– Então o garoto que eu dei o fora há um mês atrás é seu colega de turma? — Isabel tentava recapitular toda a história contada, ou cuspida, por Catarina e toda sua euforia. Estavam ao telefone.

– Sim!

– E você não comentou nada sobre aquele baile de carnaval?

– Não!

– E ele já pediu pra ficar contigo?

– Sim!

– Hm... — Ficaram em silêncio até que Isabel disse. — Vocês vão dar certo! Ele consegue ser mais maluco do que você. — Deu de ombros.

– Só isso? — Catarina se desesperou! — Eu lhe conto a história toda e você só me diz que vamos dar certo? — Ela não deixava Isabel se pronunciar. — Calma ai! Aonde está a garota mais chata com meus relacionamentos? Que implica com todos os garotos que eu conheço? Você não vai falar nada do tipo "se afasta dele, que é roubada"? POR FAVOR DEVOLVE MINHA AMIGA INDEPENDENTE DE QUEM SEJA.

Isabel gargalhou.

– Não, eu não vou falar nada disso. Eu gostei dele desde o momento em que ele veio perguntar o meu nome. Espero que você não se apresse e estrague tudo. Seja apenas você! — Catarina abriu um sorriso, estava ouvindo o que queria. — Só não assusta ele ok?

***

Durante o final de semana Pedro não havia ficado online em momento algum. Catarina não desligava o computador por absolutamente NADA. Mas em um momento cansou de esperar tanto e percebeu que tudo aquilo não valeria a pena.

No domingo fora buscar sua mãe na rodoviária e se manteve calada sobre o garoto, era apenas um novo amigo. Qual necessidade tinha em falar que estava supostamente apaixonada por um desconhecido? Nenhuma! A mãe falava empolgada de como tinha sido o trabalho e de como todos tinham perguntado por ela e pela faculdade. A mãe de Catarina era veterinária e trabalhava para algumas fazendas de criação de gado no interior do estado, e de tanto falar, todos conheciam Catarina por causa da mãe.

Na segunda-feira acordou ansiosa, mais cedo que o normal. Queria ter a chance de conversar com Pedro antes do início da aula. Saber se toda aquela conversa no msn era verdade. Mas mais uma vez o rapaz tinha se atrasado. Ele se sentou no mesmo lugar que sentara durante toda a semana anterior: na terceira fileira após a janela, na segunda cadeira.

Catarina então resolveu mandar mais um bilhete.

"Se você quiser te pego em casa para evitar que você se atrase"

" Não tem necessidade, eu ainda não me acostumei com o horário. Quando me acostumar chegarei antes de você."

Ela não respondeu após ele entregar-lhe. Então ele pegou outro pedaço de papel e escreveu para ela:

"Como foi seu final de semana? Queria ter conversado mais com você. Mas a internet lá de casa tá com defeito."

"Foi normal. Não se preocupe. Nos vimos hoje não é?"

Ele riu quando leu o que ela tinha escrito.

"O que eu te disse sexta é verdade"

Ela pegou o papel, leu e o guardou no bolso. Ele vez ou outra olhava pra trás esperando resposta. Mas ela disfarçava fingindo não ter acontecido nem lido nada.

***

No final da manhã, antes do professor liberá-los a representante de turma recém-eleita na semana anterior foi para o quadro.

– Gente, eu gostaria da atenção de vocês por um momento! — Ela se sentou na mesa do professor. — Estava pensando em fazermos uma festa entre nós antes do ponche dos veteranos. Para nos introrsarmos e nos conhecermos melhor. Eu queria saber quem gostaria de participar para poder organizar valor, a comida e a bebida.

Boa parte da turma levantou a mão concordando na festa. Um garoto do círculo de amizades de Pedro levantou a mão pedindo para falar.

– Tu já tem sugestão de lugar?

– Sim e não... — Débora, a representante de turma se complicou.

– Eu poderia sugerir a minha casa. Lá tem uma área legal, além de ter piscina e churrasqueira. Só dizer o dia que não tem problema. — Jorge disse.

– Então, eu pensei no dia quinze. Nesse sábado agora! — Ela se ajeitou na mesa e continuou. — Porque dava tempo de arrecadar a grana e comprar as coisas.

– Eu dou a carne, galera. Não se preocupem. — Pedro se pronunciou.

– Já temos a casa e a carne. — Débora anotou. — Gente, por favor. Quantas pessoas vão MESMO! Confirmadas agora, que não tem nada no sábado.

20 pessoas confirmaram numa sala onde tinha 35 alunos, pela lista de chamada.

– Certo. Acredito que cada um dando 20 reais para a bebida e os descartáveis dá, não? — Ela mais perguntava do que afirmava.

– 400 reais de álcool!!! — Raul gritou ao fundo.

– Tem que ter breja! — Alguém comentou depois.

– Mas eu não tomo cerveja. — Outra pessoa cortou o último comentário.

– Precisamos de tequila.

– EI! — Débora gritou tentando acalmar a algazarra que tinha se formado. — Com 400 reais dá pra ter até tiquira*. Não se preocupem, vai dar tudo certo. Espero que todos paguem até a sexta! — Ela saltou da mesa revelando seu tamanho, ou a falta dele.

