In Love With Her
22 Foi por pouco!
Notas iniciais
MANUELA
— Eduarda Ribeiro! O que significa isso?
Cara, foi uma puta falta de sorte Duda e eu sermos pegas. Não estávamos fazendo nada (não naquele momento), porém, ambas nuas, abraçadas, na cama dela... Aquele cenário dizia mais que qualquer palavra que pudesse livrar a nossa cara.
Olhei para Eduarda, sua expressão de extremo embaraço me fazia sentir o mesmo que ela.
Mesmo que ainda com certo receio do que poderia encontrar, olhei em direção à porta e, para meu alívio (ou terror) quem eu encontrei parada ali foi ninguém mais, ninguém menos que Karina.
Sim, a irmã mais velha da minha namorada tinha nos pego no flagra, melhor do que se fossem seus pais ou sua irmã mais nova, mas eu sabia que o fato de ter sido Karina a entrar no quarto não me salvaria de nada.
Ótima primeira impressão para causar na minha cunhada! — pensei com sarcasmo
Eu e Karina ainda não nos conhecíamos, mas eu poderia reconhecer aqueles olhos escuros, enigmáticos e brilhantes, tão característicos de Eduarda, em qualquer lugar, e a irmã dela tinha um par quase idêntico ao seu.
Por sua cara de indignação, eu podia ver que ouviria um longo sermão de “irmã mais velha” querendo proteger a inocência da irmãzinha mais nova e indefesa da namorada cafajeste que tirou sua virgindade.
— Eduarda, eu ainda estou esperando uma explicação!
— E-eu... Quer dizer, nós... ah... e-eu – Duda tentou, mas não conseguiu articular uma frase coerente
— Eu não acredito nisso, Eduarda. Como você é irresponsável
— E-eu não... Des-descul-pa – falou Duda
Olhei para a minha cunhada, que não parecia me ver ali, estática, com o lençol enrolado ao redor do corpo.
— A culpa não foi dela – falei em um impulso
— Sim, a culpa e a irresponsabilidade são dela, sim – falou Karina, me avaliando – Pelo visto você deve ser a Manuela, né? — questionou-me
— S...sim. E você é a Karina — respondi meio trêmula, e ela assentiu tranquilamente.
— É um prazer conhecê-la, porém, preferiria que a ocasião fosse... assim digamos, mais oportuna
— Eu também – disse envergonhada – Peço desculpas por isso.
— Pelo que eu ouvi falar, pensei que você fosse um pouco mais responsável, Manuela, mas vejo que é tão sem juízo quanto a minha irmã
— Olha, desculpe se você nos pegou em um momento mais... er... íntimo. Mas a Duda já é grandinha e – comecei a falar, mas fui interrompida
— Grandinha e um pouco burrinha também. Como é que vocês duas me deixam a porta do quarto destrancada? E se chega alguém e pega vocês, aliás, como eu acabei de fazer? Pior ainda, como vocês esquecem de trancar o portão? E se chega algum ladrão?
— Espera aí. Vo-você não está brava porque pegou eu e a Manu, er... Você sabe...? — perguntou Duda, completamente confusa
— Olha, não me agrada nem um pouco saber que a minha irmãzinha foi deflorada, aliás – olhou-me de uma forma que eu soube que não havia escapado do sermão e continuou a falar -, terei uma conversinha com a sua namorada sobre isso. Mas estou mais preocupada com o pai e a mãe descobrindo sobre vocês duas. Você não pensa, Duda? Se eles souberem de algo você pode acabar como... como... ah, como todas essas pessoas que já foram expulsas de casa por causa da intolerância dos pais com sua sexualidade. — ao contrário do que pensei, Karina não estava brava, mas, sim, preocupada com a irmã mais nova e carregava no rosto a expressão de quem já tinha passado por situação semelhante à que acabara de nos descrever.
— Relaxa, Karina. Eles só voltam na segunda pela manhã — disse Duda, parecendo ter toda a situação sob controle.
