Começou naquele dia, quando os passos de um rei que até então eu desconhecia, ressoaram em combinação às aceleradas batidas de meu peito. Começou naquele dia, o primeiro em que meus olhos e os dele se encontraram.

Tobio Kageyama. O assustador e exaltado Rei da Quadra, cujos olhos e expressão era indiferença e soberania. Se me perguntassem, eu nunca superei bem aquele olhar de soberba, autoridade.

Vencer Kageyama foi por tempos minha meta. Vencê-lo era o que fazia sentido, vencê-lo me faria melhor. Contudo muito veio, tantos chegaram, e ao momento em que eu abri minhas asas, não era mais contra Tobio que lutava.

À uma passante, nem sequer mais o odiava. E após esta, nos tornamos uma dupla.

Caso viagens temporais e paralelas fossem possíveis, e o meu eu do passado viesse até mim, com convicção ele estaria confuso. O que era aquilo, o que era aquele céu de novos comportamentos e sentimentos e desejos e vontades?

Quem era aquele Hinata Shoyo?

Eu posso afirmar, não me reconheceria nem que apontassem à mim. Porque o céu mudou, Tobio mudou, o time mudou e eu mudei.

No final das contas, a única imutável é a quadra. Ela continua lhe proporcionando tudo: a adrenalina, a emoção, a tensão, a responsabilidade, a pressão. Você não pode parar o que está na quadra, e a quadra não para o que está em você. É uma questão de princípios. O que está na quadra não muda necessariamente, apesar de afetar os resultados. As jogadas executadas, os passes, o choro, a comemoração: nada disso muda a quadra. Ela é a verdadeira majestade.

Eu gostaria de ser imutável como esta, e ao mesmo tempo, não. Se eu houvesse permanecido em rixa à Kageyama, teria derrotado tantos? Se eu ainda o tivesse como inimigo, teria sido capaz de voar tão alto e tão longe?

Sinceramente, a sensação de dependência é tão sufocante quanto inebriante. A depender se a outra pessoa também lhe necessita. Acho que — e eu estou no meu momento pleno de achar coisas, que foi tendo em mente pensamentos assim: da inexpressão e imutabilidade da quadra à dependência e superação de obstáculos, que Kageyama fez o que fez.

E quando fez, eu senti, a quadra mudou. Mudou porque um rei a tirou de seu sustento de improbabilidade. Mudou porque, talvez, nem ela esperava àquilo.

Posso dizer com certeza: eu não aguardava.

O metido à quadra do Tobio sempre foi um ótimo jogador. Ele gostava de jogar, e tinha a técnica. Seus levantamentos e sua jogabilidade à muito não se comparavam ao do Grande Rei, todavia o levantador do Karasuno sabia como conduzir, por mais impossível que fosse. Ele tinha o dom, ele lia, ele enxergava e ele fazia. Talvez não possuísse a impressionante técnica avaliativa de Tsukishima, mas não era exagero apontar:

Kageyama era quase invencível.

Quase, porque todo jogador é humano. Todo jogador sente e sofre e age e atua e mente e cai. Todos. Nenhum time permanece imutável por muito tempo, por maior que seja seu núcleo, sua soberania. Eu pude perceber que Kageyama sabia daquilo, sabia que nem ele com sua invencibilidade poderia sustentar todo um time. Não é o jogador que comanda, e sim o espírito de equipe.

Minha primeira grande derrota foi por conta disso, de certa forma. Bem como a de Tobio, no momento em que seus companheiros de time o arrancaram de seu trono para o lançar aos corvos.

Eramos corvos, desta vez. Somos livres para voar.

E quando Kageyama ergueu seus olhos e veio até mim, naquele dia, eu senti, eu enxerguei, que ele voava soberanamente, majestoso. Por mais que fosse eu o pequeno corvo, o que voava acima da rede, era Tobio quem tinha asas: eu podia as ver negras, impondo sua presença às costas do camisa nove.

Todos podiam ver. Todos viram.

E eu fui além: eu voei junto. Eu senti. Aqueles lábios ríspidos sem criatividade para pronunciar uma ofensa maior que "idiota" ou "imbecil", que se mostravam trêmulos tão poucas vezes ao início de um choro, porém sempre bravos ao gritar ou a comemorar. Aqueles lábios, tão frios quanto seus olhos, tão frios quanto seu trono há muito abandonado, mas tão quentes quando suas mãos apenas me sustentaram e me aqueceram contra seu corpo.

Ali eu vi a dimensão. Era como se tudo girasse e ao mesmo tempo estacionasse. Como se o espaço não existisse, como se as paredes fossem elásticas e se esticassem até os confins do tempo, eu me vi no limiar, no princípio do fim, transitando entre os mundos e as sensações, me vi jogando vôlei com o beijo de Kageyama, e eu estava entregando meu sangue, suor e lágrimas, vivendo nas nuvens com um simples contato, abrindo a porta dos vencedores, destruindo a soberania daquela quadra com um silêncio tão calmo, silêncio este que pela primeira vez, eu quis que permanecesse.

E então a quadra me sussurrou, mutável. Talvez nós fôssemos invencíveis, juntos.

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