In The Fade

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Abri os olhos e sorri num respiro cheio e fresco. A janela estava aberta, logo estranhei e minha satisfação matinal fora por água abaixo. Fitei o teto sem reação e, quando consegui me mover para confirmar o que não queria aceitar, passei o braço esquerdo no lado gélido e vazio da cama. Me joguei com tudo pra cima do travesseiro e senti o cheiro particular invadir meus pulmões e racharem meu coração. Ele havia ido embora.

"K" não era muito de conversa. Além do mais que, quando parávamos pra conversar, já tinha seu destino certo: briga e cama, briga e sofá, briga e mesa, briga e qualquer lugar aonde poderíamos ficar por uma hora inteira se estapiando, se torturando, morrendo. Pode parecer loucura mas, é assim que sabíamos que tudo estava bem.
Vamos as poucas explicações: Eu sou ultra explosiva e ele, hiper agressivo. Somos apaixonados, talvez... Não! Com certeza eu, muito mais apaixonada pro ele do que vice e versa, e ele... Bem. Eu nunca tive certeza de nada em minha vida, mesmo em poucos anos desde que conheci (ou não) o amor. Ele é um cara que vive pra trabalho, se dedica o quanto pode ao único filho e ainda tem tempo pra pensar em tocar em uma banda. Eu já vivo de uma banda, também cuido da casa do meu pai, mais afastada do centro da cidade, leciono aulas de teoria musical e informática, e estudo, estudo, estudo e estudo. As brigas são causadas pelo estresse e cobrança por atenção. Apesar de não transparecer, "K" sente e exige minha presença. Ás vezes ele acha que sinto ciúmes de sua ex esposa e até mesmo do seu filho. Mas não é lá muito fácil pra mim que, sou um livro aberto, esconder qualquer irritação, seja com seu sumiço, ou com o assédio exacerbado de suas fãs dos finais de semana...
-Você revida, eu sei que faz de propósito! — Gritava ele do banheiro.
-Revidar é a palavra certa pra quem sabe que está com razão. Viu? Você acabou de assumir que realmente o faz.
-Porra, Una, você acha que eu deveria tocar ou viver numa bolha! Quer que eu seja sua propriedade? Acho que você procurou pela pessoa errada.
-Você está exagerando... Nada a ver isso aí.
-Exagerando?! — Ainda com a voz alta, mas com a boca espumada pela pasta de dentes.
-É! Exagerando. Você não precisa viver numa bolha, é só me respeitar um pouquinho mais.
-(após uma cuspida) Te respeitar? Quem você pensa que é pra me exigir esse tipo de coisa?
-Vai se foder, caralho! Quem você acha que eu sou? Essa é a pergunta certa a ser feita! — E invadi o corredor rumo ao banheiro.
-Você é uma ninfetinha, não sabe de nada da vida ainda. Fica na sua.
-Seu filho da puta!
-Que que é??
-Que que é o caralho! Pára de agir feito criança! — E o empurrei contra a pia.
-Tá nervosinha? Quem deveria levar umas palmadas era você. Tá muito desobediente.
-Ah é? Você é um idiota mesmo.
-Você faz show dentro e fora dos palcos. A diferença é que fora, o show realmente é de graça.
-Você não pode me levar a sério por um maldito minuto?

-Una... Presta atenção, chega. Na boa, você se estressa demais.

E me encostei na porta do banheiro, esperando-o enxaguar a boca e limpar a lâmina de barbear. -...Não há mal algum em deixar as meninas tocarem no instrumento.
-E no instrumentista também??
-É... Também pode.

Ri de nervoso. Minha vontade era de rasgar a cara dele com aquela lâmina.
-Eu sei exatamente o que você tá querendo, não adianta dar essa risadinha nervosa. Você é totalmente previsível.
-E você, um ser despresível. — Respondi, seca.

-Você me odeia pois eu consigo te tratar com indiferença. Você é trouxa demais pra fazer isso. — E sorriu, como quem já esperava que eu fosse dar início a quebradeira de objetos.

-Você não me conhece. — E senti um biquinho se formar nos meus lábios.

-Não, é? Posso até não saber alguma coisas sobre você... — Pausa estratégica para limpar o rosto e a lâmina. -... mas sei muito bem como te comprar, como te manipular, te dominar, te aliciar, te chantagear.

