In Love With Her
24 Traída
Notas iniciais
MANUELA
Só percebi que estava chorando quando Eduarda tentou se aproximar de mim e eu me virei bruscamente, saindo da cozinha com passos firmes.
Infelizmente, antes que pudesse sair dali, ainda tive que me deparar com o sorriso vitorioso nos lábios daquela maldita professora. Seus olhos brilhavam felizes com o que acabara de acontecer.
Passei pela sala sem ver nada à minha frente, as grossas lágrimas a embaçar-me a visão.
Minhas cunhadas me olhavam com dois pontos de interrogação em suas feições, sem saber de nada do que estava acontecendo.
Havia acabado de alcançar a porta quando senti mãos fortes e, ao mesmo tempo macias, em meus braços, segurando-me para que não saísse. Sabia que era ela, mesmo que me doesse tanto, ainda sabia, sempre saberia identificar seu toque. Mesmo que, involuntariamente, sentisse aquele arrepio que percorria o meu corpo toda vez que ela me tocava, me repreendi por ainda sentir aquilo depois de ter visto o que vi.
Juntando todas as forças que tinha, consegui controlar o choro apenas para falar de forma pausada e dura, mas foram apenas sussurros que saíram de minha boca:
— Não encosta em mim, Eduarda
— Me escuta, Manu – falou em desespero
— Me deixa! Eu não quero escutar nada!- falei ainda sem me virar para ela, não conseguiria olhar em seus olhos naquele momento e, principalmente, não seria capaz de segurar as lágrimas por muito tempo
— Por favor, me escuta! — implorou com a voz falhando
Ela estava chorando?
Seu choro me desarmou, e eu tive que me concentrar muito para continuar falando:
— Não vou falar para não encostar em mim de novo! — sacudi meus braços violentamente, e ela deixou que suas mãos escorregassem por eles, me soltando.
Endireitei meu corpo e abri a porta, fugindo para qualquer lugar longe de Eduarda. Não conseguia acreditar que ela tinha feito aquilo comigo. Estava doendo muito, e isso se externava peas lágrimas que encharcavam meu rosto enquanto eu corria para fora daquele condomínio, sem ao menos saber em que direção estava indo. Não me importava o destino, desde que estivesse bem longe dela. Bem longe daqueles olhos escuros.
Não sei ao certo por quanto tempo corri antes de me cansar e me deixar cair no meio-fio de uma rua qualquer. Meus pensamentos estavam uma confusão, não conseguia sequer formular uma sentença completa em minha cabeça.
Meu coração doía.
Como ela pôde?
A imagem que eu vira naquela cozinha se repetia em minha mente como flashes, e a cada vez que visualizava aquilo novamente doía mais e mais.
A minha Eduarda. Ela estava lá, com aquela... aquela... aquela mulher. Elas estavam se beijando. As mãos de Márcia percorriam ávidas o corpo que havia sido meu apenas algumas semanas antes. E o pior de tudo era que Eduarda deixava, senti que ela estava correspondendo àquele beijo. E, de repente, a tristeza deu lugar à raiva que tomou conta de mim pela traição.
Ela dizia tanto que me amava e era assim que provava isso? Era dessa forma que ela demonstrava o amor que sentia por mim? Traindo-me com a primeira que viu na frente?
Eu não acreditava que aquilo estava acontecendo de novo. Era muito azar para uma pessoa só. Talvez eu estivesse mesmo fadada a ser traída de novo e de novo.
Natália!
A traição de Eduarda me levou de volta àquela vagabunda. Aconteceu de novo, da mesma forma.
Mas com Eduarda foi infinitas vezes pior. Eu não amava Natália da forma que amava Eduarda. E ela, ao contrário de Duda, nunca dissera me amar, nunca despertara em mim as sensações que Eduarda despertou.
Tudo que Natália queria comigo era sexo fácil, ela queria a sensação boa de seduzir a garotinha que não sabia nada da vida e largá-la quando enjoasse.
Pensei que com Eduarda fosse diferente, já que eu era a “experiente” da história, diga-se de passagem. Duda me fez acreditar que era possível amar e ser correspondida à altura. No pouco tempo em que estávamos juntas ela me mostrara com a sua simplicidade e, ás vezes, até ingenuidade, que eu poderia ser feliz ao seu lado, que não precisaria de mais nada se estivéssemos juntas.
