Imutável
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Quando eu finalmente abri os olhos eu pude ver a vastidão dos verdejantes campos que se estendiam por quilômetros e quilômetros. Minha mente se encheu de apreensão, eu deveria ir para uma terra tomada pela neve, não é? Será que eu, com toda a minha pressa, fizera algo de errado? Eu olhei ansioso para todos os cantos, não conseguia distinguir nada. Talvez eu não tivesse pronunciado o nome da maneira correta e acabara vindo para um lugar completamente diferente. Passei as mãos pelo meu cabelo sendo tomado pelo desespero.
Não! Eu estragara tudo! Minha única chance e eu a jogara porta a fora! Se eu voltar agora todos os Guardiões vão jogar na minha cara que eu fora ainda mais ineficiente do que eles!
– Finalmente a rainha Elsa sairá para ver seu povo. – Disse uma voz rebuscada atrás de mim.
Vire-me abruptamente, havia dois homens de vestes leves conversando tranquilamente. Ao perceber o sentido daquelas palavras fui tomado de alívio. Afinal de contas, eu não havia ido ao lugar errado. Mas então algo estalou dentro da minha mente, eles haviam dito coroação. Não podia acreditar, a princesa Elsa não deveria ter idade suficiente para se tornar rainha. Deveria ser apenas uma garotinha. Mas os homens continuaram a tagarelar sobre os incontáveis anos que a futura rainha se manteve trancada e como estavam animados para finalmente poder vê-la. O globo me traria para o momento exato em que eu deveria consertar tudo, mas eu sempre imaginara que seria quando Elsa ainda fosse uma criança. Como eu poderia fazê-la me ver sendo adulta? Eu me enchia de confusões enquanto continuava a seguir meus companheiros como um viajante silencioso. Apesar de tudo, algo dentro de mim me acalentava, o globo não comete erros, apesar de ter pensado o contrário alguns segundos trás, se ele me mandou exatamente para esta época é porque o que eu preciso fazer está aqui neste exato momento. Eu animei-me com a idéia, e continuei mais despreocupadamente. Saberia que poderia chegar ao castelo em pouquíssimo tempo se soubesse o caminho, então ter de seguir aqueles aldeões vagantes me deixava impaciente.
– Vamos! Andem mais rápido. – Disse em uma repreensão totalmente ignorada.
Finalmente me dei conta do que estava falando, e eu acabei me sentindo um idiota. Com um balançar do meu cajado eu me lancei no ar e alcancei as nuvens. Os homens seguraram seus chapéus olhando estranhamente a repentina ventania. Então eu facilmente distingui o castelo ao longe se erguer sobre enorme lago, eu podia ver vários barcos aportados e uma leve agitação. Parecia mesmo que ali haveria uma coroação, mas isso ainda me enchia de pensamentos confusos. Eu decidi não perder tempo e simplesmente voar naquela mesma direção. Eu passei por aldeões e chefes de estado, todos animados, pois, pelo que parecia ser a primeira vez, os portões seriam abertos. Aquelas pessoas entusiasmadas comentavam sobre como estariam as princesas e sobre qualquer mínimo detalhe que poderia estar escondido dentro do castelo. Eu olhava para todos curioso, tecnicamente eu ainda não vira pessoalmente nenhuma das duas. E mesmo pelas memórias, os seus rostos pareciam apenas lembranças quase esquecidas de um sonho distante. Apenas segui o fluxo de pessoas e rapidamente cheguei ao castelo. Não havia nada demais, era suntuoso como qualquer outro palácio nórdico que eu já visitara. As pessoas se amontoavam no portão do enorme muro frontal ansiosos para ver a rainha. Os camponeses e nobres se encaravam inquietos, esperando pelo momento em que poderiam entrar e ela finalmente surgiria para todos. Norte fora misterioso ao dizer que fazia muito tempo desde que alguém adulto conseguira ver um Guardião, que era necessário muita inocência para isso. Minha mente começou a raciocinar e eu cheguei a conclusão óbvia. Ele só poderia estar falando de Elsa, não haveria outro motivo para ele manter todo este segredo. Tudo seria incrivelmente mais fácil caso ela pudesse me ver. Eu pensei em esperar ela aparecer, mas eu me sentia tão cheio de adrenalina que caso me mantivesse um segundo a mais parado iria explodir. Eu voei por sobre os muros e analisei passando rapidamente por todas as janelas que conseguia enxergar. Eu me sentia em um louco frenesi, com o vento a me levar de lá para cá o mais rápido que podia. Então eu finalmente a vi, e por algum motivo tudo pareceu se esclarecer, mesmo não tendo boas percepções do seu rosto, eu sentia que era ela. Através dos vitrais coloridos eu pude ver seu relance encarar um enorme quadro. Eu tentei inutilmente achar uma forma de entrar por ali, então passei pela janela ao lado. Abrindo-as com cuidado para não fazer o menor som e acabar assustando a rainha. Embora a aparição de um jovem estranho do nada fosse espantá-la ainda mais. Eu andei receoso pelo quarto, ainda temeroso sobre saber se ela me via ou não. Então eu a ouvi falar, e sua voz soou como os sinos das catedrais, lindos, porém cheios de sofrimento.
