In Love With Her

39 De volta ao Rio


Notas iniciais
Meus amores, desculpem a demora, mas final de semestre é a coisa mais medonha do mundo! Uma confusão enorme, falta de tempo até para respirar. Quem faz faculdade sabe do que eu tô falando kk Bom, fiquei um tempo sem entrar aqui e quando entrei, fiquei muito, muito, muito feliz mesmo com a recomendação linda que recebi! Quero agradecer de coração à linda da Sarah Martins que me sorrir de orelha a orelha. Muito obrigada mesmo, significa muito pra mim! Para expressar minha felicidade, postagem dupla! Isso mesmo, quando terminar de ler esse capítulo, é só clicar em próximo que eu já estou disponibilizando o 40! Agradeçam à fofa da Sarah Martins! Enjoy it!

MANUELA

Sexta-feira, duas da tarde.

Olhei mais uma última vez, na esperança de encontrá-la saindo toda atrapalhada pelo portão, com aquela cara de quem pedia desculpas por ter se atrasado, como era de costume. Minha mãe buzinou pela centésima vez.

—- Vamos, mãe, ela não vem – falei entrando no carro depois de tocar a campainha, e dona Marina me olhou com aquela cara de mãe.

—- Não quer esperar mais um pouco, Manu? Ela deve ter se atrasado – tentou argumentar.

—- Ela não vem

—- Como você pode ter certeza? Não foi você mesma disse que o celular dela só dá caixa postal?

—- Mãe, vamos, por favor – supliquei

—- E o telefone fixo, você tentou?

—- Mãe... – não precisei dizer mais nada, tentando sem sucesso segurar as lágrimas que já escorriam silenciosas pelo meu rosto.

Sem alternativa, ela ligou o carro, e partimos em direção ao Rio. Pelo menos uma coisa para me alegrar eu teria, estava a caminho da minha cidade maravilhosa.

Minha mãe fez menção de conversar, mas eu não conseguia, então simplesmente liguei o som do carro o mais alto possível, de modo que não permitisse nenhum diálogo, e me virei para a janela, mergulhada em pensamentos.

Eu sabia exatamente o que o fato de a Eduarda não ter vindo significava: de tanto ouvir as minhas rejeições, agora quem não queria mais era ela. Talvez fosse tarde demais para nós duas.

Quando recebi o seu telefonema na segunda, depois de a Karina ter ido embora, eu sabia que ela não estava nada bem. Uma revelação daquelas era demais para qualquer um.

Mesmo que a Duda já soubesse disso após ter lido aquela Certidão de Nascimento, ouvir as palavras da boca da própria irmã tornava aquilo tudo ainda mais doloroso para ela.

Isso sem contar nas informações bônus a respeito do caráter um tanto duvidoso de seu pai.

Duda me disse naquela ligação que tudo que ela mais queria era fugir um pouco daquilo tudo. Foi então que eu a chamei para comer um sanduíche natural ali mesmo, perto da casa dela, para conversarmos.

Cheguei à lanchonete, e Duda já estava lá, em uma mesa no canto mais afastado e escondido do lugar, encarando as próprias mãos. Aproximei-me, e ela levantou a cabeça um pouco, mas foi o suficiente para que eu pudesse ver seu rosto inchado do choro.

—- Oi – falou timidamente ao me ver, a voz quase inaudível

—- Oi – respondi arrastando uma cadeira para o seu lado e puxando-a para um abraço meio desajeitado, o que a fez chorar ainda mais – Shh, calma, vai ficar tudo bem – falava enquanto acariciava seus cabelos.

Fiz os nossos pedidos enquanto Duda se recompunha e me contava em detalhes o que havia resumido no telefone. Ficamos cerca de duas horas ali, eu tentava de tudo para distrair Eduarda um pouco e conseguir ao menos um sorriso, mas não estava sendo nada fácil para ela.

—- Agora eu entendo aquela expressão: eu era feliz e não sabia. – Duda declarou com amargura

—- Não fala assim, Duda, faz parecer que não vai passar o que você está sentindo agora.

