Impossível
3 "Anão de merda"
Notas iniciais
A paisagem mesclava colinas com montanhas cobertas por florestas e plantações. Ao longe Bakugou conseguiu ver já os muros altos de uma cidade bem maior que as pequenas vilas que eles viam sobrevoando.
— É por aqui, escamoso. Consegue sentir o cheiro?
O dragão assentiu com a cabeça fazendo uma curva fechada. Desceram mais perto das colinas até localizar, numa das áreas baixas entre os morros, uma casa com um grande celeiro. Kirishima pousou próximo e Bakugou logo foi desamarrar Ochako da cela.
— E o que é aqui? — ela quis saber.
— Seu novo lar! — ele disse sorrindo debochado e imediatamente puxando ela de cima do dragão.
Quando ela firmou os pés no chão seu coração já estava a mil e sua cabeça tentando traçar alguma estratégia de fuga.
— Por favor, eu não quero ir!! — ela disse se jogando aos pés do dragão que ficou sem entender.
— Não me venha com essa agora. — Katsuki disse a pegando pela cintura e jogando nas costas como um saco de batata. — Só o que me faltava.
Ochako tentou se mexer e tentar dificultar, mas o brutamontes nem se afetou pelas tentativas. Enquanto desistia e se deixava levar pelo selvagem, seus olhos começaram a escorrer algumas lágrimas, impedindo que ela percebesse a expressão de pena com que o dragão a observava.
Em pouco tempo Bakugou chegou à porta da casa de pedras e entrou sem bater. Era uma casa até bastante confortável. Tinha piso de pedra, lareira, algumas poltronas com peles de animais, cama, fogão a lenha e uma mesa.
— Olha só, realmente não esperava te ver de novo, Bakugou.
O homem ridiculamente baixo, proprietário da residência, era Minoru Mineta e estava bem sentado numa de suas poltronas fumando um charuto fedorento. Ele tinha as pernas e braços mais curtas do que o normal, bem como a cabeça cheia de protuberâncias. Claramente não era uma pessoa normal.
Katsuki apenas grunhiu como resposta, largando Ochako no chão. Depositou a garota de pé sem muito cuidado e tomou de volta o tecido que ela agarrava com todas as forças.
O anão se levantou da poltrona com um assovio malicioso e se aproximou. Uraraka tentou se afastar dele, mas Bakugou colocou a mão pesada em seu ombro a segurando no lugar.
— Ora, ora, o que temos por aqui? — Mineta disse com curiosidade, baforando fumaça fedida nela enquanto tocava curiosamente sua saia.
— Não encosta em mim. — ela disse ríspida tentando se afastar de novo.
O anão só deu uma risada antes de pegar as mãos dela e puxar pra perto dele.
— Onde você achou ela? As mãos estão perfeitas, parece que nunca trabalhou. — ele disse praticamente passando as mãos dela no próprio rosto deformado.
— Não importa. — Bakugou respondeu — Só quero o dinheiro.
O anão colocou o charuto na boca e a puxou para mais perto. Ela tentou se desvencilhar a todo custo mas o bárbaro a segurou firme enquanto o anão afastava seus lábios e olhava seus dentes. Ela sentiu aquela mão nojenta em sua boca com gosto do cigarro, e só queria que ele parasse. Quando ele finalmente tirou a mão dela, Uraraka cuspiu no chão enojada.
— Parece tudo em ordem, pena que ela não tem os modos. — ele disse finalmente se afastando e dando mais uma tragada no charuto. — Quanto você quer por ela?
— 15 moedas de ouro. — Katsuki respondeu sem pestanejar.
Mineta não pareceu se impressionar, calmamente deixando a fumaça sair de sua boca.
— Aquele seu dragão vem junto por esse valor, eu suponho.
— Nem por cima do meu cadáver, anão de merda.
Mineta riu se afastando, e voltando a subir na sua poltrona com certa dificuldade.
— Pessoas não pagam mais tudo isso por mulheres, Bakugou. Eu ainda vou precisar achar alguém que a compre, convencer de que ela vai se comportar, tsc tsc, muito trabalho! Ela vale no máximo umas 5 moedas, isso se você deixar essas roupas diferentes.
