Imutável
5 Capítulo 5
Notas iniciais
– O-o quê?!
Eu acabei dando um passo para trás, me apoiando na estante de livros. Aaya olhou para mim preocupada, mas eu não conseguia prestar atenção em nada do que dizia. Milhares de pensamentos passaram pela minha cabeça.
“Alguém que vivera tão afastada de todos só podia ser muito triste e precisar de muito amor”
Não, não podia ser. Breu não poderia estar falando a verdade, porque se ele estivesse, então os guardiões... Balancei minha cabeça, afastando estes pensamentos. Devia existir uma explicação. Breu era um mentiroso, e os guardiões...
– ...oisa errada?
Virei o rosto para Aaya, somente agora percebendo que ela falava comigo, mas mesmo assim, todas as suas palavras pareciam desconexas e sem sentido. Minha cabeça girava, imersa em um vórtice de confusão.
– Eu sinto muito, mas acho que eu tenho que ir agora.
Eu tentei afastar-me dela e ir embora, mas Aaya segurou meu pulso.
– O quê está...? – Mal ela me tocara, afastou bruscamente sua mão do meu braço.
– Você está frio como gelo.
Juntei meu braço junto ao corpo, impedindo-a de tocar minha pele novamente. Não desejava sair tão apressadamente de sua casa, afinal ainda havia certo mistério nesta visita, mas eu precisava tirar algumas coisas a limpo. Porque se Breu estivesse falando a verdade... Não, eu não podia nem ao menos cogitar essa possibilidade.
– Eu sinto muito, mas eu acabei de me lembrar que eu... Tenho um compromisso... Agora.
Ela me olhou tristonha. Eu podia ver dentro dos seus olhos que ela não acreditara na minha desculpa, mas pelo visto, não iria insistir. Ela apenas deu um suspiro pesado e disse:
– Quando você estiver formado Jev, eu quero ser uma das primeiras a lhe contratar.
Por um segundo nem ao menos lembrei sobre o que Aaya estava falando, mas então raciocinei de que ela pensava que eu era um futuro arquiteto. Olhei para ela meio desconfortável, aquela senhora fora sincera ao extremo comigo, e eu nem ao menos lhe disse meu verdadeiro nome.
– Jack.
Ela olhou para mim sem entender.
– Jack Frost, é o meu nome.
A velha de cabelos grisalhos franziu o cenho, provavelmente não entendera o motivo de não lhe contar o meu nome de verdade. Então algo pareceu repentinamente clarear dentro dos seus olhos.
– Mas Jack Frost não é...
Fui andando na direção da porta para impedi-la de continuar.
– Adeus e obrigado.
De alguma forma eu me sentia ligado a aquela senhora e detestava ir embora desta forma, se eu ao menos pudesse fazer algo...
Não fazia nem ao menos um minuto que eu passara pelo beiral da porta e Aaya saiu me procurando para ao menos poder dar uma palavra adequada de despedida. Assim que colocou o rosto do lado de fora ela prendeu a respiração. Sua casa havia sido completamente coberta por um paraíso de gelo, uma pequena tempestade formara-se acima do seu telhado e a neve branca caía sobre todo o terreno. E ao ver o jardim, lágrimas vieram aos olhos da jovial senhora. Crianças esculpidas de gelo “corriam” e “brincavam” pelo gramado. Crianças imóveis fazendo uma guerra imaginária de bola de neve, cuidando das plantas ou lendo um livro de geografia. Aaya colocou as duas mãos sobre o peito, seu coração sendo tomado por uma emoção comovente.
– É um milagre...
Dei um sorriso sincero ao ouvi-la falar isso e quase que ao mesmo tempo, deixei o vento me levar para longe. Mesmo tendo sentindo uma estranha tranqüilidade ao dar aquele presente a Aaya, minha mente ainda se enchia de pensamentos cada vez mais confusos.
