In Love With Her
47 O perdão
Notas iniciais
MANUELA
Nos despedimos dos meninos e eu me virei para o portão, procurando a chave dentro da bolsa que levei para a praia com toalha, protetor solar, etc. Duda pulava de um lado para o outro, como uma criança hiperativa, ela estava apertada para ir ao banheiro e eu tive que me segurar para não rir da sua carinha aflita.
–-- Achei! — anunciei depois do que, para Duda, foram torturantes trinta segundos de espera
Abri o portão dando passagem para ela, que ainda teve que esperar até que eu abrisse a porta da frente.
–-- Onde fica? — perguntou em desespero
–-- Primeira porta à sua esquerda — antes que eu pudesse terminar de falar, ela já corria em direção ao banheiro, me fazendo soltar uma gargalhada.
Fui até meu quarto guardar nossas coisas. Quando voltei, ela estava saindo do banheiro com uma expressão de alívio no rosto.
–-- Gostei da decoração — Duda soltou depois de algum tempo passeando pela sala, observando tudo ali.
–-- É um dos hobbies preferidos da D. Marina — respondi lembrando que minha mãe havia ligado para Lúcia, a nossa antiga diarista, orientando-a a pegar a chave reserva de casa com a minha avó para colocar tudo do jeito que ela gostava e dar uma faxina antes que chegássemos de BH.
Apesar de termos nos mudado, meus pais optaram por não alugar nem vender a casa justamente para que pudéssemos vir passar férias sempre que quiséssemos sem o incomodo de ficar na casa de parentes ou de pagar um hotel.
–-- E por falar nisso, onde ela tá? Ela já sabe da minha vinda? — Duda perguntou, preocupada
–-- Sim, ela sabe que você tá aqui, inclusive mandou que eu te acomodasse no quarto de hóspedes — respondi a segunda pergunta, ignorando a primeira deliberadamente. Passei o dia todo evitando pensar nisso, me concentrei apenas na presença de Duda ao meu lado, e funcionou perfeitamente.
–-- Manu...? — ela não precisou perguntar de novo para que eu identificasse o tom de preocupação em sua voz
–-- Não se preocupe, tá tudo bem... É só que... Ela está em Petrópolis — suspirei, me deixando cair sentada no sofá — Foi negociar a venda da casa de lá. Deve voltar amanhã à tarde
Duda me olhou, entendendo o que eu queria dizer com aquilo, e sentou-se ao meu lado, pegando minhas mãos nas suas e pedindo que eu a olhasse. Meus pais decidiram que vender a casa que tínhamos em Petrópolis e depositar o dinheiro da venda no que eles chamavam de "rendimentos para o futuro da Manuela" era a melhor decisão a ser tomada mediante a separação deles.
–-- Eles vão mesmo se separar, não é? — eu anuí com a cabeça, tentando ignorar o sentimento de culpa que começava a voltar — Ei, pode ir tirando essas minhocas da cabeça! Isso não tem nada a ver com você. É entre seus pais, e eu tenho certeza que a sua mãe já te disse isso — apenas com essas poucas palavras, Eduarda já me trazia uma paz de espírito tão grande que eu não sabia explicar como ela conseguia fazer aquilo.
–-- Como foi que eu consegui passar tanto tempo sem você, hein? — perguntei com um sorriso leve, e já mudando de assunto para não deixá-la preocupada, e também porque não queria pensar naquilo — Eu tô com fome, o que acha de uma pizza? — perguntei
–-- Acho perfeito! Mais perfeito ainda se tiver um filme pra gente ver — respondeu divertida, me fazendo rir com seu jeitinho
–-- Mas é muito folgada hein! Vem, vou te mostrar meu quarto e você escolhe um filme pra gente ver — saí puxando-a pela casa em direção ao quarto
Pelo fato de termos deixado a casa com quase tudo que tínhamos, uma vez que era mais prático comprar novos móveis do que levar os velhos para Belo Horizonte, meu quarto continuava praticamente o mesmo de quando ainda morava ali, a única diferença eram meus objetos pessoais que eu tinha levado embora, deixando a estante completamente vazia.
Mas o que nos interessava, era a tv e o aparelho de dvd afixados na parede oposta a minha cama.