E, logo quando me sentia plena naquele relacionamento, ela me deu aquela rasteira. Ainda estava pasma com aquilo, nunca julguei Eduarda capaz de algo tão sujo quanto traição.
Pelo visto, estava enganada a seu respeito.
Sentia raiva de Eduarda por ter beijado Márcia. Sentia raiva de Márcia por aquele sorrisinho que eu gostaria de ter o prazer de desfazer com uns belos tapas bem-dados naquela cara lavada. Mas, principalmente, sentia raiva de mim, por não conseguir parar de chorar, por amar tanto aquela garota, por ser tão idiota.
Meu celular tocava sem parar, mas eu não dava ouvidos, sabia que era ela ligando. Não queria falar com aquela garota.
— Burra, Manuela! Você é muito burra! — falei para mim mesma, em meio às lágrimas insistentes
— Desculpe, tais a falar comigo, guria? — ouvi uma voz feminina com um sotaque gaúcho perguntar e levantei os olhos sem vontade alguma
Parada à minha frente, havia uma garota um pouco mais velha que eu, talvez tivesse uns 18 ou 19 anos.
Estranhei a forma como ela estava vestida, nada convencional para a idade que aparentava. Usava roupa social, uma camisa branca de listras cinzas e azuis por baixo de um terninho acinzentado, uma calça no mesmo tom do terninho, um scarpin preto de salto consideravelmente alto, e, para completar aquele visual nada convencional para um fim de tarde de sábado, uma maleta preta na mão.
— Não, desculpe, não falava com você, a única burra aqui sou eu – respondi sua pergunta – Estava pensando alto, acho
— Não entendo
— Não entende o quê? Pessoas falam sozinhas o tempo todo — falei um pouco irritada com a intromissão daquela desconhecida na minha sessão de autopiedade
— Na verdade, não entendo como tu pode ser burra, me pareces bem inteligente na verdade
— Impressão sua, sou o ser mais idiota da face da Terra
— Bah... o que o ser mais idiota da face da Terra faria aqui, nessa rua deserta, largada no meio-fio e chorando por ser burra? — perguntou com um pequeno sorriso e, para meu espanto, sentou-se ao meu lado, sem se importar em sujar sua roupa impecavelmente limpa.
— Não me leve a mal, mas eu quero ficar sozinha – falei de cabeça baixa
— O que achas de fazermos um trato? Levo-te para tomar um café ali – apontou para uma lanchonete um pouco mais à frente, do outro lado da rua – Tu choras o quanto quiser, me conta o que aconteceu se se sentires à vontade com isso e só então eu te deixo sozinha. Vou me sentir culpada se for para casa e te largar aqui nesse estado – aquela estranha parecia realmente preocupada comigo
— Olha, eu nem te conheço
Fiquei observando enquanto ela levantava-se do chão e parava à minha frente, estendendo uma mão para mim
— Prazer, sou Isabella Alcântara Borges – falou ainda com a mão estendida em minha direção, claramente esperando que eu a apertasse e me apresentasse também
— Manuela Fernandes – respondi desanimada, rapidamente soltando a minha mão da sua, na esperança que ela fosse embora e me deixasse ali.
— Pronto, agora que já me conheces, pode me acompanhar no café?
— Você não vai desistir, não é? — perguntei, e ela balançou a cabeça em um gesto negativo – Tudo bem, Isabella Alcântara Borges, você venceu, mas será apenas um café
— Já é alguma coisa – sorriu e me ajudou a levantar
Caminhamos em silêncio até a lanchonete, onde ela escolheu uma mesa mais isolada para que pudéssemos conversar caso eu quisesse desabafar.
Logo uma garçonete veio nos atender e fizemos nossos pedidos, que foram entregues logo em seguida.
— Então – iniciou Isabella – Queres me contar o que houve?
— A vida é uma droga, apenas isso
— Entendo – respondeu-me como se realmente entendesse o motivo pelo qual eu estava chorando como uma louca desvairada
— O quê?
