In My Head

23 Mais Desastres


Notas iniciais
Desculpem a demora. Aproveitem!

P.O.V. 3ª Pessoa

Dez. É quase impossível acreditar que só se passaram dez dias desde que a vida dessas quatro pessoas mudou completamente. Foram dez insuportáveis e asquerosos dias que se arrastaram como uma lesma se arrastaria por um campo de pregos afiados, isto é, lentos e dolorosos. Cada um havia decidido ao seu modo que tinha que suportar aquilo simplesmente pelo fato de que não havia nada que pudessem fazer para melhorar a situação. Alguém uma vez disse que loucura é realizar a mesma experiência em busca de resultados diferentes. Bem, essa frase se adequa a situação. Depois de praticarem tanta loucura que nunca em suas vidas imaginariam que um dia fariam tal coisa, nossos heróis pararam. Pararam de ser loucos, apenas aceitaram, ou só se cansaram por um momento, afinal, como poderíamos saber o que aquelas mentes estavam bolando? O melhor a fazer era esperar, mesmo que não tivesse algo para se esperar por, ou alguém. Enfim, eles estavam sendo tratados como bonecos, marionetes, mas estavam muito cansados para se revoltar outra vez e tentar descobrir o mistério e, talvez, voltar para casa.

A passagem pelo buraco não durou milésimos de segundo, logo estavam no meio de um parque. Era um lindo parque, nenhum deles havia estado ali em sua outra vida, as pessoas conversavam alegremente, nada de ruim parecia que estava por vir, mas os quatro já sabiam que era inevitável. O horror os acompanhava onde quer que fossem, era assim que conheciam a história do mundo, pelas suas tragédias.

— Are you ok? (Vocês estão bem?) – Tyler perguntou, como o mais velho, ele tinha se acostumado a tomar conta de todos. Eles assentiram, ainda estranhando o local, não porque era estranho em si, mas porque era atual. Ao longe podiam ouvir carros, motos, buzinas, uma mulher do parque estava falando no celular, era informação demais. Tinham se acostumado a calma dos tempos antigos, mas estavam morrendo de saudade de uma tela touchscreen, o que a tecnologia não faz?

— Ok, let’s make a plan. We have to decide some parts. Like, number one, Isabelle, try to find out what is the language that they speak here, if we know, we can talk to someone and get more information. (Ok, vamos fazer um plano. Nós temos que decidir algumas partes. Como, número um, Isabelle, tente descobrir qual é a língua que falam aqui, se conhecermos, nós poderemos falar com alguém e ter mais informações) – Tyler falou e começou a planejar o resto do plano em sua cabeça, eles ainda estavam com as roupas cinzas e precisavam dar um jeito nisso urgentemente. A brasileira se esgueirou entre árvores para escutar uma conversa sorrateiramente, era apenas um casal discutindo, mas ela só precisou de 6 segundos escutando para confirmar com certeza e voltar para o seu pequeno grupo que agora estava sentado no chão, ela se sentou com eles.

— Spanish. (Espanhol) – Isabelle disse. Tyler apenas assentiu, ele estava “liderando”. Rosa sentiu um alívio, era um pouco menos assustador viajar pelo tempo e espaço se soubesse a língua do local.

— Thank you, now, Filipe, would you try to talk to someone? Please? Ask for date and place, maybe? It’s very actual, closer to our times, but not too much hopes. I don’t think I had ever told you this, but my brother used to say: We hope for the best, but prepare for the worst. (Obrigado, agora, Filipe, você poderia tentar falar com alguém? Por favor? Pergunte por data e lugar, talvez? É bem atual, perto de nossos tempos, mas sem muitas esperanças. Eu não acho que já lhes disse, mas meu irmão costumava dizer: Nós esperamos pelo melhor, mas nos preparamos para o pior) – Tyler estava mandando demais, mas ninguém estava se importando, ele estava fazendo pelo bem deles, era só um jeito mais civilizado de conseguir informações, bem melhor do que eles estavam fazendo nos outros lugares.

Filipe se levantou, foi até uma mulher sozinha, ele era um bom ator, colocou uma cara de espanto e disse: Hola, disculpe, estoy perdido, he estado vagando durante días en busca de mis padres, y perdí la noción del tiempo y del espacio, puedo decirme dónde estoy y qué día es hoy? (Oi, com licença, eu estou perdido, venho vagando há dias procurando meus pais, e perdi a noção de tempo e espaço, a senhora pode por favor me dizer onde estou e que dia é hoje?) – Ela olhou pra Filipe com um pouco de desconfiança, mas logo teve piedade do menino.

— Claro querido, hoy es el 15 de agosto de 2007, y estamos en Lima, Perú. (Claro querido, hoje é 15 de agosto de 2007, e estamos em Lima, no peru.)

— Gracias (Obrigado). – Ele disse e se afastou, antes de voltar ao seu grupo, olhou ao redor, era tão bom ver roupas da sua época, jovens andando de skate, cachorros, ternos, crianças. Se viu olhando para uma criança em especial, era apenas um garotinho, devia ter no máximo sete anos, mas estava com o sorriso mais bonito que ele já havia visto na face da terra. Era tão bom ser assim, sem problemas, apenas viver para se divertir, saudades desses tempos, tempos de felicidade. Filipe percebeu que estava com olhos de vidro e apertou o passo, se sentou e disse.

