​O cheiro acre e metálico do veneno não era apenas um odor; parecia ter substância própria. Denso e oleoso, rastejava pelo ar úmido do desfiladeiro como uma névoa invisível que grudava na pele e invadia as narinas com uma agressividade cortante.

A princípio, o efeito foi sutil, mas logo tornou-se implacável.

Assim que respirei aquela lufada contaminada, um gosto amargo estourou no fundo da minha língua, seguido por um ardor imediato que desceu rasgando pela minha garganta, como vidro moído. Cada tentativa de puxar o ar fazia meus pulmões queimarem por dentro. Uma tontura pesada despencou sobre mim, fazendo o chão de cascalho oscilar e as cores dos cristais translúcidos se distorcerem em borrões.

A custo, mantive os olhos abertos, observando que a toxina agia com a mesma lentidão cruel nos dois homens ao meu lado.

Gaara respirou fundo para comandar a areia, mas no mesmo instante seus ombros recuaram e um tremor violento percorreu suas mãos. As veias de seu pescoço engrossaram, ganhando um tom arroxeado sob a pele bronzeada.

A meu lado, Sasuke mantinha a postura erguida, mas notei o exato momento em que o suor frio brotou em sua testa. A cada lufada, o maxilar do Imperador travava num estalo tão duro que os músculos de sua mandíbula saltavam. Seus braços começaram a tremer — um reflexo de exaustão e intoxicação. Nenhum deles podia fraquejar, e o esforço exigido em cada centímetro de movimento era titânico.

Percebendo o perigo, Gaara agiu primeiro. Com um movimento rápido, compactou a areia ao redor dos pés até moldar uma máscara firme sobre o rosto, deixando apenas os olhos expostos por uma película de ar filtrado.

Sasuke adotou outra abordagem. Exalando sua energia de forma controlada, canalizou o gelo diretamente para o próprio nariz e boca, cristalizando um protetor contra o gás.

Seu rosto se inclinou bruscamente em minha direção, os olhos escuros ardendo com uma proteção feroz.

— Não prenda a respiração. Deixe que eu cuido disso... — a voz saiu abafada pela geada, mas carregada de uma urgência intransigente.

A mão enluvada de Sasuke ergueu-se até o meu rosto. Seus dedos firmes pressionaram minhas bochechas e, com um sopro gelado direto sobre a minha boca e nariz, ele teceu uma película moldada aos meus traços. O ar enregelado tocou minha pele, estancando a queimação, embora o rastro do veneno já inalado continuasse a entorpecer minhas pernas.

— Eles estão vindo — a voz de Gaara soou abafada pela máscara, o olhar fixo na penumbra superior do desfiladeiro.

O aviso nem terminara de ecoar quando o som de um sibilar cortante rasgou o vento. Do alto das paredes de arenito, uma chuva de dardos translúcidos despencou sobre nós.

Gaara ergueu as palmas trêmulas para o solo, forçando a areia a se erguer em muralha. Mas o veneno o fez hesitar: ao tocar a barreira, a toxina sibilou ferozmente, corroendo parte do escudo em uma fumaça roxa.

— É uma armadilha — o comentário de Sasuke cortou o ar, a voz dura por trás do gelo, enquanto mapeava as sombras. — Eles sabiam que estaríamos aqui.

Gaara estreitou os olhos.

— Sasori não deixaria esta rota livre a menos que quiséssemos nos trancar em sua própria teia.

O som de engrenagens rangendo e madeira estalando ecoou das fendas laterais. Centenas de facetas de quartzo refletiam e multiplicavam os feixes de luz, criando um labirinto de espelhos onde era impossível discernir o real do ilusório.

Das sombras, as imagens guturais se formavam. Figuras espelhadas de rostos contorcidos se esgueiravam em cada formação dos cristais. Marionetes.

Eram criações monstruosas. A primeira arrastava-se com lentidão aterrorizante: uma estrutura esquelética de mais de três metros, com ossos de aço enegrecido e maxilares duplos repletos de dentes de ferro. Em vez de mãos, trazia foices pingando veneno, multiplicadas dezenas de vezes pelos reflexos dos cristais. Atrás dela, figuras revestidas com pele humana esticada sobre armações de madeira deslizavam pelo cascalho, expelindo chamas e gás.

Fiquei paralisada por alguns segundos. Como alguém poderia criar algo tão animalesco?

— Marionetes de combate de Sasori... — sibilou Sasuke, a respiração pesada condensando o gelo em sua boca. — Não olhem para os reflexos. Os cristais estão distorcendo a posição real.

O formigamento do veneno avançava pelas minhas pernas. Meu estômago dava nós de pânico: eu não sabia lutar com a força deles. Mas, enquanto meus dedos apertavam o cabo da adaga, uma clareza cortante estalou na minha mente. Se eu não podia usar força bruta, eu iria usar minha mente.

Percorri rapidamente as formações ao nosso redor com minhas orbes, procurando padrões.

Deve ter algum jeito...

Como um estalo, a resposta cruzou meus pensamentos.

— Gaara, as sombras! — gritei por trás da geada, apontando firme. — A posição real não reflete o calor! O atrito do metal contra o cascalho do chão não bate com o que você vê nos reflexos!

Gaara captou a lógica no mesmo instante, desviando o foco para as vibrações do solo.

Ao meu lado, Sasuke não esperou um segundo. Movendo-se com uma agilidade predatória que desafiava a toxina, ele assumiu a vanguarda com uma ferocidade implacável.