—- Mas é assim que eu me sinto, como se não fosse passar nunca – disse tomando o restante do seu suco de morango com amora.

—- Mas vai – fiz sinal ao rapaz que nos atendia para trazer mais um daqueles – Você vai ver, tudo vai se resolver.

—- É difícil acreditar nisso quando se descobre que a sua irmã é na verdade sua meia-irmã, filha do ex-marido da sua mãe que morreu para protegê-la de um assaltante – pausou e tomou um gole do outro suco que o rapaz trouxera — O seu pai se casou com a sua mãe somente para assumir o filho dela, e ele, além disso, é um bêbado, intolerante, que gosta de bater na esposa e no filho – mais um gole — E que ainda faz ameaças à própria família somente para manter a enteada longe. Acrescente ainda a minha vida amorosa – terminou o suco e colocou o copo de volta sobre a mesa, para só então dar a cartada final da sua amargura — Perdi a garota que amo fazendo a estupidez de corresponder a um beijo que eu nem mesmo queria, e agora ela não confia mais em mim para me dar outra chance, porque tem medo de se machucar de novo com as minhas burradas. Eu tenho até medo de me perguntar se tem como ficar pior, vai que Deus interpreta a retórica como um desafio, né? – Duda falou em um fôlego só, me dando um verdadeiro choque quando o real significado daquelas palavras caía sobre mim com todo o seu peso, fazendo-me enxergar o fardo que ela carregava.

Não pude falar mais nada, eu não tinha argumentos contra aquilo, apenas apertei Duda em meus braços.

—- Vai ficar tudo bem, Duda, acredita que tudo vai se resolver – sussurrei em seu ouvido.

—- Tudo que eu queria agora era fugir de tudo isso, de todos esses problemas — respondeu-me com desânimo ao nos separarmos

Eu sabia que talvez não fosse o momento para aquilo, mas sair de BH talvez fizesse bem para Eduarda.

—- Duda, minha mãe e eu vamos viajar na sexta-feira, passaremos as férias no Rio e retornaremos na primeira semana de janeiro. O que você acha de vir conosco? Eu sei que o convite veio em péssima hora devido aos últimos acontecimentos, mas se você achar que pode te fazer algum bem, será muito bem-vinda – mal terminei de convidá-la e vi um brilho em seus olhos castanhos, mas durou pouco, dando lugar à opacidade

—- Manu, eu não sei o que dizer. Sair daqui é tudo que eu mais quero nesse momento, eu ainda não sei como vou conseguir encarar meu pai depois de tudo que a Karina me contou, juro que se pudesse, nem pra casa voltava hoje. Mas as chances de meus pais me deixarem ir são quase nulas.

—- Deixa que dessa parte minha mãe cuida, o poder de persuasão da dona Marina Fernandes é imbatível!

—- Mesmo que eles deixem, não acho que teriam dinheiro o suficiente para me deixar viajar...

—- Duda...

—- Eu tenho minhas economias, mas não é tanto...

—- Duda...

—- Os computadores de conhecidos que eu faço formatação, essas coisas, me dão algum dinheirinho... Mas passagens de avião de ida e volta pro Rio, mais hospedagem e outros gastos...

—- Eduarda! – falei com um meio sorriso, Duda, ás vezes, era muito calada, mas em outras, não conseguia manter a língua dentro da boca – Me deixa falar!

—- O.k.

—- Não se preocupe com dinheiro, nós vamos de carro, ou seja, nada de gastos com passagens, e você vai ficar em nossa casa... Não se preocupe

—- Mas...

—- Mas nada, Duda! Tudo o que eu preciso saber é: você quer ir conosco?

—- E-eu... eu quero, mas e a Karina? Eu não posso sair de Belo Horizonte e deixar a minha irmã se virar sozinha enquanto eu esfrio a cabeça no Rio de Janeiro

—- Você não me disse que ela viajaria a trabalho na próxima semana?

