada onde estava desde o início das discussões, examinando quieta uns papéis e umas planilhas. Seu esposo, temendo descolar o salto dos sapatos sociais marrons escuros baratos que usava, andou devagar até ela e sorriu quando foi notado. Kin lançou os cabelos para atrás da nuca com um gesto de cabeça e riu do modo que ele caminhava.
— Por que tá andando assim? — Quis saber, enfiou os papéis na pasta de couro marrom, alinhou as alças dela, colocou-as no ombro e deduziu a resposta: — Vou chutar. São os sapatos, né?
— São. — Admitiu, a contragosto. Levou carinhosamente a mão ao rosto de Kin, deu um beijo demorado na testa dela e fez mais uma admissão: — Eu tenho tanta inveja de você. Está dispensada de tudo que é atividade por hoje, vai poder descansar. Eu tenho umas seis horas de viagem me esperando e quatro horas de reuniões como essa aqui...
— No seu lugar, eu também teria inveja de mim, Guerreiro Glacial. — Brincou com ele, relembrando um velho, mas muito apropriado apelido que seus inimigos lhe deram. Há muitos anos ninguém o chamava assim. Afastou a cadeira, se pôs de pé, o beijou na bochecha e, no meio de um forte abraço, como de costume, perguntou: — Nos vemos a noite?
Ele sorriu, envolveu a cintura dela com as mãos, aninhou a face em seu ombro e, como naquela vez era por responsabilidades suas que passariam o dia sem se ver, prometeu:
— Nos vemos à noite.
Sora Raikyuu, um dos guarda-costas de Arashi, cansado de aguardá-lo, abriu a porta e deu um pigarro.
— Não querendo apressar os pombinhos, mas já apressando... — O asiático de peitoral nu tatuado, com o rosto entre as portas, atrapalhou a conversa deles e dedurou o amigo: — O Haru quase dormiu de pé umas duas vezes aqui fora, então é melhor irmos logo.
— Que mentira! Quem tava dormindo era ele! — Haru se defendeu. Era cunhado de Arashi, irmão mais novo de Kin e o segundo guarda-costas dele, fora o fato de, reconhecidamente, ser o retalhador mais poderoso da Terra, característica que o rubro de seus cabelos, o castanho claro dos seus olhos e a feição amena de seu rosto bronzeado disfarçavam bem.
Os dois tinham só dezoito anos, mas Arashi os achava os melhores guarda-costas que poderia ter pedido, os elogiava toda vez que tinha a oportunidade e sempre dava boas risadas com eles. Eram seus amigos. Fora tudo isso, vislumbrava no horizonte um futuro brilhante para ambos. Seu cunhado, com menos de vinte anos, era o retalhador mais habilidoso do universo, um herói, já Sora não era apenas habilidoso, em seus olhos, Arashi avistava a chama de alguém capaz de guiar o mundo para a estrada certa, de, até melhor do que ele próprio, levar esperanças para as pessoas. Sabia que um dos dois o sucederia como protetor da Terra. A escolha seria difícil, mas tinha certeza disso.
Descendo o prédio onde foi realizada a reunião, Kin encontrou Yue e Naomi, suas guarda-costas. Como chefe, liberou as duas de suas funções pelo resto do dia, como amiga, pediu que elas a ajudassem numa coisa: ir às compras. Vinha trabalhando como babá e treinadora de algumas crianças em seu tempo livre, Arashi sabia disso, assim, conseguiu juntar dinheiro, agora iria ao mercado e a uma loja de eletrodomésticos escolher algumas coisas cujos preços estavam ao alcance do dinheiro que levava na carteira. Queria surpreender o guerreiro glacial quando ele chegasse em casa.
Na ida, contou toda empolgada pra elas como tem sido maravilhoso morar com Arashi. Estavam casados há quase três anos, logo após a lua de mel, seu esposo foi unanimemente eleito novo Guardião da Terra pelos votos dos ministros dos outros reinos, teve que viajar por um ano pelo mundo com Haru e Sora e, ao retornar, assim como ela, não parou de trabalhar pelo bem do reino, do mundo e para comprar a casa que eles tanto queriam.
Em alguns dias completariam um ano morando juntos e três anos de casados. Têm estado tão ocupadas com assuntos relativos ao reino e ao mundo que, nos últimos meses que conviveu com o retalhador mais requisitado do planeta, Kin não teve cabeça para abrir o jogo sobre esse assunto com suas amigas e nem suas amigas pensaram em perguntar da experiência a ela. Aquela tarde fria e nublada ali foi a primeira folga que tiveram em anos.
