In Love With Her
44 O Churrasco da Bia - parte II
Notas iniciais
EDUARDA
Voltei à mesa com Júlia como se nada tivesse acontecido e tomei um gole do meu refrigerante que já estava ali há tanto tempo que já tinha esquentado. Depois disso, o clima na mesa ficou um pouco tenso. Julia e Manuela pareciam ter uma verdadeira discussão silenciosa, comunicando-se apenas com os olhares. Juninho e Jack falavam sobre um assunto qualquer e tentavam me incluir na conversa, mas eu não prestava muita atenção neles, estava perdida em pensamentos conflituosos.
Depois do que eu aprontei com Natalia, a Manuela nem mesmo me olhava nos olhos, o que me deu a terrível sensação de ter feito a coisa errada.
Parecendo se cansar de encarar Manuela, Julia falou abruptamente:
– Vamos! Desembucha logo, Manuela!
– Você sabe muito bem o que você fez, não é nenhuma criança – Manuela retrucou
Okay, será que eu perdi alguma coisa quando estava dando um jeitinho na Natalia? Aquilo parecia a continuação de uma conversa da qual eu havia perdido o início.
– Tudo bem! Eu sei que não deveria trazer a Duda aqui, mas foi mais forte do que eu! Não aguentava mais ver você chorando por causa dela. Ou você pensa que eu não percebo quando você anda chorando? Além disso, só de ver o estado lastimável que a Natalia saiu daqui, vale à pena aguentar o seu mau humor por eu ter convencido a Duda a vir pra cá — Julia respondeu, se justificando
Opa! Peraí! Desde quando o assunto sou eu? E desde quando Manuela anda chorando por minha causa? Depois dos coices que eu levei dentro da casa mais cedo, podia apostar que o choro, provavelmente era saudade da tal Isabella, que ela deveria estar namorando, ou ficando, ou… Sei lá! Preferia não pensar sobre isso, era o melhor para a minha sanidade mental.
–-- O quê? — Manu ficou vermelha ao ouvir o que a amiga disse — Eu não estou falando da Eduarda, apesar de querer uma boa explicação para isso também. Eu estou falando da Alice e você sabe muito bem disso!
–-- Manu, não torra! — Júlia respondeu, dando mais um gole em sua bebida e se levantado da mesa
–-- Argh! Ela não muda! — Manu reclamou quando Julia nos deu as costas e saiu andando
–-- Estamos falando da Júlia. O que você acha que aconteceu por aqui depois que você foi pra Belo Horizonte? Um milagre? — Jack falou, tendo o apoio de Juninho
Algum tempo depois, Beatriz foi até nossa mesa, e com uma cara contrariada, nos convidou a ir cantar o "parabéns". Jack, Juninho e Caio, que havia acabado de voltar com uma cerveja na mão, riram da amiga e eu fiquei sem entender. Olhei de relance para Manuela e pela primeira vez desde que deixamos aquele quarto, eu vi um vestígio de sorriso em seu rosto.
Enquanto caminhávamos em direção à sala de jogos de Bia, os irmãos me deram um pequeno resumo do motivo do mau humor dela: Beatriz nunca gostou dessa parte das festas. Mas sua mãe e avó faziam questão do tradicional bolo acompanhado da famosa musiquinha, e sempre apareciam em suas festas apenas para esse momento, matando a garota de constrangimento por tratá-la como o bebê da família nessa ocasião.
Quando chegamos ao salão, quase todos os convidados da festa já estavam lá. Dei uma olhada melhor no ambiente e percebi que havia pessoas de todo o tipo reunidas ali, a Bia era realmente querida por todos. Localizei a Julia em um canto, com os braços sobre os ombros de outra garota enquanto falava algo que devia ser engraçado em seu ouvido. A menina da piscina olhava as duas com indiferença. Olhei para Manuela e vi que ela também observava a amiga.
–-- Deixa isso pra lá, Manu — tentei puxar assunto, visto que não tínhamos trocado uma palavra sequer desde o quarto e eu sabia que ela não estava bem depois da aparição da Natalia.
