Implicância Romântica
15 ...afeto.
Notas iniciais
Tic Tac Tic Tac (...)
– Para com isso agora! – Mandou Camus entre dentes, agarrando a caneta da mão de Milo.
Milo bocejou pela 5º vez no mesmo minuto.
– Porra Camus, to cansado cara. Vou parar, comecei a ver mingau de letras... – Reclamou. Seus olhos estavam vermelhos e a visão turva.
– Então dorme aí e perca horas preciosas em que poderia estar estudando e obtendo um pouco mais de conhecimento. Eu preciso terminar esse relatório de química. – Disse, já se posicionando para recomeçar a escrever.
Milo chegou a suspirar. Porque tinha que arranjar um namorado tão correto? Peraí, namorado? Ninguém pediu ninguém em namoro!
Apertou os olhos com os dedos e bocejou mais uma vez. Olhou o relógio de pulso e viu que já eram 19h46min e estavam estudando desde as 15h20min. Como Camus conseguia estudar e não ficar cansado? Milo chegou à conclusão que só de pensar já o deixava cansado.
Arrastou-se até o outro lado da mesinha de centro de seu quarto e deitou sua cabeça no colo do ruivo. Este último parou o que estava fazendo e olhou para o intruso que tentava atrapalhar seus estudos.
– Eu disse pra você dormir, mas não no meu colo. – Reclamou.
De resposta só ouviu um resmungo, e Milo acabou se aconchegando mais ainda no colo do ruivo.
– É sério Milo, eu só preciso terminar ess- – Os dedos de Milo selaram a boca de Camus, o interrompendo. O loiro começou a fazer um leve carinho na bochecha do outro, ergueu a outra mão e tirou os óculos do ruivo os colocando em cima da mesinha e voltou às carícias. Levou uma mão até a nuca e ali puxando de leve os cabelos lisos, arrancando um arrepio do outro. Puxou a cabeça de Camus até seus lábios se encostarem.
Camus estava inebriado, não conseguia nem mais pensar no relatório de química, a única coisa que ele queria era provar daqueles lábios que tanto ansiou e que agora podia beijá-los quando bem quisesse. Quando Milo vem assim do nada querendo sua atenção, querendo seus beijos, ele pensa que está em algum paraíso perfeito. Se sentir desejado e amado pela pessoa que ama não tem preço.
O ruivo levou as mãos até as costas do loiro e o abraçou fortemente, ainda se beijavam calmamente, curtindo a carícia das línguas.
Milo se sentia tão bem consigo mesmo que nada parecia importante. Estudar não parecia importante, passar no vestibular não parecia tão mais importante agora. Tudo que queria era estar beijando aquela boca, era sentir aquele perfume, embrenhar as mãos naqueles fios ruivos ousados que ele achava extremamente sexy. Olhar aqueles olhos que o fazia sair do ar.
Finalmente podia dizer que era feliz.
X
Mu achou que tinha escutado errado. Só podia ser.
– Que?
Aiolia quase não repetiu, aliás, precisava mesmo repetir?! Será que sua fala saiu meio enrolada, ou algo assim?! Não queria repetir aquilo, mas...
– Você pode sussurrar no meu ouvido?
O garoto de cabelos cor de lavanda abriu um pouco os olhos, mas não expressou todo seu choque por aquela pergunta. Ponderou por questões de segundos. O que ele queria com aquilo? Mas nada apontava para algo demais. Aiolia tinha desses rompantes impulsos sem o menor sentido, mas logicamente Mu queria entender.
– Como assim? Por quê? – Indagou um pouco sem controle na voz. Talvez no fundo, um pouco de esperança de que fosse alguma coisa, mas logo descartou essa ideia.
Por um momento, Aiolia queria desistir. Que loucura, que porra estava fazendo?! Mas iria até o fim, precisava tirar a prova, mesmo que Mu pensasse errado dele. Faria isso.
– Am... É um teste! Uma parada que li numa revista. Mas primeiro sussurre, e então te falo! Vai, anda! – Até ele sabia que não tinha sido convincente, segurou o riso nervoso.
Aiolia estava ansioso e não conseguiu pensar em nada melhor, e Mu estava olhando-o com o maior ponto de interrogação na cara. Esse garoto só podia ter problemas, algum distúrbio. Que tipo de teste seria esse?
– Hm... Tá, sussurrar o que? – Perguntou desconfiado.
O leonino não podia pedir a mesma frase, a fatídica frase “Onde você estava?”. No mínimo, Mu iria desconfiar. Aquela situação toda era muito tensa. Quase saia fumacinha da cabeça de Aiolia, e suas bochechas estavam ficando vermelhas e todo seu comportamento estava demonstrando o quanto aquilo era suspeito.
