Impossível

5 "Eu mesmo me anuncio"


Foi apenas na manhã seguinte que finalmente chegaram ao tão aguardado "sul". Em uma bonita enseada havia um castelo enorme rodeado por uma cidade muito grande com muros bem altos que se estendiam, inclusive para dentro do mar com pedras gigantes.

A torre mais alta do castelo não parecia ser uma torre comum. Bem no alto ela tinha um lado totalmente aberto, como se faltasse uma das paredes. Diferente das outras cidades, eles não mudaram o curso de vôo, nem se esconderam.

— Bakugou… Não vamos…. chamar muita atenção? E se tiverem canhões?

— Relaxa, cara de bolacha. Essa cidade está acostumada.

Quando estavam mais próximos, sobrevoando os arrabaldes da cidade, Ochako reparou que as pessoas nem ligavam pro dragão gigante que sobrevoava e fazia sombra em suas casas.

Sentiu um solavanco a fazendo precisar se agarrar na sela para recuperar o equilíbrio. Olhou pra frente e viu um dragão negro, provavelmente com o dobro do tamanho de Kirishima, abrir asas igualmente negras e aterrorizantes e alçar vôo do alto da torre. A torre era um tipo de aeroporto de dragão e Uraraka não conseguia imaginar algo mais propício.

Kirishima ficou claramente incomodado com o outro dragão voando na direção deles, diminuindo a velocidade drasticamente, quase dando meia volta.

— Kirishimaaaa!!! — Bakugou começou a rosnar — Você é a merda de um dragão ou uma lagartixa? Esse cara é grande mas não é dois! Segue reto e ele que desvie da gente!!

Ochako não sabia se olhava para a cidade que começava a fervilhar embaixo deles, com muita gente nas ruas estreitas, casas e pequenos prédios, mercado e lojas, ou se ficava vidrada no enorme dragão voando na direção deles.

Ele era todo escuro, com a cabeça bem pontuda, quase como um bico. Ele abriu a boca cheia de dentes e baba e rugiu alto. O rugido era algo aterrorizante. O som que ele fazia era grave, daquele tipo que parece que você sente com o corpo e não com as orelhas. Mas ao mesmo tempo, um grasnado agudo, que furava a alma e doía os tímpanos. Ele podia não ser dois como Bakugou falou, mas se tivesse dois dentro dele Uraraka não ficaria surpresa.

Como previsto, o gigante negro acabou desviando deles, passando voando por cima em alta velocidade. Kirishima balançou a cabeça para os lados enquanto Bakugou o consolava dizendo que ele ainda estava em fase de crescimento.

Não demorou muito para chegarem na torre e entrarem pela abertura, pousando no interior de pedras. Tinha muita gente trabalhando ali e fazia Uraraka lembrar muito mesmo de uma pista de aeroporto em seu mundo.

Kirishima ficou muito inquieto com toda aquela gente vindo na direção dele, um grupo trazendo até uma escada para eles descerem e que Bakugou prontamente expulsou aos gritos enquanto descia escalando o amigo prontamente.

As pessoas pareciam ser todas serventes de gente muito rica. Trouxeram água e comida para Kirishima em travessas gigantes, se ofereceram para carregar as coisas do bárbaro e todas ficavam muito apreensivas quando Bakugou simplesmente gritava com todas e mandava que os deixassem em paz.

— Me deixem em paz seus extras! Não toquem nas minhas coisas, caralho!!!

Ochako, por sua vez, aceitou prontamente a mão de alguém para ajudá-la a descer e distribuiu sorrisos agradecendo a preocupação de todos.

— A senhora deve estar muito cansada da viagem. — disse uma menina vestindo uma túnica azul delicada. Ela tinha cabelos verdes lindos, trançados e tão volumosos que pareciam vinhas. — Você gostaria que preparasse um banho para a senhora?

Um banho! Sim, por favor! Que lugar incrível. Uraraka queria abraçá-la. Era para essa gente que ela seria vendida? Lhe tratariam assim sempre? Talvez não fosse tão ruim.

— Pro inferno com banho, mulher!! — Bakugou gritou acabando com todos os sonhos de princesa de Ochako com uma única frase. — Me traz logo aquele Deku imprestável! Onde ele está??

Aos poucos os criados se afastaram na esperança que o bárbaro parasse de gritar e não matasse ninguém enquanto o tal Deku não chegasse. Não demorou muito para ele aparecer, correndo apressado.

— Kacchan…! Nós não estávamos esperando você e-

— Do que adianta um acordo de paz se eu não posso vir aqui a hora que eu bem entender, Deku?!