Tudo bem, eu só precisava me reorganizar. Eu encontraria Norte e ele me explicaria exatamente o que estava acontecendo. Perguntaria para ele se realmente existiu uma Elsa.
Eu repetia para mim mesmo que não havia o que temer, mas algo no meu âmago parecia recear amargamente pela sua resposta. Eu só conseguia pensar na possibilidade de que tudo que Breu dissera era verdade e que os guardiões haviam mesmo abandonado aquela criança. Passei por cidades e mais cidades cobertas pela neve, indo cada vez mais em direção as montanhas do norte. Quanto mais perto chegava, mais sentia minha adrenalina subir e os ventos me carregarem com mais força. Talvez eu estivesse dando demasiada importância para algo que um verme como Breu dissera, mas eu simplesmente não conseguia deixar esta história para lá. Criei um impulso ainda mais forte com aqueles ventos gelados, mas não importava o quanto acelerasse, eu ainda sentia que estava devagar demais. Quando eu finalmente avistei as montanhas ao longe, meu espírito foi imerso por um alívio inexplicável. Fiz um vôo ágil até chegar aos portões. Yetis guardavam aquelas enormes grades como se suas vidas dependessem disso. Cheguei perto deles e por puro instinto eles formaram uma posição de ataque, apontando para mim suas lanças e armas.
– Calma rapazes, agora eu tenho permissão para entrar lembra?
Eles se entreolharam e soltaram grunhidos. Sabiam que agora eu poderia visitar a fábrica, mas mesmo assim, velhos hábitos são dificilmente mudados. Um dos yetis fez sinal para que os portões fossem abertos, mas me lançou um olhar de desagrado e depois apontou dois dedos para seus olhos e então para mim, como que para mostrar que estaria de olho em qualquer coisa que eu fizesse. Dei uma risada, apesar da situação não me permitir descontrações. Fui entrando na fábrica, sem perder muito tempo vendo as novas coisas que eles montavam a cada vez que eu o visitava.
– Onde está o Norte?
Perguntei para outro yeti que passava, ele apontou na direção certa com seu dedo peludo e depois continuou andando. Subi pelos elevadores e escadas cada vez mais apressadamente. Cheguei à frente do escritório do Papai Noel e bati na porta sem vergonha ou qualquer receio. Continuei batendo insistentemente até que um senhor alto de uma longa barba branca decidiu abri-la. Ele possuía ombros largos e uma postura imponente.
– Calma Jack, o que está acontecendo? – Disse o espírito do natal com um forte sotaque finlandês.
Eu acabei entrando na sala sem me preocupar em lhe dar uma resposta. Norte me olhou surpreso, sem entender o porquê de toda a minha agitação.
– Mas o quê...?
Levantei a mão pedindo silêncio por um minuto. Eu precisava formular todos os meus pensamentos antes de começar a falar, não poderia deixar parecer o quão desesperado estava. Norte continuou me encarando e esperando que eu falasse alguma coisa, foi andando na direção de sua mesa e acabou comendo uns biscoitos durante aquela pausa que eu fizera. Respirei fundo, tentando me tranqüilizar.
– Quem é Elsa de Arendelle?
Norte engasgou com os biscoitos, estranhei aquela reação. Ele se apoiou na mesa enquanto dava socos no próprio peito. Ele continuou engasgando por um momento e fez uma grande pausa, o que só aumentou minha impaciência. Ele abriu a boca para falar e eu senti que poderia explodir de excitação.
– Quem?
Levantei uma sobrancelha e bati meu cajado no chão. Aquela reação perturbada de uns segundos atrás não parecia ser de desconhecimento.
– Como assim “quem”? Elsa, uma princesa que viveu no reino de Arendelle, atual cidade de Oslo, capital da Noruega. Uma garota triste com grandes poderes que se sacrificou pela irmã. Falta alguma coisa?
Ele remexeu as mãos, nervoso.
– Não sei do que está falando...
Aproximei-me dele de olhos semicerrados, apertei meu cajado, os tendões de minha mão tencionando-se.
