Notas iniciais
Bom, eu estava quase desistindo de postar esta história, mas por causa dos comentários inspiradores do capítulo 1, eu não posso fazer isso. Muito obrigado à Hayen Gosling, Authora, Ana Tonhetta, puca sophia1234567890 (que grande) e RealDiePie por terem comentado!!

Eu continuei viajando pela vastidão limpa do céu azul, deixando os metros se transformarem em quilômetros. Minha mente enchia-se de reflexões contraditórias. Frases vagantes e frívolas sem um sentido profundo galgavam pelo meu juízo. Eu não poderia me deixar levar pelos ludíbrios desregrados de Breu, não deixaria que me enganasse tão facilmente. Eu cruzei algumas cidades do Norte, congelando pneus, colorindo folhas do outono e criando ventos gélidos. Mas não importa o quanto tentasse impor este pensamento para mim mesmo, eu não conseguia parar de pensar no que Breu dissera, não poderia ser verdade. Alguém que viveu como eu? Tão triste e tão sozinha que foi completamente destruída pelo medo, quanta dor e sofrimento ela deve ter passado, sem jamais poder confiar em ninguém, guardando tudo isso dentro si mesma, eu... Eu não podia acreditar nisso. Obviamente era apenas um truque impudico, inescrupuloso e obsceno para tentar destruir os guardiões.

Mas você não vai me fazer de trouxa assim, bicho papão. Só preciso esquecer-me daquela conversa sem sentido e deixar pra lá. E eu sou muito bom nisso.

Eu continuei vagando sem um rumo certo até que por fim parei em uma cidadezinha na Islândia chamada Akureyri. Eu olhava todos aqueles cabelos claros e faces coradas com certo divertimento, todos se escondendo tão impacientemente do frio enquanto eu apenas desejava ser levado por ele. Com o canto dos olhos pude notar três crianças brincando na neve. Tão inocentemente e felizes que me fizeram lançar-lhes um sorriso. As pessoas não devem temer o frio, no entanto o fazem. Eles sempre o associam a languidez e melancolia, jamais enxergam a beleza por trás da ferocidade do gelo. Tudo que é belo é selvagem, se ao menos todos pudessem senti-lo, sentir sua força e poder, terem a capacidade de enxergar a sua imponência sublime, mas ao mesmo tempo afável. Talvez por isso somente as crianças pudessem me ver, por elas serem pura para amar o frio sem receios.

Bom, era apenas mais uma teoria sem sentido, se não, qual seria as desculpas dos outros guardiões?

Aproximei-me calmamente de todas elas, seus risos contagiantes me levando para a atmosfera das travessuras dos dias de neve. Vi enquanto eles se abaixavam e tentavam montar fortes de neve, fracassavam, mas continuavam incansavelmente.

Acho que eu posso dar uma ajudinha.

Bati meu cajado, dispersando meus poderes, o chão começou a congelar e rapidamente alcançou as crianças, formas começaram a se erguer e se entalharem sozinhas, dei uma grande risada ao ver o rosto delas. Três fendas se abriram na estrutura, e mãos invisíveis invocadas pelos meus poderes cinzelaram as formas perfeitas de uma porta e janelas. Um forte do tamanho de uma pequena casinha, mas gigante dentro da imaginação de uma criança. Seus rostos estavam cheios de espanto, mas ao mesmo tempo encantados. Eles olharam maravilhados o castelo diminuto que se formava a partir dos seus pés. Eles procuraram ao redor quem por acaso estaria fazendo a deslumbrante mágica. Meu sorriso alargou-se ainda mais quando vi que as três crianças me encararam perplexas. Eu não tinha mais medo de não ser visto, mas sempre que via o reconhecimento dentro dos olhos de uma criança, eu não poderia explicar a vivência de finalmente poder me comunicar com elas.

A garotinha puxou a manga do rapazinho ao seu lado, assustada, mas com um sorriso crescendo em seus lábios.

– Maður í stórhríð.

Ri olhando para as três crianças estupefatas e felizes.

– Homem da nevasca? Não sei, acho que prefiro Jack Frost.

– Jack Frost?_Disse o garoto com um leve sotaque.