-Depois eu é quem tenho de crescer... Porra, você não presta!

-Se eu prestasse, você não estaria comigo.

-O quê?? Eu lá estou "alguma coisa" com você?

-Ahh não, pára, na boa.

-Na o quê? Quem é você pra mim?

-Pára de fazer esse tipo de pergunta. Você não tá nas suas aulas de auto-ajuda filosófica.

-Cala sua boca, você nem sabe o que eu faço lá.

-Eu vou algum dia desses só pra falar com o professor, pra ele tomar cuidado... Ainda mais se for casado né? A pessoa não resiste a uma aliança.

-Vai começar? De novo?

-Eu tô mentindo? — E riu.

Dei as costas pois sabia que ele odiava isso: deixá-lo falando sozinho.

-Volta aqui!!

-Vai se foder.

-Volta aqui e lava essa boca, menina má!

O tratamento de cachorro era constante. Claro, nunca adiantou. Ouvi passos furiosos e isso me animou, como criança que faz birra esperando o pai vir buscar. "K" me pegou absurdamente forte pelo braço e disse:

-Da próxima vez que me deixar falando sozinho, vai levar um tapa nessa sua cara.

-Vai! Me bate então, machão! Mostra aí os bracinhos, vara-pau.

-Cadela. — E me jogou contra parede. Senti as costas, mas não hesitei.

-Sua mãe.E, me deixa em paz, você já me insultou demais por hoje.

-Você quer brigar e não aguenta, criança.

-Eu não tenho mais 17.

-Mas age como se tivesse quinze.

-Quer saber? Eu deveria ter te denunciado enquanto ainda era tempo.

-Que nada... Você não iria achar alguém como eu.

-Alguém irresponsável, insuportável, infantil e irritante?

E quanto eu fiquei olhando pra cara dele esperando uma resposta, ele só riu, mais uma vez. Me enquadrou de vez na parede e encaixou minhas pernas em sua cintura, pousando os lábios em meu pescoço.

-Alguém que te desse um corretivo e te colocasse nos trilhos.- Repentinamente, ganhei uma tapa e tomei um susto, consequentemente.

-Me solta! — Apesar da exclamação clara, não consegui conter o riso.

-Você gosta, tá vendo? Eu sei.

-Me solta!!! Que inferno! — E enquanto gargalhava, senti ódio por achar graça da situação e além disso, não deixar nenhum hematoma nele, por mais que eu revidasse com força. Me sentia naquele tipo de sonho em que há alguém te violentando e você perde a voz e a força, daí começa o pesadelo. Pra mim, era cômico e muito do real. Apesar de agradável, ele tinha um jeito que me machucava, mas algo me dizia que não era por mal.

Junta-se a fome e a vontade de comer quando se tem uma garota que gosta de apanhar, que se junta com um cara agressivo. Vai ver que ele, assim como eu, não sabia muito bem o que era o amor, tipo... Demonstrar, sabe? Ah, pensem o que quiserem.

Parei de bater nele e assim ele pode me olhar mais a vontade. Pregou os olhos fixos e frios, e que olhos... Grandões, que me encaravam compassivamente. Deixei minhas mãos doloridas afagarem seu rosto. Aquela barba gostosa, macia, era tudo o que mais gostava e, ele sabendo disso, mesmo assim limpava a cara de propósito, suponho eu. Bati nele mais uma vez.

-Você é mesmo um idiota. — choraminguei.

-Tá procurando a barba? Porque eu tô procurando o motivo pra você estar me batendo.

-Ah, vai se foder. — E o abracei forte, paternamente.

-Vamos, criança... Tá precisando brincar pra ficar mais alegre.

* * *

Bem, eu não podia ficar lamuriando a falta dele pelo resto do ano todo. Pelo menos era bom naquele dia, acordar tarde, pois haviam poucos afazeres na casa do meu pai e eu tinha um show a noite.

