Não sei quem fui ou quem seria. Sei que estou morto. Desde o momento em que vim para este leito, tornei-me cadáver. Não uma massa pálida, de células inanimadas; não, estimada plateia. Sou apenas um corpo infrutífero, pintura infiel do que poderia ter sido — morto, portanto.

Não o saberíeis, é claro, ou não estariam estas lamúrias em vossas mãos.

Verá, leitor, que aqui jazem os últimos suspiros de lucidez deste sandeu. Exponho minhas entranhas cruas, vísceras frias que não merecem ser condensadas no oco do meu tronco.

Venha a mim o julgamento, enquanto ainda for capaz de alcançá-lo!, e que me escolte o Diabo nestas abstrações, que o Outro já não me assiste.

Presto estas exéquias a mim próprio, mesmo sem nunca ter vivido ou conhecido tal coisa; não por querer compaixão ou piedade, mas por dever de dar a conhecer o meu epitáfio, eterno louvor a algo que não existiu.

Ninguém o faria por mim.

Sinto-me cansado. Pesa-me este receptáculo inútil, todo ele apêndice, custoso de carregar. Ainda cá não está o Ceifeiro que finalmente me fará leve.

Está noite, está sempre noite, e estou sozinho. Trancado neste quarto imundo, vazio, ainda que maior e mais cheio que a minha própria cela. Esta o leitor não poderá ver. É minha, e minha somente, que com as minhas mãos soldei o seu ferro.

À minha beira não há cravos, nem mesmo uma solitária rosa. Não há quem as queira trazer; fui, desde morto, esquecido. Usado e descartado como um lenço. Não há adornos para o meu funeral. Há apenas a verdade rígida, o cheiro podre de uma mente queimada. O espectador concordará ー tamanho desrespeito para com um morto!

Nunca sequer me visitaram.

As visitas são para os vivos. Eu, se alguma vez terei vivido, nunca dei conta disso; dizem os sóbrios que viver é sentir, e o que poderei sentir senão vazio, vazio nestas palavras, vazio nesta alma, vazio, vazio em todo o meu ser?

Preso neste quarto sem portas ou janelas, para onde foram?, só, sou seguido eternamente por este inimigo fiel — sim, caros leitores, é o nada a única companhia neste agradável deserto do qual já não fujo.

Habituei-me a isto como um cego ao escuro. Fui covarde quando não era louco, e agora resta-me isto — formidável clausura na qual me encontro!

Poderá, leitor, pensar que me contradigo. Não; simplesmente não posso escapar. Tentei, tantas, tantas vezes, e no entanto nunca nada conquistei. Sou agora conformista, que já não tenho escolha… Ligaram-me a tubos invisíveis, prenderam-me a âncoras instáveis, e abandonaram-me finalmente, à deriva, aquelas cruéis almas!

Saibam que lhes rogo pragas. Não ao que lê agora estas palavras ― este nada fez, e não poderia ter feito ―, mas a todos que não me deixaram estar morto, quando morto é o que sempre fui.

Eu, que nunca tive pretensões de existir, nem sequer tenho direito ao Limbo!

Eu, inseto medonho e sujo, sou sentenciado a durar sempre!

Eu, verme que nunca respirou senão luto, vivo por não ter opção!

Por isso amaldiçoo-os! Acham que podem retardar a queda de um espírito ao segurá-lo; hipócritas que não sentem este delírio e julgam conhecê-lo! Amaldiçoo a todos, a mim próprio!, por ter fraquejado e sentido, por ter querido sair do cárcere por um único momento!

Que crimes cometi para ser condenado desta maneira?

Nada está bem — nada! — , que ainda eu estou aqui, intruso permanente, como me forçaram a ser.

Peço, arranquem-me dos tubos de uma vez, se sequer me escutam. Mas não há quem me ouça agora; nunca houve.

Não, meus senhores! Se não há saída para um espírito rejeitado, então que deixe de ser espírito de todo.

Torno-me no meu próprio algoz e fujo — não me ouviu o Outro, que responda o Diabo!

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