Notas iniciais
Leve como uma folha
Olhei embaixo da cama. Nas prateleiras do armário. Em cada gaveta. Atrás dos quadros e entre os livros. Joguei as roupas no chão. Revirei os bolsos. Abri as bolsas. Afastei os móveis. Retirei o tapete e nada. Não. Eu não a perdi. Repassei meus passos naquele dia. Cheguei em casa, tirei os sapatos e fui até a cozinha. Peguei uma torrada com geléia de framboesa e fui para o quarto. Larguei a mochila no chão, peguei uma revista e comecei a ler. Me entediei. Peguei a caixa no guarda-roupa e não estava lá. Olhei novamente para as coisas contidas na caixa, agora espalhadas pela cama. A foto realmente não estava ali. De manhã, estava e eu tinha certeza que havia posto ela de volta. E se alguém pegou? Impossível! Moro sozinha e não recebi nenhuma visita ultimamente. Só falta ela ter criado pernas e ter fugido. Porque eu tinha que perder justamente a única fotografia de nós duas que eu guardei? De todas as coisas daquela caixa, a foto era o que eu mais estimava. Isso porque, além de ter sido a primeira, foi quase uma missão tê-la conseguido. Eu invadi o apartamento da Hiko para pegá-la e quase fui descoberta. Eu não tive coragem de simplesmente pedir a foto então fui lá e peguei eu mesma. Diabos! Onde essa foto foi parar? — | | — Eu tinha olhado embaixo da cama. Nas prateleiras. No guarda-roupa. Em todas as gavetas. Dentro dos livros e até atrás dos quadros. Baguncei minhas roupas. Olhei na mochila e na bag da guitarra. Atrás dos móveis e embaixo dos tapetes. Depois daquele dia nunca, mais a encontrei. Eu havia perdido a foto. Foi num dos nossos primeiros ensaios. Eu havia levado uma máquina fotográfica que tinha encontrado em casa. Era uma dessas que precisam de filme, que ninguém mais usa, mas eu não queria perder o filme então, depois do ensaio, cada uma pegou a máquina e tirou várias fotos. Mas aquela foi a única de nós duas. Waka sorria e eu estava olhando para ela com aquele ar de quem foi pego de surpresa fazendo algo de errado. Não mostrei aquela foto para ninguém. E dois dias depois de revelada, ela sumiu. Criou pernas e saiu andando. Agora, depois de muito tempo, ela estava li, no meio das partituras. Eu parecia muito mais boba e Waka parecia que sorria mais. Como é que ela podia ser tão radiante, mesmo numa fotografia? Dessa vez vou guardá-la num lugar onde eu tenho certeza que não vai mais sumir, na caixa dentro do meu armário. Fim
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