O arredondado rosto níveo de Naomi se iluminava de felicidade toda vez que ela parava para ouvir Kin contando sobre como Arashi era romântico. De seus olhos cor de mel jamais escorreram tantas lágrimas de alegria quanto no dia do casamento deles. Foi a madrinha dela. Nunca foi vaidosa com os longos, lisos e brilhantes cabelos negros que a natureza lhe deu, Yue sempre dizia não entender como eles podiam ser lindos daquele jeito se ela não fazia a menor questão deles, mas no dia da festa do matrimônio de Kin, passou a madrugada inteira escolhendo um penteado e procurando um vestido.
A rua pela qual as três andavam estava repleta de pessoas, todas trabalhando em alguma obra para reconstruir uma casa ou uma loja da qual eram donas. Em um ano normal, seriam tratadas como celebridades graças à quantidade de vezes que salvaram o mundo da destruição, mas o chão arenoso amarelado daquela rua, naquela tarde, estava tão movimentado que mal foram notadas. Não que isso as incomodasse — ao contrário. Finalmente tinham um tempo para si mesmas e não queriam passá-lo tirando fotos e cumprimentando estranhos.
— Mas e quanto a você e ao Sora, Yue? — Naomi, sorridente, cruzou os braços na frente da camiseta branca sem figuras e andou pro lado da amiga para a qual fez essa pergunta.
— Sora só fala comigo sobre as lutas, não para de falar no Arashi... — Yue franziu o cenho e se queixou. — Às vezes, eu acho que ele está mais apaixonado pelo Arashi do que a Kin!
As outras duas caíram na gargalhada. Só ela não viu graça no que disse.
— Ele cresceu lutando para sobreviver, a vida toda só expressou os sentimentos através da violência, é natural que esteja tendo dificuldades para traduzi-los com palavras. — Depois que conseguiu parar de rir, Naomi o defendeu. — Mas fica tranquila. Em breve você vai estar nas nuvens igual à nossa amiga loira. Ela e o Arashi também demoraram para saber que gostavam um do outro, não foi?
— Ih, nossa! — Kin concordou com ela. Se fosse contar as dificuldades que viveram antes de admitirem o que sentiam um pelo outro, nem saberia por onde começar. — Teve a... — Quando ia falar da primeira que lhe veio à mente, teve uma sensação estranha. — Estão sentindo essa força?
Yue, a sensitiva do trio, percebeu de onde vinha a energia por ela mencionada, virou rápido para trás e quase gelou de espanto quando mensurou o poder da fonte que a emanava. O sujeito era alto, esguio, usava um chapéu preto e, abaixo do bigode, mantinha um sorriso sinistro. Kin morou naquele reino a vida toda e jurava nunca tê-lo visto ali. Ele cavalheirescamente tomou o chapéu da cabeça, o segurou frente ao sobretudo marrom, se curvou e cumprimentou as três:
— Saudações, senhoritas. Meu chamo Hiroyuki, peço perdão se as assustei, é que as confundi com alguém.
— Tu... Tudo bem. — Embasbacada, Kin só conseguiu dizer isso.
— Com licença. — O homem, cortês como de início, pediu-lhes passagem.
Elas ficaram paradas onde estavam e o olharam até ele sumir na multidão. Numa situação corriqueira, Yue faria alguma piada, mas ali, ela não tinha forças nem para dizer como aquilo foi estranho. A hostilidade que, a princípio, detectou no chikara dele, evaporou de um segundo para o outro. Ele era um retalhador, essa era uma certeza da qual ninguém conseguiria privá-las. E não um retalhador comum.
A noite chegou rápido, gélida, bonita, trouxe consigo uma enorme lua cheia e um céu pontilhado de estrelas radiantes. Arashi apareceu na porta de casa bem depois dela, carregava no braço o paletó, nas mãos uma chave que inseriu na fechadura, abriu a porta e, como imaginava, encontrou Kin dormindo, o que o surpreendeu mesmo foi onde ela dormia: num enorme sofá vermelho à direita da posição dele na sala. Largou o paletó em cima do estofado, retirou a gravata com cuidado e desabotoou os dois primeiros botões da camisa social azul clara que trajava. Kin acordou e se sentou imediatamente.
Quando notou que ele havia chegado, ficou decepcionada consigo mesma.
— Ai, não! Eu queria olhar pra sua cara de surpresa quando visse o sofá! Você tá mesmo sempre um passo à frente de todo mundo... — Resmungou, indignada.
— Desculpa, na próxima faço mais barulho antes de abrir a porta. — Disse, feliz por estar com ela, finalmente. Sentou no sofá, suspirou e deu um selinho nos lábios dela.
