In Love With Her
37 Lembranças Dolorosas
MANUELA
Me surpreendi quando a vi parada ali do outro lado da rua na segunda de manhã. O lindo sorriso quase infantil que iluminou seu rosto ao me ver, fez-me lembrar de um dos grandes motivos para eu ter me apaixonado por Eduarda.
Ela atravessou para o meu lado da rua, ainda sorrindo, e falou:
— Oi!
— Oi, o que faz aqui? – perguntei curiosa
— Bem, eu achei que não teria problema se te acompanhasse até a escola, como sua amiga. Mas se for demais, se eu “tiver” passando dos limites da amizade, eu vou entender. Digo, se você não quiser a minha companhia, tudo bem, não precisa...
Não querer a companhia dela? Como eu poderia recusar a companhia de Eduarda?
— Não, Duda, tá tudo bem – abri um pequeno sorriso indicando que o que eu dissera era mesmo verdade
— Então... Vamos?
Conversamos bastante no caminho da escola, de forma descontraída e com direito a todas as risadas que a presença de Eduarda proporcionava a todos em sua volta.
No começo, pensei que não conseguiria voltar a ter uma amizade saudável com Duda depois de tê-la namorado, mas me enganei. Ela era uma pessoa tão cheia de vida e de fácil convivência que era difícil não se contagiar com a alegria que ela esbanjava, faça chuva ou faça sol. O fato de ela parar de forçar a barra, tentando me reconquistar, também ajudava bastante.
Era uma pena que nós não tivéssemos dado certo. Mas perdoar traição, infelizmente, ainda era uma coisa que eu não conseguia fazer. Mesmo que tenha sido só um beijo, mesmo sabendo que a Duda jamais teve a intenção de me trair com a Márcia, meu coração não aceitava isso.
Eu poderia simplesmente colocar a culpa na Duda por termos terminado, mas sabia que a culpa era minha. Minha e da minha insegurança, minha e do meu problema em confiar duas vezes depois de ter sido traída e enganada pela minha primeira namorada.
Antes de conhecer a Duda, eu ainda não sabia o que era amar alguém de verdade. Eu achava que sabia, mas estava redondamente enganada.
Quando me apaixonei pela Natália, pensei que ela era a mulher da minha vida, que nos casaríamos e teríamos um casal de filhos, um cachorro, um papagaio de nome Astolfo e um peixe-palhaço. Mas todo o sonho acabou quando ela começou a me trair sucessivas vezes e com vários homens e mulheres diferentes.
Eu era tão ingênua que, mesmo com o coração em frangalhos, a aceitava daquela forma. Até que um dia peguei-a na cama com alguém que julgava ser minha amiga e cheguei ao meu limite, dando fim ao nosso namoro.
Natália não aceitou o fim e me perseguiu por meses, tentando reatar, mas Júlia, que estava sempre ao meu lado, me fez ver o meu amor-próprio, há muito esquecido. Sofri demais com essa separação, era o primeiro relacionamento, a paixão, foi ela quem tirou a minha virgindade, a minha inocência e dignidade também.
Passei por tempos difíceis, ia de festa em festa, enchendo a cara a fim de esquecê-la. Apesar dos meus apenas quinze anos na época, isso não fazia muita diferença, a bebida era meu refúgio. A pobre da Júlia bem que tentava me frear quando saíamos juntas, mas quando ela não estava, não tinha jeito, eu ia para a casa de qualquer amiga que me aceitasse, podre de bêbada, no meio da madrugada para meus pais não ficarem sabendo de nada.
Quando vi que a bebida não estava fazendo muito efeito foi que parti para a agressão física a mim mesma. Não podia achar uma tesoura, uma gilete, estilete ou até mesmo um apontador escolar que dava um jeito de me machucar, tentando aplacar o buraco que ficou depois do “furacão Natália”. Ainda hoje tenho marcas nos braços, nas coxas. A minha sorte é que eram cortes superficiais demais para deixar alguma cicatriz. Apenas um outro corte ficara, mas eu disfarçava bem, dizendo que havia me machucado com qualquer coisa, e ninguém dava importância.
Quando meus pais descobriram, eu já tinha conseguido me controlar com a ajuda milagrosa da Júlia, mas tive uma recaída, e eles viram o resultado. Foi nessa ocasião que eu consegui enxergar que me cortar não me levaria a nada. Lembro perfeitamente desse dia.
“Eu tinha ido à praia com a Jú e por acaso encontrei com a peste, a cobra peçonhenta, a galinha da Natália, desfilando com a nova namorada, uma morena bonita, de corpo escultural, que ela encontrara em qualquer esquina. Eu bem que tentei passar direto e fingir que não tinha visto, mas ela me derrubou com meia dúzia de palavras:
— Viu só o que tá perdendo? Quando quiser de volta é só avisar, viu, gatinha? – sussurrou no meu ouvido ao passar do meu lado
Aquilo mexeu tanto comigo que dei uma desculpa para Júlia e fui pra casa na mesma hora. Eu sabia que a minha amiga não tinha engolido, mas a única coisa que me importava era fazer a dor que eu estava sentindo parar. E eu só sabia de uma forma para aliviar.
Fui direto para o banheiro e, por um descuido, esqueci de trancar a porta.
Quando caí em mim, meu pai estava parado na porta do banheiro, horrorizado com a cena, e Júlia estava bem ao lado. Acho que nunca vou esquecer a cara de decepção da minha amiga ao ver que eu tive uma recaída por um motivo tão bobo.
