In Love With Her
15 Mães
Notas iniciais
MANUELA
É, fodeu!
Dona Drica bateu a porta e veio em nossa direção com uma cara de confusão. Tinha conhecido a minha sogra, que não sabia que era minha sogra, pouco mais de uma semana depois que a Duda e eu nos conhecemos, em um trabalho em grupo que tínhamos ido fazer na casa dela. Sempre muito simpática e gentil, não só comigo, mas com todos os amigos das filhas, a mãe da Eduarda era um amor de pessoa. Eu só esperava que continuasse sendo depois de me pegar no flagra com a filha dela.
—- O que vocês estão fazendo, meninas?
Antes que a mãe pudesse se aproximar demais, Duda levantou-se num salto, me puxando junto, e dando o que eu pensei ser a primeira desculpa que passou pela cabeça dela.
Nota mental: nunca mais deixar a Duda dar uma desculpa daquelas
—- Então, Manu... saiu? Digo... o cisco que entrou no seu olho quando você caiu do sofá? – perguntou me deixando mais confusa do que já estava
Fiz uma cara de: do que você está falando?
Duda me lançou um olhar que claramente dizia para eu colaborar, e assenti levemente.
—- Er.. saiu, saiu, sim, obrigada por me ajudar, estava incomodando muito – me apressei em falar
—- Então... mãe, como foi o trabalho? Muitas novidades? Algum projeto novo? – Duda foi até a mãe, que ainda nos olhava um tanto desconfiada, mas parecia surpresa com as perguntas da filha
Dona Drica trabalhava em uma organização filantrópica que ajudava pessoas em situação de rua. Ela, por ter começado o curso de medicina, se encarregava de um setor de projetos de atendimento médico a essas pessoas.
—- Tudo na mesma — respondeu — Aliás, porque tanto interesse no meu trabalho? Você nunca foi de perguntar sobre isso
—- Sei lá – riu nervosamente enquanto eu podia apostar que minhas bochechas vermelhas nos denunciavam – Só curiosidade
—- Hum... e vocês? O que estavam fazendo quando eu cheguei? Parecia que estavam no meio de uma luta livre – Dona Drica estreitou os olhos castanhos como os da filha, porém um pouco mais claros.
—- A Manu tava... hã... com um cisco no olho, e eu tava ajudando a tirar – cocei o olho apenas para disfarçar, já que não poderia dizer se ela tinha visto ou não o que estava acontecendo de verdade
—- É, estávamos vendo Titanic – apontei para a televisão tentando desviar o foco da desculpa esfarrapada, mas, infelizmente, os créditos já estavam passando na tela – Mas acabou de acabar
—- Entendi... Onde está a Jéssica?
—- Ela disse que ia dormir na casa da Bia – respondeu Eduarda
—- Ah, sim, ela tinha me falado que elas iam fazer algo como uma festa do pijama. Bem, meninas, vou subir e tomar um banho, porque estou só o pó – ela brincou, e pude respirar aliviada quando nos deu as costas, indo em direção às escadas.
—- Essa foi...
—-... por pouco – completei o pensamento de Duda, e rimos depois do aperto que passamos
—- Acho que ela surtaria se ficasse sabendo desse jeito – Eduarda sentou-se novamente no sofá
—- Tenho certeza que sim, nós temos que ser mais cuidadosas – falei, e ela concordou com a cabeça quando me sentei a uma distância segura
—- Às vezes, eu fico me perguntando: por que as coisas não podiam ser mais simples?
—- Que graça teria a vida sem um pouquinho de desafios? – perguntei com um sorriso
—- Graça nenhuma – ela riu, mas logo voltou a ficar séria
—- Que foi Duda?
—- Nada... é só que eu queria poder chegar em casa com você e te apresentar como minha namorada sem que meus pais me olhassem como se eu fosse uma decepção para eles – disse e abaixou a cabeça
—- Duda, não fica assim, seus pais te amam, e eu tenho certeza que quando chegar a hora de contar para eles, eles vão continuar te amando da mesma forma
—- Será mesmo, Manu? Eu tenho tanto medo de eles me odiarem por ser assim
—- É claro que eles não vão te odiar, eles podem ficar um pouco surpresos, sim, mas vão superar isso e vai ficar tudo bem, você vai ver
—- Espero que sim
—- Confia em mim. Eu tenho que ir, está ficando tarde e não avisei à minha mãe que estaria aqui – falei me levantando
—- Tudo bem, vou com você até seu condomínio
—- Não precisa, amor, é pertinho
—- Nada disso, eu te levo, é minha obrigação cuidar de você – respondeu séria
—- Então você só faz por obrigação? – perguntei, fazendo-a gargalhar
—- Não mesmo! É só uma desculpa para passar mais alguns minutinhos com você – falou, fazendo cara de sapeca, e eu ri – espera só um minuto que vou avisar a mamãe
—- Aproveita pra trocar esse short
—- Como é? — pela cara dela eu já sabia que tava curtindo com a minha cara
—- Não se faz de boba, Eduarda, esse short mostra quase metade da sua bunda
—- É mesmo? Não tinha percebido! — acho que a cara que eu fiz mostrou que não estava para brincadeira, porque ela logo tratou de se justificar — Calma, eu já ia trocar mesmo, só uso esse para ficar em casa, se meu pai me vir com isso na rua, ele infarta – ela disse, subindo a escada, enquanto eu reparava no short e naquela bunda que... senhor!
Duda me deixou em casa, e eu fui direto para o meu quarto terminar os deveres que teria que entregar no dia seguinte e tomar um banho.
Estava tentando concluir uma redação de Português quando ouvi baterem na porta do quarto.
—- Entra – falei, abaixando um pouco o volume do som, deixando AC/DC apenas como música de fundo
—- Pensei que não tinha ninguém em casa, até chegar no corredor e ouvir toda essa barulheira vindo do seu quarto – minha mãe sentou-se ao meu lado na beirada da cama e, por um milagre, parecia de bom humor
—- Barulheira, não! Isso é música e das boas – respondi
—- Cada um com seus gostos musicais. Onde você esteve, filha? Liguei a tarde toda e ninguém atendeu
—- Passei o dia na casa de uma amiga – falei desviando meus olhos para o caderno à minha frente
—- Manuela...
—- Mãe, por favor, não quero brigar com você hoje
—- Nem eu, filha, mas sabe o quanto me preocupo com você, isso não está certo
—- Você tem certeza que é comigo que está preocupada? E não com o que os outros vão pensar de você ter uma filha lésbica? Tem certeza disso? – perguntei
—- Pare de bobagens, Manuela, é claro que eu me preocupo com você, aliás, seu pai também se preocupa
—- Com a imagem dele – completei em voz baixa
—- Eu não entendo o por quê disso, sinceramente, não entendo mesmo, você é tão bonita, filha, aposto que muitos rapazes gostariam de namorar você
—- Mas eu gosto de garotas, mãe, sempre gostei
—- Faz um esforço, você já viu o filho da nossa vizinha lá do 301? Ele outro dia me perguntou se você estava namorando, parecia bem interessado, e ele é um amor de menino
—- Acontece que eu estou namorando, mãe – disse e, ao ver um sorriso convencido se formar no seu rosto, completei – E a minha namorada é a coisa mais perfeita do mundo – o sorriso morreu no ato
—- Isso não tá certo, Manuela, não tá!
Fazer meus pais me aceitarem do jeito que eu sou estava sendo mais difícil do que eu imaginei. Tentar fazer água atravessar rocha sólida era mais fácil que fazer eles entenderem que ser homossexual não era nenhuma doença ou anormalidade.
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