Todos de repente viraram urubus em cima da pequena garota. Muitas dúvidas surgiram, e ela apenas respondia, não, não e não. Catarina tentou se aproximar dela, mas esperou que todos os não's fossem ditos para tal.

– Ei. — Catarina pôs sua mão no ombro fino e ossudo da garota. — Você quer ajuda pra organizar tudo isso?

– Nossa. Finalmente um anjo! — Ambas riram, tímidas. — Agradeceria muito. — Débora estreitou os olhos tentando lembrar seu nome. — Ca...

– Catarina! — A ajudou

– Isso. Catarina! Bom, talvez podemos dividir as tarefas, eu aviso no email da turma que você também ficará responsável pela grana e já que você se ofereceu, podemos fazer as compras juntas. — Débora tagarelava incansavelmente, mal deixando espaço para Catarina dizer algo, fazendo com que a garota concordasse com pequenos gestos de cabeça.

Continuaram conversando mais um pouco e fizeram uma lista de compras a partir da carne que seria oferecida por Pedro.

– Aonde ele está? – Pensou Catarina enquanto conversava com a representante de sala.

***

Saiu do Prédio e fora distraída em direção ao seu carro. Houve um misto de emoções ao chegar neste. Tinha tomado um leve susto, além da surpresa de ver Pedro encostado no capô do carro, ela se sentiu aliviada por saber que ele tinha algum suposto interesse por ela. Ou por suas caronas.

– Posso aceitar as caronas de volta? — Ele fez uma careta, demonstrando timidez.

– Não! — Ela abriu o carro e antes de adentrar vira que o rapaz não tinha exibido nenhuma reação. Parou e o chamou. — Ei, é brincadeira! Será o maior prazer te levar em casa novamente.

Ele correu para dentro do carro.

– Pensei que você e a Débora fossem bordar a tarde inteira. Já estava ficando cansado de esperar. — Ele disse como se Catarina soubesse de sua espera por ela.

– Desculpe-me. Ela fala pelos cotovelos.

– Você tem cara de que votou nela como representante de turma! — Ele a provocou e cutucou seu braço enquanto ela saia do estacionamento.

– Ah, votei mesmo. Ela tinha cara de ser a mais responsável daqueles candidatos. — Pausou, mas logo continuou. — Só não imaginava que falasse tanto. — Falou mais para si do que para ambos.

– O que você foi falar com ela? — Ele perguntou desinteressado, mas curioso.

– Fui oferecer ajuda. A garota é uma anã e estava rodeada de perguntas do pessoal. Mas sabe, ela é bem responsável e séria! Comprometida mesmo. — Tentava fazer valer seu voto diante do rapaz.

– Você não vai me convencer a achá-la a melhor representante de turma! — Ele riu sarcástico.

– Em quem você votou? — Ela perguntou.

– De acordo com nossa Constituição Federal o voto precisa ser direto e secreto! — Ele disse com um ar vitorioso.

Ela bateu eu seu braço sem tirar os olhos do pára-brisa.

– Isso não vale! Eu disse o meu. — Ela projetou um bico nos lábios.

– Disse porque quis. Ninguém te obrigou. — Ele deu de ombros e ela o encarou rapidamente com raiva, pois a tinha induzido a tal ato.

Eles ficaram em silêncio por um momento, até que Pedro comentou, como se tivesse tido um pensamento alto.

– Eu lhe mandei um bilhete hoje, durante a aula.

– Sim. Eu também! Eu respondi, você respondeu. Algo mais? — Ela foi irônica e ele ficou calado.

Catarina percebera a burrada que tinha feito e falou mesmo que ele não esperasse mais alguma resposta.

– Eu sei que é. Não tem porque você me relembrar. — Ele continuou calado, mas escondeu o sorriso que se formou em seus lábios ao olhar para além da janela do carro, de um modo que Catarina não visualizasse sua felicidade.

O silêncio reinou até eles chegarem ao prédio do rapaz.

– Você dirige bem. — Ele comentou antes de tirar o cinto de segurança.

– Meu instrutor de direção acha o mesmo. — Ela riu sarcástica e ele gargalhou do comentário dela.

– Você não quer subir? Ainda vou fazer o almoço, mas sou rápido. — Ele disse meio desajeitado.

– Não se incomode. Obrigada pelo convite. — Ela deu um sorriso sincero pra ele.

– Mas...? — Ele já esperava a palavra ser dita.

– Mas eu vou almoçar com a minha mãe.

– Mande um abraço à ela. — Ele puxou seu rosto delicadamente e lhe deu um beijo nos cabelos. Era o primeiro contato físico de ambos.

– Obrigada. Até mais.

– Até. — Ele disse e saiu do carro.

***

Catarina chegou em casa e o almoço já tinha sido servido. Se deu conta de quanto tinha demorado quando todos já tinham saído, inclusive a mãe. Sentiu uma pontada de arrependimento por não ter aceitado o convite de Pedro. Mas deixou passar. Talvez estivesse se apegando muito rápido ao garoto. Coisa nada incomum para ela, que sempre se iludia fácil com os garotos. Ela acreditava que ele era o garoto certo e ideal pra ela.

Notas finais
*Tiquira: cachaça feita da mandioca! Perdão pela parte da Constituição. Sou uma péssima acadêmica de Direito, que está morrendo de sono enquanto escreve, e sem saco de procurar o artigo correto na Constituição.