— Tem certeza, Dudinha? Você não tem noção do quanto eu me preocupo com você e a Jéssica.
— Tenho certeza, sim, eles não vão voltar antes de — Duda interrompeu-se no meio da frase quando ouvimos o barulho da porta da sala se fechando lá embaixo.
Nós três nos entreolhamos, e, à partir dali, foi uma correria dos infernos naquele quarto. Duda e eu íamos de um lado para o outro, nos vestindo e colocando tudo no lugar, e Karina procurava um canto para se esconder enquanto falava histericamente que não poderia ser vista ali sob hipótese alguma.
— Duda? — ouvimos a voz de dona Drica aproximando-se enquanto chamava pela filha – Você tá aí?
A porta do quarto foi aberta no exato momento em que Karina fechou a porta do armário e se trancou lá dentro, Duda jogou-se sobre a cama, fingindo ler um livro que ela provavelmente não sabia estar de cabeça para baixo, e eu fiquei ali, parada no meio do quarto sem saber o que fazer, igual a uma idiota.
— Mãe? Que cê tá fazendo aqui? — perguntou Eduarda de forma forçadamente inocente
— Bom, nós voltamos porque... Porque você está lendo isso de cabeça para baixo?
— Vocês voltaram porque eu estou lendo algo de cabeça para baixo? — Duda parecia confusa, e eu tive que me segurar para não rir
— Não, Eduarda, nós voltamos porque a sua irmã se machucou e precisamos levá-la ao hospital
— A Jéss? Tá tudo bem com ela? O que aconteceu, mãe? — Eduarda falou, já se levantando da cama
— Calma, Duda, a Jéssica tá bem. Ela caiu do cavalo e machucou o braço, seu pai achou melhor voltar para dar uma olhada e ver se não quebrou ou algo do tipo – minha sogra falou, mas mal foi ouvida pela filha, que já tinha saído do quarto atrás da irmã
Só então dona Drica pareceu notar minha presença ali. Me olhou com curiosidade e sorriu de alguma coisa que viu em mim.
— Não vou nem perguntar por que sua blusa está do lado avesso, Manu. Deve ser uma daquelas coisas doidas que a Duda inventa, como ler de cabeça para baixo – falou e foi saindo do quarto – Bom, não preciso dizer para se sentir em casa. Vou pegar uma muda de roupas para a Jéss, porque a dela está toda suja e vou levá-la ao hospital
Assim que a porta do quarto fechou-se novamente fui até ela e tranquei.
— Agora você lembra de trancar a porta? — disse Karina de forma irônica
Não respondi, a fim de evitar desavenças com minha cunhada. Cunhada essa que eu nem conhecia ainda.
Me sentei na cama de Duda, e Karina sentou-se ao meu lado em silêncio.
— Olha, desculpa, acho que começamos do modo errado. É que eu me preocupo muito com minhas irmãs, e venhamos e convenhamos que encontrar a Duda nua na cama com alguém também não ajudou muito – Karina disse de forma cordial
— Tudo bem, eu te entendo e agora me sinto culpada. Se não fosse você ter chegado antes, eu não sei o que poderia ter acontecido.
— Só... tenham mais juízo, ok? Quando eu digo que as coisas podem ficar feias caso alguém descubra a respeito de vocês, não sabe o quão feias elas podem realmente ficar.
— Tudo bem, prometo tentar ser mais cuidadosa e vou cuidar para que a Eduarda também seja, não sei o que seria de mim se acontecesse algo a ela.
Ficamos conversando por mais um tempo, e não fiquei surpresa ao ver o quanto Karina era parecida com as irmãs mais novas. Tinha um carisma impressionante e um coração de ouro pelo que pude perceber, coração esse que as meninas aparentemente haviam puxado da mãe, que era um amor de pessoa.