— Lima, Peru. August, 15, 2007. (Lima, Peru. Agosto, 15, 2007)– Disse com o olhar distante. Belle sorriu para ele.

— Thank you, now, let’s get out of here, but, does anyone remember of something that happen in this date here? (Obrigado, agora, vamos sair daqui, mas, alguém se lembra de algo que aconteceu nessa data aqui?) – Ninguém se lembrava, eram muito jovens quando isso ocorreu. Mas não puderam evitar de pensar o que estavam fazendo em suas outras vidas nessa data. Claro que não se lembravam exatamente o que faziam, mas foi bom ter dois segundos para lembrar de uma vida calma e tranquila, em parte. Quase se deram ao luxo de chorar de saudade, mas uma bola veio em sua direção, Rosa devolveu a criança e foram embora da praça. Eles nem precisariam perguntar nada se tivessem apenas saído daquela praça antes. Havia um painel indicando tudo, temperatura, data, hora, lugar. Era um dia normal no Peru, então por que diabos estavam ali? Seria finalmente um dia calmo e tranquilo longe do cinza? Nunca seria.

Não tinham dinheiro, estavam com fome e as roupas estavam chamando cada vez mais atenção. Eles quase pareciam médicos, mas aparentavam ser muito jovens.

— I’m getting tired of stealing. (Estou ficando casando de roubar) – Filipe disse, Belle e Rosa concordaram.

— I know, me too, but that’s no other way, unless you think of something. Do you wanna get back to the park? (Eu sei, eu também, mas não tem outro jeito, a não ser que vocês pensem em algo. Vocês querem voltar para o parque? – Tyler disse

— I don’t knowww.. (Eu não seiiii.. )– A palavra de Filipe se estendeu, pois ele não conseguia mais fechar a boca, eles estavam na calçada, bastava dar três passos e voltariam para o parque, mas não conseguiam, não conseguiam dar nem um. O chão estava tremendo violentamente, era um terremoto claro, Rosa já havia vivenciado um ou dois, porém bem menos leves que esse. Filipe passou por uns três durante alguma viagem, mas também não passava de um tremor tão pequeno que poderia ser facilmente confundido com um canteiro de obras próximo. Porém, Belle e Tyler nunca haviam passado por isso. Bem, pelo menos já sabiam qual fora a tragédia escolhida para ser celebrada com sua presença.

Eles não tinham a menor ideia do que fazer, os carros nas ruas estavam sendo lançados violentamente para as calçadas, se ficassem mais algum tempo parados lá, provavelmente seriam atropelados por um deles. Entretanto, mesmo que conseguissem voltar ao parque, as árvores estavam caindo. O céu se transformou em inferno em menos de um segundo, gritos de desespero ecoavam por toda parte, a situação ficou caótica. Ao longe, uma parte do chão começava a se abrir.

— OH MY GOD! HELP! (OH MEU DEUS! SOCORRO!) – Tyler disse. Isabelle e Rosa estavam prestes a começar a chorar. Filipe conseguiu de algum jeito se manter ou apenas aparentar estar calmo, ele reuniu fôlego e um pouco de equilíbrio para conseguir dizer:

— Precisamos sair daqui, agora. Tentem pular. Me sigam. – Era um alívio poder falar sua língua nativa e alguém, além de Belle, entender. O chão estava, como se fosse possível, se tornando cada vez mais violento, alguns edifícios estavam começando a desmoronar, o pânico tomava conta.

Os quatro foram pulando entre os destroços, toda vez que algum deles caía, o que acontecia com frequência, todos paravam e alguém lhe ajudava a levantar, só assim poderiam seguir. Filipe voltara ao parque, a essa altura, a maioria das árvores já havia caído, as pessoas olhavam para eles com esperança e os chamavam pensando que eram algum tipo de grupo de resgate por conta das roupas cinzas. Mas se eles próprios mal conseguiam ficar em pé, o que poderiam fazer pelos outros? Só puderam seguir em frente, mesmo sem saber para onde estavam indo. Até que Filipe parou. Simplesmente parou de pular entre os destroços, ele já estava em outra saída do parque. Isabelle se esgueirou por cima do seu ombro para tentar ver o que o assustara e se arrependeu na mesma hora. Inferno teria sido um apelido carinhoso para a situação: vários mortos ao chão, sangue jorrando pelas ruas, gritos e mais gritos de dor, ódio e piedade, não havia salvação, nem esperança, apenas o desejo de morrer mais rápido para sentir menos dor.