— Deixe a retaguarda comigo — a voz de Sasuke ressoou grave.

Com um giro violento, ele sacou a espada. A energia gélida irrompeu da lâmina, cobrindo o solo de geada em busca das figuras reais, e desferiu um corte diagonal devastador diretamente contra a viga de sustentação da marionete esquelética real, escondida na penumbra.

— Encontrei o corpo principal — rosnou Sasuke, a mandíbula travada enquanto sua bota estilhaçava a estrutura metálica.

Mas as outras figuras avançaram, disparando uma rajada cega de lâminas.

— Sasuke, à direita! A verdadeira está duplicada na terceira faceta do prisma, mas o braço mecânico está desalinhado! — apontei, a voz espremida pela máscara de gelo.

Sasuke confiou na minha análise sem hesitar. Usando a distração do labirinto a seu favor, arremessou uma estaca de gelo maciço contra a fenda exata, cravando-a no núcleo de engrenagens da marionete oculta e paralisando-a de imediato.

O silêncio durou o espaço de um batimento cardíaco. Logo, o desfiladeiro inteiro vibrou. Dezenas de marionetes irromperam das sombras, multiplicando-se geometricamente nos espelhos de quartzo. A horda parecia infinita.

— Eles estão usando os prismas como amplificadores de ilusão — sibilou Gaara, com as palmas firmes no solo, sustentando uma cúpula de areia que gemia sob o impacto das lâminas. — Se não destruirmos os cristais, seremos soterrados em falsas pistas até o veneno nos apagar.

Sasuke travou o maxilar. O suor e a geada se misturavam em sua testa. O veneno queimava suas veias, mas a sua presença emanava uma pressão sufocante.

— Sakura, afaste-se dois passos para trás — ordenou ele, num tom que não admitia contestação. — Gaara, prepare a compressão máxima no meu sinal. Vou acabar com o eco de uma só vez.

Meus olhos se arregalaram. Com o corpo já entorpecido, recuei o máximo que pude enquanto Sasuke cravava a espada no chão de cascalho. Canalizando o ápice de sua energia gélida com brutalidade, ele desferiu um corte circular massivo contra o solo.

A onda de frio extremo percorreu as veias subterrâneas de quartzo e estalou em uníssono, estilhaçando todas as paredes de quartzo ao redor em uma chuva de cacos brilhantes que destruiu instantaneamente as cópias ilusórias. Meus olhos se arregalaram com tamanha demonstração de poder.

Aproveitando o vácuo, Gaara rugiu por trás da máscara, batendo as palmas para despencar as paredes do cânion em uma avalanca de areia pesada que soterrou o grosso do exército restante.

Mas o que parecia ser a nossa vitória foi o gatilho da verdadeira armadilha.

Quando os cacos de cristal despencaram, o ar sibilou com uma ferocidade invisível. Entre a poeira, fios reluzentes ultrafinos e perfeitamente transparentes — tecidos estrategicamente por todo o desfiladeiro e banhados em uma toxina purificada — fecharam-se ao nosso redor como uma teia de aranha invisível.

— Cuidado! — a voz de Sasuke cortou o ar num sobressalto.

Ele se moveu para interceptar, mas os fios rasgaram a pele exposta de seu braço e o tecido do seu casaco em um flash, rompendo sua guarda por microssegundos. No mesmo instante, uma queimação violenta e diferente — muito mais ácida — irradiou das pequenas marcas de corte, misturando-se à toxina que ele já combatia.

A névoa ao fundo se adensou, ganhando um tom arroxeado e pesado. Entre os escombros, uma figura encapuzada desceu flutuando suavemente, sustentada por aqueles mesmos fios brilhantes.

Sasori pousou elegantemente sobre as pedras. Os olhos dele fitavam os nossos com um brilho sádico, os lábios artificiais curvados em um sorriso cínico.

— Engenhoso, não é? O labirinto de cristal nunca foi feito para matar vocês... — falou — Era apenas a distração perfeita para tecer a teia e garantir que os fios raspassem na pele certa — a voz de Sasori soou metálica e cortante, ecoando pelo desfiladeiro.

O pavor apertou meu estômago de um jeito sufocante. Minhas mãos tremeram de verdade.

— Você... — Sasuke rosnou, o maxilar trancado em uma força de vontade titânica.

Mesmo com o novo veneno correndo em suas veias e a queimação rasgando seu braço, o Imperador se recusou a cair. Ele ergueu a espada, fincando a lâmina com força no chão de cascalho para usá-la como escora, sustentando o próprio peso com puro ódio e determinação. Suas orbes ônix fitavam Sasori com uma ferocidade mortal, recusando-se a dar ao marionetista o gosto de vê-lo de joelhos.

Sasori soltou uma risada seca, erguendo os dedos cobertos, onde os fios mortais sibilavam.

— Sua resiliência é irritante, Imperador. — um sorriso macabro brotou em sua pele pálida — Mas esse não é um simples veneno... Vamos ver quanto tempo sua marra aguenta em pé.

Notas finais
Gente... esse cap foi realmente desafiador! Sério *0* Escrever cena de ação é uma montanha-russa, socorro kkk 😭❤️ Mas temos uma notícia... estamos oficialmente na reta final, nos últimos capítulos! O coração de vocês está como? Esse cap é mais curtinho msm... pq estamos já quase no final. Obrigada a todos que estão lendo até aqui...é reconfortante saber que estão cmg nessa jornada /o/ Comentem *-* Até o próximo capítulo!