— Não é assim que funcionam os tratados, Kacchan... Nós teríamos marcado uma audiência, talvez encomendado um banquete, teríamos os quartos preparados, você deu sorte que Dark Shadow acabou de sair, senão não teríamos espaço e se o príncipe tiver outro evento hoje e —

— Deku… — Bakugou interrompeu num rosnado — Você está resmungando.

— Ah! Me desculpe, eu estou tentando pensar em tudo que preciso fazer e… oh! Você trouxe companhia!

Uraraka praticamente saiu de trás de Bakugou para ver o rapaz, um pouco mais alto que ela, de cabelos verdes e sardinhas muito simpáticas.

— Muito prazer, senhorita, eu sou Midoriya Izuku, encarregado real e escudeiro do príncipe Shouto.

Ochako não fazia a menor idéia de quem era o príncipe Shouto mas era realmente um currículo impressionante. Ela deu a mão para ele imaginando-se como alguma princesa de filme antigo.

— Para com essa merda, Deku! Ela não é senhorita nenhuma, eu vim vender ela.

— Vender? — Izuku virou pra ele quase incrédulo, mas sem soltar a mão dela — Uma senhorita tão bonita!

— Por isso mesmo. — Bakugou disse irritado — Acha que vão querer comprar?

— Vocês sabem que eu estou bem aqui enquanto vocês falam de mim como se eu fosse um pedaço de carne, né? — ela disse arrancando a mão da mão do outro, tentando se impor.

— Os modos ela com certeza não tem. — Bakugou seguiu falando como se ela não estivesse ali. — Mas deve dar pra ensinar…

— Eu realmente não sei dizer, Kacchan. — Izuku disse dando os ombros. — Eu não decido essas coisas, vou precisar falar com o príncipe.

— Só arranja alguém que compre ela e eu dou o fora, beleza?

Midoriya concordou e saiu fazendo uma mesura. Logo já estava resmungando qualquer coisa sobre jantar, príncipe, negociação, etc, etc. Logo falou alguma coisa com os outros serviçais, distribuindo algumas tarefas e todos pareciam muito ocupados.

— Não demora!! — Bakugou gritou para o outro que só acenou que tinha ouvido e nem olhou para trás. O loiro voltou para onde Kirishima comia tudo que os serviçais colocavam na frente dele, e começou a xingá-lo de avestruz.

Ochako olhou pros lados e viu a menina dos cabelos verdes que tinha sido tão gentil com ela antes. Conferiu se Bakugou não estava olhando e foi até ela.

— Alguma chance de conseguir aquele banho ainda? E umas roupas limpas?

A moça sorriu atenciosa e pediu que ela a seguisse.

*~*~*~*~*~*~*



— Que merda é essa, Deku? Precisa de tudo isso? — Bakugou olhava para o salão principal do castelo com funcionários correndo apressados para todos os lados limpando e arrumando o trono real apressadamente.

— Então… — Izuku começou meio sem jeito — Nem eu estava sabendo mas… O Rei Todoroki voltou da expedição que estava, então vossa majestade quem deve responder pelos assuntos da corte hoje.

Bakugou levou a mão à testa em claro desgosto.

— Você disse que eu só quero vender a droga de uma mulher? Não precisa disso tudo, você mesmo podia me dar o dinheiro e eu estaria longe já.

— Não importa o que é, se o Rei está disponível ele deve ser consultado. Nem mesmo o príncipe Shouto pode atuar quando ele está aqui.

— Meu povo devia ter destruído essa merda de castelo quando teve chance mesmo, que desgraça. Quanto tempo até o velho aparecer?

Izuku parecia extremamente desconfortável com a escolha de palavras do outro.

— É, bom.. ah.. pode ser a qualquer momento, ou pode demorar bastante. Sabe como é a realeza, né.

— Da próxima vez que eu precisar de qualquer coisa, Deku — Bakugou pegou ele pela gola das vestes engomadas — Você vai fazer sem envolver a merda do castelo todo, tá me entendendo?

Izuku ergueu as mãos se rendendo e tentando acalmá-lo.

— Não tem muito que eu posso fazer… eu só sou o criado e-

A porta principal do salão se abriu de supetão fazendo todos os funcionários se recolherem para o canto imediatamente se curvando. O Rei entrou pela porta em seus trajes formais e postura imponente, muito sério. Deku praticamente entrou em pânico se desvencilhando de Bakugou para baixar a cabeça também.

O Rei era muito alto e sério. Seus cabelos vermelhos como fogo e vestes vermelho escuro com detalhes em azul e dourado lhe conferiam uma aparência intimidadora e de grande status. Ele se sentou no trono que ficava bem ao centro da parede no fundo do salão, acima de alguns degraus.

Junto dele, e da comitiva de serviçais que o acompanhava, também entraram duas outras pessoas. Um homem loiro vestindo uma túnica marrom sóbria, mas claramente diferenciada das roupas dos serviçais. Ele tinha olhos como os de uma ave de rapina, destacados por uma espécie de óculos que cobria quase metade de seu rosto. Ele subiu os degraus junto do Rei e posicionou-se ao lado e um pouco atrás do trono.