– Controle-se, não pode simplesmente botar tudo a perder agora. Um movimento errado e todos saberão o que está guardando por tanto tempo.
Aquilo me encheu de tristeza, eu já sabia de suas pretensões, mas ouvi-la dizer como se escondia de si mesma era inumerosamente mais doloroso. Não sabia se simplesmente deveria começar a falar ou chamar sua atenção, ela parecia tão concentrada como se estivesse em um transe contemplativo. Eu ainda me sentia temeroso para o caso de ela não me ver, pois isso tornaria tudo incrivelmente mais complicado. Eu decidi então dar um pigarro para chamar sua atenção. O rosto de Elsa virou-se rapidamente e o seu olhar encontrou o meu. Eu senti algo entalar dentro da minha garganta. Pelas imagens que eu vira recentemente eu poderia dizer que a rainha era bonita, mas agora, vendo-a de verdade, eu não podia dizer nada abaixo de que ela se assemelhava a um anjo carregado pela melancolia. As suas feições eram proporcionais e os seus olhos eram lindos e penetrantes. E ela me vira, virara-se ao me ouvir e agora olhava para mim, eu me sentia bobo por não saber como começar a falar qualquer coisa. Eu tinha mil assuntos, mas como mencionar qualquer um deles? Olá, eu sou um Guardião e vim do futuro para salvar você. Funcionaria caso eu quisesse parecer louco. Oi, e aí, como é que vai? Um dia bonito hoje, não? Um ótimo dia para não usar portas e entrar na sala dos outros pela janela! Eu abri a boca para começar a falar qualquer coisa que fosse coerente, mas então ela abaixou os olhos.
– Você deve ser a garota perfeita. – Disse como se conversasse consigo mesma.
O quê? Eu andei na sua direção e não vi o menor sinal de reconhecimento nos seus olhos. Minha mente encheu-se de desespero, se ela não me visse eu não saberia por onde começar. Fiz movimentos exagerados na sua frente e mesmo assim, nada.
– Rainha Elsa, por favor, me escute! – Eu gritei em uma tentativa ridícula para ser ouvido.
Ela não olhou mais para mim, e apenas abraçou seu próprio corpo de olhos fechados. Eu então eu senti a pontada de não ser mais visto de novo, de me sentir totalmente desacreditado.
– Não, por favor, você tem de acreditar em mim. – Eu disse em um lamento penoso.
Eu estiquei meu braço para tocá-la e, esperadamente, ela atravessou meu corpo como se eu nem ao menos existisse. E na verdade, para ela, eu não era nada. Eu a encarei tristemente, se eu não pudesse nem ao menos interagir com a Elsa, como poderia salvá-la? Ela pegou suas luvas em cima de um longo balcão e fez menção de colocá-las. Embora eu estivesse menos habituado a elas do que Elsa, eu sentia um profundo ódio por cada uma daquelas luvas.
– Escute, você não precisa delas, entende? Você pode ser maravilhosa sendo quem é de verdade, não se esconda!
Um clarão carregado de compreensão pareceu correr pelos seus olhos. E ela hesitou em colocar suas luvas. Ela analisou metodicamente suas mãos descobertas. Soltei uma exclamação, alguma parte dentro dela entendera o que eu dissera. Se eu ao menos pudesse fazê-la compreender tudo o que tinha a dizer.
