Império Radioativo

2 II - O Todo acima do Um


Minhas mãos alisavam compulsivamente a saia do vestido, claramente incomodada. Eu não nasci para isso: de tempos em tempos, eu instintivamente procurava a bainha de minhas espadas na minha cintura e apenas encontrava um macio e delicado tecido. De tempos em tempos, a dama de companhia de Jaene – agora minha dama de companhia – sussurrava palavras de incentivo em meu ouvido. Não que eu fosse ingrata pelo apoio, mas para ela era fácil; essa sempre foi a vida dela. E isso apenas me fazia recordar que eu ainda não sabia seu nome.

— É de praxe os embaixadores demorarem tanto assim?

Meu pai apenas suspirou em seu trono. Admito que meu comportamento não estava adequado ao de uma Prometida, mas o Embaixador Metral solicitara a audiência há quarenta minutos atrás. Não é um período curto de tempo quando se está usando espartilho. — Trata-se puramente de jogo político. Ele nos faz esperar porque pode. Veio ao nosso reino negociar os novos termos da Aliança e sabe que não temos alternativa a não ser aceitar. Portanto, nos desmoraliza. – interveio Sarife, explicando a situação. Por um instante, arqueei as sobrancelhas em surpresa. Sarife era o comandante interino das tropas reais enquanto meu irmão treinava para assumir como Senhor das Armas. Era no mínimo curioso como um homem de armas tinha conhecimento político.

Recostei-me na cadeira de espaldar alto. Era estranho estar sentada a esquerda do Rei, na cadeira que um dia pertenceu à Jaene. Ainda agora, mesmo quase duas semanas depois, tínhamos a impressão de que a qualquer momento ela iria atravessar as portas do salão com meu andar dançante e iluminar o ambiente com sua risada. Inspirei profundamente e afoguei a memória doída dela, deixando meus olhos vaguear pela sala, absorvendo novamente os detalhes. Meus olhos se demoraram um pouco em Sarife, ainda curiosa com seu repentino entendimento de política. Eu o conhecia desde sempre: fora meu primeiro tutor de batalha, me ensinando tudo que sei sobre guerra. Mais que isso, ele sempre me acompanhou nas batalhas; mesmo beirando os cinquenta anos, seu vigor físico era impressionante. Naquele dia, ele me substituía como Senhor de Armas na Sala de Trono, sentando-se à direita do Rei.

Nunca imaginara que me sentiria tão estranha ao ver outro alguém sentado ali.

Eu ainda estava perdida em meus pensamentos quando o Embaixador finalmente foi anunciado. Minha dama de companhia me cutucou para que eu me endireitasse, tentando imitar com dificuldade a posição que com tanto empenho ela tentou me ensinar. Quando as portas foram abertas, eu me sentia tudo menos pronta.

— Saudações, Alteza.

O homem que entrou era franzino e grisalho, com feições miúdas. Em poucos segundos, eu já começava a identificar as fraquezas físicas que ele trazia: o joelho esquerdo era um tanto quanto mais hesitante que o direito, causando uma leve pendência ao andar; a idade lhe tirava a agilidade e a força, transformando-o em um oponente frágil; os olhos já esbranquiçados de catarata não lhe permitiriam um panorama geral de onde ele se encontrava. Sem perceber que ainda pensava como se estivesse em uma batalha, ouvi o Rei pigarrear – certamente havia percebido meu olhar. Hábitos custam a morrer.— Bem vindo, Lorde Hammil. Fez uma boa viagem, espero. Por favor, tragam uma cadeira para que o Embaixador possa se sentar. – A cortesia de meu pai sempre fora impecável. Tom de voz macio, olhar caridoso e firme. Era quase impensável o fato de que antes de assumir a posição de monarca ele também fora um Senhor das Armas.

— Oh, não, não. Não se dê o trabalho, criada. – sorriu o Metral, fazendo pouco caso com as mãos para uma serviçal que corria até ele com uma cadeira semelhante à minha. – Minhas pernas são mais firmes do que aparentam, e não pretendo me demorar.

Arqueando as sobrancelhas, o Rei recostou-se no trono e sinalizou para que ele continuasse. De algum modo, aquilo me agradou; cortesias e falas mansas não me interessavam, um discurso direto sendo bem mais atrativo. — Primeiramente, trago os cumprimentos do Grande Imperador e sua real família. Eles sentem muito pela tragédia que se abateu sobre Adveto, e desejam que a doce Jaena encontre paz. Uma pena. – Em seu balançar de cabeça, quase foi crível que ele se compadecia do destino de minha irmã. — Não temos intenção de deixar que esse incidente abale a promessa de aliança entre metrais e advetianos. O Imperador considerou sua proposta e aceitou a jovem Calina como substituta.

Minha dama de companhia suspirou aliviada. Há dias ela temia que minha posição de antiga Senhora das Armas viesse a ser um empecilho.

Assim como minha total inabilidade com etiqueta.

— Trago, porém, mais algumas requisições do Imperador para que o acordo seja selado.

Nenhum de nós alterou a expressão – isso já era esperado. Agora, mais do que nunca, estávamos necessitando que o acordo fosse selado o mais rápido possível. A Grande Nação Bereevo agora estava ciente que Jaena morrera para não se casar com o herdeiro de Metral. Sem o apoio bélico destes, estamos vulneráveis a um ataque de nossos vizinhos do oeste.