—- Sim, ela vai fazer um trabalho de publicidade no exterior e só volta daqui... – a ficha pareceu cair, e Duda me olhou espantada com a sua “descoberta”

—- Alguns meses, não é isso? – perguntei na expectativa

—- S-sim... Acho que no desespero de tudo que ela falou, acabei esquecendo desse detalhe, na verdade, acho que nem ela se lembra dessa viagem

—- Então, o que falta agora é só a sua vontade, o resto a gente resolve – falei olhando em seus olhos, esperando que ela entendesse a mensagem que eu queria passar.

Pensei muito a respeito disso no tempo em que estivemos separadas, e a minha intenção nunca foi não perdoar a Duda, mas exatamente o contrário. Porém, esse perdão, essa chance para começar de novo, só viria quando o meu coração permitisse, caso contrário, só faria com que nós duas sofrêssemos ainda mais.

Talvez tivesse chegado a nossa hora de tentar de novo, eu esperava que passar esse tempo com Eduarda me fizesse ter certeza disso.

Pensei que fosse pular de alegria quando ouvi da boca da Duda que ela queria sim ir conosco para o Rio. Minha alegria era quase palpável e parecia contagiar a minha companhia, seu sorriso parecia mais genuíno, mais aberto, apesar do acontecido de algumas horas antes.

Nos despedimos com a promessa de que sairíamos de Belo Horizonte na sexta, à uma da tarde.

Cheguei em casa radiante, contando a novidade para mamãe, que concordou em falar com dona Drica e seu Antônio, pais da Duda. Tinha ficado combinado que ela falaria com os pais e me ligaria para marcar de mamãe ir até lá conversar com eles.

Sem muita demora, Eduarda me ligou e disse que havia conversado com a mãe, que de início autorizou a viagem, mas o empecilho talvez fosse seu pai. Dona Drica nos convidou para jantar com eles e, ás oito da noite, mamãe e eu tocávamos a campainha.

Fomos atendidas por Jéssica, que já veio toda serelepe conversar comigo, dizendo que estava com saudades.

Ela nos guiou para o interior da casa onde os pais se encontravam. O pai de Duda estava na sala, vendo TV, enquanto dona Drica saía da cozinha para nos receber.

Minha ex-sogra me saudou com um abraço carinhoso, dizendo ter sentido a minha falta ali. Depois de cumprimentar seu Antônio com um aperto de mão bem mais contido, apresentei minha mãe a eles, e ela logo já ajudava no preparo do jantar.

Soube por meio de Jéssica que a Eduarda estava no quarto, passara a maior parte da tarde ali. Deixamos os adultos na cozinha e subimos em direção ao quarto de Duda.

Bati na porta e logo recebi autorização para entrar.

—- Oi – falei ao entrar e vê-la com uma blusinha branca bem justa no corpo e um short curto, o violão estava em seu colo – Atrapalho?

—- Imagina, Manu, senta – ela me sorriu, indicando a cama onde Jéssica já havia se jogado

—- Você estava tocando? – perguntei a primeira coisa que me veio à cabeça. Claro que não era o mais inteligente a se questionar uma vez que ela estava com o violão em mãos

—- Não, estava só afinando o violão – respondeu meio sem graça

—- Claro que estava só afinando – murmurei irônica, e Jéssica riu com o desconcerto da irmã

—- É sério – rebateu, nada convincente

—- Mentirosa – alfinetou Jéss, me fazendo rir – Desde que eu cheguei da escola que ela está trancada aqui, tocando aquela música que fez pra você, até eu já decorei.

Foi a minha vez de ficar sem graça, enrubesci e abaixei a cabeça. Duda havia me contado que a Jéssica sabia sobre nós, mas eu não imaginava que ela soubesse tanto a respeito do nosso namoro.

—- Cala a boca, pirralha! – Duda exclamou, fingindo estar brava, mas não enganava a ninguém. Ela e a irmã eram inseparáveis, ela nunca falava sério quando repreendia Jéssica, era sempre com um meio sorriso no rosto.