Elas sorriram e se entreolharam. Eu finalmente era visto, e sabia a razão disso, não importava o que Breu tentasse, eu estava radiante, e ele jamais acabaria com a minha felicidade. Fiz um sinal de silêncio com meu dedo indicador e disse:

– Adeus crianças, eu tenho que levar o inverno para outros lugares.

Segurei com força o meu cajado e alcei vôo, criando um forte vento que bagunçou os cabelos de todas. Mas ainda pude ouvir uma delas gritar:

– Það er töfrum! Magic! Magic!

Dei uma longa e sonora gargalhada enquanto deixava o vento me levar para onde quisesse. Viajei quilômetros e quilômetros até chegar a uma cidadezinha no interior da Bélgica, o clima não era propenso para mim e com certeza eles estranhariam uma nevasca repentina agora. A cidade era pacata e sem movimento, mal havia pessoas na rua. Dois homens conversando na frente de um bar, uma senhora sentada na frente de sua varanda e alguns outros idosos jogando cartas. Todas as construções eram como pequenos chalés pintados em um estilo clássico e meio desbotado. Bom, o único lado bom de ainda ser invisível para eles era o fato de observar sem ser observado, o que realmente ás vezes era uma grande vantagem. Fiquei imaginando como aquelas pessoas reagiriam a um inverno repentino agora. Andei brevemente pela rua, que quase parecia compor a cidade toda, incógnito e silencioso. Cumprimentei os habitantes mesmo sabendo que eles continuariam em silêncio e fiquei andando por ali despreocupadamente. Olhei de relance para a senhora sentada na cadeira de balanço, ela tinha o rosto cheio de marcas da idade e feições flácidas, encarava a sua frente fixamente com seus olhos caídos e um sorriso passivo e calmo. Aproximei-me dela dando de ombros, afinal não tinha nada mais interessante para fazer. Subi na sua varanda coberta e me aproximei dela. A senhora possuía cabelos grisalhos presos em um coque, mas com fios rebeldes que insistiam em se soltar daquelas amarras e fugir para seu rosto. Notei que em cada um dos seus dedos havia um anel. Dourados, prateados, adornados com joias ou não. Olhei para aquela desorganização simplória nos seus dedos. Aproximei meu rosto das suas mãos por pura curiosidade.

– Querido, você está bem?

A ouvi-la falar comigo, tropecei nos meus próprios pés e acabei caindo na frente de sua cadeira e com o meu rosto no chão. A senhora se levantou abruptamente, claramente preocupada comigo, ou eu pensei assim. Passei a mão pelo meu nariz, reclamando um pouco. A mulher se abaixou e tentou me levantar pelos ombros, mas desvencilhei-me de suas mãos um pouco assustado por ela estar conseguindo me ver ou tocar.

– O quê foi rapaz?

Não respondi, só consegui encará-la estatelado e com as palavras morrendo dentro da minha boca. Ela mexeu as mãos demonstrando descaso.

– Não precisa se explicar, eu já sei o que é: falta de proteína. Vêm comigo, eu vou te dar um pouco de waffles e leite.

Com uma força exagerada para uma velha senhora, ela me levantou do chão e começou a me puxar na direção da casa, tentei me desvencilhar, já fazia muito tempo que não era convidado para entrar na casa de alguém, e aquelas condições foram exageradamente estranhas. Mas a senhora parecia determinada para me fazer experimentar a sua comida.

– E-eu não... Não precisa...

A mulher olhou de soslaio para mim com um olhar de desaprovação.

– Não me venha dizer que não precisa. Já se olhou no espelho? Eu até entendo que vocês adolescentes gostem de pintar os cabelos destas cores estranhas, mas você está magricelo e muito pálido. Não mesmo, uma criança não vai morrer de anemia na minha frente.

A senhora continuou me puxando para dentro da sua casa, não consegui encontrar argumentos para fazê-la me soltar, e estava meio curioso para saber como ela podia me ver. Ela então me empurrou para dentro do seu chalé. Parecia uma casa relativamente normal, sem nada muito suspeito. Uma televisão velha, um sofá marrom, almofadas de crochê e cheiro de canela. Não tinha nada para dizer além de que era estranho entrar pela porta na casa de alguém.

– Olha só para você, não está nem andando de sapatos. Deixa-me adivinhar, está começando a morar sozinho?