— Desde que sejam razoáveis, os pedidos hão de ser acatados.— Meu pai continuava recostado confortavelmente em seu trono, não demonstrando o que eu sabia que se passava em sua mente. Havia, em toda a corte de Adveto, o receio que as exigências fossem abusivas demais. Sem a possibilidade de negar, estávamos à mercê.

— Certamente, certamente. – o sorriso de Lorde Hammil não se abalou enquanto puxava das vestes um rolo de papel, cuidadosamente amarrado. Demorando-se para abri-lo e desenrolá-lo, não pude deixar de suspirar. O que eu não daria para poder resolver essa situação com espadas... — A taxa de impostos, a ser cobrada a partir da próxima colheita, subirá em 10% do último acordo; soma-se, então, 20% da colheita para o Império Metral. – Os olhos do Embaixador procuraram os do Rei, que apenas assentiu. — Todo ano, os dez jovens mais talentosos serão enviados para estudar na capital do Império, contribuindo com os avanços. Depois de dez anos, eles terão a oportunidade de escolher entre regressar e ficar em Metral. – Aquilo me preocupou. Até a volta do primeiro grupo, cem dos mais talentosos advetianos já teriam sido mandados para o Império. Não ficaríamos completamente dependentes da tecnologia metral desse modo? — O patrulhamento das fronteiras da Cúpula advetiana e dos túneis de acesso subterrâneos ficarão a cargo do exército de Metral por tempo indeterminado.

Foi nesse momento que perdi a compostura. Aquilo significava, em outras palavras, rebaixar o exército advetiano à uma mera polícia local. Não teríamos controle nem mesmo de nossas fronteiras! E sem controlar nossos túneis, o comércio com outros reinos seria totalmente controlado pelo Império Metral. Abri a boca para protestar, mas não fui tão rápida. Sarife, inabalado, apenas sorriu.

— Justo. Isso há de tirar um peso dos ombros de Adveto.

Encarei-o incrédula. Para mim, ele apenas balançou a cabeça, me fazendo compreender. Era uma batalha perdida.

— Fico feliz em saber que pensa assim. – comentou Hammil, ignorando a minha reação adversa. — Será iniciada, também, a construção imediata da muralha que separará definitivamente o reino Adveto dos bereevianos. Acreditamos que, com essas medidas, a nova província do Império Metral estará devidamente protegida de possíveis ataques.

Afundei na cadeira. O acordo entre as metrais e advetianos estabelecia que Adveto seria uma província independente; entretanto, eu ainda não conseguia ver nenhum raio de independência após as exigências feitas.

— Todas os pedidos serão devidamente acatados. – Garantiu o Rei. — É um prazer saber que finalmente a aliança será firmada e...

— Um instante. – O Embaixador Metral havia levantado o dedo, interrompendo meu pai. Pouco sabia eu sobre normas de etiqueta e comportamento, mas sabia que era pouco educado interromper um Rei. — Há uma última exigência, feita diretamente pelo Senhor das Armas de Metral. Essa é referente exclusivamente à princesa Calina.

Não nego que fui pega de surpresa. Toda e qualquer regra de polidez que minha dama de companhia tentara colocar na minha cabeça havia sido esquecida enquanto eu respondia.

— E o que querem de mim além de um casamento?

O Embaixador não se abalou. Se percebeu minha falta de etiqueta, não deixou transparecer.

— A Prometida será levada imediatamente para o Império Metral, para que possa aprender nossos costumes e se adaptar ao novo lar imediatamente.

— Não.

Encarei meu pai, ainda aturdida. Fora ele que negara? — Calina ainda está fragilizada pela morte da irmã. Mesmo com Jaena essa exigência não foi feita. Não há sentido que a Prometida vá até o noivo antes do casamento. – A firmeza em sua voz era um contraste curioso com o discurso macio de anteriormente. Não pude evitar se não sentir uma onda de afeição pelo meu pai. Ouvi, atrás de mim, minha dama de companhia prendendo a respiração.

— A exigência não foi feita anteriormente e a Prometida acabou por se jogar de uma torre. – retrucou rispidamente, enrolando novamente o papel e guardando-o nas vestes. — O Senhor das Armas não pretende cometer o mesmo erro novamente. Até onde me recordo, Calina é a última filha que o senhor tem, não?

— Não irei enviar minha filha, sem qualquer treinamento, para o desconhecido. Peço que seu senhor reconsidere.

A onda de afeição de outrora se tornou indignação. Eu podia ter sido destituída de meu título de Senhora das Armas para assumir a posição de Prometida, mas isso não me tornava indefesa. — A exigência será acatada.

Pela primeira vez, os presentes me encararam com surpresa. Engoli em seco, endireitando os ombros e levantando o queixo. Era assim que Jaena faria, não? — Imediatamente irei até o Império e encontrarei meu noivo. Por Adveto, eu aceito.

Não havia como eu aguentar mais um segundo daquela audiência. Levantando-me com dificuldade, puxei a volumosa saia do vestido com as mãos e me dirigi até as pesadas portas de madeira. Era como Sarife me sinalizara.

A batalha estava perdida.

Notas finais
E então? Gostaram? Deixem seus comentários, por favor. Até o próximo capítulo!