In Love With Her

3 Se assumir sem medo


Notas iniciais
mais um >.

EDUARDA


Assim que abri o portão de casa, fui atacada por uma bola gigante de pelos.

–- Princesa! Como é que tá o meu bebê hein?! — disse brincando com a minha vira-lata que tentava a todo custo me lamber.

Encontrando o 1º andar de casa vazio, presumi que minha irmã mais nova estivesse se arrumando para ir á escola.

Subi até meu quarto, troquei de roupa e desci novamente até a cozinha

–- Jéssica, vem almoçar — chamei

E a resposta é não. Quem fez o almoço não fui eu. Minha mãe, apesar de sair para o trabalho antes que eu chegasse da escola, já deixava a comida "pronta para o consumo". Isso era ótimo, porque cozinhar nunca foi o meu forte.

–- Hum... o cheiro tá bom! — disse Jess se sentando á mesa junto comigo

–- Poisé, ela fez strogonoff de frango hoje

Comemos em silêncio. Jéssica e eu não convesávamos tanto assim. Nos dávamos bem, mas não éramos como melhores amigas confidentes. Eu tinha minha vida, minhas coisas e meus problemas e ela tinha os dela. Simples assim.

Confesso que nunca fui muito de conversar com minha família. Na verdade, nunca fui muito de conversar com ninguém. Mesmo com meus amigos foi uma eternidade até que eu conseguisse me soltar mais. Depois disso também, eles têm que me mandar calar a boca ás vezes.

Assim que terminamos de comer, Jess se despediu e foi para a escola. Nós estudávamos na mesma escola, porém, em turnos diferentes.

Tirei a mesa, lavei os pratos e arrumei a casa enquanto escutava Evanescence no volume máximo. Era uma das bandas que eu mais gostava e sabia quase todas as letras.

Assim que terminei minhas tarefas, liguei o computador e passei o resto da tarde na internet.

Estava adiantando uma parte de um trabalho enorme de Biologia que teria que entregar dali a duas semanas, quando me chamaram no MSN

Ana diz: Amg, vamo no cinema?

Duda diz: vamo, q dia?

Ana diz: sei lá, a gente combina com os meninos, tem uns 500 anos que não vou no cinema

Duda diz: KKKKKKKK' exagerada nem um pouco né?

Ana diz: KK' né? tá fazendo oq aí?

Duda diz: trabalho de bio

Ana diz: que trabalho o_O

Duda diz: vc não tem jeito msm, fica tranquila que amanhã eu te passo o tema, tem tempo pra fazer ainda

Ana diz: quase mata a gente de susto. Ah, qnd chamar o Lu e o Rafa pra ir no cinema, a gente podia chamar a Manu tbm né?

Duda diz: claro, ela é bem legal

Ana diz: tbm achei. vc viu como os meninos lá da escola tavam olhando pra ela?

Duda diz: achei que só eu tinha reparado. mas não é pra menos né, ela é linda

Ana diz: iiih, tá mudando de time amiga?

Duda diz: nada a ver, só disse a verdade u.u

Ana diz: uhum... sei. tenho que sair aki :(

Duda diz: ok, até amanhã então

Ana diz: bjos até amanhã

Duda diz: bjos


*****


Meus amigos tinham cada ideia! Parecia até um complô contra mim! De uns tempos pra cá eles andavam insistindo muito nessa coisa sobre eu passar a gostar de garotas. Eu não podia nem achar uma menina bonita e comentar com eles que começava o ataque.

Rafael era o pior de todos, só pelo fato de ser gay, ele achava que podia enxergar todos que não eram totalmente héteros num raio de 1 Km. Segundo ele, seu gaydar nunca falhava e estava começando a apitar sempre que eu estava por perto.

Eu ficava meio incomodada com aquilo sabe? Não que eu tivesse algum tipo de preconceito contra homossexuais. Na verdade eu tinha verdadeira aversão a qualquer tipo de preconceito. Odiava piadinhas e qualquer outra coisa preconceituosa.

O que me deixava com a pulga atrás orelha mesmo, eram as coisas que vinham acontecendo comigo. Pensamentos estranhos, sonhos estranhos, sensações estranhas...

Isso, sem contar que eu estava "reparando demais" em algumas... er, pessoas.

Bom, de qualquer modo, era melhor deixar isso pra lá e me concentrar em outras coisas.



MANUELA


Por algum milagre desconhecido, consegui levantar da cama bem cedo para não me atrasar novamente para a escola.