– Largue-as! Queime-as! Nunca mais as coloque! Explore seus poderes! Não tenha medo porque eu não vou deixar nada acontecer. – Eu disse isso com uma grande convicção. Eu não sabia como, mas quando chegasse o momento eu a protegeria.
Ela esticou suas mãos na direção de um móvel e eu podia ver que ela lutava contra si mesma para fazer o que desejava,
– Vamos!
Ela tocou o balcão com a ponta dos dedos e ao mesmo tempo ele foi tomado pelo gelo. O gelo frio, expressivo e belo, que somente aqueles que reconhecem sua força conseguem enxergar. Os olhos da rainha ficaram maravilhados e eu senti que havia dado um passo para conceder sua liberdade. Mas então seu semblante mudou e ela transformou sua expressão em uma mascara de terror.
– Porque eu fiz isso? — Ela disse encarando horrorizada seus dedos frigidos.
Ela escondeu sua mão entre o corpo e rapidamente colocou de volta suas luvas. Não entendi a razão daquela repentina mudança, mas então vi uma fumaça negra se formar ao redor de Elsa. Uma fumaça que enchia sua mente. Praguejei mentalmente, mesmo quando Breu não estava por perto, a sua influência ainda recaía sobre ela. Eu não poderia fazer nada até que o encontrasse, mas ao mesmo tempo receava isso. Pois sabia o quanto ele estava poderoso. Talvez antes deste encontro eu devesse olhar a cidade e ver como todos reagiam aquela névoa maligna. Dei um olhar de relance para Elsa. Senti-me estúpido por falar mesmo sem ela conseguir ouvir, somente sendo confortado pelo fato de que alguma parte inconsciente sua reconhecia minhas palavras.
– Eu vou voltar logo. – Disse com uma pontada de vergonha misturada a desconforto.
Eu novamente saí pela janela de vidro e fui me misturar a multidão. Todos já haviam entrado pelo portão e se dirigiam ao jardim da frente. Pareciam mais ansiosos do que nunca, agora que finalmente chegavam tão perto. Eu examinei bem, mas não havia mais ninguém que parece estar tomado da má influência de Breu. Eu desci ao chão e fui andando com os normais desejando ver melhor as expressões de cada um. Todos pareciam felizes e afoitos, sem guardar grandes segredos. Não parecia fazer sentido, eu sabia que Breu causara a destruição da rainha, então haveria de existir todo um contingente de pessoas tomadas pelo medo. Eu continuei caminhando preocupadamente até que sentir um cutucar leve nas minhas costas. Virei-me abruptamente e acabei encarando uma jovenzinha meio ruiva, meio morena de rosto gracioso e sardas que lhe davam ares simpáticos. E eu também podia sentir que havia algo de muito familiar nela.
– Oi, com licença, você poderia só... Chegar para o lado.
Dei um passo para trás assustado, mas sem sair do seu caminho. Eu olhei para ela surpreso, não entendia como ela poderia estar me vendo, afinal mais ninguém ali conseguia.
– Quem é você? – Disse meio atravancado.
Ela estranhou minha reação e a hesitou antes de responder.
– Er... Eu sou a princesa Anna de Arendelle. — Disse a garota fazendo uma pequena mesura.
Luzes de compreensão brilharam na minha mente. Claro, quando Norte falara de alguém que podia nos ver estava falando da outra princesa, não de Elsa. E por isso que não pôde me dar mais informações sobre o assunto. Pois eu poderia acabar interligando tudo. Eu dei uma risada nervosa e a princesa Anna me encarou meio apreensiva.
– Sabe o que é? Eu queria mesmo descer por essa escada.
Eu me virei para finalmente perceber que estava no topo de uma escada e bloqueando a passagem. Eu dei um passo para o lado com a intensão de lhe permitir passar. Ela sorriu para mim e agradeceu. Depois desceu todos os degraus apressada e não muito graciosa.
– Ela que pode me ver. Não importa, eu vou segui-la e ver se consigo descobrir mais detalhes sobre esta história.
Disse com determinação e convicção de que não importava o que acontecesse, eu resgataria a rainha Elsa de seu destino.
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