Impossível

2 "Dorme que passa"


Ochako só queria se formar logo no ensino médio para finalmente ter tempo para trabalhar e ajudar nas despesas da família. Seus pais sempre batalharam muito para manter as contas em dia, muitas vezes sacrificando o bem-estar deles em prol da filha. Finalmente ela poderia retribuir toda essa dedicação, quem sabe poderia inclusive mandar os pais curtirem merecidas férias.

Estudou bastante para ter notas boas, e se comportou para nunca dar mais trabalho do que já dava. Pelos seus quase 18 anos ela foi uma filha exemplar. Por isso mesmo ela não entendia porque diabos agora estava num mundo estranho, sendo sequestrada por um bárbaro terrível. O que ela tinha feito de errado?

Tentava recuperar na memória como tinha chegado lá, e nada. Sua cabeça estava um caos. Lembrava de ter acordado com os homens de armadura a capturando e prendendo no baú. Antes disso, ela tinha suas memórias do mundo normal mas nada de diferente, que a pudesse ter mudado de universo, por deus!! Será que estava sonhando?

Não podia estar sonhando, aquela cabeçada doeu, e doeu muito. Alias, seu corpo todo doía de estar amarrada nas costas de um dragão em pleno vôo. Será que estavam muito alto? O tecido que a enrolava tapava seu rosto, não permitindo que ela visse o que se passava, mas por outro lado a mantinha aquecida.

Seu pânico inicial de estar aparentemente num universo diferente foi apaziguado enquanto ficou presa dentro do baú. Depois desse choque, seu medo virou outro. Num lugar aparentemente medieval como aquele, como que uma mulher como ela sobreviveria sozinha?

As primeiras pessoas que a encontraram foram aqueles soldados, e ela teve sorte deles estarem com pressa para entregar a tal carga, e a terem "guardado para depois". Teve certeza que seria, no mínimo, estuprada. Se tivesse sorte eles a matariam.

Depois, a segunda pessoa que ela encontrou era claramente um selvagem. Não entendeu exatamente o que se passou, mas agradeceu a sorte também por não ter sido comida pelo dragão. Um dragão!! Existiam dragões nesse mundo. Que outro tipo de mosntro encontraria??

O bárbaro não parecia ter interesse em abusar dela como os outros nojentos claramente pretendiam, mas ele não parecia ter muito apreço pela vida dela.

— Ô cara de bolacha, está viva? — ela ouviu o outro perguntar enquanto puxava a corda que a prendia no dragão. Ela se sentiu perigosamente escorregando do monstro.

— Estou, não me derruba por favor!!!!

— Relaxa aí mulher, se você morrer não consigo te vender. — ele disse puxando-a de maneira que ela ficasse mais ou menos sentada. Desembrulhou o rolinho de pano revelando o rosto vermelho dela, por estar a tanto tempo com a cabeça pendurada. Estava quase noite e ela decidiu olhar para baixo para conferir a que altura estavam, mas se arrependeu imensamente.

— Escuta aqui, cara redonda. — ele falou fazendo ela olhar pra ele — Nós temos uma longa viagem pela frente ainda. Vamos pousar e acampar, e você vai se comportar.

Ela apenas olhou nos olhos dele, ameaçadoramente vermelhos.

— Minha paciência é bem curta, eu não vou tolerar outra tentativa estúpida de fuga. — ele disse ríspido — Graças a esse seu fedor doce, Kirishima conseguiria te encontrar a noite em qualquer lugar dessa floresta, então não adianta bancar a esperta.

Fedor doce? Ochako tinha ganhado aquele perfume de uma amiga da escola! Que cara estúpido. Ela o queria muito o perfume mas obviamente sua família não tinha como comprá-lo, então sua querida amiga lhe deu de presente de aniversário.

— Temos um acordo?

E o que mais ela poderia fazer?

— Tudo bem.

*~*~*~*~*~*~*

Bakugou fez uma fogueira no centro da clareira e se deitou de frente pro fogo, enquanto mascava um pedaço de carne seca. Ochako estava sentada do outro lado, suas canelas e punhos ainda amarrados, e o tecido enrolado nela. Mesmo com o fogo e o pano, ela seguia com frio.

