Implicância Fora de Série
1 Uma dose de paciência, por favor.
Notas iniciais
Rose Granger-Weasley
Eu sempre fui uma menina determinada e sonhadora. De fato, eu sonhava em poder descobrir e explorar o mundo, em poder viajar sem rumo algum. No entanto, mesmo assim, eu sabia que era necessário ter os meus pés no chão e era exatamente por isso que eu trabalhava meio-período em uma cafeteria, para que pudesse pagar a minha própria faculdade. Ainda que não tivesse conseguido realizar esses sonhos, mesmo já estando na casa dos vinte, eu não perdia as esperanças.
De todo, o meu emprego não era ruim. Não que ser garçonete fosse a aspiração da minha vida, mas eu gostava bastante da atmosfera do lugar que trabalhava, pois não era apenas uma simples cafeteria, mas também uma livraria, e não havia nada que eu gostasse mais do que livros. Se eu não podia sair por aí em minhas aventuras e explorar o mundo, então o faria a minha maneira, e a leitura era minha fiel escudeira nessa missão. Além disso, não era segredo, mas eu sempre fui uma grande nerd e, definitivamente, ler era o meu passatempo predileto.
Quando se trabalha em um lugar como esses, não há uma grande variedade de clientes, então acabamos nos acostumando com as mesmas faces e, depois de um tempo, torna-se inevitável familiarizar-se com elas. Logo, em questão de dias, observá-las se torna um hábito. De alguma forma, passamos a acreditar que conhecermos aquelas pessoas e, mesmo que não troquemos nenhuma palavra além do cordial, meio que se torna difícil não se afeiçoar ou identificar com elas. Eu sei que pode parecer estranho, mas isso fazia com que eu me sentisse, de algum modo, conectada a cada um deles. Confesso que sempre fui uma boa observadora, sendo assim, certamente, essa era a minha parte preferida do meu emprego.
Levando tudo isso em consideração, já é de se imaginar que, quando chega alguém novo, é como se fosse uma nova história para conhecer. E, bem, havia alguém novo. Um garoto, mais especificamente, loiro, de olhos azulados com um fundo cinza, pele clara e estatura alta. Diferentemente das outras pessoas, não sei exatamente o porquê, mas ele me intrigava de uma forma que eu não saberia explicar, caso alguém me perguntasse. Muitas das pessoas que frequentavam a cafeteria eram introspectivas, mas havia algo de diferente sobre ele.
O rapaz havia começado a vir ao café na última semana e, desde então, não deixara de aparecer em um único dia sequer. Ele era quieto, na verdade, bem quieto e algo nele exalava mistério, o que atraía a minha curiosidade. Seu pedido era sempre o mesmo, simples e sucinto: café preto e sem açúcar e, em suas mãos, havia sempre algum livro. As temáticas variavam entre algo acadêmico, o que me fazia acreditar que estávamos na mesma faixa etária, e livros que beiravam a mistério e suspense. Confesso que eu nem sequer sabia o seu nome, mas algo naquele rapaz despertava a minha atração, uma necessidade de saber mais. Eu sei que isso provavelmente soa ridículo, mas era apenas algo que fazia parte de meu instinto curioso, que eu nunca conseguia deixar de lado. Nada especial.
— Seu café preto sem açúcar. — Eu falei, colocando a xícara de café sobre a mesa.
O rapaz, que parecia imerso em sua leitura, voltou o seu olhar para mim, com uma expressão que demonstrava um misto de confusão e surpresa.
— Mas eu não pedi nada hoje. — Rebateu, em um tom de voz neutro.
Eu não sabia dizer se ele estava zangado ou se simplesmente não se importava, já que ele sempre pedia a mesma coisa.
— Bom, é que você sempre pede isso, então eu pensei…
— Mas e se eu quisesse pedir algo diferente hoje?
— Mas na semana passada inteira você…
— Não respondeu a minha pergunta. — Ele me interrompeu, frio.