Me levantei e fiz a sequência vespertina: Não arrumei a cama, fiz café, escovei os dentes, tomei o café (sim, nessa sequência), tomei banho, arrumei a mochila, conferi os horários de ônibus e fui embora pro curso. Eu fazia muita coisa ao mesmo tempo há uns dois ou três anos, e isso me mantinha com os pés no chão. Certa vez, ao questionar-me sobre minha rotina, "K" disse que viria para bagunçar minha vida de uma vez. E foi, aliás, é isso o que ele faz. Mas acredito que as coisas perdem o eixo quando você mesmo permite isso e, particularmente eu não conseguia dizer não pra ele, em nada.

Mais tarde ao sair da recepção, me despedindo dos professores e também colegas de trabalho, recebi uma ligação: Julian, meu baixista.

-Fala, cara.

-Tá preparada? Apesar de mais perto de casa, a noite vai ser longa! — Disse ele, excepcionalmente animado.

-Perto mais ou menos né? Não volto pro aparte hoje, vou pra casa do meu pai e aí sim vou direto pra bar.

-Você conferiu o endereço?

-Ué... Como assim? Houve alguma mudança?

-Zona leste, esqueceu?

-Não era na North-House, porra?

-É, você não recebeu o flyer... Zona leste, na antiga Zombie Zone.

-Puta que pariu... — Pesei a voz.

-O que foi?

-O "K" trabalha lá e, acho que ele frequenta o lugar...

-Qual o problema? Ele não sabe que você canta?

-Sim, mas morre de ciúmes. — Olha quem fala, não?

-Relaxa, não vai acontecer nada de errado. Beba pouco, aí você não se solta muito, hehe.

-Sem graça você, hein?? Olha, ok. O horário ainda é o mesmo?

-Ás 18h.

-Tudo bem, até mais então.

-Até! Não se esqueça das suas letras.

-Claro, estão bem guardadas na minha cabeça.

-Essa é nossa garota!

-Obrigada, Julian. — E ri do seu tom carismático.

Tomei o ônibus e cheguei um pouco em cima da hora que pretendia. Eu não senti saudade alguma da minha antiga casa. As luzes da cidade me atraiam mais do que o ar puro e as poucas estrelas mais visíveis. O bom era o cheiro da chuva, andar descalça no quintal, brincar com as cadelas que já morreram de velhice, uma pena... Acho que só. Os vizinhos cumprimentavam por educação, trazendo meio nítido no olhar um "olha como ela cresceu e arrebitou o nariz, agora mais do que nunca." Enfim. Arrumei tudo o que tinha pra arrumar, deixei os agrados na mesa de centro como de costume (largava sempre propositalmente, uma dose especial de uísque, um petisquinho, um cigarro e quando eu podia, um charuto como presente) e fui pro banho. Agora era chegar, subir no palco pro ensaio, tomar minha primeira dose como aquecimento e começar o show.

Mais um ônibus. No tempo ocioso, eu acabava por me lembrar de não esquecer de pensar em "K". Não adianta... É aquela maldita necessidade de ter alguém se importando comigo, pelo menos mandando um oi e avisando que está tudo bem, isso porquê não é todo mundo que dorme com você e foge pela janela de madrugada. Nenhuma mensagem, nenhuma ligação perdida, porra... Dane-se.

-Ei, menina... Tá bem? — Julian e, acho que o universo inteiro, perceberam minha cara de bunda.

-Tô bem! Tô bem.

-Ah, tá. Quer fazer alguma coisa antes de começarmos? Já afinamos tudo e eu preparei seu microfone.

-Desculpa ter chegado meio em cima da hora. Estou meio desligada desde manhã... Vamos logo.

-Tá ok, como você quiser.

-Ei, espera. Obrigada pelo microfone. — Tentei aliviar a tensão que estava causando.

-De nada. — E me sorriu. Julian sorria engraçado, com uma graça sincera e puritana, de um bom parceiro de banda. Fundamos tudo juntos: o nome da mesma, os recrutas, o repertório. Começamos com Cochise.

O bar ia enchendo ao passar do som. Já em Do it Again, estava praticamente cheio. Bom sinal: Graninha boa naquela noite, dose dupla de uísque, três vezes, garantidas. Isso se não aparecesse um cara ou mais querendo pagar coisas pra mim.

Primeira dose. Brr pra lá, Trr pra cá. Um pai nosso, sinal da cruz, chacoalhão na cabeça, braços e pernas. Beijinho nos garotos da banda pra dar sorte, bom show.