— É bom mesmo! E como foi em Altair e em Lesath?
Deitou as costas nas almofadas do sofá, olhou pro teto e a respondeu:
— Muito mais difícil do que com vocês aqui, mas aceitaram minhas propostas... Felizmente, amanhã cedo vou pro Reino de Lira, pro de Aldebaran e, por fim, pro de Rigel, então vai ser mais fácil.
As paredes do interior e do exterior da casa dos dois ainda estava sem reboco, a madeira do teto e as telhas permaneciam expostas, mas, como Kin queria, moravam longe de matagais, o risco de insetos e de pestes entrarem ali era ínfimo. O momento "conseguimos" finalmente veio para os dois, a ficha caiu. Eles se abraçaram. Ela encostou a orelha no peito dele, então pôde ouvir seus batimentos. Em resposta, Arashi deixou um beijo apressado em sua testa. Por mais que o momento estivesse bom, tinha que levantar.
Estava morrendo de fome, então foi até a geladeira.
— Como foi seu dia? — A indagou, de lá da cozinha.
— Normal. — Falou, apenas. Resolveu não contar pra ele do homem estranho com o qual cruzou, de ter ficado de olho no indivíduo através das câmeras instaladas nos postes de luz do Reino de Órion e de ainda não saber quem era o dito cujo, o cara não arrumou problemas. — Fiquei por aí com as garotas. Escuta, isso daqui é um sofá cama. Acaba de comer aí e vem pra cá pegar a sobremesa!
Arashi riu e fechou a geladeira. Ainda não se acostumou com Kin falando coisas como aquela, nem achava que iria.
Hiroyuki foi mandado para o Reino de Órion com uma missão, e agora, por não ter feito o que lhe disseram para fazer, estava ouvindo meia-hora de carões e xingamentos de Mirei Arakagi, sua enfezada companheira de equipe. Alta, magra, com longos cabelos lisos e negros trançados para trás, Mirei, por seus poderes e jeito autoritário, intimidava tanto quanto seu vestido negro gótico e seus olhos carmesim. Seus colegas não tinham medo dela, mas odiavam irritá-la.
Ao sair de Órion, encontrou ela e os outros dois em um galpão abandonado nas proximidades da fronteira do Reino de Lira com o de Aldebaran. A estressadinha ainda não lhe havia dado nem a chance de se explicar. Como o cavalheiro que era, não discutiu, escutou calado os insultos e os gritos dela de cabeça abaixada, de pé em frente à autora deles, com as costas apoiadas na parede de aço de uma enorme carga vermelha e o chapéu apoiado ao peito. Os outros tinham toda a razão quando os descreviam como polos opostos.
Uma criatura magra, que em estatura excedia todos os seres humanos, de pele tão clara quanto a de um defunto e testa que quase cobria por completo seus olhos, em resumo, de aparência medonha, foi até onde os dois estavam.
— O que foi?! Vai defendê-lo de novo?! — Mirei, aos berros, previu as intenções do grandalhão. — Ele deixou a retalhadora Kin viver, sabe que a intervenção dela vai acabar com nossos planos, já basta termos que lidar com o irmão dela!
Takeru engoliu seco e passou a mão pelos cabelos lisos negros que todas as manhãs penteava insistentemente para trás.
— Bom, Platão dizia que até o lobo merece um advogado. — Disse, em defesa dele. Cruzou os braços atrás do terno preto que trajava, voltou-se para Hiroyuki e falou: — Vamos ouvi-lo.
— Obrigado, caro Takeru. — Agradeceu, curvando-se a ele. — Eu não pude matá-la porque, com meus poderes sensitivos, descobri que ela está grávida... Hesitei! Meu bom coração é a causa dos insultos que fui forçado a ouvir! — Desabou em lamentos, com a mão na testa. — Além disso, não era necessário matá-la. Como sabem, uma retalhadora, quando engravida, perde toda a força. Se não perdeu toda a força ainda, ela está mais fraca, então não será ameaça para nós.
Uma voz assustadora veio da escuridão, atraindo, como um imã, a atenção dos três:
— Então está tudo bem. Seguiremos o planejado. A Terra de Áries está mais vulnerável do que nunca, amanhã mataremos Arashi, todos os que entrarem em nosso caminho e teremos o mundo aos nossos pés!
