In Case
1 Capítulo 1
Notas iniciais
De qualquer modo, boa leitura.
Quando descobriu as fotos dentro do bolso de seu casaco que havia acabado de sair da máquina de lavar, Rachel suspirou deprimida. As fotos estavam meio úmidas e desbotadas e ela mal podia reconhecer o rosto de sua mulher.Ex-mulher,lembrou-se,ela é sua ex-mulher.Mas apesar de mal poder ver a imagem impressa do papel, Rachel recordava-se daquele dia perfeitamente. Aquela era uma tarde chuvosa e tudo o que ela queria era ficar em casa, mas Rachel a convenceu a abandonar a preguiça e a saírem do conforto de seu lar. Foram para o parque e os únicos seres vivos daquele lugar eram elas e os patos que deslizavam sobre a água do lago. Haviam levado uma pesada cesta de piquenique que Rachel insistiu em levar. Por causa do peso e do chão escorregadio de grama molhada e lama, acabou caindo e a levou junto. Acabaram por ficarem com suas calças sujas de terra, além de estarem molhadas por causa da garoa irritante que caia. Ela tirou as fotos com sua preciosa câmera Polaroid e Rachel as guardou como verdadeiros tesouros.
Rachel respirou fundo ao sentir algumas lágrimas se juntarem no canto de seus olhos e ela amaldiçoou a si mesma por querer chorar novamente. Abandonou as roupas no balcão da cozinha e abriu a geladeira, seus olhos caindo diretamente para a primeira prateleira. Todas as comidas que Rachel jamais comeria estavam lá; bacon e carnes, produtos industrializados e cheios de corantes, bebidas e comidas com gostos artificiais e coisas que Rachel nem tinha ideia do que eram. Já fazia um mês que ela havia ido embora e Rachel nunca tivera coragem o suficiente para se livrar de tudo aquilo. Quando estava na porta de casa, com as malas aos seus pés e quase indo embora, Rachel, em meio ao desespero, perguntou o que deveria fazer com “toda a porcaria que ela gostava de comer”. Ela lhe lançou um olhar afetado e disse que voltaria para buscar mais tarde. Fazia muito tempo que esse “mais tarde” nunca veio.
Fazia apenas um mês, mas ao mesmo tempo era como uma eternidade. Era tão confuso acordar e não vê-la na cama ao seu lado ou lendo um livro da varanda de frente para a piscina. Rachel admitia para si mesma que não se livrou das poucas coisas que ela havia deixado para trás porque eram as únicas coisas que sobraram. Também tinha a esperança de que ela voltasse para busca-las e acabassem conversando e se acertando.Mas ela parecia tão decidida. A convicção em seu tom de voz e principalmente em seu olhar ao dizer que tudo estava terminado era tão grande que Rachel sentia vontade de gritar cada vez que se lembrava. Porém, sempre teve esperanças para tudo, não poderia perder agora, ainda mais em um assunto tão delicado para Rachel como ela. Então ela mantinha todos os seus pertences apenas no caso de que ela voltasse, de que Rachel pudesse vê-la por mais alguns poucos minutos.
Pensar que a responsabilidade pelo término de seu relacionamento era sua fazia Rachel querer espancar si mesma.Fui tão egoísta, tão patética. Em toda sua vida, Rachel havia escutado lhe dizerem que ela era uma diva. Que só se importava com sua carreira e fama. Mas Rachel nunca se sentiu desse jeito. Sabia que era ambiciosa, mas sempre teve em mente que sua ambição era na medida certa para alcançar seus sonhos. Mas quando começou a ter a atenção que sempre sonhara, algo mudou. Os olhos de todos no mundo da Broadway estavam em si. A chuva de elogios e críticas positivas eram constantes e ela sentia-se mais que realizada. Todos a amavam e receber aquele amor era a realização de seus sonhos. A fama a cegou de tal maneira que ela passou a se importar apenas com aquele amor, esquecendo-se que tinha o amor mais precioso dentro de sua própria casa.
