Impossível

14 "E você? Qual sua história?"


Como Bakugou previu, aquela foi mesmo uma longa noite. Sentiu-se um tanto inquieto por estar tomando sopa em volta de uma fogueira com alguém que ele teria que matar antes da próxima lua cheia. Ele ainda tinha tempo, não precisava fazer isso agora. E também não sabia exatamente o que aconteceria se não cumprisse, mas certeza que coisa boa não era. A queimação da mancha em seu pulso não o deixava pensar em outra possibilidade.

Se manteria próximo do sujeito e agiria quando tivesse uma oportunidade. Não tinha porque envolver todas aquelas outras pessoas. Porém, mesmo sem querer envolver ninguém nos seus assuntos pessoais, todos pareciam querer muito envolvê-lo nos deles.

Aprendeu que o estranho grupo que encontrou se denominava Resistência, apesar dos protestos de Kaminari em dizer que era "Resistência Obsidiana". Quanto mais eles explicavam sua história para o bárbaro, mais ele queria se afastar e sumir. Política, reino, leis, justiça, drama familiar, nada daquilo fazia parte da vida dele. A justiça para ele era a do mais forte, os fracos que ficassem fora de seu caminho.

— Então você realmente acha certo que o rei decrete pena de morte pra qualquer um que contrarie a vontade dele? — Jirou perguntou perplexa.

Falando daquela maneira, até mesmo Bakugou percebia que realmente não parecia a idéia mais justa.

— Mas não são criminosos? Pessoas que infringiram as leis?

— Eu, por exemplo, sou um terrível criminoso procurado pela guarda real. — disse Kaminari orgulhoso de seu status, claramente esperando Bakugou perguntar qual tinha sido seu crime.

Bakugou não queria saber.

— E qual foi seu crime…? — se forçou a perguntar.

— Eu inventei um equipamento incrível que batizei de "Bloqueador Supremo da Fúria Divina!" — o loiro disse se levantando e falando extremamente empolgado.

— É uma vara de metal que faz um raio ir pro chão e não destruir sua casa. E você descobriu por acaso, não vem com essa de "inventar". — Jirou reprimiu o loiro, para depois colocar uma mecha do cabelo atrás da orelha, desviando o olhar. — É até bem incrível, mas o nome precisa melhorar. Podia ser algo mais simples, tipo "Pára-raios".

A discussão pelo nome do equipamento seguiu intensa entre os dois. O importante da história era que, segundo ele, os soldados reais teriam confiscado o equipamento, dizendo que tal tipo de magia não era permitida aos civis. O responsável, no caso Kaminari, seria condenado à guilhotina.

Com a ajuda da Resistência, Kaminari conseguiu fugir e ficou escondido naquela caverna até as buscas por ele se encerrarem. O loiro acabou ficando no esconderijo, para ajudar outras pessoas em situações semelhantes. Basicamente, todos abrigados ali partilhavam de histórias como aquela, eram "criminosos" fugindo de uma punição totalmente descabida.

Muitas outras pessoas comuns, serviçais reais e até mesmo alguns soldados também apoiavam a causa secretamente. Tinham vontade de se rebelar, mas também não podiam se dar ao luxo de lutar sem uma chance clara de vitória. Operavam pequenos salvamentos e arquitetavam planos nas sombras do reino.

Bakugou, por mais que não quisesse se envolver, precisava admitir que era uma boa causa. No entanto, infelizmente ele já tinha uma causa própria bem diferente da deles, que não podia ser simplesmente abandonada.

— E você? Qual sua história? — Bakugou questionou Dabi, que estava até então apenas observando.

— Dabi é o nosso líder, nosso trunfo, nosso verdadeiro rei! — Kaminari disse empolgado — Vai ser nomeado como Dabi, o Rei Renegado!

— Acho que esse é o melhor nome até agora. — Jirou sorriu elogiando e deixando o loiro constrangido e repentinamente sem novas palavras.

— Você contou sua história, Kaminari. — Dabi disse finalmente — Deixa que eu conto a minha.

Naquele momento o interesse de Bakugou aumentou. Saber a história dele seria muito útil para entender quem enfrentaria. Jamais mataria alguém dormindo, por exemplo. Os antigos já diziam que o espírito não descansaria se não soubesse como morreu, e desse tipo de assombração Katsuki queria distância.

Dabi relaxou sua postura altiva, se inclinou para trás no chão se apoiando em um dos cotovelos e sorriu debochado.

— Minha história é bem simples…. Eu sou o primeiro filho do Rei Todoroki, aquele que foi "assassinado pela rainha louca" na história oficial.