Sinceramente, por um segundo, eu não soube o que fazer. Por que raios ele estava sendo tão rude de repente? Logo ele, que costumava ser tão quieto. Eu só queria, de algum modo, agradá-lo, como eu gostava de fazer com todos meus clientes. Eu praticamente já tinha o pedido clássico de todos na minha mente.
— Eu sinto muito, eu posso anotar outro pedido, se quiser. — Foi a minha resposta, educada e simples, embora eu realmente sentisse uma vontade absurda de gritar com ele naquele instante.
De fato, a paciência era uma virtude que eu não tinha, mas que era obrigada a fingir ter quando estava no meu expediente.
— Não, eu vou ficar com o café.
Meu queixo quase foi ao chão ao ouvir aquela afirmação. Então toda aquela grosseria havia sido completamente desnecessária, justamente para ele pedir exatamente o que eu havia levado? Qual era o problema daquele garoto? Nada fazia sentido. Pensei em dizer algumas palavras, apenas para mostrá-lo o quanto ele havia sido rude e grosseiro sem a menor necessidade, mas eu não queria colocar o meu emprego em risco. Ao menos, não por um motivo tão fútil ou por alguém tão idiota.
Entretanto, a verdade é que eu sempre fui uma grande linguaruda. A mamãe vivia reclamando disso, e o papai vivia dizendo que eu havia herdado isso da minha mãe. Inclusive, isso era um grande motivo de discussões dentro de casa e eu diria que era até mesmo divertido vê-los dizendo quais traços eu tenho de cada um.
Como a boa reclamona que eu era — e sempre fui —, mesmo depois de respirar fundo e contar até dez, não consegui me conter. Infelizmente, eu não conseguiria deixar aquilo passar.
— Então para que essa confusão? — Perguntei, tentando soar educada, ainda que eu buscasse tirar satisfações. — Para que isso tudo se você ia realmente fazer o mesmo pedido?
— Porque talvez, um dia, eu chegue aqui e não queira um café preto sem açúcar. — Respondeu, impaciente.
Eu bufei, igualmente irritada, senti-me ainda mais incomodada quando o vi tomar um gole da bebida.
Era comum que, quando decorássemos o pedido de um cliente, ele demonstrasse um pouco de gratidão ou que ficasse minimamente feliz, uma vez que mostrava que, de algum modo, nós nos importávamos com ele.
— Mas esse dia não é hoje. — Retruquei. — E, além do mais, você não gosta de bebidas doces, o que mais pediria? Um capuccino gigante com chantilly? Grande parte das nossas bebidas são adocicadas.
— Parece que você anda reparando bastante em mim — Ele parou por um segundo, provavelmente para ler o nome no meu crachá. — Granger. — O tom da voz dele soou provocativo e, embora eu odiasse ter que admitir, também atraente.
— O quê?! — Deixei uma gargalhada escapar, como se ele houvesse contado a maior das piadas. — Você é um baita convencido. — Eu gargalhei, incrédula.
— Eu diria que sou realista. — Proferiu, ainda soando convencido.
— Eu diria que é irritante. — Retruquei, mais irritada do que anteriormente.
O loiro ergueu as sobrancelhas, em uma feição desafiadora e riu, debochado.
— Não sou eu que estou importunando um cliente, que, por sinal, só queria estar lendo um livro. — Ele disse, apontando para o livro em suas próprias mãos.
O livro que o rapaz segurava era “It: A Coisa”. Ele parecia já estar mais ou menos na metade do livro, e, ao perceber isso, eu sorri, maliciosamente. Para a minha sorte e infortúnio do rapaz, eu já havia lido aquele livro. Enchi-me de orgulho e o encarei, com uma feição travessa, mas ele, por sua vez, fingiu não se importar.
— O Eddie morre no final. — Comentei, como se não fosse nada demais.
O homem parecia me fuzilar com os olhos, de tão furioso que estava. Eu tentei prender o meu riso, mas não consegui, pois uma risadinha discreta deixou os meus lábios. Ele ainda parecia sem reação. Demorou alguns segundos para se recompor, mas eu o encarava completamente orgulhosa de meu ato, embora eu soubesse que poderia ser considerado um delito, ou, ainda mais grave, um crime.