As brigas se tornaram rotina e Rachel nunca pôde ver o quão errada estava. Um dia chegou a acusa-la de estar com inveja de seu sucesso, o que não fazia o menos sentido já que ela era uma atriz de Hollywood e os olhos do mundo inteiro estavam sobre ela. Sua carreira era muito maior que a de Rachel, que era mais conhecida apenas em New York.Estúpida, fui tão estúpida. Rachel jamais poderia reclamar de sua paciência. Ela havia sido tão paciente que agora Rachel se surpreendia, mas passara de todos os limites e não haveria um ser humano que pudesse aguentar uma situação como aquela. Sempre teve mais compromissos que Rachel, compromissos nacionais e internacionais, mas ela sempre dava um jeito de arranjar algum tempo para sua esposa, mas Rachel nunca fez o mesmo.
Rachel fora forte o suficiente para deixa-la ir, para assisti-la passar pela porta como um furacão, mas era fraca o suficiente para precisar dela e pedir aos céus que a trouxesse de volta. Havia pegado todos os objetos que ela jogara no lixo. Rachel não poderia ver tudo aquilo sendo jogado fora. Eram simples objetos e aparentemente sem importância, mas faziam parte da história que construíram juntas.
Sentia que iria explodir. Tinha tantas coisas a dizer, tantas lágrimas pra chorar e tanto amor a ser dado. Não queria que tivesse acabado dessa maneira. Não queria que tivesse acabado de maneira alguma. Mas ninguém poderia suportar mais do que ela havia suportado e sentia-se a pessoa mais desprezível da face da terra. Tinha raiva de si mesma e não a culpava por ter ido embora. Porém, mesmo tendo plena ciência que tudo aquilo fora sua culpa, mesmo sabendo que não merecia compaixão ou piedade, ainda esperava que ela voltasse. Agarrava-se à esperança de tê-la de volta, apenas no caso de acontecer
Nem ao menos havia percebido, mas o telefone já estava grudado em sua orelha e já discava seu número. Ela não atendeu, mas mesmo assim pôde ouvir sua voz na secretária eletrônica, dizendo que não poderia atender no momento, mas que retornaria a ligação assim que pudesse. Torcendo para que ela retornasse sua ligação, Rachel respirou fundo e começou:
—Oi, eu… Eu só… – Engoliu o choro e tentou novamente – Eu só e-estou te ligando pra d-dizer que sinto sua falta. É tudotãovazio sem você. E não falo só da casa, eu falo… Falo de tudo. Parece que estou presa no tempo, é como se tudo tivesse congelado e eu não conseguisse fazer andar de novo. Na verdade nem sei como te dizer tudo o que sinto – Olhou para a parede e viu uma foto pendurada. A fotodelas– Talvez, quando você escutar essa mensagem e perceber que sou eu, você vai deletar, mas, mesmo assim, eu preciso te dizer. Não sei como, mas preciso.
“Caso... Caso você não achar o que está procurando, caso você sinta falta do que já teve antes – do que nós tivemos antes –, caso você mude de ideia ou apenas sentir falta de casa e querer voltar... O que eu quero dizer é que... Se você quiser voltar, por favor, volte. Eu quero que você volte, eu preciso que você volte. E se um dia, você estiver se olhando no espelho e sentir falta de mim, de como eu costumava te abraçar, por favor, volte. Porque eu me sinto assim todas as vezes que me olho no espelho. Eu gostaria de ver você no reflexo. Você comigo. Eu não te culpo. Você tem razão. Tem razão em tudo o que fez, porque eu mereci tudo isso. Só quero que você saiba, que eu me arrependo de tudo o que fiz. Eu nunca quis te magoar. Nunca quis te deixar sozinha e nunca tive intenção de você duvidar do meu amor. Caso você pense em mim tanto quanto eu penso em você, te digo que você pode me amar de novo. Não pense que estou te pressionando. Talvez eu esteja implorando, mas não quero que você volte só porque estou pedindo. Quero que volte porque é da sua vontade. E... quero que volte mesmo que não seja por todos esses motivos que falei, mas por seus próprios motivos. Você pode me amar novamente, mesmo que esse não seja o caso”.
—Só espero que pense com carinho em tudo que te disse, caso tenha escutado essa mensagem até o fim. E Quinn – limpou uma lágrima que havia escorrido por sua bochecha –, Eu te amo.
O telefone desligou e era isso que Rachel queria fazer. Desligar-se do mundo e só voltar caso ela também voltasse.
Notas finais
mizzdlovato.tumblr.com
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