Tinha passado a tarde e boa parte da noite terminando de arrumar minhas coisas que ainda estavam encaixotadas por causa da mudança. Finalizei a arrumação, já passava de 2h da manhã e e fui dormir exausta.

Mesmo assim, lá estava eu, de pé ás 6h me arrumando para a escola.

–- Já falei que não, Rafael! — a primeira coisa que escutei ao entrar na sala de aula ainda um pouco vazia, foi a voz de Duda.

–- Bom dia Manu — Rafa veio em minha direção párecendo tentar fugir da conversa com a Duda

–- Bom dia. Tudo bem com vocês?

–- Tudo — responderam em uníssono, o que fez Duda virar-se para Rafael com uma cara de poucos amigos e ir sentar-se no mesmo lugar do dia anterior

–- O que houve? — perguntei para Rafa

–- O aniversário da Duda é daqui algumas semanas, mas a teimosa não quer festa de jeito nenhum.

–- Porque?

–- Ela muito anti-social!

–- Eu ouvi isso — respondeu Eduarda ainda de cara amarrada.

Como ela ficava fofa daquele jeito!

Alguns minutos mais tarde, Ana chegou sendo logo seguida por um homem de uns 26 anos aproximadamente. Ele tinha cabelos pretos arrumados com gel, alguns diriam que ele era bem bonito, tinha uma pele morena e braços fortes e malhados onde podia-se ver uma tatuagem um tanto exibicionista de um dragão em um deles. Aposto que ele deixava quase todas as meninas caidinhas por ele.

–- Alguém me acode! — parece que não só as meninas, pensei, ao ouvir Rafael sussurrar


Ugh! O que eles tanto viam nesse cara?!


–- Quem é esse? — perguntei para Ana que quase babava

–- O Marcos, nosso lindo e gostoso — revirei os olhos — professor de educação física

–- Vamos descer para a quadra — o prefessor começou a falar — mas sem bagunça porque o resto do prédio está em aula.

Foi o mesmo que dizer: Ajam como babuínos, bobocas, baubulciando em bando.


Já mencionei que adoro Harry Potter?


Alguns minutos depois, chegamos a uma grande quadra poliesportiva e os meninos já estavam todos animadinhos pensando em futebol.

Segui Ana e Rafa até as arquibancadas estranhando o fato de Duda não estar conosco

–- Hoje nós vamos jogar vôlei — anunciou o professsor ganhando alguns resmungos e reclamações por parte dos meninos

–- Somos obrigados a jogar? — pergutei a Rafa

–- Não, você só precisa ir bem na prova teórica e tá de boa

Separaram os times e lá estava Eduarda, toda alegre no meio de um bando de garotos. Ela e mais outra que pensei se chamar Amanda, eram as únicas garotas jogando.

Passei a aula inteira observando Duda. Como ela se movia para alcançar a bola antes que a mesma caísse no chão, as lindas caretas de frustração toda vez que o time adversário marcava ponto.

O engraçado era que, mesmo que Duda fosse a pessoa mais desastrada que eu já havia visto, quando jogava vôlei ela era simplesmente perfeita, nenhum erro, nenhum acidente desastroso.

Quando terminou o jogo, o time de Duda ganhou de lavada, a maioria dos pontos sendo ela mesma quem havia feito.

Ela caminhava em nossa direção com os braços levantados enquanto cantava junto com os colegas de time: "We are the champions".

Eu comecei a rir daquilo junto com Rafa e Ana mas paralisei ao olhar novamente para Duda. Os braços levantados fizeram que sua blusa também se levantasse me dando uma visão de matar de sua barriga perfeita e definida.

O que me espantou foi que eu não fazia o tipo "lésbica tarada" que ficava babando em cima das garotas e até as acompanhava com o olhar quando passavam, isso era coisa da Júlia. Mas não pude evitar de ficar ali parada igual uma boba olhando para aquela barriga sexy da Duda.

–- Quer um babador? — quase pulei de susto quando Rafael sussurrou no meu ouvido, me deixando completamente vermelha por ter sido pega

–- Hã...c-como?

–- Não adianta fingir, eu vi como você ficou olhando pra ela durante o jogo inteiro

–- E-eu... er — comecei a coçar a cabeça de nervosismo ficando cada vez mais envergonhada

–- Ei, relaxa, tá tudo bem você não querer sair do armário, mas deveria dar menos bandeira — riu da minha cara de lerda

–- Não, eu acho que devia ter contado pra vocês da minha er... orientação sexual. A gente se conhece há apenas dois dias mas eu sinto que posso confiar em vocês, como se fôssemos velhos amigos

–- Que bom saber que sente assim, porque eu me sinto da mesma forma, parece que já te conheço há um bom tempo.

