Impossible
1 Empty promises
Notas iniciais
ps: já que é uma songfic aqui segue o link da música caso você queira ler a história ouvindo a música que me inspirou ^^
https://www.youtube.com/watch?v=lJqbaGloVxg
I remember years ago
Someone told me I should take
Caution when it comes to love, I did
And you were strong and I was not
My illusion, my mistake
I was careless, I forgot, I did
Tudo começou há exatamente quatro anos. Era uma fria noite de agosto quando eu tremia com mais uma crise, mais uma vez de coração partido. Sempre fui uma garota fraca e influenciável, quando eu entrei na puberdade até minhas amigas me mandavam tomar cuidado: “Você se entrega demais Isabella, não ame nada com tanta intensidade”, “Não deixe sua felicidade depender do sorriso de outras pessoas”. Era o que eu sempre ouvi. Hoje eu sei que cada uma delas estava coberta de razão, mas na época, com um brilho inocente no olhar, eu realmente acreditava que logo encontraria alguém que tivesse o mesmo tipo de amor que o meu, o louco, incondicional, apaixonado. A errada sempre fui eu, em esperar demais dos outros, ou pelo menos querer que fizessem metade do que eu estaria disposta. Eram belas ilusões, erros cometidos por uma alma não corrompida pela vileza da humanidade, fui descuidada e esqueci o preço que se paga por entregar o coração sem receber nada em troca.
And now, when all is done, there is nothing to say
You have gone and so effortlessly
You have won, you can go ahead, tell them
Agora está tudo acabado, toda a minha fé no amor, a crença em promessas que se mostraram vazias, a confiança que eu depositei em cada pessoa que me cativou ao longo da minha existência, se foi. Junto com ela. Minha fé num futuro melhor, se foi. Junto com ela. Ainda me lembro de tudo, do que vivi antes dela, depois tudo o que senti quando a descobri e é claro que também não esqueci todo o depois, o desenrolar de uma suposta linda história de amor. Giselle era uma boa garota, gostava de ler, ficar com a família, ir na missa e ser gentil com quem quer que fosse. Eu apareci na vida dela como um furacão. Tudo parecia errado, eu a conheci pelo namorado dela, briguei com ele e peguei ela só por vingança. Golpe baixo não? Não. Não foi bem assim, minhas intenções sempre foram as melhores com aquela mocinha. Mesmo assim, não me orgulho até hoje, mas o ponto não é esse. Ela mora do outro lado do estado, no interior de São Paulo, depois de brigar com Alan (vulgo ex-amigo meu e ex-namorado dela), resolvi tirar umas férias da capital e parti pra aquele fim de mundo afim de conhecer melhor minha amiga. Fiquei numa pensão barata por lá, a encontrei num mercadinho, ela convenceu seus pais que ia dormir na casa de uma amiga da escola e assim teríamos uma noite toda para fofocar e fazer uma festa do pijama. Era começo de noite, e digamos que Gis sempre foi uma garota carente e atenciosa, não queria sair do meu colo ou deixar de me fazer cafuné, e é claro que eu adorava. Depois de uma sessão pipoca e a típica guerra de travesseiros, deitamos, exaustas, na cama de casal que havia ali, ela segurou forte na minha mão e eu já não sabia mais o que sentir, só sei que finalmente me sentia inteira, uma alegria que nunca senti se alojava em meu coração. Ela cravou seus olhos em mim e começou a morder as pontas dos meus dedos. Ela não podia fazer aquilo, tenho um sério problema com mordidas. Sim, devo ter altos problemas mentais não diagnosticados, mas só sei que mordidas exercem um efeito afrodisíaco fora do normal no meu organismo. Esclareço isso a ela com franqueza, ela até ali tinha sido minha melhor amiga e eu não tinha vergonha de nada com ela. A menina deu uma risada sincera e começou a me morder ainda mais, mesmo com meus protestos. Fiz cócegas em sua barriga e a ameacei: mais uma mordida e eu não responderia por mim. Nunca vou me esquecer do tom suave e tentador que a baixinha usou para dizer: eu adoraria. Com outra mordida plantada em meu ombro eu a viro na cama, monto em seu colo e me abaixo até que nossas testas se encontram. Contemplo um sorriso inocente sendo formado em seus lábios, até que fecho os olhos e coloco tudo em risco. Como numa aposta onde você só pode ganhar ou perder tudo, eu a beijo, sem saber se irei a conquistar ou perder tudo o que a nossa amizade tinha feito por mim até ali. Ela corresponde meu beijo, de um jeito doce e inexperiente, quando nossos dentes se chocam naquele perfeito e infantil beijo, eu a solto e damos risadas tranquilas e aliviadas. Foi ali que tudo começou, descobrimos um amor avassalador, até hoje não tenho dúvidas de que naquela época ela me amou tanto quanto