–-- Onde estão? — Duda me questionou, olhando a estante vazia e eu fui até o guarda-roupas, buscando os poucos dvd's que conseguira colocar na mala. Ela teria que se virar com a falta de opções. — Só estes? — reclamou vendo que não tinha nenhum de terror e fazendo um bico lindo
–-- Não faz bico, amor — me aproximei sorrindo para ela
–-- Ou o quê? — perguntou já adivinhando minhas intenções
–-- Ou eu me apaixono — passei os braços pelo seu pescoço, usando-a para me içar e ficar mais próxima do meu objetivo
–-- Mais? — sorriu-me sacana e ganhou um pequeno puxão nos cabelos da nuca que rendeu um estremecimento que eu não deixei de notar
–-- Não fica se achan- antes que eu pudesse terminar, braços fortes passaram por minha cintura, me tirando do chão e lábios macios tomaram os meus com delicadeza em um beijo terno e carinhoso, como só Duda sabia fazer
–-- Eu te amo — sussurrou roçando os lábios nos meus e me devolvendo ao chão após o beijo
–-- Também te amo — respondi, fazendo coro como meu estômago que decidiu se rebelar na hora, nos fazendo rir e trazendo lembranças daquela manhã depois da nossa primeira noite
–-- Tá com fome, né amor? A desnaturada da sua namorada nem te deixou pedir a pizza ainda! — Duda disse às gargalhadas
–-- Bem lembrado. Vai escolhendo aí qual filme quer ver que eu vou ligar para a pizzaria — peguei o celular no bolso e procurei o telefone na lista de contatos — Meia quatro queijos e meia calabresa? — perguntei enquanto o número chamava, Duda confirmou e rapidamente eu fiz o pedido
–-- Manu, você só trouxe filme ruim! — reclamou
–-- Só filme ruim? Deixa de ser chata e escolhe logo! Eu vou tomar um banho rapidinho e já volto, fica à vontade — peguei uma muda de roupas, minha toalha e fui direto para o banheiro tirar a areia do corpo, que já começava a me incomodar bastante.
Saí do banho e vesti uma camiseta qualquer e um short de tecido leve.
–-- Sua vez — falei indo até uma gaveta e pegando uma blusa que ficava grande em mim, uma calcinha nova e um short para que ela vestisse — Escolheu? — perguntei, entregando as roupas para ela, que apenas depositou-as na cama enquanto analisava minuciosamente dois filmes em suas mãos
–-- Achei dois filmes muito bons no meio de todos aqueles ruins que você me entregou, mas não consigo me decidir — falou sem desviar o olhar, fazendo com que eu conferisse os títulos também.
–-- Meu Deus! Realmente uma escolha difícil entre esses dois filmes tão complexos e interessantes — ironizei, rindo de sua cara
"Procurando Nemo" e "Meu Malvado Favorito". Esses eram os títulos dos filmes, que aliás, nem eram meus, eu havia levado para o Rio porque tinham ido para Belo Horizonte no meio das minhas coisas, mas pertenciam à minha prima Camilla.
Dez minutos depois, após muitas discussões consigo mesma a respeito dos prós e contras de cada filme, Eduarda entrou no banheiro, ainda sem decidir qual deles assistiríamos.
Deixei-a tomar o banho dela e fui arrumar as coisas para comermos, logo a pizza chegaria. Peguei pratos, talheres, dois copos e uma bandeja que minha mãe gostava de usar para servir café na cama. Levei tudo para o quarto e sentei na cama, esperando Duda e a pizza para darmos inicio aos trabalhos.
A pizza chegou antes que Eduarda terminasse o banho, constatei ao ouvir o som da campainha. Peguei o dinheiro e fui pegar a pizza e o refrigerante que tinha pedido.
–-- Dessa vez vocês estão de parabéns pela rapidez na entrega — brinquei com o entregador enquanto pagava pela pizza.
Tive uma pequena dificuldade para equilibrar a caixa da pizza, que cheirava maravilhosamente bem, enquanto abria a porta da frente que havia batido quando eu saí.
–-- Amor? — chamei entrando no quarto — A pizza cheg — me calei, engolindo o restante da frase com a visão que tive ao empurrar a porta.
Era atormentador olhar para Eduarda, ali, nua na minha frente depois de tanto tempo. Tudo bem que tinha a visto mais de biquini do que propriamente vestida nas últimas vinte e quatro horas. Mas me deparar com aquele corpo perfeito outra vez, me fez sentir um arrepio pela espinha. Congelei na porta enquanto acompanhava com os olhos as pequenas gotículas de água que ainda escorriam pela pele negra. Tudo isso se passou em apenas alguns milésimos de segundo, antes que Eduarda se virasse em minha direção, exibindo seus seios e me fazendo salivar.