— Impossível. — Bakugou respondeu automaticamente.

— Você não é o primeiro nem vai ser o último a não acreditar. — ele disse depois de uma risada — E não, eu não tenho como te provar, então faça o que quiser com essa informação. Eu era muito novo quando minha cara derreteu, então seria muito difícil alguém me reconhecer.

— Mas tem uma pessoa que estava lá quando tudo aconteceu, que têm credibilidade do reinado todo e que poderia validar a história do Dabi. — Jirou disse serena.

Bakugou teve um pressentimento ruim pois sabia exatamente o nome que viria a seguir.

— Hawks, o Feiticeiro Gavião Imortal! — Kaminari interrompeu gritando, claramente só estava calado até então esperando sua deixa.

— Por que o nome dele é mais legal que os nossos?

A discussão do casal seguiu mais uma vez com relação aos nomes e Bakugou só queria não estar no meio de toda essa lambança. Segundo Kaminari, Hawks teria credibilidade para validar a identidade de Dabi e oficializá-lo como primeiro herdeiro ao trono. Se o príncipe Shouto estava com eles na causa, bastava ele ordenar Hawks a fazê-lo assim que eles derrubassem o rei, um plano super simples.

Kyouka era cética, disse para Denki acordar logo do sonho. Uma coisa era o príncipe dar uma de bonzinho e apoiar os fracos e oprimidos, outra coisa era abdicar da coroa. O plano mais realista seria derrubar a família real inteira e pronto, e era por isso que ter armas qualificadas era tão importante.

Katsuki revirou os olhos, entediado do assunto, olhou para Kirishima na esperança de ter algum conforto, mas o dragão já estava com os olhos semicerrados, claramente se encaminhando para o mundo dos sonhos.

— Mas e você, Bakugou? — Dabi disse chamando a atenção do bárbaro de volta pra ele — Qual a sua história? Não vai nos contar como encontrou uma mulher de outro mundo?

— Eu só a encontrei, não tem história. — Bakugou respondeu se irritando, claramente na defensiva.

— Ok, ok, tranquilo… Desculpa pressionar, só queria saber mesmo se essa história de que ela vai dar armas poderosas para o rei é verdade. Como você deve imaginar, é algo que preocupa bastante a gente. Papai não é um cara muito pacífico. — completou debochado.

— Se ela tem essas armas, ela tinha que dar pra gente, isso sim! Seria nossa chance. Seria o que uniria todos os nossos apoiadores, a cidade inteira iria se levantar e lutar do nosso lado se tivéssemos armas poderosas para todos! Poderíamos lutar, derrubar o rei e colocar Dabi no lugar dele. — Kaminari disse empolgado. — Essa mulher sabe o que ele vai fazer com as armas? O que ela ganha com isso? Será que não se importa?

— O rei tem diamantes infinitos que roubou do norte, deve estar pagando ela muito bem. — Jirou disse convencida.

— Não é isso, ela não quer diamantes, ela não se importa com isso. — Bakugou disse quase ofendido.

— E o que ela quer então? — Dabi pressionou.

— Ela quer voltar pra casa. — Bakugou contou — Acho que Hawks a está ajudando. Quando ela conseguir ir pra casa, o povo dela vai retribuir com as armas, alguma coisa assim.

Dabi sorriu de lado, contente com aquela informação.

— Se é de um feitiço que ela precisa, nós temos a melhor feiticeira do continente, talvez desse mundo todo.

E quase como se tivesse sido ensaiado, uma nova explosão, dessa vez um pouco menor, fez cair algumas pedras de novo.

— Cof, cof, cof, eu consegui!!! Cof, cof, cof… — Mei disse saindo da fenda, junto com um monte de fumaça e poeira. Ela tinha algo na mão, parecia uma pequena vara de madeira.

Dabi, Kaminari e Jirou se levantaram prontamente para se aproximar dela e ver o que ela trazia. Bakugou sentiu curiosidade e foi também, ficando um pouco atrás.

— Meu bebê… — dizia ela acariciando delicadamente a varinha. Ela tinha a base mais grossa e ficava mais fina na ponta. Tinha uma coloração esquisita, combinando as cores laranja e verde. — Eu demonstraria para vocês mas isso gastaria a preciosa carga! Domei a antimatéria e finalmente consegui forjar uma varinha que suportou a carga!! — Ela dizia empolgada, segurando a varinha como se fosse realmente um bebê.

— Não vai ser necessário testar, vamos guardar essa carga para alguém especial. — Dabi disse pegando a varinha com cuidado, seu rosto revelando uma expressão um tanto sádica.