–-- A Julia é uma idiota — resmungou
–-- Mas é a sua melhor amiga
–-- Pois é, infelizmente — falou dando um sorriso de leve antes de começarmos a cantar o "parabéns" para Bia.
Eu ri bastante quando finalmente entendi o motivo do mau humor de Beatriz. Sua mãe passou entregando aqueles chapéus de papel em forma de cone, enquanto sua avó, uma senhora tão simpática quanto a neta, nos entregava várias línguas de sogra e dizia para soprarmos para a Biazinha dela. Aquilo foi motivo de risos para todos os presentes, que pareciam já estar acostumados com aquele tipo de coisa.
–-- Isso só é engraçado porque a Bia é a pessoa mais alegre e alto astral do mundo e ver a cara dela de contrariada é impagável — Manu comentou quando voltávamos para fora da casa. Mas não antes que eu pegasse a minha parte do bolo de chocolate.
Manu me olhava comer com uma expressão engraçada e assim que me terminei, ela soltou uma gargalhada sonora.
–-- O quê? — perguntei sem entender
–-- Seu rosto tá sujo — riu novamente — De novo!
Passei a língua no canto da boca, tentando me limpar e vi a expressão no rosto de Manuela mudar completamente. De brincalhona, ela passou a me encarar seriamente, tentando disfarçar o motivo daquela mudança abrupta.
–-- Saiu? — perguntei, percebendo o significado do olhar que ela me lançava e decidi me aproveitar do fato de estarmos sozinhas naquele momento.
–-- Não, ainda tá sujo — respondeu com dificuldade quando me aproximei de seu rosto
–-- Limpa pra mim? — sussurrei, fingindo inocência e ficando a apenas alguns milímetros de sua boca
–-- Cla-claro — Manu respondeu com dificuldade e eu sorri, vendo que ainda causava os mesmos efeitos na minha baixinha.
Novamente, senti que ela queria aquele beijo tanto quanto eu, mas, novamente fomos interrompidas. Dessa vez, foram seus amigos que se aproximavam, fazendo com que ela apenas levasse sua mão ao canto da minha boca e tirasse o chocolate que havia ali com a ponta do indicador.
Senti meu corpo esquentar quando vi ela levar o dedo à boca e lamber disfarçadamente, pensando que ninguém tinha visto, mas eu captara aquele movimento perfeitamente.
Manu contou a maldita estória do sorvete de chocolate para os amigos dela.
–-- Sabe o que não é nem um pouco engraçado? — perguntei
–-- O quê?
–-- Você falar para todo mundo que eu não sei comer sem me sujar. É uma mentira do tamanho do mundo! — reclamei e Manuela riu mais ainda da minha cara. Eu ia reclamar quando Julia chegou igual uma louca e praticamente me carregou para longe de Manu.
–-- Vocês se acertaram? — perguntou quando estávamos longe o suficiente para que Manuela não pudesse ouvir
–-- Nos acertar como, se a sua amiga diz que só quer a minha amizade?
–-- O quê? Será que eu vou ter que trancar as duas em um quarto e só deixar sair quando reatarem o namoro?
–-- A culpa não é minha — reclamei — A Manuela disse com todas as letras que gosta de mim como amiga, apesar de demonstrar o contrário com as suas ações. Eu não sei mais no que acreditar, Julia
–-- E o que você fez quando ela disse que só queria amizade? Pelo amor de Deus, fala que você se declarou e pediu outra chance
–-- Claro, e agora nós vamos marcar a data do casamento — fui sarcástica, a despeito da vontade de ter feito exatamente o que ela falou — Óbvio que depois do balde de água fria que ela me jogou, eu agi como se me sentisse da mesma forma
–-- E pensar que eu te defendi quando a Ana disse que você era lerda... Se arrependimento matasse — Júlia me olhou como se estivesse decepcionada — Acorda, mulher! — o grito que veio em seguida quase me deixou surda — Será que eu vou ter que fazer tudo sozinha? Acho que vai ser o jeito, porque eu preciso que vocês voltem para a Manuela ficar de bom humor e parar de descontar tudo em mim.