Smells like Teen Spirit já abria na porrada nosso set, e sem pausa, Love is a Razorblade e pra quebrar, Kinda girl you are. A galera estranhava a vibe repentina de grunge para indie, mas curtiam, isso agradava. O jeito era criar o mosh e dançar feito louco.

Segunda dose. Vi um grupinho de meninas loucas, prontas na beira do palco para assediar meu guitarrista, Pietro. Alguns caras me olhavam afoitamente, isso nada me agradava, sinceramente. Ossos do ofício. Estou no meu ponto confortável de embriaguês, num bloco onde eu decidia mostrar as rendas da minha 7/8. Os gritos aumentavam, as afrontas masculinas também. Em meio a multidão, escutei já perdendo a noção, uma garrafa quebrar e um estalo seguido de um urro de dor. Abri os olhos meio atrasada e vi de sopetão, arrastado, uma rodinha se formar nos fundos do bar.

-Que que tá acontecendo aí? Vamo parando com essa porra! — Julian deu o aviso pelo microfone.

-Espera, espera, espera. — Observei mais um pouco e... "K"?

-Quem é "K"? O cara lá? — Perguntou ele, afastando-se do microfone.

-É... Espera um pouco aí, me dá um segundo. Dí! Assume o vocal, por favor. — Pedi ao baterista, e desci do palco depois de afagar o braço de Julian.

A muvuca diminuia conforme eu me aproximava. Confirmei que o filho da puta estava ali causando o alvoroço, depois do timbre peculiar gritando "ela é minha, lava essa boca pra falar dela!". Meu Deus.

-Licença, licença! Ow! — Pedia educadamente até entrar no meio dos dois e abraçar "K", sem acudir o outro coitado que estava no chão.

-Galera, desculpa. Vem, seu otário, tá fodendo com o meu show. — E saí tomando-o com toda força que me restara, alcoolizada.

-Ele é seu namorado? — Ouvi alguém perguntar enquanto aparava meu ombro. Olhei pra trás com um sorriso amarelo e respondi ao léu: Sou dele, só isso.

A gritaria tinha parado e eu me enfiei com "K" num corredor, depois dos banheiros. Uma luz azul, de neon fraco, banhava o espaço. Eu o empurrei desleixadamente na parede e me apoiei nele.

-Que bosta é essa?! Não!!! Eu tava adivinhando que você viria de alguma maneir... NÃO! Espera! Foi você quem...

-Eu vi o flyer no seu celular. — Disse, sobriamente.

-Como você acessou o caralho da senha do meu celular?!

-Você largou ele ligado, sem bloqueio, com a função "trinta minutos" com luz. Ele não apagou, portanto, não bloqueou.

-Seu desgraçado, você não tinha permissão pra isso! Sabia que quase perdi o lugar e a hora do show por sua causa? Você sai do nada parecendo um não sei o quê pela janela...

-Eu não saí pela janela, de onde você tirou isso??

-Ah, vai tomar no seu cu! Você não me avisa, vai embora e não liga, não se despede, seu merda! Faz isso de propósito, QUE ÓDIO DE VOCÊ! — E antes que pudesse dar o melhor bofetão na cara que pude, senti meu braço parar no ar. Meu senso alcoolico me enganou quando "K" segurou meu braço e me jogou contra a parede, como de costume. Senti o eco da minha caixa toráxica e logo em seguida, minha cara estava ardendo. Ouvi um "fala direito comigo" meio picotado, até despertar milagrosamente ao sentir suas mãos querendo apertar meu pescoço. Acertei-lhe os países baixos e antes que pudesse brigar pra valer, In the Fade começou a tocar. Paramos.

Ele levantou a cabeça, ainda contraído e de pernas tortas pela dor, me olhou diferente.

-É a nossa música... — Eu disse.

-Sua vaca... Por que você faz isso?

-Você ia me estrangular...

-Não! Não é isso... Por que você me prende tanto á você e me faz fazer essas merdas de puxar briga com os outros?

-"K"... — Tomei sua cabeça pra mais perto, já que em questões de altura, ele era absurdamente alto demais pra mim. Eu não queria falar mais nada, só dei uma risada pois, daria o tempo certo de beijá-lo justamente na entrada da bateria.