— Infelizmente eu não tenho como fazer várias, essa ter dado certo foi mesmo um milagre. Mas tenho certeza que meus outros bebês vão ficar contentes de me verem de novo! — ela disse já se afastando — Tente não explodir nada de importante! Não faça nada que eu não faria! — ela disse para Dabi e logo sumiu de novo pela fenda da qual ainda saía um pouco de fumaça.

— Isso foi bem impressionante. — Jirou observava o objeto com curiosidade, mas mantendo sua distância.

Katsuki definitivamente não entendia nada de magia, muito menos de varinhas, e com certeza não entendia o porquê do assombro de todos.

— Vocês acham que essa feiticeira conseguiria mandar Ochako de volta para o mundo dela?

— Ela acabou de forjar uma varinha mágica. — Jirou disse ainda muito impressionada.

— E você sabe o que essa varinha faz? Mísseis mágicos? Paralisia? Uhhh… Relâmpagos!! Posso ficar se forem relâmpagos? — Kaminari já circulava o líder querendo segurar o objeto. Apesar do pouco conhecimento, Denki sabia que varinhas mágicas normalmente carregavam cargas de um único feitiço poderoso, poupando assim os seus usuários de ter que aprendê-los e gastar as próprias magias para executá-los. Varinhas eram incríveis!

Jirou prontamente o afastou, dizendo que era mais fácil cair um raio na cabeça dele de novo do que o chefe deixar uma varinha mágica nas mãos dele. A agitação logo começou a baixar quando Dabi se afastou e o casal começou a se recolher. Kaminari ofereceu uma manta para Bakugou, que apenas recusou e foi se deitar com Kirishima. De cima da sela do dragão, o bárbaro podia observar quase toda a caverna, algo que o tranquilizava e deixava mais seguro para dormir.

Katsuki estava acostumado a dormir no meio da floresta, só ele e o dragão. Ter tantas pessoas em volta o deixava um tanto ressabiado. Podia ver que, diferente de todo mundo, Dabi continuava acordado, sorrindo para a varinha mágica.

Bom sinal aquilo não podia ser. Se o objeto fosse assim tão incrível, só pioraria a situação dele. Pouco tempo depois, Dabi se levantou indo em direção ao espaço onde aparentemente ele dormia e guardava seus objetos pessoais. Olhou um pouco em volta apenas para ver se não tinha ninguém olhando e levantou uma manta revelando um baú não muito grande. Ele o abriu, guardou a varinha dentro, e trancou com um cadeado, guardando as chaves nas vestes.

O bárbaro estava um tanto distante mas conseguiu ver perfeitamente. Dabi até chegou a olhar na direção dele, mas não pareceu perceber que ele estava acordado. Satisfeito, o líder voltou a se sentar próximo a fogueira.

Bakugou sentiu o pulso fisgar e olhou para a mancha que tinha na pele. Não sabia dizer ao certo, mas parecia que ela estava um pouquinho maior que mais cedo. A queimação não chegava a doer, mas já estava lhe irritando.

Será que a tal feiticeira poderia tirar aquela mancha dele? Se ele contasse sobre a missão que Hawks tinha lhe dado, com certeza o matariam para evitar. Não poderia contar com eles pra isso. Mas será que ela poderia mesmo levar Ochako de volta pra casa?

Quando estava quase caindo no sono percebeu um barulho diferente, mas muito baixinho, era uma voz. Abriu os olhos um pouco e observou quase todos dormindo, menos Dabi que murmurava alguma coisa baixinho, como se falasse com o fogo.

Argh, como ele odiava magia! E qualquer outra coisa que não entendesse. Dormiu inseguro pelas pessoas estranhas à sua volta, indeciso com os passos que teria que dar a seguir, e preocupado com uma certa garota de outro mundo.

*~*~*~*~*~*



Uraraka não aguentava mais fingir que fazia alguma coisa. Hawks estava convencido de que o problema com o feitiço era na equivalência dos componentes materiais. Depois de ler todo e qualquer estudo sobre o assunto, passou a tentar fazê-lo com tudo que surgia pela sua frente. Ela perdeu a conta de quanta coisa explodiu, ou simplesmente se desintegrou sem efeitos em sua frente.

Metais diversos, pedras preciosas, diamantes, itens mágicos. Tudo sendo destruído numa ânsia quase desesperada de achar a configuração correta. A garota tentava não dizer nada, não fazer nada diferente do que lhe era solicitado, nem esboçar nenhuma reação por medo do que o feiticeiro faria. Aparentemente o rei ainda não sabia de todas aquelas tentativas frustradas e Hawks não queria admitir a derrota.

