In The Flesh
1 UM.
Notas iniciais
O corredor cheira a tinta fresca e é branco, iluminado por luzes incandescente com uma clareza inexplicável. Na verdade, tudo nesse lugar parece ser branco e não ter vida, a pintura, o piso de azulejo e até nossas roupas e sapatos não tinham cor. Estamos em uma fila caminhando até uma das salas das muitas que havia no Centro de Tratamento, e eram apenas 7h30, esse era o horário de sempre que tínhamos que tomar a vacina. Não é um horário obrigatório, mas é o horário que foi imposto em nossa rotina. Viro-me para trás, Jasmine está com um sorriso lindo em seus lábios e parece muito feliz.
— Bom Dia — cochichou — Dormiu bem?
Jasmine é uma mulher negra de 30 anos, mesmo tendo sua pele pálida não se deixa de reparar na aparência jovial de uma ex-modelo.
— Sim, e você? — minto.
— Acordei de madrugada com Miranda batendo a cabeça na cabeceira da cama mais uma vez. Essa garota é louca. — ela diz revirando os olhos.
Todos acham Miranda louca, seus olhos são fundos e não param em um lugar fixo nunca, outros dizem que ela morreu de overdose, mas ninguém sabe ao certo o que ocasionou sua morte. Solto um riso abafado com as palavras ditas por Jasmine tentando não chamar atenção. Finalmente chego a uma das salas de vacinação, um soldado com uniforme camuflado está na porta segurando uma arma agarrada ao corpo. Uma das enfermeiras com trajes de plástico, luvas, touca e mascara se aproxima de mim portando uma prancheta, só é possível ver os olhos por baixo dos óculos da moça. Ela realmente parece um frango de padaria encapado em papel alumínio.
— Nome, por favor? — questionou.
—Jeremy Foster.
— Ok, pode vir — ela faz algumas anotações na prancheta e nem mesmo olha para mim, apenas diz com uma voz rouca e áspera.
Adentro na sala sendo encarado pelos guardas do exército. Uma situação muito constrangedora. Jasmine uma vez me disse que um dos guardas agrediu uma idosa no piso superior ao nosso quarto, sempre ficamos sabendo de coisas do tipo quando íamos ao pátio tomar sol (algo que em nossas condições não faria sentido algum, mas era parte do protocolo diário do Centro de Reabilitação). Podemos estar sendo tratados, mas o medo ainda predomina em bastante parte da população. Pelo menos é o que dizem. Quando acordamos atacamos os vivos que de começo não reagiram, mas depois tudo virou uma guerra. Não me lembro o que fiz durante essa época, minhas memórias estão voltando como forma de flashbacks cada vez mais repentinas durante a medicação.
A sala é pequena, é revestida de azulejos nas paredes e com uma janela no centro para clarear todo o local. O Dr. Phillips acena para mim, é um velho robusto beirando quarenta anos. Retribuo o aceno e me encosto-me à parede de azulejos gélida.
— Olá Jeremy. — diz ele tirando os óculos do jaleco branquíssimo. — Pode abaixar para mim? — sua voz é calma. Abaixo a cabeça para baixo deixando que ele tenha acesso ao meu tronco. — Só um pouquinho... — ele posiciona a agulha do revólver em minha abertura entre a primeira e a segunda vértebra — É bem aqui, se prepare. — sinto o liquido percorrer todo meu corpo.
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FLASHBACK — DIA 12 (2009)
Era um quarto de madeira com cheiro de mofo e cortinas de trapos que eram divididas pela luminosidade tênue da lua que entrava pelas janelas. E Jeremy estava ali, amarrado no chão se debatendo como um peixe fora do aquário, não podia nem pedir socorro, a mordaça na boca me machucava a cada movimento que tentava fazer. Os passos pesados se aproximavam cada vez mais. Ele ainda suava frio naquela noite de inverno, os pulmões arfavam em busca de ar, mas a cada entrada de ar era quase impossível não sentir um aperto nas vias aéreas. Duas sombras adentram no lugar vestidos de longos casacos. Um deles se aproxima, é um homem forte com a barba por fazer e cabelos sebosos. Tinha um sorriso sínico entre os lábios.