Ochako ouvia aquela conversa sentindo suas entranhas darem um nó. Como podiam negociar a vida dela assim? Precisava sair dali, precisava fugir! Tentou forçar a corda que amarrava suas mãos o mais discretamente possível, e a imobilidade da corda fazia sua raiva crescer. Precisava ser forte se quisesse sobreviver naquele lugar e encontrar o caminho de volta pro seu mundo.
— Eu não tô nem aí pro que você vai fazer com ela, mas não vou aceitar menos que 15 moedas.
— Duvido que você tenha outro comprador. — Mineta desdenhou.
— Foda-se, eu dou ela de comer pro Kirishima que vale mais a pena que esse seu dinheiro bosta.
A negociação do valor de sua vida seguiu no plano de fundo da sua mente enquanto ela arquitetava um plano. Seria mais fácil escapar do anão escroto do que do brutamontes com um dragão. Viu que próximo da lareira tinha alguns ferros para mexer as brasas que ela poderia usar para se defender, ou quem sabe a faca que estava na mesa próxima a algumas frutas. Poderia chegar na mesa se desse uma cambalhota e…
— Está bem, porra, me dá logo essas 10 moedas pra eu ir embora e nunca mais ver essa sua cara escrota.
— Sempre uma alegria negociar com você, Bakugou. — Mineta disse sorrindo — Leva ela até o celeiro pra mim? Minhas pernas não são muito boas. — ele disse casualmente.
— Preguiçoso de merda.
Bakugou disse enrolando Uraraka no tecido e a jogando nas costas de novo. Enquanto o pano escurecia sua visão ela viu todo o seu mísero plano ruir. Era ridículo pois o plano nem era bom, mas era toda esperança que ela tinha. As lágrimas de raiva começaram a escorrer soltas, ela só queria que tudo aquilo acabasse.
Katsuki acompanhou o anão até a porta do celeiro que convenientemente tinha uma corrente e cadeados fechados numa altura baixa. A porta de madeira abriu revelando um interior que era cruel, até mesmo para Bakugou.
Dentro do celeiro escuro havia ao menos 30 pessoas acorrentadas umas às outras. Eram homens, mulheres e crianças de diferentes idades e raças, mas todos em estado evidentemente deplorável. O cheiro de fezes e podridão ardeu as narinas de Bakugou, fazendo seu estômago revirar.
As pessoas ali nem ao menos esboçaram reação com a entrada deles, pareciam mortos vivos. Era horrível e era mais cruel que qualquer coisa que o bárbaro já tinha visto.
— Coloque ela aqui se não os outros vão marcar a pele dela. — Mineta disse apontando para uma gaiola com cadeado num canto próximo a porta.
— Essas pessoas…..? — Bakugou não admitiria, mas estava ainda em choque pela cena. Já tinha visto pilhas de gente podre assim, mas eram mortos, eram corpos. Aquelas pessoas ali ainda estavam vivas, e naquele estado a sabe-se lá quanto tempo.
— Ah! — Mineta se surpreendeu como se nem tivesse reparado que elas estavam ali. — Posso te dar uma se você me deixar ver seu dragão comendo ela. Seria incrível! Nem te cobro.
Bakugou sentiu o estômago embrulhar e precisou engolir em seco. Fechou o punho com força, tentando controlar a raiva que lhe subia pela espinha.
— O que foi? — Mineta se voltou pra ele vendo que o loiro não estava levando a garota pra gaiola — Não me diga que viu alguma coisa que te interessou? Faço um preço ótimo pra você, já que somos amigos de longa data.
Bakugou largou Ochako no chão, sentindo as mãos suarem tamanha era a raiva que sentia. Olhou para o anão à sua frente que começou a falar sobre algum tipo de desconto que faria se ele levasse mais de uma pessoa. Desprezo, era tudo que ele conseguia sentir naquele momento.
— Bakugou, o que você…?
Mineta apenas viu o bárbaro se aproximar, sua altura facilmente duas vezes o seu tamanho. Suas mãos grandes deram a volta no pescoço dele, o tirando do chão com facilidade. A frase dele se perdeu sem final, enquanto ele só conseguia fazer gemidos engasgados.
Uraraka observava a cena em choque.
Logo o anão ficou com a cara roxa sem ar, e suas pernas curtas pararam de se debater. O silêncio pesado do celeiro foi apenas rompido pelo barulho do corpo batendo no chão quando ele soltou. Ninguém ousou dizer uma palavra enquanto Katsuki pegava o molho de chaves no chão e se colocou a abrir os cadeados que prendiam as correntes das pessoas.