— Tais a sofrer por amor, guria – não era uma pergunta
— Por falta dele, da parte de quem eu amo
— Traição? — perguntou, e, de repente, um bolo formou-se em minha garganta, e eu não consegui falar, então, apenas anuí com a cabeça em afirmação, doía demais pensar naquilo, aquela cena voltando e voltando, de novo e de novo na minha cabeça
Eu fiquei em silêncio por vários minutos, apenas encarando a xícara fumegante de cappuccino que girava entre as mãos.
— Sabe, és muito nova para sofrer assim por amor – falou Isabella
— E agora tem idade para sofrer?
— Não foi isso que eu quis dizer, não há amor se não há confiança, então se tu confia em alguém, algum motivo tem pra isso, certo? — balancei a cabeça em afirmação, curiosa para saber onde aquela garota queria chegar, e ela continuou – Então me diz uma coisa: se há confiança e há amor, existe realmente algum motivo para traição?
— Com motivo ou sem motivo, não muda o fato de eu ter sido traída da pior forma possível, ou muda? — falei irritada
— A pergunta é: fostes mesmo traída?
— É claro que fui! Não foi ninguém quem me contou, eu vi com os meus próprios olhos, eu vi!
— Ei, não precisa ficar nervosa, desculpe, eu, ás vezes, falo demais – Isabella deu um sorriso envergonhado, e pude ver suas bochechas em um tom de vermelho tomate.
Só naquele momento reparei de verdade na garota que estava à minha frente. Era absolutamente linda, com longos cabelos loiros e lisos que lhe caíam sobre as costas, olhos de um verde vivo, e, por baixo daquela roupa formal, eu poderia apostar que havia um corpo impecavelmente moldado em alguma academia.
— Olha, eu não quero mais falar sobre isso, está doendo muito, ok? Se tivesse bebida, eu com certeza afogaria as minhas mágoas em uma boa dose de Absolut Vodca, mas já que nem tudo que se quer, se pode ter, vou ter que me contentar com uma xícara meio vazia de cappuccino de chocolate, aliás o preferido de... Enfim, me viro com a minha bebida fajuta e a companhia de uma gaúcha louca que me encontrou no meio da rua
— Como sabes que sou gaúcha? Não me lembro de ter comentado sobre as minha origens contigo – sorriu divertida
— Bah! Olhe teu sotaque, guria! — falei, fazendo-a rir – Está bem na cara que não é mineira, aliás, eu conheço muito bem o sotaque mineiro – terminei a frase com uma careta de contrariedade, lembrando-me novamente de Eduarda
— Ponto para a guria carioca. Mas, só para saberes, apesar de passar metade da minha vida em Porto Alegre, eu sou catarinense — respondeu, e nós duas rimos
Mais uma vez meu celular voltou a tocar em cima da mesa
— Não vai atender?
— Não tenho nada para falar nem para ouvir
— Certeza? — perguntou simplesmente, me deixando desconfortável por não dar a Eduarda nem mesmo a chance de se explicar
— O papo tá ótimo, mas eu prometi um café, e o meu já acabou, ou melhor, está frio e descendo com um gosto amargo, tenho certeza que você entende – mudei de assunto rapidamente, e ela pareceu entender
— Perfeitamente, sou profissional em fracassos amorosos, traições e afins
— Agora entendi a roupa – falei em menção ao seu traje de executiva, e ela sorriu da minha tentativa fracassada de humor
— Quisera eu que fosse algo com que já estivesse acostumada – fez uma careta – Estava vindo de uma reunião de negócios, chatíssima por sinal, quando encontrei uma guriazinha deste tamanho – fez um gesto mostrando uma pequena distância entre seus dedos polegar e indicador – Quase afogando os moradores de Belo Horizonte com suas lágrimas de amor
Dei um pequeno sorriso e continuamos conversando por algum tempo. Esqueci completamente que tinha prometido ir embora depois do primeiro café, Isabella era uma ótima companhia, me fez rir tanto que por alguns momentos eu me esqueci do motivo de estar ali com aquela gaúcha.
Depois de inúmeras desculpas para não falar mais sobre mim e o meu namoro, Isabella se viu forçada a falar um pouco sobre si.