–-- Ma... Manu... E-e-eu... Eu... Eu — Como não podia deixar de ser, Eduarda começou a gaguejar nervosamente, a cara de embaraço dela era cômica ao me ver observando-a com a pizza e o refrigerante esquecidos nas mãos.
Logo ela deu um jeito de se cobrir com a toalha, quebrando o encanto que me mantinha imóvel qual uma estátua.
–-- É... a pizza — falei colocando a caixa e a garrafa de refrigerante sobre a cômoda — Você quer que eu saia pra você se vestir? — perguntei
–-- N-não precisa, eu me troco no banheiro... É que... eu acabei esquecendo as roupas aqui — apontou a blusa em cima da cama, já abaixando-se para pegá-la
Ela já estava me dando as costas quando eu soltei um pequeno riso e verbalizei meu pensamento sem querer:
–-- Não é como se tivesse algo aí que eu já não tenha visto
–-- Como é? — Duda acabou escutando, o que eu tenho certeza que me rendeu um rubor pela face
–-- O que foi? — me fiz de desentendida — Você não tava indo se vestir?
–-- Tava, mas acho que vou vestir aqui mesmo — falou, deixando a toalha cair e me deixando boquiaberta — Sabe como é né? Não é como se tivesse algo aqui que você já não tenha visto — ironizou, rindo da minha cara de bocó.
Ela se vestiu tão rápido que antes que eu pudesse pensar em fazer algo, Duda já estava ao meu lado secando os cabelos curtos com a toalha e dizendo algo que eu não saberia dizer o que era.
Abstraí meus pensamentos nada puros para com a minha namorada e voltei minha atenção para o que ela dizia
–--... Tudo bem?
–-- Ah... ahn? — perguntei brilhantemente
–-- Eu perguntei se tava tudo bem se a gente visse o "Meu Malvado Favorito"
–-- Claro, claro. Serve a gente enquanto eu coloco o dvd? — pedi e ela assentiu
Logo estávamos as duas deitadas na minha pequena cama de solteiro, degustando a pizza e rindo do filme, enquanto discutíamos os prós e contras de se adotar um Minion. Foi no meio de uma dessas discussões que eu acabei, sabe-se lá como, sentada sobre o ventre de Eduarda com uma perna de cada lado do seu corpo fazendo cócegas em sua barriga.
Não tínhamos notado a posição até que um movimento meu provocou um som bem característico vindo da garganta da minha namorada. Não resisti em beijá-la e o que era só uma brincadeira acabou tomando rumos muito mais íntimos e mais interessantes.
Era tão bom poder estar ali com a Duda, saber que ela ainda era minha, que me amava, e fazia questão de dizer isso a cada poucos minutos como se temesse que eu fosse embora e a deixasse sozinha. A sensação de se sentir desejada, de ser querida, amada pela mulher que se ama, é uma das melhores que eu já vivenciei em meus míseros dezesseis anos de vida. E mesmo assim, eu não consegui ver uma maneira de sentir algo melhor que isso.
Em certo momento em que eu estava mais interessada em beijá-la do que em assistir o filme (que na verdade nós nem tínhamos percebido que acabara), Duda parou no meio do beijo e ficou me olhando de uma maneira engraçada.
–-- O que foi? — perguntei olhando para cima, uma vez que estava aninhada em seu peito
–-- Eu tava pensando aqui e... Posso te perguntar uma coisa? — ela estava sem jeito
–-- Claro, meu amor
–-- Você me perdoou mesmo? — parecia ter medo da resposta, mas eu sorri tranquilizando-a
–-- Sim, perdoei
Eu não disse aquilo apenas por falar. De fato perdoei Eduarda com todo meu coração, finalmente eu havia conseguido me livrar do sentimento de traição e de abandono que tomava conta de mim nos últimos tempos. Ela conseguiu recuperar a minha confiança, já que meu amor nunca havia deixado de ser seu.
–-- Tem certeza? Você nem perguntou nada sobre... er... sobre... você sabe
–-- Você quer falar sobre isso? — perguntei apoiando-me em um cotovelo e ficando da mesma altura que ela para poder fitá-la
–-- Na verdade, não. Eu gostaria de esquecer se pudesse
–-- Então tudo bem, é passado, Duda. Desde que você prometa nunca mais sair da linha um 'tiquinho' que for — ameacei falsamente, mas ela sabia que tinha um fundo de verdade — Eu te perdoo pelo que aconteceu, vamos passar uma borracha nisso.
–-- Promete?
–-- Prometo.
–-- Jura juradinho? — imitou a menininha do filme, me fazendo rir antes de beijá-la.
–-- Juro juradinho.
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