eu a amei. Depois de uma semana voltei para a capital, era fim de ano, as festas passaram e eu não conseguia sorrir sabendo que minha baixinha estava tão longe. O ano de 2014 parecia não passar, janeiro se arrastou, fevereiro ainda mais, março eu já não conseguia mais conviver com toda a carência e saudade que haviam em mim. Seu aniversário era em abril então decidi fazer uma surpresa a ela, juntei minhas economias e no dia 7 parti para Marília, em 5 horas cheguei lá e liguei em seu celular. A chamei para que viesse à esquina de sua rua, ela abre o portão e logo me vê encostada no poste, corre com o sorriso mais brilhante que já vi e se aninha com força em meus braços. Fiquei um fim de semana e logo já tive que ver Giselle separada de mim por 370 quilômetros novamente. Não aguentei essa distância, e como só morava com minha mãe que pouco se importava comigo, todo mês fazia essa viagem para ver minha pequena. O tempo passou, já era novembro e no dia 24 lá estava eu para curti-la mais um pouco. Estava tudo preparado, Gis era uma garota extremamente inteligente e o plano era ela prestar vestibular pra USP, o pai dela era um grande dono de fazenda, e a sustentaria na capital, pra ele eu seria uma colega de quarto que divide as despesas com ela. Tudo parecia perfeito, era um domingo chuvoso e nós fazíamos amor no quartinho da pensão. Até ali, até o último suspiro de prazer que ouvi de seus lábios, eu fui uma garota feliz. Porém, a vida não seria assim tão generosa. Ouvimos três batidas violentas na porta, quando estou levantando minha cabeça de entre as pernas da minha deusa, um enfurecido e irracional Lúcio arromba a porta, e assim que levanto da cama vejo o pai da garota da minha vida a puxando pelos cabelos, nua, pelo corredor daquele lugar. Demoram alguns segundos para que eu assimile o que houve, me enrolo num lençol e saio correndo com minha jaqueta em punho, os alcanço, empurro aquele idiota e cubro as intimidades de Giselle com minha jaqueta, que obviamente ficaria gigante nela. Ela olha pra mim, soluçando com suas lágrimas de horror, eu grito para que seu pai a solte e tente conversar com a gente, ele joga a menina no carro e sai em disparada dali. Permaneço no meio da rua, atônita, sem saber qual deveria ser meu próximo passo. Ela me manda um SMS depois de algumas horas, implorando para que eu volte para minha casa e nunca mais apareça ali, eu nego e ela avisa que seu pai estava enviando seus capangas para darem um jeito em mim. Destroçada, saio correndo para a rodoviária e volto para a capital. Não tenho mais notícias dela, ligo em seu celular, envio mensagens em todas as redes sociais possíveis e imagináveis, sem ter qualquer sinal de vida da minha razão de viver.
Tell them all I know now
Shout it from the roof tops
Write it on the sky line
All we had is gone now
Tell them I was happy
And my heart is broken
All my scars are open
Tell them what I hoped would be
Impossible, impossible
Impossible, impossible
Eu procurava algum jeito de me comunicar com ela, nem que fosse por sinal de fumaça, ou gritando sem rumo por aí, eu merecia saber o que seria de nós. Nós merecíamos. Passei dezembro, as festas de fim de ano, afogada em memórias e bebidas fortes, tentando achar uma solução em fundos de copos vazios. Em janeiro decidi que voltaria àquela cidade e só voltaria com respostas, mesmo que aquele fazendeiro metido a dono da cidade colocasse todos os homens do lugar na minha cola. Em menos de uma semana embarcaria para procurar minha baixinha, até que num fim de tarde nublado de uma terça recebo uma carta e choro incontrolavelmente com o nome da remetente: Giselle Pereira Iacomini. Rasgo a carta e dou um sorriso fraco ao me deparar com a letra infantil da minha menina.
“Isabella,
Não pretendo me estender em declarações que só nos machucarão ainda mais, então vou direto ao assunto. A gente nunca vai poder ser feliz juntas, eu não saberia me sustentar aí na grande capital e meu pai nunca nos deixaria em paz. Ele me fez diversas ameaças e eu nunca poderia ir morar com você, na cabeça dele eu estaria melhor morta do que vivendo fora dos dogmas católicos. Ele determinou que eu faria o melhor curso bem longe daí e aqui estou morando na Austrália, fazendo minha faculdade em Sydney, e trabalho num aquário, trato dos golfinhos que você sabe que tanto amo. Juro que estou bem. Te guardarei em meu coração até os fim dos tempos e sei que um dia vamos lembrar do que houve entre nós com um sorriso saudoso no rosto. Te desejo tudo de bom magrela, porque você merece. Espero esbarrar com você daqui alguns anos e poder voltar a ter sua amizade.