Nascida em Florianópolis, mudou-se com os pais para Porto Alegre aos dez anos, exatamente uma década atrás, uma vez que tinha acabado de completar 20 anos. Veio para Belo Horizonte há pouco mais de seis meses, quando, por uma tragédia, ficou órfã e se viu obrigada a assumir os negócios do pai na cidade. Os pais de Isabella morreram em desabamento, quando visitavam uma obra da construtora da qual eram donos. Um erro de cálculo no projeto fez com que as estruturas do prédio ruíssem.
Apesar de ainda ser de certa forma recente, ela parecia já superar a grande perda que teve. Confessou-me que se afogava em trabalho para esquecer um pouco a dor. Cursava o segundo ano de Administração UFRS e pediu transferência para a UFMG, dando continuidade aos estudos. Era uma exigência deixada em testamento por seu pai: ela e o irmão mais velho, que cursava Engenharia Civil, deveriam se formar antes de assumirem a presidência de uma das maiores construtoras não só do país, mas de toda a América Latina.
Assustei-me quando olhei para fora da lanchonete e vi que já era noite, minha mãe ficaria uma arara caso ligasse e eu não estivesse em casa.
— Eu tenho que ir – falei, e Isabella concordou, pegando sua maleta e deixando algumas notas sobre a mesa para pagar a conta. Tentei protestar, mas ela foi irredutível
— Eu convidei, eu pago — deu fim ao assunto
Saímos para aquela noite que estava insuportavelmente fresca, ao contrário das sensações que eu tentava suprimir dentro de mim sem sucesso algum. Apesar da presença agradável de Isabella, eu ainda não conseguia me impedir de, a cada dois segundos, me lembrar daquele beijo.
— Posso te acompanhar até em casa, guria?
— Não deveria aceitar a ajuda de uma gaúcha-catarinense louca, mas eu não faço nem ideia de onde estou — falei, e ela riu – Só uma pergunta: se eu não sei onde estou, como vou te guiar até minha casa? — perguntei, e voltamos a rir
Eu não estava preocupada com o modo como encontraria o caminho de volta para casa, uma vez que sabia não estar muito longe. Mesmo que tivesse corrido como uma louca para sair do apartamento de Karina, ela não morava longe do meu condomínio.
Fomos andando, e não demorou muito para que eu avistasse a rua de Eduarda. Decidi cortar caminho por uma rua paralela para evitar passar por sua casa.
— Bem, chegamos – avisei quando paramos na porta do meu prédio
— Tais entregue! — brincou Isabella
— Isa, obrigada pela companhia, muito obrigada mesmo — agradeci
— Disponha, guria, sempre que precisar de um ombro para chorar ou alguém para conversar, estou à disposição – sorriu abraçando-me com carinho e logo depois se virou, indo embora
Havia acabado de virar as minhas costas quando ouvi-a chamando meu nome
— Manuela! — voltou até onde eu estava – Que cabeça a minha! Meus contatos – pegou um cartão do bolso do terninho e me entregou
Me deu um sorriso e virou-se novamente, indo embora.
Olhei o cartão onde lia-se seu nome e seus telefones de contato, bem como o seu e-mail. Guardei no bolso e entrei no condomínio.
Achei ótimo que meus pais não estariam em casa, assim poderia me deprimir à vontade sem ninguém pegando no meu pé ou tripudiando sobre a minha tristeza, como eu sabia que meu pai faria, usando o fato de o meu namoro ser com uma mulher como desculpa para o meu sofrimento.
Peguei o elevador e assustei-me quando as portas se abriram e avistei Eduarda sentada na porta do meu apartamento.
Quando me viu, ela levantou-se, vindo em minha direção.
— O que faz aqui? — perguntei rispidamente, dando um passo para trás antes que ela se aproximasse demais
— Eu precisava falar com você – respondeu, parando onde estava quando viu que eu havia recuado
— Falou certo, precisava! Vai embora, Eduarda
— Eu preciso me explicar, Manu
Soltei um riso amargo, doloroso
— Não, você não precisa explicar, eu vi – minha voz já dava sinais de alteração quando disse isso
— Por favor, Manu, me dá uma chance de falar, eu estou aqui a tarde toda te esperando. Fiquei preocupada, você saiu muito nervosa da casa da minha irmã.
— Me pergunto por que será, não é mesmo? — fui irônica
— Por favor... — repetiu
Suspirei resignada e caminhei em silêncio até a porta de casa procurando a chave pelos meus bolsos.
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