— Vamos tirar você daqui, garoto — o homem sorri frio enquanto se abaixa e tira a mordaça do menor.
— Onde nós estamos? Quem são vocês? — gritou.
— Cala a boca moleque, alguém pode ouvir... — ele pressiona rosto de Jeremy contra o chão.
— Vai com calma... — a voz do outro homem ecoa dentro da casa e tudo se apaga.
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— Está pronto. — continuou pigarreando. — Quero te ver mais tarde.
— Tem alguma coisa de errado comigo Dr. Phillips?
— Não, claro que não. — ele sorri.
Saio pela outra porta e vou até meu dormitório. Ou cela, já que é bem parecido como a de uma penitenciaria, há apenas uma cama e um armário velho, nada de mais. Pego uma toalha de rosto no armário e saio de lá.
O Centro de Reabilitação é um prédio circular cercado por um alto alambrado no meio de um bosque. Ainda me pergunto como conseguiram erguer esse lugar em apenas alguns meses. E tudo aqui tem concreto, tudo mesmo, acredite. O lugar é uma fortaleza por fora e por dentro um laboratório da segunda guerra mundial. Passo pelos consultórios terapêuticos, lugares que alguns descarregam a sua enfermidade de ter matado pessoas para se alimentar. Tenho que dar a volta no primeiro setor do prédio até chegar ao banheiro, um cômodo comprido e com pias de granito distribuída em ambos os lados. Espero na fila até alguém sair e entro, faço minha higiene. Olho-me no espelho e a imagem que vejo me deixa um pouco surpreso. Coloco a mão sobre meus lábios. As veias em meu rosto estão perceptíveis demais, como pequenos rios em um mapa pálido e sem coloração. A pupila negra e funda se perde no branco e azul de meus olhos. Isso me faz pensar se alguém teria coragem de chegar perto de alguém nesse estado medonho.
— É melhor se acostumar, vai ficar assim até alguém te matar. — uma voz quebrou o silêncio do lugar. Todos pararam o que estavam fazendo, os mais próximos apenas abaixaram a cabeça e os demais se perguntavam o que estava acontecendo. O homem de roupas camufladas se aproximou de mim. Se ainda estivesse vivo poderia sentir meu rosto corar de vergonha pela cena. — Você terminou?
— S-sim... — gaguejei.
— Ótimo, então pode ir. — ele me segurou pelo braço e fez um movimento brusco para frente, solto um grunhido de dor.
Retirei-me do lugar sem olhar para os outros. Alguns faziam de conta que nada estava havendo, outros já demonstravam a indignação.
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Encontro Jasmine pelos corredores do Centro de Reabilitação e vamos até o pátio jogar xadrez. O céu nublado deixa tudo mais sem graça, algumas pessoas estão jogando conversa fora em um canto e no outro um grupo de velhos solta gargalhadas lendo uma das cartilhas feita pelo governo de ‘’Como Tratar de um portador da Síndrome de Falecimento Parcial’’, um nome bonitinho que criaram para o que nos tornamos. Conto a Jasmine o que ocorreu na manhã.
— Quando foi isso, Jeremy? — Jasmine demonstrava sua preocupação enquanto questionava. — Você está bem? Tem certeza de que não se machucou?
— Hoje cedo. Sim Jasmine eu tenho, não foi nada demais. — digo movendo uma torre no tabuleiro de xadrez.
— Conte isso a alguém, ao Dr. Phillips por exemplo. Isso não pode continuar acontecendo. — ela bufa.
— É melhor não, aquele... — paro por um segundo — O Dr. Phillips... Tenho que ir ao consultório dele.
— O que ele quer com você?
— Não sei, mas já vou indo. Depois nos falamos. — não dou tempo suficiente para ouvir a resposta da mulher, saio em passos apressados do pátio até o segundo piso do centro de reabilitação.
Paro enfrente a uma porta com uma placa escrita ‘’Dr. Phillips’’. Toco na porta duas vezes e a abro.
— Dr. Phillips? — adentro com o rosto na sala.
— Ah Jeremy, entre, por favor — ele estende a mão até a cadeira.
— E então? Por que quis falar comigo? — pergunto com um pouco de medo.