— Cunhadinha, o papo tá bom, mas eu tenho que ir, não posso me arriscar a ser encontrada aqui pelo meu pai – falou, levantando-se e indo até a porta quando ouviu o barulho do carro afastando-se da casa –, mas não esqueci daquela nossa outra conversinha, tá? Ninguém tira a inocência da minha irmãzinha e fica por isso mesmo – virou-se e me deu uma piscadela antes de deixar o quarto.
Sorri quando ela saiu, Karina era uma peça.
— É uma figura essa sua irmã — falei quando Eduarda voltou da sala, onde havia estado com a irmã mais nova
— Vejo que vocês se entenderam – comentou antes de me abraçar – Desculpe pelo constrangimento que eu te fiz passar, amor
— Ei, tá tudo bem, eu só vou ter que enfrentar a fúria da sua irmã mais velha depois – brinquei, fazendo-a sorrir
— Manu, já passa das duas da tarde, e nós ainda não comemos nada
— Tem certeza mesmo que não comemos nada, Eduarda? — perguntei, já rindo da sua careta de embaraço
— Eu quis dizer nenhum alimento — explicou-se, me fazendo rir ainda mais – De qualquer forma, já passou da hora do almoço, e eu acho que nunca passei tanto tempo sem ingerir nenhum alimento – falou dando ênfase às três últimas palavras – Enfim, tô morrendo de fome!
— Já era o nosso esquema de café da manhã na padaria, mas o que acha daquele sanduíche natural da lanchonete da rua de baixo?
— Já tô lá!
Aproveitamos que a casa estava vazia e nos livramos de todos os vestígios da noite passada que ainda pudessem existir por ali. Todo cuidado era pouco com os pais de Eduarda. Karina não quis me revelar por que tinha tanto medo que os pais descobrissem sobre a orientação sexual da irmã, mas algo em seu jeito de falar me dizia que ela estava certa em se preocupar.
Assim que terminamos de arrumar tudo, Duda e eu saímos em direção à lanchonete que havia ali perto.
Comemos nossos sanduíches em clima de descontração. Eduarda, como a formiga doceira que era, escolheu um cappuccino de chocolate para acompanhar seu lanche enquanto eu fiquei com um suco de morango com amora.
A mãe de Duda ligou, dando notícias da filha caçula e confirmando as nossas suspeitas. Afinal de tudo, Jéssica havia mesmo quebrado o braço. Ela estava no sítio da avó paterna com os pais, e, quando montava um cavalo, ele assustou-se com um foguete que soltaram na região, derrubando a menina no chão. Por uma imensa falta de sorte, a minha cunhada caiu em cima do braço, o que lhe rendeu uma fratura no úmero.
Duda estava que era só cuidados com a irmã, o que me fazia admirá-la ainda mais. Depois de passar rapidamente na casa da minha namorada para ver minha cunhada e pegar as minhas coisas, despedi-me de todos com a intenção de ir embora, mas dona Drica e Jéssica insistiram tanto para que eu ficasse que acabei cedendo.
O restante do fim de semana foi ótimo na companhia da minha namorada e de sua família. Mesmo que o meu sogro (que não sabia que era o meu sogro) ficasse mais na dele, a maioria do tempo com um semblante fechado (que Duda me confidenciou ser normal quando o Galo perdia, o que havia acontecido no último jogo), pude me divertir muito.
Assistimos filmes, jogamos videogame, comemos várias delícias preparadas pela mãe das meninas. E claro que Duda e eu sempre acabávamos dando um jeitinho de escapar para dar uns amassos. Estávamos em um desses momentos quando o celular de Duda tocou.
EDUARDA
— Alô
— Por favor, me diz que deu tudo certo e que todo meu esforço em te deixar produzida como uma deusa não foi em vão
— Oi, loira! Eu vou bem, e você? Obrigada por perguntar! — respondi irônica
— Desembucha logo, Eduarda, a Manu não atende o telefone, caso contrário, eu nem me daria ao trabalho de ligar para você
— Loira, vou ter que dar o braço a torcer! Acho que eu estava tão linda e gostosa ontem que a Manu não resistiu ao meu charme— brinquei, recebendo alguns tapinhas da minha namorada, que sorria
— Então deu certo? Ela gostou da surpresa? Não te matou quando soube o que você estava aprontando? O que aconteceu quando ela chegou? Você pediu comida naquele restaurante que eu te indiquei?