Ainda amarrada, Ochako viu as pessoas aos poucos recuperarem o leve brilho nos olhos, agradecerem ao bárbaro com suas vozes fracas. Quando terminou de abrir todos, Bakugou voltou no corpo de Mineta pegando o saco de moedas da cintura dele. Ela achou que ele iria ficar com o dinheiro pra ele, mas se surpreendeu quando ele jogou na direção das pessoas que ainda estavam receosas.
— Usem isso pro que precisarem. Na casa deve ter alguma comida e água. A cidade fica a uns 3 dias caminhando pro norte. Boa sorte. — E com isso ele se virou e saiu do celeiro, caminhando a passos largos.
Ochako viu as pessoas lentamente se levantarem e irem em direção do corpo morto do anão. O bolo de pessoas cadavéricas mais parecia uma horda de zumbis. Ainda com os tornozelos e pulsos amarrados, ela não conseguia direito nem mesmo se afastar. Cada um deles parecia querer arrancar um pedaço daquele corpo deformado como vingança.
Quando viu de fato pedaços dilacerados do cadáver serem arremessados ela saiu do transe, tentando a todo custo ficar longe e não olhar, estava quase vomitando. Caiu no chão e começou a se arrastar para fora do celeiro, na direção que o bárbaro seguia vários metros já a sua frente. Sem tempo para refletir, ela gritou.
— Bakugou!!! — era o nome que ela tinha ouvido o anão chamar ele. O loiro parou virando apenas a cabeça pro lado. — Não me deixa aqui!!
Ela viu ele virar o rosto pra frente de novo. Sentiu as lágrimas escorrerem enquanto ela se arrastava pra longe do celeiro. Ela só queria voltar pra casa, ver seus pais de novo, levar uma vida normal em seu mundo. Só queria acordar desse pesadelo.
Katsuki levou a mão à testa amaldiçoando a si mesmo para depois se virar e voltar na direção da garota. Usou sua faca para cortar a corda que amarrava ela sem dizer nada enquanto ela chorava e agradecia entre soluços.
— Caminhando, cara de lua cheia. — ele disse já caminhando sem esperar por ela — E para com essa merda de choro.
Ela fungou engolindo as lágrimas, contente por estar saindo dali, mesmo sem saber exatamente o que seria dela agora. Se apreçou caminhando atrás dele.
Subiram e desceram uma colina para chegar na frente do dragão que dormia atirado no chão. Ele acordou surpreso e totalmente confuso ao ver os dois subindo na cela.
— Só nos tira daqui, escamoso. Depois eu explico.
Em momentos estavam voando e Ochako se sentia estranhamente aliviada de estar no lombo do dragão de novo. O silêncio entre ela e o loiro era quase cúmplice naquele momento. Nenhum dos dois queria falar sobre o que tinham vivenciado.
Olhou para o horizonte alaranjado e esboçou um meio sorriso. Quando não se está amarrada e com medo de morrer, até era mais fácil de apreciar a vista do céu.
Conforme eles voavam o vento ia ficando mais gelado, e ela ia cada vez mais se encolhendo de frio. O tecido tinha ficado para trás, e agora ela não tinha nada além do uniforme da escola. Tentou se posicionar de alguma maneira na estrutura de modo que se sentisse segura e pegasse menos vento, mas era quase impossível.
Fechou os olhos e se abraçou, numa tentativa de não pensar no frio. Não demorou muito para sentir um tecido ser arremessado nela e abriu os olhos vendo o vermelho da capa de Bakugou. Olhou na direção do loiro que seguia sentado na mesma posição de antes.
Se enrolou no capa igual fazia antes, olhando para as costas largas à sua frente. Era estranho se sentir tranquila na presença do sujeito que tinha acabado de matar uma pessoa com as próprias mãos na sua frente. Mesma pessoa essa que a vinha mantendo prisioneira, amarrada, que ia a vender por 10 moedas de ouro. Mas era a mesma pessoa que, dentro das circunstâncias, não a tinha feito mal.
Segurou-se na cela, fechou o melhor que conseguiu a capa em sua volta, e deixou os olhos fecharem. Por mais que ela racionalmente não quisesse aceitar, naquele universo, não lhe fazer mal já era uma grande coisa.
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