Tais palavras soaram como música aos ouvidos de Mirei. Era ambiciosa, cruel e apressada como o autor delas, estava louca para ir à luta, para destruir as barreiras entre ela e seus objetivos. Os outros dois, nem tanto. Takeru foi discriminado e segregado a vida toda por causa de sua aparência, juntar-se a eles para dominar a Terra era sua vingança contra tudo e todos, Hiroyuki estava ali muito mais por ele. Foi o primeiro amigo que teve. Nunca teve a chance de convencê-lo a abandonar aquela quadrilha. Se algo ruim acontecesse com o gigante, se culparia a vida toda.
Faltava pouco mais de uma hora para o sol nascer quando Arashi começou a se arrumar para sair de casa. Acordar Kin era a última coisa que ele queria, então, fazendo o máximo de silêncio possível, foi do armário para o banheiro e do banheiro para o armário dezenas de vezes. Vestiu a calça preta, a camiseta branca com um logo ariano enorme estampado na frente, a jaqueta de couro azul escura e sentou na ponta do sofá para pôr as botas nos pés.
Estava indo com roupas que usava quando era mais novo, pois de seus três paletós, um rasgou no braço, o outro no bolso e, o melhor de todos, na aba direita, se alguém o criticasse pela falta de formalidade, ele poderia dizer que engordou e que seus ternos estavam lavando. Suspirou apreensivo. Os parlamentares já não gostaram de saber que teriam de tratar com alguém tão jovem, não queria fazer de suas vestimentas um motivo a mais para ser criticado — se bem que não era tão novo quanto eles pensavam, tinha vinte e oito anos, sua sogra tinha trinta e cinco quando assumiu aquele cargo.
Amarrou o cadarço da última bota que faltava calçar e olhou orgulhoso ao redor. Na parede a frente do sofá recentemente comprado por Kin, ficava o armário onde eles guardavam suas roupas, ele era vermelho escuro e bem grande. Andou até a mochila verde musgo no canto esquerdo dele, a pegou pelas alças, jogou no ombro e caminhou devagar até a porta, mas a melodiosa voz da garota que disse "sim" no altar para ele, agora recheada de sarcasmo, o fez parar:
— Tchau, meu amor! Nos vemos a noite, sim! Eu também te amo!
— Desculpa, eu não queria te acordar. — Foi o pretexto dele. O cobertor azul marinho tapava o corpo de Kin da cintura para baixo, ela usava uma camisola cinza, apertada e de alças finas. Acordou há segundos, algumas das mechas encaracoladas de seus cabelos estavam misturadas pela sua feição de sono, mas estava linda. Os raios de sol que invadiram a sala através da fresta acima da porta e tocaram os olhos de Kin o fizeram titubear entre ir ou ficar. Ele, mais do que nunca, quis ficar. Se inclinou e a beijou como se estivesse fazendo isso pela primeira vez, no fim, a olhou nos olhos e disse: — Te amo. Nos vemos à noite.
Limitou-se a sorrir, ficou calada. Sentiu algo de diferente na despedida dele e em tudo daquela manhã. Quis pedi-lo para ficar, mas sabia que ele não podia, então se sentou e o olhou abrir a porta, sair e batê-la.
Sora estava a caminho do ponto que marcou de encontrar com Haru e Arashi quando sentiu algo acertar sua perna, então parou de andar e olhou para baixo. Era um garoto. O menino, que caiu por causa do esbarrão, ajeitou os óculos, mandou, com as mãos, os cabelos loiros e lisos para a posição originária, espanou as roupas com alguns tapas e se colocou de pé. Sora e ele ficaram se encarando por alguns segundos, ambos com muita curiosidade um sobre o outro, mas os gritos de uns pirralhos fizeram a criança que colidiu com Sora recordar-se do que estava fugindo no instante do impacto e esconder-se atrás dele.
Os pivetes chegaram, o retalhador, com uma olhada séria, os fez bater em retirada assustados. Em seguida, Sora virou-se para o pequeno que buscou refúgio nele, este se curvou e agradeceu:
— Mu-Muito o... o-obrigado, senhor.
— Você é um retalhador?
— S-Sou, sim senhor... quero d-dizer, tô treinando pra...
Sora ergueu a cabeça e, com a imponência de um rei, em tom de voz solene, lhe deu uma lição de vida:
— Então não me agradeça por ter te salvado, fique envergonhado. E nunca mais fuja de medo de outro retalhador, não importa quantos sejam.
O garoto não conseguiu responder, Sora simplesmente saiu andando. Haru falaria nos seus ouvidos até explodi-los se ele se atrasasse de novo. Seus olhos quase pularam de seu rosto quando chegou na velha ponte vermelha de encontro e viu não apenas Haru: Yue estava com ele. Suspirou. Ela era a única pessoa no mundo capaz de deixá-lo nervoso, de fazê-lo gaguejar. Simulou sua habitual confiança, encheu-se de coragem e andou pelo piso amadeirado até eles. Fingindo não ver a garota, dirigiu-se a Haru:
— Fala, ruivo. Arashi ainda não chegou?