— Ana, respira, por favor— falei rindo – E, resumindo, sim, deu tudo certo
— Ah, que bom! Amiga, você não vai acreditar no que o Guto fez ontem
Ai, lá vem história— pensei enquanto ouvia atentamente o que Ana dizia, pois sabia que ela pediria a minha opinião depois de gastar os meus ouvidos de tanto falar.
Manu olhou para a minha cara de quem pedia socorro e sorriu, saindo logo em seguida. Traidora!
Depois de meia hora pendurada no telefone com Ana, finalmente eu consegui desligar e fui atrás das meninas, que deviam estar no quarto de Jéssica fazendo alguma coisa ou descobrindo uma utilidade nova para o gesso da minha irmã.
***
— Duda! — gritou Rafael assim chegou à escola na segunda-feira e me viu sentada com Manu no pátio gramado enquanto não tocava o sinal.
— Bom dia, Rafa — falei, cumprimentando-o com um beijo na bochecha, e Manu fez o mesmo
— Bom dia, meninas — deixou-se cair na grama verde ao nosso lado – E então, como foi o fim de semana?
— Amor, já percebeu que todo mundo só te procura para saber como foi o seu fim de semana comigo? — perguntou Manu de forma divertida
— Estranho isso né, Manu? Afinal, foi só mais um fim de semana qualquer. Aconteceu algo de tão especial assim para deixar todos curiosos desse jeito?
— Hum... Não que eu me lembre
— Querem parar de palhaçada as duas e me contar como essa idiota da minha amiga conseguiu se safar do que aprontou? — impacientou-se o loiro
— Eu não lembro de a Duda ter aprontado nada, muito pelo contrário
— É, eu sou totalmente inocente de todas as acusações. Até porque, se tivesse algo, a Manu lembraria, não lembraria, amor? — falei cinicamente, e Manuela apenas balançou a cabeça com um sorriso significativo nos lábios, o que não passou despercebido por Rafael.
— EU NÃO ACREDITO! — falou de forma nada discreta – Vocês...? — acenei de forma envergonhada – Aiii, que nojoo. Como isso aconteceu?
Abri a boca para responder, mas minha namorada foi mais rápida
— Então, sabe os dedos? Você faz assim, pega a …
— Tá, tá, tá! Eu não quero saber disso — falou Rafa de forma afetada, e nós rimos
Ficamos conversando por mais algum tempo, uma vez que ainda estava cedo e não havia quase ninguém da escola.
— Meu Deus, Duda. Você deu! — afirmou de repente Rafael, como quem descobre o mundo, me fazendo morrer de vergonha
— Rafa, por favor — reclamei de cabeça baixa com a sensação de queimação por todo o rosto
— Mas a Manuela... A Manuela te com...
— Menos, Rafael — foi a vez de Manu se envergonhar
— Ei, pera aí, não foi só isso, foi? A Duda também te com...
— CALA A BOCA, RAFAEL! — dissemos juntas, o que acho que só piorou a situação, porque Rafa parecia ter tido a confirmação do que havia dito ao nos ver envergonhadas daquela forma.
Apesar de Manu conseguir ser um pouco mais aberta que eu, ambas éramos muito tímidas, e falar sobre aquilo nos trazia certo embaraço.
Logo o sinal para a primeira aula tocou, nos tirando daquela situação, pelo menos por mais algum tempo, pois eu tinha certeza que as coisas ficariam potencialmente piores na hora do intervalo, quando Ana e Lucas também participariam do interrogatório sobre o grande assunto da semana: A Eduarda perdeu a virgindade.
A minha segunda-feira seria bem longa...
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