– Vamos, faça um esforço. Você pode até mesmo ter esquecido o nome dela, mas com certeza se lembraria de passar entregando presentes em um castelo de uma princesa mágica. – Disse com um grande toque sarcástico na voz.
Ele inchou as bochechas rosadas e continuou me encarando como se não fizesse a menor idéia sobre o que eu estava falando. E quanto mais ele tentava desviar do assunto mais desconfiado eu ficava. Será que todas estas evasivas significavam que Breu estava mesmo falando a verdade? Aquela constatação acertou-me em cheio, se eles realmente tivessem algo a esconder de mim, então...
– O quê é isso Jack? Você não acha mesmo que eu me esqueceria tão fácil, não é? Estou lhe falando, nunca houve nenhuma Elsa em Oslo.
Então assim que ele terminou de falar, eu percebi o que estava com tanto receio que acontecesse. Ele estava mentindo.
– Existiu sim, não interessa se foi uma rainha ou não. Existe uma lenda sobre ela, e você é muito mais velho que eu, deveria conhecer um conto de um país tão próximo. Você podia simplesmente ter dito para mim que era uma história de camponês, mas não disse. Vai me dizer que não sabia sobre isso Norte? – Disse com certa tensão na voz, pois sentia que estava o encurralando.
Ele pareceu ser pego de surpresa, começou a andar pelo quarto, nervoso. Sentou-se por um segundo em sua cadeira, mas acabou levantando-se outra vez. Ele parecia metido em várias contradições e eu sabia que a cada passo que ele dava pela sala, mais perto eu chegava da verdade, que eu tinha quase certeza de que não seria agradável.
– E como você sabe de uma coisa dessas? – Disse ele com uma voz autoritária.
– Uma senhora que eu encontrei me contou e...
Ele me interrompeu antes mesmo que eu pudesse terminar minha frase.
– Uma senhora? Você quer dizer que não era uma criança?! Espera, se era uma senhora, obviamente não era uma criança. Mas como?
Ele refletiu por um momento e depois continuou, nem ao menos me dando oportunidade de contrariá-lo.
– Espera, eu já sei! Mas há quanto que não via alguém assim...
Ele olhou para mim pelo canto dos olhos e eu retribuí seu olhar de cenho franzido, não sabia onde ele queria chegar, mas não deixaria me enrolar por suas palavras.
– Escute, quando um humano mantém sua mente pura, imaculada dos pecados da idade e inocente como a de uma criança e é claro, se eles acreditarem na magia que existe no mundo, eles tem o poder de ver guardiões. Mas já deve imaginar o quanto isto é difícil de acontecer, então faz séculos desde que eu vi alguém assim, somente aquela...
Ele interrompeu-se enquanto falava e pelo seu olhar eu sentia que ele escondia algo.
– Me diga Papai Noel, o que você está escondendo de mim?
Ele se manteve em silêncio, eu esperava impacientemente pela resposta, e sentia que todos os guardiões guardavam mais segredos do que eu jamais imaginara.
– Eu...
Novamente Norte prolongou a sua pausa, enchendo-me de uma curiosidade incontrolável, se ele não falasse logo alguma coisa...
– Eu estou muito ocupado agora, volte mais tarde.
Ele bateu palmas e mais rápido do que já vira qualquer outra vez, yetis entraram na sala e me puxaram para fora. Gritei para Norte para que me soltassem, mas ele não fez sequer um movimento. Os yetis me colocaram novamente dentro de um saco e depois de vários sacolejos e batidas eu fui jogado na neve do lado de fora. Eu sabia do prazer que eles tiveram ao fazer isso, o que só aumentou minha frustração.
Ele havia me expulsado e isso só podia significar uma coisa. Norte, não, todos os guardiões realmente escondiam a verdade. Isso já estava óbvio, mas se Norte não queria me contar, eu conhecia alguém que não saberia mentir para mim...
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