A noite caiu e ele parou, certamente cansado. Decidiu repassar todas as escrituras, acendendo velas pela sala e não permitindo que ela se recolhesse. Exausta e sem esperanças, ela dormiu na mesa.

Sem noção de horário naquele mundo sem relógio, ela não soube exatamente que hora era quando ele a cutucou para que acordasse e fosse embora. Meio sonolenta e muito cansada, Ochako seguiu pelos corredores escuros e vazios, sem se dar conta de que estava sozinha pela primeira vez em bastante tempo.

Quando abriu a porta do seu quarto, quase teve um ataque cardíaco.

— Sou eu, fique calma. — disse o Príncipe Shouto.

Ela precisou de alguns instantes para se recuperar, mas o nobre já seguiu falando.

— Eu falei com meu irmão e ele vai te abrigar com ele. Então Midoriya e eu bolamos um plano. — ele disse enquanto mexia em alguns bolsos das vestes.

— Seu irmão?

Ochako sabia que Shouto tinha um irmão e uma irmã mais velhos, mas realmente não entendia onde eles entravam na equação. Nem sequer os tinha encontrado, nenhuma vez.

— É. — ele disse simplesmente — Fique com isto.

Shouto colocou nas mãos dela dois objetos. Um era uma esfera de metal leve, e não muito grande. Ela tinha claramente algum mecanismo que possibilitava que as metades do círculo fossem giradas. O outro item era um anel largo com uma pedra azulada.

— Isso aqui é uma bomba. — Shouto disse indicando a esfera metálica. — Ela é pequena mas é muito forte, faz uma explosão mágica poderosa. Para ativar você tem que girar as duas metades. Ela explode alguns instantes depois então tenha certeza de girar e jogá-la o mais rápido possível.

Uma granada, concluiu Ochako. Como nos filmes, só que versão mágica.

— Esse aqui é um anel de proteção. Tenha certeza de estar usando ele quando você usar a bomba, se não você pode se machucar gravemente. Ele não vai te deixar imune, então não tente fazer nenhuma loucura.

— Entendi. — Ela respondeu absorvendo as informações. — Mas qual é o plano? O que eu preciso explodir?

— Amanhã à tarde, qualquer momento depois do almoço. Ache uma oportunidade e exploda a sala do Hawks, o mais próximo da janela possível.

— Ai meu deus.

— Izuku vai estar por perto e assim que você explodir, corra na direção da escadaria principal que ele vai te achar. Eu vou estar com a minha irmã na biblioteca, bem abaixo da sala do Hawks, então quando acontecer todos os soldados vão correr pra lá pra nos proteger. Eu vou garantir que as coisas peguem fogo e se instaure o caos. Hawks provavelmente vai tentar salvar a pesquisa de vocês, essa é a oportunidade de você fugir.

— Mas e como isso vai impedir que ele faça o feitiço depois?

Shouto suspirou fazendo uma cara um tanto desgostosa.

— Não vai, só vai atrasar. Meu irmão disse que uma vez você estando a salvo, fora do castelo, ele pode dar um jeito em Hawks. Vamos ter que confiar nele e no grupo dele.

Ochako ponderou enquanto olhava os objetos que o príncipe colocava em suas mãos. Que escolha ela tinha? Ela precisava de aliados, sozinha não ia conseguir progresso algum.

— Eu acho que consigo… — ela falou incerta.

Apesar de satisfeito com a resposta, Shouto repassou mais uma vez as instruções para garantir que ela se lembrasse de tudo. Desejou sorte e foi se dirigindo para a porta do quarto, mas parou antes de sair.

— Ah! — o príncipe comentou como se tivesse acabado de lembrar — Bakugou está com eles, vivo e irritado como sempre. O dragão também.

Ochako sentiu uma das pedras amargas que travavam sua garganta se dissolver. Que alívio! Nunca imaginou que a possibilidade de ver a cara marrenta do bárbaro de novo fosse lhe deixar tão feliz.

Ela ainda sabia que o dia seguinte seria intenso e extremamente perigoso, mas a boa notícia mudou muito seu ânimo. Nem tudo estava perdido. Nem tudo era tão ruim quanto ela achava. Ainda havia esperança das coisas darem certo! Bakugou estava vivo. A pontinha do iceberg nunca tinha sido tão importante para ela.

Notas finais
Próximo capítulo: "BUM! Liberdade." Sábado, 4 de Julho.