– Fale qualquer coisa! Sei lá, inventa ai!
Aiolia chegou perto de Mu, sentando de perna de índio de frente para o amigo. Mu começou a estranhar muito aquele comportamento. Via claramente que Aiolia estava nervoso, ansioso, algo assim. Por um momento pensou em tirar vantagem da situação, mas achou melhor não.
Mu inclinou o corpo em direção a Aiolia, apoiando com a mão direita sobre o colchão macio. Aos poucos aproximava seus lábios em direção ao ouvido esquerdo do leonino e só de fazer isso, Aiolia começou a se sentir paralisado, como se alguma coisa o impedisse de fugir. Quando sentiu os lábios do amigo em seu ouvido, já sentiu diversos arrepios, dos pés a cabeça, da cabeça aos pés. Seu coração batia tão rápido e sua respiração entrecortada. No final das contas, Mu não precisava falar nada para ele ter a resposta que queria. Só pela aproximação seu corpo mandava sinais claros de afetação.
Mu nem pensou muito no que iria dizer. No fundo acreditava que era alguma bobagem do bronzeado. Mas fez o que o amigo pediu, sussurrou:
– Você é um... Idiota. – Dito isso, Mu se afastou e passou a encarar o bronzeado só de cueca a sua frente.
Aiolia se sentiu derrotado. Teve sua resposta. E agora? O que faria com ela?
– Tá, que teste era esse afinal? – Perguntou fingindo desinteresse.
Não tinha pensado em nada para responder a essa pergunta que com certeza seria feita.
Ao contrário, só encarava o colchão e as vezes olhava para Mu que não estava entendendo nada, mas achava melhor não contrariar. O ariano pegou o celular e começou a mexer se sentindo observado.
Sentia atração pelo melhor amigo. Agora mesmo Aiolia olhava Mu em todos os detalhes que sua visão permitia. Ele era tão bonito. Tão simétrico, não chegava achá-lo feminino, por mais que o cabelo dele fosse rosa, roxo, Aiolia não sabia identificar. Uma cor estranha aí – segundo o bronzeado. Isso não importava. O que importava de fato era o companheirismo, a confiança, a força em suas palavras, a inteligência, lealdade e muitas outras qualidades. Achava Mu a pessoa mais amável do mundo. Que se colocava em seu lugar quando estava com problemas, que sempre fora a pessoa que podia contar, em qualquer situação.
Mu sempre esteve ao seu lado, sempre. Parecia que só agora enxergou verdadeiramente isso, e percebeu o quanto fez pouco para recompensar isso. Queria fazer algo para provar o quanto o amava como pessoa. Será que todo esse tempo foi o amigo que o ariano merece? Será que não se preocupou pouco quando o via mal e se contentava com a resposta “Sim, estou bem, não é nada demais.”. Nunca disse que ele podia contar consigo, que ele podia se abrir de verdade e contar o que o afligia. Aiolia nunca prestou real atenção, essa é a verdade. Seu peito doeu bruscamente ao constatar isso.
Essa atração repentina o fez enxergar o amigo de ouro que tinha.
Se Mu soubesse dessa atração, talvez nem o olhasse mais. Não queria perder isso, nunca! Mu era a pessoa mais preciosa de sua vida.
– Desculpa Mu. – Disse seriamente, desviando o olhar.
Mu apesar de estar no celular esse tempo todo, prestou atenção em todas as caras e bocas que o leonino fez e sinceramente, não entendia nada. Mas depois desse pedido de desculpa sem mais nem menos, largou o celular na cama, e direcionou seu olhar diretamente para o amigo à sua frente.
– Desculpa por que Aiolia?! – Indagou realmente confuso.