— Está a caminho. — Respondeu o ruivo. — Ele avisou ontem que se atrasaria pra passar na sede do reino, lembra?
— Ah, claro. — Lembrou. Yue mexia com sua cabeça.
— Bom dia pra você também, Sora! — Ela percebeu que estava sendo ignorada e se meteu na conversa deles. Vestia-se com o mesmo modelito do trabalho de guarda-costas do dia anterior, mas não com as mesmas roupas.
Arashi, chegando pela direita deles, interrompeu as discussões que se desenrolariam quando sorriu de olhos fechados, acenou e os saudou:
— Oi! Bom dia a todos.
— Ela não vai com a gente, vai? — Foi a primeira pergunta de Sora. A garota, ultrajada, cruzou os braços furiosa e esperou a resposta.
— Vai. — O guerreiro glacial anunciou, enquanto, como toda vez que a via, cumprimentava Yue apertando de leve o nariz dela. Amava aquela menina como se ela fosse sua irmã mais nova. — Kin não vai precisar dela como guarda-costas hoje, e aí chamei, vai ser de grande ajuda. Vamos indo? Temos bastante chão pela frente.
— Vamos! — Yue puxou o bonde, deu uma ombrada forte no peito nu de Sora e foi andando na frente com Arashi.
Parte do percurso da ida foi tranquilo, os quatro, por serem amigos e já se conhecerem há anos, se entretiveram conversando. Arashi, por capacidade natural de percepção, foi o primeiro a notar que alguém os estava seguindo, o que o fez perguntar-se por que Yue, a sensora da equipe, não conseguiu isso antes dele. Sua teoria era a de que o perseguidor tinha a habilidade de driblar sensores, o que significava que quem estava atrás deles não era um qualquer. Uma batalha iria se iniciar, ele tinha certeza. E não seria fácil.
Manteve sigilo de seus companheiros para os inimigos se sentirem à vontade e atacarem achando que os matariam, quando na verdade já tinha a defesa e o contra-ataque preparados. A investida veio assim que entraram em uma cidade repleta de prédios destruídos, abandonada, Arashi protegeu a todos cercando-os com um iglu inquebrável de gelo. Para seu espanto, porém, um homem atravessou seu escudo, desferiu um soco e o teria acertado no rosto, se ele não tivesse posto os braços na frente. Mesmo assim, por causa da força do golpe, foi lançado contra a parede do cercado de gelo, que se desmanchou inteiro.
Ele não estava sozinho, haviam dois outros caras e uma garota com eles. Praticamente todos sumiram, como num teleporte. No local do primeiro confronto, só ficaram Arashi e um bigodudo estranho de chapéu, que se apresentou:
— Peço perdão pela falta de educação dos meus colegas, me chamo Hiroyuki. É uma verdadeira honra poder lutar contra o Guardião da Terra.
Arashi o olhou de cima a baixo. Sabia que não estava na presença do autor da investida inicial, mas sua intuição de guerreiro lhe dizia que aquele cara não era um retalhador comum. Um vento frio soprou rápido a arena. Hiroyuki tirou o chapéu da cabeça e, antes que o objeto tocasse o chão, ele e Arashi tornaram mínima a distância que era de trinta metros e colidiram as lâminas que carregavam.
A batalha realmente decisiva, aquela entre Himari e Haru, foi transportada para o espaço sideral. Os dois sabiam que a Terra não era um ringue resistente o bastante para o impacto de seus golpes. Pela situação física dos dois, o conflito já estava perto do desfecho. Haru tremia de exaustão, estava com inchaços na testa, na bochecha esquerda e sua boca sangrava, Himari, além de demonstrar mais cansaço que seu oponente, contundiu o olho direito, ele estava roxo, avolumado e seu braço direito, seriamente ferido.
Himari atacou Haru no rosto com um soco, Haru se esquivou, ele o atacou com outro, com mais um e vários outros em sequência, sempre alternando os punhos. No entanto, com nenhum deles conseguiu tocar seu alvo. Aquilo pôs um sorriso em seu rosto. Estava impressionado. Sabia que Haru era forte, é claro, ouviu que ele foi proclamado o retalhador mais forte da galáxia, mas não pensou que a distância entre seus poderes fosse tão grande. Ah, se tivesse alguém como ele em sua equipe. Os outros não seriam necessários.