Encontre seu final feliz,
Giselle”
Falling out of love is hard
Falling for betrayal is worse
Broken trust and broken hearts, I know, I know
And thinking all you need is there
Building faith on love and words
Empty promises will wear, I know, I know
Eu me senti traída. Como assim ela desistiu tão fácil? Partiu sem me dar o adeus que merecíamos. Segui despedaçada por semanas, não consegui voltar a estudar, trabalhava como a incompetente que nunca fui, toda a noite o descanso só chegava após um par de calmantes e uns goles de qualquer bebida forte. Eu construí todo o meu futuro com a fé no amor que possuíamos, eu jurava que ela lutaria contra o mundo pra ficar comigo, assim como eu o faria, mas não, o mais fácil foi obedecer e buscar um recomeço bem longe de mim. Promessas vazias, confiança quebrada, meu coração partido, tudo fazia parte do peso que tinha de carregar em meus ombros todas as manhãs que me via obrigada a levantar de minha cama.
And now, when all is done, there is nothing to say
And if you're done with embarrassing me
On your own you can go ahead, tell them
Eu seguia sobrevivendo, todos à minha volta se afastaram, incomodados com a negatividade do meu olhar, com a escuridão que tomou conta de meu ser. Ela tirou tudo de mim, meu brilho interior, a alegria do meu sorriso, ela levou tudo junto a ela para bem mais longe do que sempre foi. Sem a intenção ela me envergonhou, a cada dia que passava eu me sentia embaraçada com o que eu tinha me tornado sem ela, com a fé que eu tinha que ela faria tudo por mim, por ser tão fraca e iludida. Eu não aguentaria muito tempo, todos os dias olhava as redes sociais dela e a via feliz, superando tudo o que passou, eu sentia inveja dela, da menina forte que nunca consegui ser. Foi então que numa ensolarada manhã de segunda-feira, abrindo meus olhos ao acordar tive uma ideia. Tudo seria resolvido, toda a dor passaria. Assim que o banco abriu pedi um pequeno empréstimo, meu nome é limpo então foi fácil, voltei pra casa, arrumei uma bolsa só com um guarda-chuva e meu celular e parti para o aeroporto. Antes de embarcar pesquisei o endereço de onde ela estaria morando e descobri facilmente que ela morava na cobertura de um prédio no subúrbio da cidade. O avião decolou tarde da noite de segunda e após 35 horas chego na madrugada de quarta ao aeroporto da cidade australiana. Pego um táxi em direção ao prédio onde Giselle está residindo e conhecendo seus horários sei que ela ainda está dormindo. Dou a sorte de o porteiro estar num sono profundo, subo até a cobertura e com minhas habilidades de marginal, consigo abrir sua porta com um grampo encontrado no fundo de minha bolsa. Vou até o terraço a céu aberto, pulo o parapeito e sento no beiral, com as pernas balançando, fitando as estrelas com 12 andares de altura separando meus pés do chão.
E aqui estou há cerca de uma hora, até que ouço passos dentro do apartamento. Passa-se cerca de meia hora e consigo escutar a porta do terraço sendo aberta, fico de pé rapidamente. O dia começa a raiar.
- Quem é você? O que faz aqui? – ela me pergunta, mesmo com a luz do nascer do sol, a distancia que ela mantém entre nós a impede de me reconhecer.
- Vim nos dar a despedida que merecíamos.
- Bella? É você mesmo? – ela finalmente me reconhece e dá alguns passos em direção ao parapeito.
- Repetindo suas falas, não quero me prolongar. Só sei que antes de partir eu mereço mais que uma carta.
- Sinto muito por ter partido sem te ver, mas foi melhor assim, eu nunca conseguiria vir se olhasse em seus olhos mais uma vez, só sofreríamos mais Isabella.
- Não falo da sua partida, falo da minha – ela se mostra confusa e quando está prestes a me interromper com alguma pergunta eu a impeço – deixa eu falar tudo o que preciso, juro que depois você poderá seguir sua vida do jeito que quiser, e serei breve. Meu amor por você foi o maior de todos os tempos, mais avassalador, mais sonhador. Eu tinha a certeza que nada nos impediria de sermos felizes juntas, o que conseguiria ser mais forte do que eu guardava por você em meu peito? A tragédia da vida se mostrou mais forte do que eu pensei que você sentia por mim, mas talvez tenha sido melhor assim, você merece mais. Eu jamais conseguiria me manter longe do seu toque, do seu cheiro, e como último desejo eu quis fitar seus olhos uma última vez. Eu realmente achei que vivermos separadas seria impossível, inconcebível, mas definitivamente impossível mesmo. Ache seu final feliz Gi.
Ela nega com a cabeça, com o rosto coberto por lágrimas e estende sua mão para que eu a segure, eu dou um sorriso fraco para ela, com uma melancolia saudosa no olhar e me deixo cair para trás, ainda olhando em seus olhos. Por alguns segundos sou dominada pelo vento em meus ouvidos e o brilho do sol nascente ofuscando meu olhar, um impacto profundo me leva para a escuridão e ali eu encontro a paz.
Tell them all I know now
Shout it from the roof tops
Write it on the sky line
All we had is gone now
Tell them I was happy
And my heart is broken
All my scars are open
Tell them what I hoped would be
Impossible, impossible
Impossible, impossible
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