– Por eu ser um amigo tão ruim. Sou péssimo. – Mu iria interromper, mas o impediu com um gesto de mão. Seu olhar era baixo, direcionado para um ponto qualquer, talvez não conseguisse falar tudo que tinha pra falar olhando naqueles olhos – Desculpa por faltar com você em qualquer momento de nossas vidas. Eu sei que faltei. Eu sei que te deixei na mão várias vezes por causa de mulher, e isso é imperdoável. Desculpa não insistir quando te pergunto se está tudo bem, e você responde “sim”, quando claramente sei que não está. Desculpa minhas crises sem fundamentos em que eu acabava descontando em você. Você nunca teve culpa de nada. – suspirou – Se eu for embora mesmo, quero deixar claro que não sei como vai ser sem você. Você que sempre me ouve e t-
Mu selou seus lábios com os dedos o impedindo de continuar. Só nesse momento Aiolia o olhou, e ali viu aqueles orbes lindos banhados em lágrimas presas, que com certeza o ariano estava segurando com todas as forças. O garoto de cabelos cor de lavanda nunca foi de chorar na frente dos outros, mas aquelas palavras o cortaram por dentro. Aquelas palavras que sempre quis ouvir como um amigo que deseja só o bem para Aiolia. O bronzeado era tão importante para si, mas não só por que o amava como homem, mas pela sua amizade. Sim, não podia negar que Aiolia o magoava com essas atitudes pelas quais o mesmo se desculpava, mas sabia que era o jeito dele, depois de um tempo se acostumou a não receber a atenção que precisava dele, como recebia de Shaka. Sabia que Aiolia era um pouco avoado com essas questões, mas nunca achou que fosse por mal. Mas ouvi-lo falando desse jeito, com essas palavras, com esse tom de despedida acabava consigo. Ele não podia ir embora, simplesmente não suportaria.
– Você – engoliu em seco. Com o dedo em riste continuou – não vai – segurava as lágrimas com tanta força que seus olhos ardiam, sua garganta doía e por isso falava pausadamente – embora! Entendeu? Então para de falar desse jeito!
Aiolia nunca o vira assim.
Aquilo espremeu seu coração de uma forma tão dolorosa que nunca achou que se sentiria assim. Seu primeiro impulso foi puxá-lo, e abraçá-lo bem apertado. Como se aquele fosse o ultimo abraço.
Mas depois disso, Aiolia faria de tudo para ficar. Aquela era a motivação que precisava. Saber que Mu queria que ficasse tanto quanto ele não queria perdê-lo o fez entender que o que estava sentindo podia ser muito mais do que pensava.
Aiolia só queria ficar perto dele. Mais que isso, queria cuidar dele. Queria ser especial para ele.
E para isso, precisava ser sincero. Deixou algumas lágrimas saírem, deixou entregar-se naquele momento especial em que talvez fosse o único em que teria Mu em seus braços. Pensar nisso fazia seu peito doer mais ainda, deixar Mu, Shaka, Ikki, Milo, Camus e todos seus amigos, seus lugares preferidos naquela cidade que tanto amava. A tia da padaria, o vovô bêbado do bar, aquele mendigo no qual ele sempre dava comida, o cachorro de rua que sempre dava pega nele, as crianças fofas do parque, o seu peixe dourado chamado Pedro – seu peito doeu mais um pouco ao pensar em Pedro -, a praia a 15 minutos da sua casa, a faculdade pública que com certeza entraria... Ah, é muita coisa para deixar pra trás!
Mu se odiava por estar chorando na frente do amado, mas não pôde evitar. Tudo era doloroso demais. Talvez não estivesse chorando só pelas palavras do outro, mas por tudo que aguentou esses anos todos, por cada vez que chorou sozinho, que o viu com outras pessoas. Era como aquela música: “Eu sei, é um doce te amar, o amargo é querer-te pra mim.” Sua vida amorosa se resumia nessa frase, sorriu por tristeza e se aconchegou no peito do outro.
Era irônico, sofrer amor nesse abraço caloroso.
Nesse momento, o celular de Aiolia tocou. Em um impulso separaram-se.
O leonino pegou o celular, estava em cima da cama mesmo e viu que era sua mãe, não queria atender e por instinto olhou para Mu como se ali estivesse a resposta certa.
O ariano confirmou com um gesto de cabeça, para logo depois enxugar as próprias lágrimas.
– Aiolia... Eu sei que você precisa de um tempo para absorver tudo, mas... Eu preciso que você venha para casa. Por favor.
– Eu não sei mãe... – Respondeu indeciso enquanto limpava seu rosto molhado. Sabia que tinha que ir.
– Só venha e depois você pode voltar para casa de Mu, que eu bem sei que você está ai.
Aiolia sorriu fracamente. No final concordou em ir. Talvez tudo que precisassem era serem sinceros uns com os outros e poderem ser uma família, talvez pela primeira vez. Abraçou fortemente Mu, agradecendo por tudo com a promessa que voltaria mais tarde. Mu disse para ser paciente e compreensivo, pois tudo que essa família precisava era de alguém maduro e ciente para uma conversa clara e sincera.
Aiolia voltou para casa sem o peso enorme nas costas que estava antes. Esse era o efeito de Mu. Sorriu sinceramente feliz.
Feliz.
A única coisa que o fazia se sentir dessa forma nesse momento, era esse sentimento que parecia não parar de crescer.
Fale com o autor