O outro era um rapaz mais jovem, de cabelos super esquisitos que o bárbaro reconheceu como o tal príncipe Shouto que o Deku não parava um segundo de falar sobre. Ele também ficou de pé, subindo apenas dois degraus da escada que levava ao trono, longe do Rei mas acima dos comuns.

O silêncio era praticamente doloroso, poderiam ouvir uma agulha cair no chão. Vendo que ninguém fazia nada, Bakugou acreditou que era a deixa dele. Antes de dar mais de um passo pra frente, sentiu Deku segurá-lo.

— Você precisa ser anunciado…. — Izuku disse murmurando muito baixo, mas mesmo assim sendo ouvido.

— Eu mesmo me anuncio! — Bakugou disse bem alto, claramente quebrando todas as regras de etiqueta da corte. Caminhou firme até a frente do trono, imediatamente deixando os soldados de prontidão caso ele tentasse alguma coisa. De cima, o rei o olhava com claro desdém.

Todo mundo olhava para Bakugou com cara de terror e espanto. Mas era um terror não de medo por suas vidas, esse terror Katsuki estava acostumado. Era um terror enojado, como se ele fosse a pessoa mais desprezível do planeta por romper com a etiqueta real. Ele precisava ser anunciado? Pois bem, ele se anunciaria.

— Eu sou Katsuki Bakugou e vim ver se você… se a sua pessoa… quer dizer, se o senhor rei quer…

Os olhares todos focados nele o estavam perfurando de mil maneiras. Olhou para Deku e o viu murmurar "vossa majestade" em desespero.

— Vossa majestade! — ele disse finalmente e recomeçou como se estivesse certo desde o início — Eu vim saber se a vossa majestade quer comprar a mulher que eu… Eita, cadê ela?

Bakugou finalmente percebeu que Uraraka não estava no salão. Olhou para trás e por entre os funcionários e nada dela. Ô mulher difícil aquela. Todos começaram a olhar pros lados e cochichar tentando entender o que estava acontecendo.

— Isso é algum tipo de piada? — o rei finalmente se pronunciou fazendo o salão ficar totalmente em silêncio de novo.

— Não, não, eu realmente trouxe ela, e ela estava comigo até agora! Ela é meio pequena tem uma cara redonda, mas ela não é de sumir, ela nem faz mágica!

Izuku não sabia se temia pela própria vida e dos demais funcionários, ou se temia pela vida do bárbaro. Ele nunca tinha visto ninguém falar daquela maneira na presença do Rei. Ele ergueu um pouco a cabeça e olhou para o príncipe preocupado, mas Shouto parecia totalmente entretido com a situação.

Em instantes uma criada de cabelos verdes entrou no salão se desculpando e anunciou a "Senhorita Uraraka Ochako".

— Ah!! Finalmente, é essa a mulher que- Bakugou ia continuar falando mas as palavras lhe sumiram quando a garota entrou no salão.

Uraraka vestia uma túnica cor de rosa claro. Não era um vestido vitoriano de princesa com o qual ela sonhava e brincava quando criança, mas tinha sua beleza. Quando ela parava para pensar no estado que estava antes, usando o mesmo uniforme do colégio há vários dias, sem um banho adequado, a Ochako de agora podia muito bem ser uma rainha.

A criada que lhe acompanhou fez questão de pentear seus cabelos e prendê-los num bonito coque, deixando algumas mechas caídas na frente. Ela ainda usou alguns pigmentos que deixaram suas bochechas redondas coradas e saudáveis e seus lábios avermelhados.

Mas o que mais a deixou feliz foi que ela inclusive lhe ofereceu um perfume, bem docinho do jeito que ela usava mesmo. De todos os dias que ela esteve naquele universo maluco, aquele com certeza era o melhor dia.

Sua confiança estava em níveis astronômicos! A criada tinha dito que diferente do Rei Todoroki, o Príncipe Shouto era bondoso e compreensivo, que ela poderia conversar com ele sem medo. Ela só precisaria convencer o príncipe de que ela era uma donzela que buscava voltar para seu lar, que certamente ele teria bom coração, diferente de certos bárbaros gananciosos.

Quando entrou no salão real e viu quem entendeu ser o próprio Rei, as coisas mudaram um pouco. Ele não parecia nada amigável e o clima de completo pavor entre os funcionários era palpável. Olhou para Bakugou na esperança de ter alguma afirmação e viu apenas surpresa e confusão. Naquele momento, sua autoconfiança caiu pela metade.

Notas finais
Próximo capítulo: "É verdade o que ela disse?"