Levou um chute no estômago e olhou Haru nos olhos. O ruivo encheu a mão direita de força, a fechou e deu um soco tão poderoso em sua cara que o atirou de volta para a Terra, deliberadamente o fez cair como um meteoro numa das montanhas próximas do local onde Mirei e Sora trocavam socos. A montanha foi totalmente destruída.
Sora usou o braço para proteger os olhos das nuvens de poeira que vieram de lá. Sorriu orgulhoso, sabia que foi obra de Haru, que aquilo significava que a luta dele estava ganha. Mirei encheu as mãos com uma névoa vermelha clara e, na distração de Sora, o acertou com uma esfera, se não o matou, foi porque Haru desceu na arena e o fez intangível com sua luz. Himari, de alguma forma, bloqueou o acesso de Haru aos próprios poderes, mas após derrotá-lo conseguia fazer uso deles.
— Vocês perderam. — O ruivo decretou.
O adversário de Arashi podia ficar invisível, isso, no entanto, não lhe ajudou muito contra o guerreiro glacial, que protegeu o corpo com uma armadura. Por mais que recebesse golpes, ela não deixava de cumprir sua finalidade: proteger seu usuário. O inteligente Guardião da Terra escureceu a arena com um frio nevoeiro, se agachou, fechou os olhos, pôs a palma da mão direita na terra e o aguardou vir. Sua lógica foi: se não podia vê-lo, podia sentir seus movimentos. E sua teoria estava correta.
Bem na frente do inimigo, Hiroyuki, crendo-se indetectável, alçou a espada para o lado direito e tentou degolá-lo, mas seu alvo desviou dela com uma cambalhota para trás, converteu o braço numa lâmina de gelo e, antes do guerreiro invisível se conscientizar do que ocorreu, apunhalou-o no estômago, forçando-o a ficar visível de novo. Takeru enfrentava Yue bem longe dali, mas na hora notou que algo grave aconteceu e se afastou dela. Ela e ele olharam para a mesma direção.
Mirei riu na cara de Haru. Tanto Sora quanto ele não entenderam, a olharam e trocaram olhares entre si como se ela fosse louca. Assim que foi capaz de conter as gargalhadas, Mirei gritou:
— Vocês acham que acabou? Isso está longe de acabar!
O poder de Mirei tinha um aspecto interessante. Por um lado, a energia dela separava a nível molecular tudo o que circundava, por outro, unia, o que queria dizer que ela podia realizar uma fusão de corpos, de poderes, e formar, com as pessoas certas, o guerreiro invencível. Antes de se afastar de seus aliados, ela deu a cada um deles um anel com um broche que continha seu chikara dentro, pôs um igual no dedo mindinho e acabou de quebrá-lo. Uma horrenda nuvem vermelha escura escapou de dentro dele, voou ao redor dela e a ocultou completamente dos olhos dos garotos que faziam frente a ela.
A mesma nuvem arrebatou Takeru da presença de Yue e fez Hiroyuki, para a total confusão de Arashi, sumir como num passe de mágica. O céu escureceu, mudou do azul alegre da manhã para o cinza triste que prenuncia um furacão, o clima resfriou. Ouviu-se o forte estalo de um trovão. O Defensor da Terra apontou os olhos para a direção da qual acreditava que aqueles sons estavam vindo e avistou, sobre os prédios despedaçados, uma série de raios vermelhos que caíam numa região específica, a mesma que emanava o poder aterrador que até ele pôde sentir.
Haru novamente não conseguia usar seus poderes. Daquela vez, Sora também não. A nuvem rubra, com centenas de metros de comprimento, girava em volta de Mirei como um carrossel, mas aos poucos foi perdendo densidade e se dissipando no ar, a figura dela já não estava mais tão secreta. O espetáculo de luzes, poeira e fumaça, de repente, se extinguiu, Mirei se revelou.
Parecia a mesma de antes, a exceção era de que agora tinha um par de asas negras, seus cabelos formaram uma franja na frente da testa dela e ganharam mechas brancas. Haru não sabia dizer ao certo o que houve, mas segundo sua estimativa, qualquer um num raio de um quilômetro de proximidade dela perderia as habilidades sobrenaturais. Avisou isso a Arashi e Yue por comunicador e, lado a lado com Sora, preparou-se para o que vinha.
Ela atacou Haru primeiro e, numa investida tão veloz que mesmo ele não conseguiu ver um só passo seu, deu um soco no estômago dele, o fazendo cuspir sangue e, ajoelhar-se em sua presença. Sora, que de jeito nenhum ficaria parado olhando, partiu para cima dela, mas teve o rosto agarrado, foi imobilizado pela inimiga com uma só mão e quase zero esforço. Haru ficou de pé, tentou acertar um cruzado na cara dela, ela recuou, soltou Sora e chutou Haru na cara, mandando-o de volta para o chão.