— O que você tá fazendo, Manuela? – ela perguntou exaltada ao entrar no banheiro e me ver naquele estado
— Tá doendo! – chorei
— É claro que tá doendo, e você tá piorando tudo, sua idiota!
— O-o que tá havendo aqui? — papai perguntou, ainda paralisado na porta, sem reação nenhuma
— Tio Armando, eu assumo daqui, prometo que vou cuidar dela – Júlia falou, e meu pai nem mesmo tentou questionar, dando-nos as costas com uma expressão abalada no rosto, mas, naquele momento, eu não estava me importando.
Júlia me tirou de lá e limpou os cortes, fazendo curativos com a cara mais fechada do mundo. Assim que ela terminou e me olhou, eu sabia que ouviria até as orelhas doerem.
— Você não acha que já deu dessa palhaçada, não?
— Me deixa, Júlia!
— Não deixo! Eu não vou ficar aqui parada enquanto a minha melhor amiga faz uma coisa dessas, uma idiotice desse tamanho. Manuela, olha pra mim, porque só vou falar uma vez, e é bom você me escutar, eu não estou para brincadeiras
Permaneci calada, esperando pelo que viria enquanto grossas lágrimas caíam pelo meu rosto.
— Tá vendo isso? — Apontou para o meu braço – É o que vai acontecer comigo da próxima vez que aparecer em você. E acredite, vai ser muito pior. Você se acha a corajosa por fazer esses arranhõezinhos nos braços. Da próxima vez que você se cortar, Manuela, eu juro por tudo que é mais sagrado que vou parar no hospital de tão graves que vão ser os meus ferimentos.
Fiz menção de protestar, mas ela me impediu.
— Já está mais que na hora de você crescer e enfrentar seus problemas de cabeça erguida. Ninguém te disse que seria fácil! Então pare de agir como uma criança que faz pirraça quando não consegue o que quer, olha o que você está fazendo com a sua vida. Pare com isso enquanto ainda tem volta. Você faz isso para se machucar, mas está me machucando também, cada corte desse também dói em mim e, se acontecer de novo, vai doer fisicamente também, Manuela. Você é a irmã que eu nunca tive, te amo como se fosse sangue do meu sangue, então para de pisar na bola! – Júlia me falou isso com uma calma quase gélida, e eu pude ver o quanto ela estava falando sério.
Quando ela me deu as costas e deixou o meu quarto foi que eu me dei conta do que estava fazendo. Foi só quando vislumbrei a possibilidade de machucar a minha amiga que eu voltei a mim e parei de me ferir intencionalmente."
— Manu, eu estou ficando preocupada – Duda abanava a mão na frente do meu rosto
— Ah, oi – falei bobamente, voltando dos meus devaneios.
— Onde você foi? Já encontrou água lá onde “cê” tava? – brincou
— Desculpa, acho que fui parar no Rio
— Saudades? – Duda perguntou sorrindo
— Muitas – respondi e só então me lembrei que ainda não tinha contado para Eduarda que viajaria com a minha mãe.
Uma ideia que tive na noite anterior, enquanto conversava com mamãe, me ocorreu e parei para pensar na hipótese.
Decidi que não falaria com a Duda ainda, não enquanto não me decidisse, afinal um convite desses poderia despertar esperanças nela, e isso era tudo que eu não queria. Ou queria?
Eu já nem sabia mais o que queria ou não, portanto só falaria com a Eduarda sobre essa viagem quando decidisse se a chamaria ou não para ir conosco.
— Duda? – chamei quando chegamos à escola, ainda estava bem cedo, portanto, poderíamos nos sentar no pátio gramado e conversar antes do início das aulas
— Sim? – ela sentou-se na grama e fez sinal para que eu a acompanhasse
— Você conversou com a Karina?
— Por que eu conversaria com ela? – desconversou, olhando para o céu que apresentava um azul tão límpido quanto era possível
— Eduarda Ribeiro, não me enrola!
— Não tive coragem ainda
— Você sabe que mais cedo ou mais vai ter que enfrentar a situação, certo?
Ela suspirou, ainda sem me olhar, e balançou a cabeça em confirmação. O silêncio tomou conta, e ficamos sem fazer som algum, até que o sinal tocou, e Duda pegou sua mochila e já ia se levantar quando foi impedida por mim.
— Duda, eu nem imagino o quão difícil deve ser tudo isso, mas você é forte e vai superar. Mas para isso acontecer, você tem esclarecer essa história primeiro, porque eu tenho certeza, e sei que você também, que isso não termina aqui, tem muito mais coisas rolando.
— Eu preciso de um tempo, Manu. Ontem eu fui até a porta do prédio dela e simplesmente... Eu não consigo fazer isso. Não agora. Não hoje, mas eu tenho ciência de tudo que está em jogo, até o final dessa semana eu vou procurar a minha irmã e colocar as cartas na mesa.
— Essa é a Eduarda que eu conheço. Só quero que você saiba que, apesar dos problemas que tivemos, eu estou aqui para você, okay? – falei com sinceridade e recebi um sorriso em troca – Eu me lembro perfeitamente da promessa que te fiz, e não pretendo quebrá-la
— Parece que foi há tanto tempo – ela falou pensativa
— Sim, parece – falei, lembrando-me do dia em que Duda foi almoçar comigo e minha mãe e eu prometi a ela que nunca me perderia.
Nós podíamos ter terminado, brigado feio, eu podia ter ficado com raiva dela, mas Eduarda nunca me perdeu nem perderia. Eu acho que no fundo, desde o início do nosso namoro, eu soube que a amaria para sempre.
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