—- Bom, eu sei que “tô” sobrando mais que jiló na janta, mas a minha opção é segurar vela pra vocês ou aguentar papo de gente velha lá embaixo, então me aturem!

Jéss falou, e eu não pude deixar de rir do seu jeito despachado, tão avesso à timidez da irmã.

—- Quem falou em segurar vela aqui, garota? Não viaja, tá me fazendo passar vergonha na frente da Manu! – Duda reclamou

—- Vergonha, sei! Fica toda apaixonadinha aí, com essa de “minha namorada não me quer mais” e depois eu é que...

Jéssica bem que tentou, mas não conseguiu terminar a frase devido à almofada voadora que a acertou bem no meio do nariz. Duda fazia cara de paisagem, tornando a cena extremamente cômica.

Eu podia ver que seu humor havia voltado quase ao que era antes, porém, havia uma sombra de tristeza em seu olhar que eu sabia que não sairia dali tão cedo.

Logo fomos chamadas para jantar e descemos para ajudar a colocar a mesa.

O jantar correu de forma tranquila, exceto por um fato que não me passou despercebido: Duda tratava o pai com frieza e até mesmo indiferença. Ela mal olhava para ele. Dona Drica fazia tudo para aliviar o clima que se instaurava algumas vezes quando Duda respondia aos questionamentos do pai de forma ríspida, tão diferente do seu normal.

Depois da sobremesa, fomos para a sala tentar convencer Antônio a deixar a filha viajar conosco, tarefa nada fácil, principalmente depois do comportamento que Eduarda apresentara poucos minutos antes.

Com muita argumentação e jogo de cintura, mamãe conseguiu domar a fera, que por fim autorizou a viagem da filha, mas não sem antes dar um milhão de recomendações e estabelecer outras mil condições para que tudo desse certo.

Duda parecia muito aliviada com a notícia, mas não demonstrava na presença do pai. Do jeito que eu conhecia Eduarda, não dava mais que uma semana depois que voltássemos do Rio para que ela começasse a “agir” em relação ao que Karina havia lhe contado.

***

O restante da semana, por incrível que pareça, passou mais rápido do que eu imaginava. Duda e eu passávamos bastante tempo juntas, fazendo planos e mais planos para a viagem, ela realmente estava animada com a ideia de conhecer o Rio.

Na quarta-feira ela me confidenciou que no dia anterior havia conversado com Karina a respeito do que fazer. A irmã confirmou sua ida para a Argentina, e ficou combinado que resolveriam o que fariam somente em março, data do seu retorno ao Brasil.

O grande problema era que eu sabia que Eduarda não respeitaria o tempo da irmã e tentaria fazer algo por conta própria. Tentei de todas as formas dissuadi-la da ideia, mas a cabeça dura estava irredutível.

Ana e os meninos estavam excitadíssimos com a nossa viagem. Rafa até arriscava planos mirabolantes para eu e a Duda voltarmos a namorar, mas eu fazia questão de tirar o cavalinho dele da chuva. Se tivéssemos que voltar, não seria em função de um dos “planos infalíveis” de Rafael.

Quinta-feira à tarde, meu celular tocando despertou-me para um detalhe que eu havia esquecido completamente em meio a toda a animação.

—- Alô?— atendi no primeiro toque, sem olhar o visor

—- Oi, é daí que fala uma amiga que não dá notícias há dias?— a voz do outro lado da linha soava divertida, bem diferente da última vez que havíamos nos falado

—- Isa!

—- Como vai, guria?— perguntou com aquele sotaque gaúcho carregado

—- Bem, e você?

—- Vou indo, um dia chego em algum lugar— Isa respondeu brincalhona e nós rimos – Escuta, guria, estou com saudades das tuas peripécias, que achas de sair hoje á noite?