— LUGAR SEGURO! LUGAR SEGURO! – Filipe gritava, esse era o objetivo e ele havia encontrado. O português voltou a pular em direção a algo que os outros não podiam ver. Quando chegaram perto acharam que Filipe estava completando louco, aquilo nunca seria um local “seguro”, era apenas quatro grandes árvores que caíram e formaram um quadrado. Antes que pudessem protestar, ele já havia dado um grande pulo e agora estava no centro desse quadrado, só tinha um pequeno detalhe: as árvores estavam se mexendo pelo chão devido ao terremoto, uma delas poderia facilmente esmagar o português. Isabelle foi a primeira que pulou para dentro daquilo, seguida de Tyler e por último Rosa. Após algum tempo, o plano maluco do português ficou claro, cada um ficou encarando uma árvore, se ela começasse a chegar perto, bastava gritar e todos iam em direção à outra que estava parada ou se afastando. Era muito arriscado, mas era mais arriscado ainda ficar lá fora. Foi uma mudança da confusão geral para o particular, sendo que a sensação de morte nunca parava e não dava para relaxar, por isso, não era exatamente um lugar seguro, mas era o melhor que tinham.

A situação durou por, pelo menos trinta minutos, mas pareceram horas para os quatro. Aos poucos, a terra foi tremendo com uma intensidade menor, levou algum tempo para perceberem isso, mas foi um alívio, pelo menos podiam ficar em pé com total equilíbrio. Tyler gritou de felicidade, até pulou para fora do quadrado de árvores, mas assim que saiu sentiu vergonha de si próprio, sim, ele havia sobrevivido a um terremoto, mas as consequências eram catastróficas, precisava ajudar como pudesse. Chamou os outros e começaram o “resgate”, tiraram pessoas em baixo de árvores, presas em brinquedos. Era dor demais ver os corpos, essas pessoas estavam em plena saúde há pouco tempo, chegava a ser inaceitável, eles eram os sortudos, os sobreviventes, tinham que aguentar de alguma forma, pois poderia ser seu corpo ali no chão em vez desse.

Filipe parou bruscamente e olhou para um ponto fixo, saiu correndo. Tyler estava terminando de tirar duas crianças presas em um balanço com a ajuda de Rosa.

— Do you need me here? (Vocês precisam de mim aqui?) – Isabelle perguntou.

— No, go help him. (Não, vá ajuda-lo) – Tyler respondeu, ele estava ajudando as crianças enquanto Rosa as acalmava. Isabelle correu para perto de Filipe, era apenas um escorregador que havia sobrevivido, o problema era que um garotinho estava preso a ele, deve ter se escondido em baixo quando começou, mas o escorregador se deslocou e agora estava esmagando sua perna. O que tornava aquilo um pouco pior era que Filipe havia prestado bastante atenção a esse garoto antes, ele tinha o sorriso mais bonito que já havia visto, mas agora, seu rosto apenas demonstrava dor.

— Hola, tranquila, todo va a estar bien, soy Filipe, ¿cómo te llamas? (Oi, calma, vai ficar tudo bem, eu sou Filipe, qual é o seu nome?) – Disse para acalmar o garoto em prantos, nesse ponto, Isabelle já havia chegado ao seu lado.

— Max.

— Está bien, Max, te ayudaremos ok? (Tudo bem, Max, nós vamos te ajudar ok?) – Max apenas assentiu. Isabelle ajudou Filipe a levantar o brinquedo de madeira, mas a perna do garoto estava muito danificada. Max começou a chorar, Filipe foi até ele, tentou perguntar sobre seus pais, mas ele continuava chorando e o mais provável era de que tivessem morrido no terremoto. Podia-se ver claramente que Max havia machucado a perna. Filipe rasgou parte de sua calça cinza, tornando-a em uma bermuda, pegou o tecido e enrolou a perna do garoto, depois o pôs nos braços e saiu dali. Tyler e Rosa já haviam acabado com o balanço, reuniram todas as crianças sentadas em um espaço e começaram a tratar dos ferimentos. Apesar de nenhum deles ter comido nada desde que o dia começou e suas gargantas estarem clamando por água, eles se sentiriam muito envergonhados em parar, nem que fosse por um minuto, de ajudar esse povo apenas para benefício próprio. Alguns pais de algumas crianças apareceram, no final, ficaram com três incluindo Max. Não havia mais nada que pudessem fazer no parque, já estava escurecendo e as crianças estavam com fome, tristes e cansados, assim como eles.

Conseguiram invadir uma padaria e comer, distribuíram pães para outros sobreviventes que encontraram, depois voltaram ao parque na esperança de que os pais das crianças retornassem. Mais tarde, a mãe de mais uma chegou aos prantos. Porém, somente quando estava o breu, a ajuda chegou, eles levaram a outra criança e quando quiseram levar Max, Filipe insistiu em ir junto, no fim, deixaram. Ele ajudou no que podia, mas precisavam levar o garoto para um hospital em outra cidade e tinham que transportar outros feridos, eles se despediram ali mesmo.

— Adios Max. (Adeus Max)

— Adios mi angél. (Adeus meu anjo) – Filipe secou uma lágrima e sorriu, depois voltou e se sentou com Isabelle, Tyler e Rosa.

— Você está bem? – Isabelle perguntou quando ele voltou.

— Eu não sei. – Filipe disse. Eles estavam tão cansados que caíram no sono imediatamente.

Notas finais
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