— Isso não se faz. — Falou, irritado. — Você vai para o inferno, Granger.
— Oh, nossa, eu estou tão ofendida. — Levei uma das minhas mãos até o meu peito e fingi estar chateada. — Como pode afirmar isso com tanta convicção se nem me conhece?
— Porque as pessoas que contam spoilers só tem um lugar reservado para elas, Granger, e esse lugar obviamente não é o céu. — Retrucou, como se fosse algo óbvio. — Sendo assim, você vai para o inferno. — Ele suspirou, como se quisesse reunir calma. — Da próxima vez, ao invés de pedir uma dose de café, vou pedir uma dose de paciência.
Inevitavelmente, eu gargalhei. Eu não sabia o que era mais cômico naquela conversa: o fato de eu ter sido exilada do céu antes mesmo de ir para lá ou simplesmente ter conseguido tirar um garoto que parecia tão centrado do sério tão facilmente. Na verdade, eu tinha noventa e oito por cento de certeza de que aquele seria um truque infalível. Quer dizer, como a boa e ávida leitora que sou, sei que contar algo que acontecerá no fim de um livro é capaz de irritar até mesmo a mais calma das pessoas. Além disso, ele estava lendo aquele livro desde que começara a frequentar a cafeteria, há cerca de uma semana, o que significava que estava muito focado. Ligar esses dois pontos foi tão fácil quanto somar um mais um, era nítido que ele ficaria irritado ou, no mínimo, chateado. E, bem, honestamente, eu não me importaria em vê-lo fora do sério.
— Então eu te encontro lá. — Pisquei divertida e logo emendei uma risada travessa.
— E por que raios eu iria para o inferno? — O rapaz cruzou os braços, esperando por uma resposta.
— Ora, como alguém tão insuportável poderia ir para o céu? — Falei, e logo desabei em uma gargalhada.
O sangue do loiro, por outro lado, parecia ferver. A irritação era visível em sua face, mas tornou-se ainda mais notória quando ele fechou o livro com força, o que resultou em um estrondo. Bruscamente, o rapaz se levantou da cadeira em que se encontrava sentado, prestes a ir embora. Eu, no entanto, apressei o meu passo e parei na frente dele, em uma proximidade que eu considerava desnecessária. O loiro me fitou com uma certa curiosidade, mas eu ignorei esse pequeno detalhe.
— Agora você também vai para o inferno por ser ladrão?
Apesar de eu achar a minha fala clara o suficiente, ele pareceu confuso, por isso, senti a necessidade de me explicar mais um pouco.
— Você precisa me pagar o café. — Fiz questão de complementar.
O garoto revirou os olhos, impaciente, mas logo pegou uma certa quantia do bolso e estendeu em minha direção.
— Sem gorjetas para você, Granger. — Sorriu, cínico.
Eu dei de ombros.
— Se eu não te conhecesse, até diria que gostou do meu sobrenome. — Falei, referindo-me à frequência com o qual ele o repetia.
— Até parece. — Mais uma vez, o rapaz revirou os olhos.
Eu não o respondi, estava ocupada demais achando graça de toda aquela situação inusitada. Nunca, em toda a minha vida, havia ficado tão intrigada com qualquer cliente. Não que isso significasse alguma coisa, mas confesso que uma parte de mim desejava que ele voltasse no dia seguinte, apenas para descobrir um pouco mais do enigma que ele representava. Além disso, também havia gostado bastante de importuná-lo, tinha que admitir.
Apenas quando eu estava pensando sobre aquilo, percebi um detalhe muito importante — por mais observadora que eu fosse, eu não havia me tocado de uma informação importante: eu não sabia o nome dele. No entanto, por algum motivo incompreendido de minha parte, eu ainda estava determinada a descobrir.
Notas finais
Aguardo pelas opiniões de vocês.
Até a próxima!
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