(In) Fortuna
1 Présage
Notas iniciais
— Flores, já tomou seu café de hoje? — o toque suave de Hector tirou Flores de seu transe. Estivera aquecendo as mãos na caneca de café há tanto tempo que agora seus dedos estavam frios novamente e um sentimento de tristeza se abateu sobre ele.
— Não, Hector… Acho que pensei demais. — Se empertigou um pouco na cadeira, aproximando a caneca dos lábios. — Você tem sentido a mudança no clima?
— Não, não exatamente… Continua aquele fresquinho suave do outono sem necessariamente estar frio. Por que a pergunta? Acha que o inverno vai chegar mais cedo este ano?
— Não… Não me referia a este tipo de clima. Falo do clima na cidade. Tenho escutado burburinhos e quando me desloco até a loja da esquina, a rua parece mais lotada de pessoas. Um clima de que algo grande vai acontecer em breve.
Flores escutou a risadinha de Hector e seu suspiro de derrota. O arrastar da cadeira ao seu lado no balcão da cozinha e a mão quente bem no centro de suas costas lhe indicaram que havia tocado em um ponto desconfortável para o namorado.
— Você não deixa nada escapar mesmo, não é? — Flores deu de ombros com um sorrisinho sem graça e aguardou pacientemente o outro encontrar as palavras certas. — Bom… Muitas notícias de DW tem chegado até aqui, Flores. Sobre crianças sendo sequestradas de dentro dos Centros de Treinamento Juvenis. Estão culpando MDN, falando que é um desordeiro desta metade do país e que ele é perigoso. Então o povo fala. Muitas pessoas tem visitado os parentes em MDN para tentar convencê-los a voltar e eles não se esforçam nem um pouco para esconder o desgosto por esta metade do país. Mas não é nada com que tenha que se preocupar, ok? — Hector suavemente colocou uma de suas mechas de cabelo atrás de sua orelha e deu-lhe um beijo suave na bochecha. — Por que você não termina o seu café e vem me ajudar no atelier? — A cadeira raspou no chão quando Hector se levantou e Flores tentou acompanhar o som para ficar com os olhos em sua direção.
— O que você tem pintado? — Segurou a caneca com mais força, o amargor do café se intensificando no fundo de sua garganta como bile.
Houve um silêncio após sua pergunta e o clima que baixou no ambiente foi melancólico.
— Você sabe que não precisa perguntar se isso te machuca, não sabe, Flores? — a voz de Hector era suave, mansa, como se tentasse acalmar um animal ferido.
— Mas eu gosto de saber — resmungou de volta, voltando a cabeça para baixo e bebendo um grande gole do café. Parecia ficar mais amargo ainda.
E então os longos dedos de Hector se enroscaram em seus fios emaranhados e fizeram um cafuné gentil.
— Estou pintando você de novo. Meu dent-de-lion. — Flores sorriu ao sentir os lábios de Hector beijarem sua têmpora e descerem por sua bochecha. Virou o rosto e o beijou na boca.
— Ok. Vou fazer companhia para você daqui a pouco. Pode deixar que eu lavo a caneca quando terminar.
— Até daqui a pouco então. — Se despediu com uma leve bagunçada nos cabelos de Flores e o barulho de seus passos foi morrendo na distância.
Ainda que Hector dissesse que não precisava se preocupar com a agitação da rua, ainda havia algo incomodando Flores. Era como se Hector andasse ansioso nos últimos tempos. Passava a tarde inteira no atelier, pintando quadro atrás de quadro; havia chegado ao ponto em que Flores tivera que ir buscá-lo por sentir, no estômago, que estava ficando tarde e o outro ainda não havia jantado.
“Tem alguma peça neste quebra-cabeças que eu não estou conseguindo encaixar…” — pensou com certo desânimo.
No final das contas, despejou o café todo na pia, lavou a caneca e foi para o atelier. Talvez uma mudança de ares e ficar mais tempo com Hector lhe dessem uma iluminada.
Iluminada. Haha.
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