–-- Não Julia, deixa tudo como tá, se a Manu não me quer mais, eu vou respeitar isso
–-- De jeito nenhum! Coloca uma coisa na sua cabeça: a Manu te ama! Cadê a menina que veio de BH para reconquistar a namorada? Sumiu? — eu já ia responder, mas ela não me deu tempo — Olha só o que a gente vai fazer...
***
–-- Julia, tem certeza que isso vai dar certo? — perguntei ainda insegura com a ideia dela
–-- Absoluta... E não se preocupe, conheço a amiga que tenho e sei que ela não é de ferro... Além do mais, não precisa ter medo que a Gaby não morde... se você não pedir — falou maliciosa
–-- Mas você não disse que essa sua amiga é hétero?
–-- E é mesmo... Porém, é realmente uma pena que a Manuela não tenha acesso a essa informação. Agora vai lá e arrasa que eu vou levar sua garota para a piscina
MANUELA
Eu definitivamente não estava entendendo mais nada do que acontecia. Julia insistiu tanto para irmos para a piscina que acabei cedendo, esquecendo momentaneamente que deveria estar brava com ela pela Alice. O calor que fazia tornou fácil a decisão de sucumbir à piscina da Bia e decidi acompanhar meus amigos entrando na água.
Estava conversando com a Jack sobre um assunto qualquer quando vi aquilo. Deixei a minha amiga falando sozinha enquanto observava a cena que se passava diante dos meus olhos.
–-- Ela só pode estar de brincadeira comigo! — exclamei, fazendo Jack olhar na mesma direção que eu
–-- Uau! Você tá bem hein, Manu, olha aquelas pernas... Olha, até eu que não gosto... — mais uma vez, deixei de prestar atenção ao que Jaqueline falava
Eduarda estava na beirada da piscina, tirando a roupa que usava por cima do biquíni (que na minha opinião era minúsculo). Enquanto tirava a blusa e o shorts, ela conversava animadamente com uma garota que eu não conhecia. Eu acho que estava babando quando o Caio me cutucou, rindo da minha cara de boba. Mas era covardia demais falar que só queria amizade, me provocar praticamente pedindo um beijo e logo depois exibir aquele corpo perfeito para que eu pudesse ver.
Duda era o centro das atenções, parecia que todo mundo tinha parado para vê-la só de biquíni, mas ela estava alheia às reações que causou à sua volta, parecia mesmo concentrada na conversa com a atirada, que faltava se jogar no colo dela.
Que raiva daquela garota! Com que direito ela demonstrava aquela intimidade toda com a minha... com a minha... amiga! É isso! Ela não tinha o direito de dar em cima da minha amiga.
Sempre fui fã da teoria de que existe um limite para tudo, e eu cheguei ao meu naquele exato momento. Eduarda se sentara em uma das espreguiçadeiras ao redor da piscina e a outra garota se dispôs "gentilmente" a espalhar protetor solar em suas costas, mas ela estava apalpando demais para quem só queria ser gentil e fazer um favor.
–-- Já chega! Eu vou acabar com essa palhaçada, e é agora! — falei, indo em direção à escada da piscina
–-- Manu, espera, você vai aonde maluca? — Jack perguntou, mas eu não dei ouvidos
Nem me preocupei em pegar uma toalha para me secar quando saí da água, o meu recado seria breve. Em passos rápidos, alcancei Eduarda e parei em sua frente de braços cruzados, a encarando.
–-- Você precisa de alguma coisa, Manu? — a cara de pau ainda teve a coragem de perguntar
–-- Na verdade, preciso — comecei a falar, mas fui interrompida
–-- Duda, só um minuto, tá fazendo muito calor — a atirada falou, saindo de trás de Eduarda e vindo parar ao meu lado — Me ajuda a tirar? Minhas mãos estão sujas de protetor — fez um gesto indicando a regata que usava
–-- Claro que ajudo, meu bem — Eduarda respondeu com um sorriso.