O homem à sua frente, apesar das botas, calças e capa, tinha o torso nu, e parecia nem se importar com o frio da noite. E parando para ver agora que não estava mais com medo iminente da morte, ela viu que ele tinha um corpo muito bonito. O fogo tremeluzia fazendo as sombras se moverem um pouco, as linhas que marcavam seus músculos abdominais e peito parecendo ainda mais profundas.

— O que está encarando, lua cheia? — ele disse mastigando de boca aberta.

— Eu tenho um nome, sabe? Ochako. — ela ofereceu, desviando o assunto.

— Eu não ligo. — ele disse simplesmente.

— Como eu chamo você?

— Você não chama.

— O que são esses colares? — ela insistiu em manter alguma conversa.

Bakugou apenas suspirou, entediado e derrotado.

— Eu fiz com os dentes do Kirishima quando ele era pequeno. — ele disse meio nostálgico tocando as presas no colar. — Mas logo chegou um momento que os dentes dele ficaram maiores que a minha mão e aí não teve mais jeito.

Ochako não conseguiu evitar um meio sorriso ao perceber como ele falava carinhosamente do dragão.

— E onde ele está agora?

— E como eu vou saber? Ele é um dragão, pode ir pra onde bem quiser.

Ele respondeu enfiando o último pedaço da carne seca na boca, se deitando de costas no chão. Era óbvio que não queria mais conversar com ela. Mesmo assim, ela tinha uma esperança de que poderia convencê-lo a não vendê-la, talvez se ele visse alguma utilidade na presença dela.

— Sabe que o lugar de onde eu venho não tem dragões. Mas tem umas máquinas muito grandes que voam, levam umas duzentas pessoas por vez.

— Pfff — ele disse desdenhando — Impossível.

— Não é, é ciência.

— Ciência é a desculpa de quem não sabe fazer magia.

— E você sabe fazer magia? — agora ela quem tinha ficado interessada.

— Claro que não, cara redonda. Quem liga pra essa merda? Se eu vejo alguém fazendo magia eu primeiro enfio a faca, depois vejo se sobrou alguma coisa. Você faz magia por acaso? — ele disse já se virando na direção dela pronto para pegar a faca da calça.

— Não, não!! Eu não faço nada disso. De onde eu venho ninguém faz magia.

— Melhor assim. — ele disse deixando a faca no cinto e voltando a se deitar.

Ochako ficou calada olhando pro fogo novamente. Tentou pensar em qualquer coisa que pudesse oferecer de útil para não ser vendida. Não adiantaria explicar coisas como aviões, celulares ou internet, pois nada daquilo ela conseguiria reproduzir. Se sentiu um tanto inútil, pensando que de nada valia estudar tanta coisa na escola se na prática não conseguia reproduzir nada.

Seu estômago escolheu aquele momento de silêncio em que só se ouvia o estalar da brasa para roncar muito alto. Desde que tinha chegado naquele universo não tinha tido um momento tranquilo para sequer pensar na fome. Agora seu corpo a lembrava. O selvagem apenas a olhou com o canto dos olhos.

— Como você pode estar com fome estando redonda desse jeito?

— O QUÊ?! — era só o que faltava, ter que ouvir de um macho escroto no meio de uma floresta de um universo paralelo que ela está gorda.

O infeliz apenas se virou de costas pro fogo, puxando a capa por cima de si.

— Dorme que passa.

Agora mesmo que ela não ia conseguir dormir só de raiva daquele grosseiro ridículo. Comeria folha secas antes de pedir comida para aquele escroto.

*~*~*~*~*~*~*

Ochako acordou na manhã seguinte sendo puxada pelos pulsos amarrados. Assustada ela se viu sendo colocada de pé com facilidade pelo selvagem. Ela se agarrou como pode no tecido quente que ela vinha se cobrindo, com receio dele tirar dela a única coisa que ela tinha naquele momento.

— Você dorme que nem uma pedra. — ele disse finalmente — Pegue isso.

Foi então que ela percebeu que ele tinha alguma coisa na mão. Soltou o pano sem deixar ele cair de cima do seu corpo, e fez uma espécie de concha com as duas mãos. Ele abriu a mão dele caindo uma série de frutinhas rosas e vermelhas, bem como algumas flores cheirosas. Todas elas lhe pareciam esquisitas, nada que ela já tivesse visto antes. Ela até entendeu as frutinhas mas… flores?