Duda nos alcançou e encerramos a conversa.

–- Ei, parabéns! Você é ótima no vôlei — disse quando ela chegou perto

–- O-obrigada Manu, mas foi trabalho em equipe — ela ainda era modesta!

Ainda faltavam alguns minutos para acabar a aula, então Duda foi para o vestiário tomar uma ducha e tirar o suor do corpo.

Enquanto isso, me sentei novamente na arquibancada e fiquei conversando com Ana e Rafa.

O professor tinha acabado de nos mandar voltar para a sala quando alguém chamou?

–- Ei, novata!



EDUARDA


Estava saindo do vestiário feminino e indo em direção aos meus amigos para voltarmos á sala de aula e vi Gabriel, um dos meus colegas metido a gostosão conversando com eles. Na verdade, ele parecia se dirigir apenas á Manuela.

–- Então o que você me diz? — perguntou com um sorriso presunçoso que morreu com a resposta de Manuela

–- Desculpa, mas não, obrigada

–- Porque não? Você já tem namorado?

–- Não

– Então porque não quer sair comigo? Eu sou um dos garotos mais bonitos da escola, você devia aceitar — esse garoto se acha!

– Não, sério, eu não quero

– Você é sapatão ou alguma coisa assim? — perguntou rindo — Porque qualquer garota no seu lugar ia querer ficar comigo

– Primeiro, eu não sou qualquer garota

– Então você é sapatão? — ele a interrompeu e ao mesmo tempo ignorou o que ela tinha dito

– Na verdade sou

– O quê? — o queixo do garoto parecia que iria alcançar o chão a qualquer momento e aposto que o meu também não estava muito longe

– Isso mesmo que você acabou de ouvir meu bem. Eu sou gay tá legal? E mesmo que não fosse, eu nunca sairia com você, não gosto de gente que se acha superior aos outros

Gabriel arregalou os olhos com a resposta que recebeu e, sem dizer mais nada, saiu bufando e pisando forte pela quadra enquanto Rafa e Ana se dobravam de tanto rir do garoto.

Olhei para Manuela que não parecia nem um pouco arrependida do que tinha acabado de dizer. Percebendo o meu olhar sobre si, ela me olhou de volta com um sorriso forçado, provavelmente esperando alguma reação negativa ao que ela acabara de revelar. Abri um sorriso encorajador mostrando que o fato de ela ser gay não me incomodava nem um pouco e ela pareceu relaxar.

Voltamos para a sala em silêncio enquanto Ana e Rafa ainda riam ás nossas costas.

No momento em que Manu disse aquelas palavras para Gabriel, eu senti uma enorme admiração por ela. Admirei sua coragem de se assumir lésbica sem se importar com o que os outros pensariam.

E lá no fundo, mesmo sem entender porque, tive uma sensação de felicidade por ela gostar de garotas.


O segundo horário passou em um tédio nauseante com a professora de História falando incessantemente sobre a Revolução Francesa.

O terceiro horário foi vago já que o professor de Química havia faltado. Infelizmente, a coordenadora não deixou subir o horário para sairmos mais cedo, então ficamos em sala conversando até bater o sinal para o recreio.

–- Você não se importa? — perguntou Manu de repente

–- Com o quê?

–- Eu ser...

–- Gay? Não, pra mim você vai continuar sendo a garota legal que prometeu me levar pra conhecer o mar — respondi sorrindo — E quero que saiba que eu te admiro por ter tido coragem de falar

–- Sabe, eu cansei de me esconder. Quando estava no Rio, eu sempre mentia dizendo que eu era hétero com medo de meus pais não me aceitarem. Mas agora que eles sabem, eu não minto mais.

–- Quer dizer que agora seus pais te aceitam?

–- Nem um pouco! Eles acham que eu estou doente, até queriam me levar num psicólogo

–- Nossa, que barra

–- Poisé, meu pai só aceitou trabalhar aqui em Belo Horizonte para "me afastar das más influências"

Ela me contou toda a história de como se assumiu, a briga com seus pais, a mudança para cá. E a cada minuto, meu respeito por aquela garota crescia cada vez mais. Era incrível como ela se mantinha forte com tudo aquilo acontecendo em sua vida. Ninguém nunca poderia dizer que ela era uma garota fraca.


Notas finais
reviews?