Sora não desistia. Ele correu até ela e fez uso de todo o seu repertório de golpes, mas por mais rápido e forte que fosse, não foi capaz de tocar um dedo em seu alvo, que se desviava de todos os golpes dele com um sorriso no rosto. Movido pela força de vontade do amigo, o ruivo, com dificuldades, se reergueu e a atacou junto com ele, mas os dois, mesmo juntos, não representavam risco algum para ela.
A Terra inteira sabia que uma grande batalha se desenvolvia em algum lugar do mundo, mas só Kin e Naomi conseguiam ver, embora estivessem longe do local. A morena tinha o poder de criar uma tela com sua energia e refletir, para ela mesma e quem mais estivesse com ela, os acontecimentos que envolviam as pessoas em quem ela pensava. A pequena tela roxa que refletia o embate estava entre as palmas das mãos de Naomi. Vendo Haru e Sora serem duramente espancados por aquela garota, ela lançou no ar a pergunta que Kin só havia feito a si mesma:
— Cadê o Arashi...?
O pressentimento de Kin para aquele confronto não era nada bom, algo nele lhe passava a impressão de não ser como os outros que vivenciaram. Torcia para "preocupação infundada" ser mais um efeito inicial da gravidez de retalhadora. Sora e Haru estavam no chão. Muito quebrados, ensanguentados, o ruivo caído de bruços, o asiático, de barriga para cima, mas ambos permaneciam vivos — por pouco tempo, no que dependesse de Mirei. Ela lhes apontou o dedo indicador e sorriu.
“Agora!”, os garotos receberam, do comunicador, o sinal para agir. Sora girou o corpo para a esquerda, enfiou a mão no solo, se pôs de pé com muito esforço e puxou, do interior da terra, uma corrente de gelo. Uma outra corrente veio voando como uma bala do lado esquerdo de Mirei, ela apenas recuou um passo para desviar-se, mas o laço de gelo deu a volta e a cercou. Haru segurou-lhe a perna, ela não tinha para onde fugir.
A esfera que Mirei ia usar para matá-los ainda estava na ponta do dedo dela, arrastando a corrente para trás, Sora pretendia arrastar junto o braço da adversária e fazer com que ela disparasse seu poder contra si mesma e se destruísse. Estratégia pensada por Arashi. Por um deslize do Raikyuu, que moveu-se com imprecisão e para o lado errado, a esfera errou Mirei por pouco e se dissipou. O plano falhou, Haru, mudo de incredulidade, constatou. Mirei livrou a perna da mão dele, o chutou na cara e o teria assassinado com um disparo se Arashi não tivesse entrado na frente e se colocado entre eles.
Depois de segurar o pulso da vilã, Arashi desferiu um cruzado de direita contra o rosto dela, que se abaixou e desferiu um chute contra o rosto dele. Arashi teve que pôr os braços na frente para defender a cabeça, mas o custo foi alto: ele perdeu parte do braço esquerdo e três dedos da mão direita. Seu próprio sangue espirrou em sua face, suas duas distantes espectadoras encararam o ocorrido com horror, Kin teve que tapar a boca para não gritar o nome dele.
— O Guardião! — Zombou Mirei. — Veio morrer com seus seguidores? Que nobre!
Quarenta metros de distância os separavam. Assim que chegou na arena, Yue correu até Arashi para examiná-lo e saber se ele estava bem, porque a abundância com que o sangue jorrava de seus braços não diminuiu. Haru, aos trancos e barrancos, juntou-se aos dois. Sora estava como uma estátua. Tentava encarar a dura realidade, o fato de que se o inimigo estava vivo, era por culpa dele. Não movia um músculo, caiu em estado catatônico. O que aconteceria dali em diante ninguém sabia dizer.
Um inimigo que bateu em Haru como se ele fosse uma criança, que podia anular as habilidades dos outros e reduzir qualquer coisa a nada com um toque de sua energia. Como vencer isso? Nunca experimentaram tal sentimento. O espírito de Yue desmoronou como se fosse feito de vidro, o de dois de seus companheiros não estava muito diferente. O Guardião da Terra sorriu. Não estava com medo, nem decepcionado ou irritado. Sabendo exatamente o que fazer, olhou seus aliados e disse:
— Vai dar tudo certo, não se preocupem. Yue, veja se o Sora está bem, convença-o de que não foi culpa dele, nós nem temos certeza de que o ataque dela causa danos nela também. Era pra ser assim.