"Eles não sabem, eu nunca te fiz bem algum", soava bem e tão espontâneo quanto minhas lágrimas.

-Shh... Não chora, criança.

-Pára de bagunçar minha vida, seu crápula.

Conversávamos baixinho.

-Você é assim n'outros sentidos, pede pra parar mas gosta quando eu continuo...

-Pára com isso! — E lhe dei um tapinha no peito, rindo envergonhada.

Ele me envolveu em seus braços mais profundamente e me beijou de novo. Acabou-se ali toda raiva e, o tempo parou só pra nos observar até o final da música. Era como alcançar o paraíso sem precisar de muito, só dele. Do seu calor, das suas mãos correndo aqui e ali, como os seus lábios, passeando sobre meu colo e pescoço. Era o suficiente, apesar de que poderia durar pra sempre, mas como os "pra sempre" não existem...

-Eu preciso ir... — Eu lhe disse enquanto nos recompunhamos, ele, talvez, de uma ereção.

-Prometo me comportar dessa vez.

-Não faz mais do que sua obrigação. — Respondi num tom arrogante, enquanto limpava a boca e acertava o batom. Ele me tomou pelo braço com estupidez.

-Como é que é?

-Tá! Vai ganhar uns agradinhos mais tarde.

-Agora sim, falou certo. — Me roubando outro beijo. Eu amava aqueles movimentos bruscos combinados...

Corri meio desengonçada rumo ao palco. Pisquei para Pietro, devia ter sido ideia dele de tocar justamente essa música... Mandei um beijinho á Dí em agradecimento pela mesma e sorri para Julian, conscentindo com a cabeça, meio que dizendo "agora está tudo bem".

Terceira dose, por conta da casa! Ainda mais gostosa. Why'd you only call me when you're high embalava a sequência de baladinhas alternativas. Tocamos por mais um hora e pouco, e demos licença para que a próxima banda viesse. Dinheiro na mão, teor alcoolico instável e missão cumprida. Pietro saira rapidamente com uma ou duas garotas, se despediu bem rápido. Julian me agradeceu muito pela presença e recomendou-me juízo. Dí, discretamente, despediu-se de nós e foi de encontro a sua namorada. Eu, guardei meu microfone que estava com Julian, desmontei o pedestal e caí nos braços do meu perfeito arrogante e brutamontes. Ao tomar sua mão, matei o copo de uísque a força e ascenei para a proprietária, fomos embora.

Ao chegar no meu apartamento, "K" mal me ajudara a guardar as coisas. Era mais fácil colocar a mochila no sofá e o microfone no baú, junto com a guitarra, o baixo, o teclado e os livros. E o fizemos. Logo ao cair na cama, reparei que o álcool e a heresia de sua presença me fizeram esquecer sobre o episódio da noite passada. E se vão uma, duas, três, quatro, garrafas, camisinhas, horas. Nem me lembro o que fiz por ultimo, mas sei que dormi e dormi pesado.

Eis que veio mais uma manhã, dessas de domingo meio entojada. Estiquei-me, procurando apoio naquelas costas largas e ossudas e, cheguei á outra ponta da cama. Não... De novo? Será possivel? Meu peito pesou. Abri os olhos e, com visão turva e árdua, levantei com pressa. Fitei meu pequeno espaço, que se tornara imenso em questão de segundos. Fiz birra feito criança... Assim como ele me chamava e talvez, me tratava. Agarrei-me novamente ao travesseiro, branco feito aquelas costas que almejava e tinha há algumas horas atrás. Tentei não chorar, afinal, ele voltaria alguma noite em que estivesse livre e disposto a me atazanar, até desaparecer no desfalecer.

Notas finais
Josh Homme, pelo sobrenome emprestado e pela letra e melodia incríveis. Aos futuros parceiros de banda, Julio, Caique e Diego. Dedicado á um cara que eu achei perdido nas ruas da minha pequena cidade, num golpe de sorte.

Músicas citadas: Cochise, Audioslave. Do It Again, Queens Of The Stone Age. Smells like teen spirit, ''Nirvana''. Love is a Razorblade, Combichrist. Kinda girl you are, Kaiser Chiefs. In the Fade, Queens of the stone Age. Why'd you only call me when you high, Arctic Monkeys.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!