— Eu acho que já está na hora de você ir. — ele faz uma pausa e me observa. — Seus pais irão vir amanhã cedo e...
Voltar para casa é o que eu menos desejava nesse momento. Minha mãe basicamente iria me encher de perguntas de como eu morri. Perguntas das quais eu não saberia responder. Eu e meu pai tivemos uma discussão antes da noite em que tudo ocorreu, e não teria coragem de olhar em seus olhos mesmo depois de tanto tempo.
— Não! Mas eu não quero ir! — gritei.
— Não quer ir? — disse perplexo. — Mas Jeremy... — ele tropeçava nas próprias palavras. — Todos querem ir embora daqui e encontrar suas famílias, por que você não?
— Eu... — procurava o que dizer — Aqui eu me sinto seguro junto aos outros. — me levanto da cadeira exaltado.
— Existem direitos para os portadores da ‘’Síndrome de Falecimento Parcial’’. — Dr. Phillips parecia não compreender.
— Mas olha como estou, olhe só isso. — passo os dedos no meu rosto. — O que meus pais vão achar de minha aparência?
— Não tem nada de errado com você, temos casos de queimaduras e deformações. Você está perfeito. — ele diz pegando uma caneta azul e uma agenda na gaveta — Amanhã vamos transportar você para Norfolk onde seus pais estarão te esperando.
‘’Me transportar’’?
Bato a porta do consultório e saio correndo, tudo passam como flash’s de luz ao meu redor. Só queria fugir, sair dali. A brisa gelada corta as lágrimas sob meu rosto. De longe consigo ver Jasmine subindo as escadas, corro mais rápido que posso até ela e a abraço.
— O que aconteceu?
Começo a soluçar e não consigo dizer nada. Encharco o ombro de Jasmine enquanto ela acaricia os meus cabelos. Só consigo dizer "vou embora".
—--
Não consigo pensar em nada nas últimas onze horas. Continuo encarando a parede áspera do meu quarto. Me pergunto como devem estar minha avó — Mary—, a ultima vez que a vi foi quando fugi de casa. Meu irmão mais novo, hoje, deve estar mais velho que eu. Também há Sophie, ela era apenas um bebê quando morri. Deve ter-se tornado uma garota linda. A voz radiofônica ecoa no corredor dizendo ''Os pacientes que receberem alta, por favor compareçam no pátio''. Me levanto da cama e subo as escadas até o quarto de Jasmine, bato na porta antes de entrar.
— Oi. — Vou entrando.
— Oi. — Ela sorri. Vou até a sua cama e sento-me do seu lado.
— Vim-me despedir, vou embora daqui a pouco. — Falo baixo — Infelizmente e...
— Não entendo por que você não quer ir. — Ela me interrompe. — Eu daria tudo, tudo mesmo, para rever meu marido e meus filhos.
— Meu pai me odeia, Jasmine...
— Me prometa que não vai fazer alguma coisa errada. Uma droga está correndo pelo mercado negro. Ela nos deixa em estado de raiva. Não use isso, por favor.
— Não, claro que não. Eu prometo não usar.
— Oh Jeremy... — Ela me diz abraçando — Aproveite sua segunda chance de viver.
— Você também vai poder aproveitar a sua quando sair daqui, Jasmine. — Puxo-a mais para perto — Você é uma grande amiga, sabe disso não é?
— Sim, eu sei. — Ela sorri e me solta.
Ficamos nos olhando por alguns segundos, como um adeus, observando cada traço de seu rosto que eu nunca vou esquecer. Até que me levanto e vou até a porta. Ela me dá um beijo em minha bochecha e nos despedimos pela ultima vez.
Me dirijo até o pátio e entro na fila assim como todos ali. Tudo pode mudar a partir daqui, estou voltando para casa depois de morto e depois de ter me alimentado de pessoas, e é tudo totalmente confuso e insano. O mundo atual é uma confusão. Entro no carro do exército olho de longe para o Centro de Reabilitação, o lugar que foi minha casa por um ano, Jasmine está lá na janela do segundo andar acenando. Vou sentir falta dela. A estrada é toda cheia de buracos, o bosque é silencioso. Ninguém diz nada, tudo é um silêncio.
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