—- Ai Isa, á noite não dá, estou cheia de coisas para resolver para amanhã e sei que se eu sair com você, esqueço da vida e acabo não fazendo nada!— falei, fazendo-a rir

—- Que pena! Mas o que me dizes de sairmos então amanhã ou no sábado à noite? Se não tiveres nada para fazer, é claro

Nesse momento, lembrei-me que não havia contado a Isa que iria mesmo passar as férias no Rio, lembro de ter comentado com ela, mas não sabia ainda se mamãe cumpriria o que havia prometido.

—- Isa, a que horas você sai da empresa hoje?

—- Hoje as coisas estão bem tranquilas por aqui, creio que umas quatro estarei livre. Por que?

—- Não posso sair à noite, mas o que acha de me encontrar quando sair daí pra gente conversar um pouco?

—- Tudo bem, tem uma lanchonete perto da sua casa que tem um sanduíche natural que é uma delícia— disse me falando o nome do local – Conhece?

Não só conhecia como havia estado ali inúmeras vezes com Eduarda, inclusive na segunda, depois da conversa que ela teve com a Karina. Confirmei a Isa que sabia onde era e combinamos de nos encontrar lá por volta das 16h30 para conversar um pouco.

Terminei de arrumar minhas coisas na mala enquanto esperava dar o horário de encontrar com Isa. Ás 16h20 saí de casa, a lanchonete era bem pertinho e ainda consegui chegar lá antes de Isabella. Peguei uma das mesas do lado de fora da lanchonete, era uma tarde quente e agradável, o que me fez imaginar que estaria fazendo ainda mais calor no Rio. Não via a hora de voltar à minha cidade e reencontrar meus antigos amigos e minha família.

—- Ei, guria! – Isa chamou alguns minutos depois que eu cheguei

Ela estava, como sempre, impecável em suas roupas sociais, que lhe davam um charme a mais. Os cabelos loiros estavam presos em um coque, uma maquiagem diurna bem leve adornava suas feições. Isa usava uma calça preta simples e uma camisa de mangas três quartos em amarelo pálido. O terninho preto como a calça jogado por cima do ombro e seguro pela ponta do seu dedo indicador.

Dei um abraço nela, e nos sentamos. Isa já foi logo fazendo seu pedido, reclamando de ter comido apenas algumas besteiras ao invés de almoçar, em decorrência de duas reuniões seguidas na filial da empresa que os pais deixaram para ela e o irmão mais velho.

—- Manu! Tu sumistes, guria, nunca mais nos falamos – reclamou depois de fazer o pedido

—- Desculpa, Isa, tenho andado distraída esses dias, acabei esquecendo de falar contigo

—- Isso tem a ver com o que aconteceu no outro dia? Porque se tem, olha, eu quero pedir des-

—- Ei, calma! Não é nada disso, Isa – a interrompi, não tinha mesmo nada a ver com o que quase aconteceu na última vez que ela esteve na minha casa

Expliquei toda a situação para minha amiga em detalhes, ocultando, é claro, os segredos que Eduarda me confidenciara, dizendo apenas que ela estava com problemas familiares.

Falei sobre a viagem que havia esquecido de avisá-la, e Isa contou-me o que fez nesses dias em que não nos falamos.

—- Foi basicamente isso, Manu, trabalho e estudos, estudos e trabalho e mais nada. Depois do que a Angélica me aprontou, tenho me trancado em casa sem sair para lugar nenhum com medo de tudo e de todos. Acreditas que um dos estagiários lá da empresa foi gentil comigo e eu fui extremamente grossa com ele, acreditando que o coitado estava a me cantar? Eu estou ficando paranoica, Manuela – falou divertida, e nós rimos com vontade dos seus outros casos e acasos.

Nos distraímos tanto conversando que não vimos o tempo passar, quando dei por mim, já era quase 19h.

Isa, como sempre, fez questão de me deixar em casa, mesmo estando a menos de três quarteirões de lá.

Quando chegamos à portaria, chamei-a para subir, mas ela ruborizou na hora e negou-se veementemente.

—- Não, Manu, não vou subir, fica para a próxima – Isa recusou o convite

—- Tem certeza? Jante conosco, minha mãe vai adorar – eu insisti

—- É melhor não, vou para casa

—- Tudo bem, fica para outro dia então

—- Sim! – Isa parecia aliviada, mas não consegui entender o porquê disso – Agora vem aqui me dar um abraço, baixinha, só vou te ver de novo ano que vem!