– O quê? Eu...

– Não precisa ficar envergonhado, os rapazes da sua idade só querem saber de jogar videogame e namorar.

Senti meu rosto ficar vermelho, como ela podia dizer “rapazes da minha idade”, não acho que existam muitas pessoas de trezentos anos andando por aí.

– Espere aqui, eu tenho uns waffles no forno, eu vou esquentar para você. Você pode deixar seu... Seu... Trequinho... Er... Seu pedaço de madeira ali no canto.

Encarei-a desconfiadíssimo.

– Eu vou ficar com ele.

A mulher colocou as mãos na cintura e deu uma risadinha.

– Essas crianças de hoje em dia... Eu vou lá dentro esquentar os waffles, ah sim meu nome é Aaya, qual o seu, meu bem?

Hesitei um segundo em responder, as ações daquela mulher me pareciam muito suspeitas.

– Meu nome é... Jev Rost.

Ela sorriu para mim e então andou na direção da cozinha. Assim que ela saiu do meu campo de visão, comecei a olhar para todos os cantos procurando alguma prova que a denunciasse. Talvez fosse um plano de seres desconhecidos que planejavam destruir a infância e os guardiões. Ai Deus, porque eu que tinha que me encontrar com essa gente. Talvez eles estivessem me espiando neste exato momento, iriam se aproveitar do meu momento de distração com a comida e BAM! Atacariam-me pelas costas. Senti algo no me ombro e me virei abruptamente, segurei o meu cajado e o levei a centímetros do rosto de Aaya. Ela pareceu assustada com a minha reação, mas eu continuei a encará-la com os olhos semicerrados e cheios de desconfiança. Ela se afastou com um semblante preocupado.

– Vem cá, posso te mostrar uma coisa?

Não respondi de imediato, tentando enxergar por trás de suas palavras. Ela andou até a pequena lareira do outro lado da sala e fez um gesto de mão para que eu a seguisse. Em cima da lareira havia fotos de várias crianças e adultos, todos sorridentes e felizes. Havia pessoas de todos os tipos raciais, imaginei porque ela teria tantas fotos ali.

– Estes são meus netos, todos eles.

Olhei para ela com certa incredulidade.

– Eles não são meus netos de sangue, mas são do meu coração. Todos eles eram crianças perdidas ou muito solitárias que não tinham para onde ir. Alguns eu encontrei quando ainda eram apenas bebezinhos, outros quando já eram adolescentes.

Não estava entendendo aonde ela queria chegar, com aquela conversa sobre seus netos adotados. Ela me lançou um olhar tão significativo e sincero que não consegui sustentar e desviei meu rosto.

– No mundo de hoje, vivemos cercados de intrigas, é impossível se manter longe dos pecados.

Eu alternava meu olhar entre o chão e a foto daquelas pessoas tão felizes, por alguma razão eu não conseguia olhar para aquela senhora, talvez por confusão, por ter acabado de entrar em sua casa e ela já me contar a história de sua vida.

– Quando você encontra alguém desesperado por ajuda e você tem o poder de livrar aquela pessoa da dor, suas escolhas se esvaem. Você deve ajudá-lo, não por uma questão moral, mas por que é o seu dever. Eu sei que confiar incondicionalmente em alguém é algo muito difícil, mas quando você dá ao próximo uma chance e um pedacinho de você sem esperar absolutamente nada em troca é que vemos o lado mais bonito das pessoas.

Refleti sobre aquelas palavras na minha mente, pareciam tão estranhamente apropriadas para o momento, mas mesmo assim não pude deixar de me sentir tocado por elas.

– Por que está dizendo isso para mim?

A mulher deu uma risada baixinha.

– Senti que você precisava ouvir.

Sorri para ela, por mais estranha que a situação parecesse, eu me sentia feliz por ter ouvi-la falando.

– Então, quer comer um waffle?

– Acho que sim...

Notas finais
Eu não sei, será que eu acabei correndo de novo?! Que coisa! Por favor, me digam o que acharam, se você comentar uma palavrinha só para dizer que leu o capítulo já vai me fazer feliz! P.S. Ah é, quando o Jack vai embora as crianças gritam: - Ele é mágico! Mágico! Mágico!