— Isto é… pra eu comer? — ela perguntou incerta.

— Eu não tinha a menor idéia do que mulheres comem então foi isso que eu trouxe. — ele disse dando os ombros e se afastando para recolher algumas coisas do chão.

— Você tá falando sério? — ela disse quase rindo — Mulheres são pessoas como você, a gente come a mesma coisa.

— Tsc… — ele grunhiu enquanto se afastava um pouco olhando para cima. — Impossível.

Sem dar maiores explicações ele colocou dois dedos na boca e assobiou muito alto. Ochako quase deixou cair as frutinhas no chão devido ao susto.

— Se você não comer logo, voando vai ficar mais difícil.

Em instantes ela ouvir o rugido do dragão ao longe e o bater de asas se aproximando. Se lembrou de como foi levada como um saco no lombo do dragão e se apressou em jogar todas as frutinhas na boca ao mesmo tempo. As flores… bem, as flores ela dispensou.

Quando começou a mastigar se arrependeu rapidamente. Claramente nem todas aquelas frutinhas eram totalmente comestíveis. Algumas tinham casca dura e outras eram muito amargas. Engoliu tudo sentindo a boca ficar um tanto dormente. Esperava não ter uma indigestão ou morrer envenenada.

Logo o dragão pousou na clareira e o homem a arrastou pela corda que a amarrava para perto dele. Subiu com ela nas costas e arremessou junto com algumas outras coisas que ele tinha amarrado na estrutura tipo cela do dragão. Ela tentou se colocar entre um saco de alguma coisa e uma escama alta do dragão de maneira que ficasse segura e sentada. O loiro não reclamou e a amarrou na cela mesmo assim.

Kirishima deu um último rugido enquanto Bakugou se sentava um pouco mais pra frente e logo saiu voando.

— Lado errado, seu burro. — ele disse puxando um dos chifres do dragão para o lado, o fazendo mudar a direção do voo. — Eu me pergunto se algum dia você vai aprender alguma coisa do que eu te ensino.

O dragão chacoalhou a cabeça para os lados, soprando um pouco de ar pelas narinas.

— Não, Kirishima, o leste não tem um cheiro diferente. É só olhar a porra do sol.

Ele abriu a boca grasnando alto, parecendo inconformado.

— Você tem que me ouvir, mas essa sua cabeça dura só serve pra crescer chifre mesmo.

Kirishima ergueu a cabeça, claramente tentando acertá-lo com os ditos chifres, falhando por pouco. Bakugou se levantou da cela em pleno voo para gritar xingamentos e bater na cabeça do dragão que apenas voava inafetado.

Era muito engraçado ver aquilo. Ao mesmo tempo que era interessante ver como o loiro entendia perfeitamente um dragão ao ponto de manter um diálogo mas não parecia sequer entender o que era uma mulher.

Era estranho, não era seu universo. Pensou em como deveria estar se arrumando para ir para suas últimas semanas de aula no ensino médio, mas talvez nem se formaria mais. Pensou em suas amigas da escola, Tsuyu, Momo, Toru… Não as veria hoje, talvez não as visse nunca mais.

Pensou em seus pais, que batalharam tanto para torná-la a garota que era hoje, para agora ela estar ali, perdida num universo diferente, sem a menor idéia de como sobreviver, muito menos de como voltar pra casa. Percebeu o desespero que seus pais deviam estar sentindo, com ela já sumida há um dia inteiro.

Sentiu o peito apertar e um bolo subir pela garganta. Agradeceu que o loiro ainda gritava e discutia com o dragão por alguma coisa, pois não ouviriam os soluços que ela tentava abafar quando se permitiu chorar.

Se enrolou no tecido como pôde e chorou até os olhos arderem e os pulmões doerem. Quando as lágrimas secaram ela ergueu a cabeça e focou os olhos no horizonte. Daria um jeito de voltar para casa, não importa o que custasse.

Notas finais
Apresentações dos personagens principais feitas, que vocês acham que vai acontecer? O que aguarda nosso trio no leste? Comentem que eu simplesmente vivo pra ler vocês ♥ Próximo Capítulo: "Anão de merda"