O meu sorriso, o sorriso que eu tanto amava nela. Ela não podia sorrir assim para outra, podia? Aquele sorriso costumava ser uma exclusividade minha...
Fiquei pasmada quando ela, com todo o cuidado, puxou a blusa da garota pela cabeça da mesma e depois ficou olhando seus seios — que quase pulavam para fora do biquíni, de tão desproporcionais que eram — descaradamente. Era como se eu não existisse, se não estivesse parada bem ali, a poucos centímetros das duas.
–-- Gosta do que vê? — a atirada teve a audácia de perguntar
Se antes eu já estava morrendo de raiva, aquilo foi o estopim de tudo. Não dei tempo de Eduarda responder:
–-- Que palhaçada é essa hein? Você não tem vergonha na cara não, Eduarda?
–-- Que foi que eu fiz agora? — ela perguntou com a cara mais inocente do mundo. Oh, vontade que eu tive de dar uns tapas naquela cara lavada! — A Gaby só estava me ajudando com o protetor pra eu não me queimar quando entrar na piscina
–-- Ah, a Gaby estava só te ajudando? — ironizei, encarando a garota
–-- Olha, não me entenda mal, o sol que tá fazendo não é brincadeira, principalmente para quem não está acostumada, igual a Dudinha que não é daqui, né, Duda? — eu não estava mais suportando ouvir a voz daquele ser, e a Eduarda ainda concordando com tudo que ela dizia — Tá muito calor! — repetiu, se abanando
–-- Realmente, tá muito quente — concordei — Mas nada melhor que uma piscina para apagar o fogo, não é mesmo? — perguntei antes de, deliberadamente, empurrar a garota na piscina
–-- Tá maluca, Manuela? — Duda me olhava, espantada
–-- Se eu tô maluca? Essa garota estava se atirando em você, ficou cega agora? — gritei com ela, sem me importar com a plateia que tínhamos.
–-- Ela só estava sendo gentil
–-- Eu sei muito bem a gentileza que ela queria te fazer! Você devia me agradecer por te livrar dela
–-- Acho que eu já sou grandinha o suficiente para me cuidar sozinha — Duda foi ríspida, repetindo o que eu havia dito a ela mais cedo
–-- Você estava gostando então, não estava? Pode falar, Eduarda, você adorou o jeito que ela deu em cima de você!
–-- E se eu estivesse? O que você tem com isso? — desafiou
–-- Eu na-nada... Mas como sua amiga, eu tenho a obrigação de te tirar das roubadas, e aquela garota — apontei para ela, que era amparada por um garoto que a ajudava a sair da piscina — É chave de cadeia... Você não iria querer ter nada com ela, ela não faz o seu tipo, mesmo
–-- Meu tipo? E qual você acha que é o meu tipo, Manuela?
–-- N-não s-sei — gaguejei antes de falar uma besteira enorme, mas consegui contornar a situação — Mas com certeza, não é o tipo dela que — eu continuaria dissertando brilhantemente sobre o porque de a atirada não fazer o tipo de Eduarda, mas ela me cortou com uma risada — O-o que foi? Tá rindo de quê?
–-- Você!
–-- Eu? O que tem de engraçado em mim? — questionei, confusa
–-- Isso tudo é ciúme? — e riu novamente, me deixando possessa
Eu definitivamente não estava com ciúme de Eduarda, nós éramos só amigas, eu não tinha que sentir ciúme dela com aquela lá.
–-- Deixa de ser ridícula, Duda! Eu não estou com ciúme — falei, provocando nela uma crise de risos — Ah, quer saber? Acho que o sol está mesmo te afetando — completei antes de pegar o pote de protetor solar de sua mão e despejar o restante de todo o seu conteúdo na cabeça dela — Isso vai ajudar!
E saí pisando firme, não acreditando no ridículo daquela situação. Eu? Com ciúme da Eduarda? Era demais pra mim
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