A maneira como ele falava estava assustando Yue e Haru. As palavras dele encheram o coração de Yue de medo e os olhos, de lágrimas. Com medo da resposta, ela perguntou:
— O que você vai fazer?
Arashi não respondeu. Avançou, calado, alguns passos, sentiu a brisa fria mover seus cabelos, seu colarinho, parou de repente de andar e, sério, fixou os olhos na vilã.
— Agora eu entendo. Eu sei qual é meu dever enquanto Guardião da Terra, ele vai muito além de resolver problemas econômicos ou mesmo de morrer pelo planeta... — Arashi, enigmático e distante, divagava. No decorrer desse tempo, o espaço a sua volta era tomado por seu poder, tornava-se gélido. — Se trata de simbolizar algo, servir de modelo para todos. Todos antes de mim tiveram essa compreensão, eu aprendi com eles que poder não é tudo. O que não pode faltar num Guardião é o amor ao seu mundo, a vontade de lutar por ele mesmo que só consiga mexer um dedo. Eu vejo isso em você... Sora. É por isso que, quando isso acabar, você vai me suceder.
Já em prantos, dominada pela tristeza, Yue tentou andar até ele, mas a energia que pairava no ar a deteve, então, de longe, o chamou:
— Arashi...?
— Adeus, amigos. Obrigado por tudo. — Arashi, sem olhar para trás, se despediu. — Sejam fortes e nunca desistam.
Quando escutou aquilo, Kin entrou em desespero. Cega pelas lágrimas, deu vários passos desajeitados para trás, bateu as costas na parede e, com as mãos na cabeça e os cabelos entre os dedos, começou a hiperventilar violentamente. Seu mundo estava desabando. Naomi, confusa, paralisada, não tinha ideia do que fazer para ajudá-la, nunca a viu assim. Queria tranquilizá-la, só não sabia mais de que maneira agir, foi assaltada pelo nervosismo. Sua amiga repentinamente desmaiou em seus braços.
Só Kin sabia exatamente o que ele estava para fazer. Como um expediente emergencial para situações como aquela, o Guerreiro Glacial equipou seus órgãos internos com chikara e, já que o poder de Mirei só extinguia manifestações externas de poder, o último recurso caiu como uma luva. Quando cercava o ar com seu chikara usando aquela técnica, Arashi podia inibir os movimentos de seus oponentes e limitar a capacidade deles de usar seus poderes, então a técnica de inibição da adversária e a dele estavam se digladiando.
Nesses milésimos de segundo em que Mirei se distraiu tentando descobrir por que o Guardião conseguia usar o poder dele, Arashi investiu sobre ela, a abraçou num gesto surpresa e fez com que de dentro do seu coração, usando a energia que residia lá, surgisse uma enorme garra de gelo: ela rasgou o coração dele, penetrou o de Mirei e os dois, abraçados, foram juntos de joelhos ao chão. Um agonizava com o queixo sobre o ombro do outro. Yue, Haru e Sora delicadamente os separaram, a garra de gelo despencou.
Mil lembranças visitaram Arashi enquanto seus amigos o deitavam e faziam de tudo para salvá-lo, todas envolviam Kin. Ela foi realmente um presente que ele recebeu dos céus. Seus lábios ensanguentados, no seu último sopro de vida, exprimiram um sorriso. Quem diria que aquele diálogo rápido que tiveram de manhã seria a despedida. Que bom que não saiu sem falar nada com ela.
Prostrada ao lado do cadáver dele, Yue inutilmente insistia na massagem cardíaca. Haru e Sora estavam de pé, mas não tinham forças para dizer a ela que ele estava morto.
— Não morra! Por favor! — Ela bradava. — Sua esposa está grávida! Você não pode morrer! — Quando percebeu que estava dando murro em ponta de faca, Yue pôs a testa no rosto dele e chorou em silêncio, deu às lágrimas total permissão para caírem. — Irmão...
Sora pôs as mãos dentro dos bolsos e virou as costas para a cena. A culpa é minha, ele se flagelava. A culpa é toda minha.
Após o desmaio, Kin só acordou no dia seguinte, debaixo de um lençol verde escuro que não era seu, de lâmpadas brancas que não eram as do teto de sua casa, numa cama de hospital com uma agulha no braço e soro entrando nas veias. Naomi passou a noite com ela, dormia na poltrona marrom ao lado, mas despertou no minuto que Kin se moveu. Uma ficou parada quieta olhando a outra nos olhos por instantes. Quando Kin começou a chorar, Naomi não se conteve, a abraçou e desabou junto com ela.
Fim.
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