Me aproximei, e Isa me envolveu em seus braços num abraço de urso, e ficamos assim por algum tempo, eu quase sem conseguir respirar, e ela em sua pose de executiva que não descia do salto por nada. Devia ser engraçado para quem olhasse.

—- Sentirei saudades, carioca! – disse ela afrouxando um pouco o aperto, mas sem me soltar

—- Eu também, gaúcha chata! – retruquei

—- Catarinense, Manuela, catarinense – riu

Ela desfez o abraço, mas segurou minhas mãos em um gesto bem característico de sua personalidade, eu já havia me acostumado com seu jeito.

—- Olha, Manu, eu não queria tocar nesse assunto, mas prefiro não te deixar viajar sem me explicar contigo. Sobre o outro dia na tua casa...

—- Esquece isso Isa, já passou

—- Não, Manu, não passou, esse é o problema – Isa evitava me olhar nos olhos enquanto falava – Você é minha amiga e nada mais que isso, mas o que houve aquele dia não pode se repetir, não quero perder tua amizade, guria. Mas aquele quase beijo não foi decorrência da carência, pelo menos não da minha parte, aquilo foi atração. Tu me atrais muito, Manuela, e eu decidi ser sincera contigo, justamente para tentar evitar constrangimentos entre nós.

—- Isa, eu-

—- Não precisa falar nada. Vai viajar com a tua garota e dar um jeito de deixar de ser teimosa e voltar com ela! Esse tempo longe vai ser bom para refrear meus impulsos, porque não pretendo me afastar de ti por conta de uma atração que pode ser perfeitamente controlada – dito isso, Isabella me deu um último abraço e foi embora, me deixando confusa com o que ela havia dito.

Quer dizer então que a Isa sente atração por mim? Aquele mulherão todo?— sorri com o pensamento, afinal, era uma bela massagem no ego de qualquer mulher.

Porém, eu não poderia negar a beleza dela de forma alguma, Isa era uma garota linda e me atraia, sim. Porém, não passava disso, era atração. Atração essa que sumia completamente com apenas a menção de um nome.

Quando entrei em casa e tirei o celular do bolso, percebi que havia algumas chamadas perdidas de Eduarda, ela ligara mais cedo, mas eu não escutei porque o celular estava no silencioso.

Sem pensar duas vezes, retornei a ligação, tocou até cair na caixa postal. Deixei o celular no quarto e fui tomar um banho, ligaria novamente antes de ir dormir.

E assim foi até as 23h, quando desisti de tentar falar com Duda e fui dormir. Tínhamos combinado de não ir à escola para usar a manhã de sexta para organizar as últimas coisas. Sendo assim, só nos veríamos ás 13h, horário combinado para Duda nos encontrar na porta de sua casa com as malas. Seus pais e sua irmã iriam aproveitar a viagem para passar algumas semanas com o tio da Duda, no interior de São Paulo, eles sairiam de casa ainda mais cedo que a gente.

Estava tudo certo até não estar mais. Duda não ter aparecido, aquilo para mim era o mesmo que fazer um outdoor e escrever em neon, com letras garrafais:

“VOCÊ NÃO ME QUERIA, AGORA SOU EU QUEM NÃO QUER MAIS! ”

— ASS: EDUARDA RIBEIRO

Foi com esses pensamentos que acabei adormecendo com a cabeça encostada na janela do carro enquanto dona Marina me lançava olhares preocupados vez ou outra.

Só fui acordar quando chegamos no Rio, mamãe me chamou ao estacionar na nossa antiga garagem.

—- Chegamos!

—- É, não via a hora de voltar pro Rio – falei desanimada, não por não querer voltar, mas por não voltar com quem eu queria.

Notas finais
o que acharam? quem quer matar a Duda? kkkkkk obrigada pelos comentários, amores!