Impetuosidade disfarçada
1 Capítulo 1: Ímpeto e Desolação
Notas iniciais
Aproveitem~
Impetuosidade disfarçada
Se fosse para que ela mesma definisse a maneira como um assassino deve ser, ela diria algo como: cauteloso, calculista, convicto, concentrado. No entanto, até um certo ponto, as atitudes de Katarina Du Couteau sempre eram o completo oposto do que deveriam ser.
Impetuosa, aquela palavra que tanto persistia em defini-la durante algum tempo.
Imprevisível, insaciável, instável. Aquilo que deveria ser um arranjo de C’s era apenas um amontoado de vários I’s. Parecia ser feita de coisas largadas, jogadas de qualquer jeito em um só plano.
Mas fora treinada para seguir as tão rígidas regras, fora tão amarrada a um ideal centrado, tão presa a uma estabilidade, tão reprimida que aquelas palavras não deveriam a definir, pois suas emoções já estavam espremidas dentro de si.
Mas elas não estavam.
Até a sua maioridade, agia conforme pensava. E muito menos pensava antes de agir. Era semi indomável, intolerante a tudo e a todos. Mimada era uma das poucas palavras que não seguiam a ordem de I. Só que ela não tinha orgulho disso.
Porém, assim como todos os poréns, algo aconteceria para que houvesse um disfarce. Suas idolatradas e tão incríveis habilidades seriam realmente postas à mesa. Teria a oportunidade de mostrar e provar o quão mortífera e sádica era a sua alma. No entanto, ela não era controlada. Ela também sabia disso, sabia como deveria agir, sabia o que deveria fazer, o que tinha que seguir. Eram apenas ordens de básicas missões, desafios que nem eram dignos de serem chamados assim.
Mas por que falhara? Por que ganhara uma cicatriz em seu olho esquerdo? Por que não obedecia?
“Você deveria ter apenas, apenas obedecido!” Ecoava em sua cabeça as palavras de seu pai. “Deveria apenas obedecer! Obedecer!”
Por que não obedecia?
Katarina Du Couteau lembrava das surras que levara aquele dia. Lembrava de sangrar por várias coisas. Por sangrar pelo olho, por sangrar por causa de seu olho, por sangrar pelas feridas ganhas em combate, por sangrar pela repreensão – fodida – de seu pai, por sangrar pelo castigo do Alto Comando, por sangrar por causa de sua própria cabeça, onde seu erro era freneticamente repetido.
Foi esse porém que lhe deu uma máscara, como um brinde pelo seu fracasso.
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Ele era alguém sem nome e sobrenome. No começo de sua vida, sabia que não era digno nem disso. Como seria digno se nem ao menos aqueles que deveriam o suportar havia o abandonado? Abandonado na miséria, largado pelas ruas igualzinho um cão.
Deixado para morrer, igual a tantos outros.
Era o tipo facilmente esquecido ou confundido. Um rosto comum aos outros do subterrâneo noxiano, apenas mais um tentando sobreviver, apenas mais um lutando, matando, roubando, sequestrando. Apenas um.
Um indivíduo qualquer, em seu próprio universo com um dentro de si.
Mas talvez o que chamasse a atenção fosse o brilho nos olhos castanhos escuros, que não denunciavam nem amor pela vida e nem desprezo. Não se via ali um suicida ou um vencedor. O que só se via, era o seu grande ego. Tão límpido, tão estampado em sua cara.
E isso o contradizia. O momento que não se importava com a vida, era o mesmo momento que roubava para sobreviver. O momento que menosprezava seus inimigos, era o mesmo momento que tinha mais disposição para lutar. O que deixava implícito que algo o motivava, mesmo ele não percebendo.
E com o passar dos anos, aquilo foi só aumentando. E a cada assassinato, a cada roubo, a sua alma parecia se encher um pouco mais. Podia até parecer que estava beirando a transbordar, mas na verdade ele ainda se sentia vazio.
Porque estava com sede. Ele estava sempre com sede.
Mesmo após ser encontrado, domado, domesticado por Marcus Du Couteau, o rapaz sem nome – claro que havia nome, haveria sempre de ter – sentia aquilo dentro de si. Talvez todos também o tivessem, talvez todos também o ignorassem. Pensar assim era seu consolo, um consolo até mesmo desnecessário para aquela alma.
E os anos voltaram a andar, às vezes lento, às vezes rápido, mas passavam. O tempo era outra coisa que ele nunca havia se importado, pois sabia que, eventualmente, ele iria parar.
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Se ela estava acostumada em ouvir a sua fina voz, com o passar do tempo ela começou a engrossar um pouco. Não foi uma mudança graúda, aquilo era sutilmente percebido. Mas ela conseguia ver seu tom de voz, e não fazia nada para o mudar.
Também sentia o peso nas poucas palavras que dizia. Eram palavras na maioria das vezes críticas, categóricas, às vezes até calmas. Não falava além do necessário. Não fazia nada além do que era pedido, mas também não fazia menos. Em quase um ano, ela reprimira tudo que não conseguia reprimir em toda a sua vida até aquele momento.
Até aquele maldito momento que marcara seu rosto.
Se tornava aos poucos tudo aquilo que deveria ser. Deixava suas emoções de lado, deixava suas vontades para outro momento, deixava quieto suas protestações. Aprendera a calar a boca, mas queimava por dentro, mas não demonstrava.
Podia arder. Podia borbulhar. Podia queimar. Podia flamejar.
Mas tudo isso em silêncio, tudo para dentro de si. Não era isso para que ela havia sido treinada?
Aos poucos, as missões que tinha com o subordinado de seu pai, os assassinatos por conta própria, até mesmo a Elite Carmesin¹, a deixava desmotivada. Claro, Katarina Du Couteau era uma sádica nata. O estrago feito em Ionia foi o que provou toda a incrível e idolatrada – não tão mais assim – habilidade que ela tinha.
Ainda tinha sede de sangue. Sempre tivera, aquilo nunca mudaria.
Mas por que desde aquele momento seu coração nem sequer disparava?
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Para ele, Talon, aquele era um dia normal. Começava como normal, por que não haveria de ser? Mas ele sequer imaginava que voltaria a se lembrar de seu vazio interior, pois ele estava lá, quieto, intocável, invisível. Afinal, ser indiferente as coisas ao seu redor é a sua essência de sua personalidade.
Talvez ele fosse o reflexo de tudo aquilo que Katarina queria ser, mesmo ela não sabendo e nem querendo saber. Talvez todas aquelas características que faltavam em sua adolescência estivessem estampadas nos olhos dele, e talvez fosse por isso que no momento, ele morava também em sua casa.
Pois se pai precisava que alguém fosse bom ali.
Não eram tão próximos. Talon era restritivo, mal-humorado e sarcástico quando falava. Isso se falasse. Conversavam sobre as missões, sobre armas e sobre táticas. Ele até mesmo a odiava no começo quando chegara. A achava fútil e mimada, mas sua personalidade havia mudado drasticamente com o passar dos anos.
Ele só não esperava que aquele dia, ele fosse ver uma chuva impetuosa.
Observar e decifrar as pessoas era uma de suas principais habilidades. Poderia ser um mestre na arte de manusear armas, mas o que mais lhe dava êxito em batalha era observar. No entanto, o que haveria de ser observado em um dia chuvoso? Ele conhecia o caminho da água, conhecia a ciência por trás disso graças a sua sede de saber. Essa pelo menos havia sido saciada por Marcus Du Couteau.
Foi quando a viu treinar de baixo de chuva. Tão cansada mas tão apaixonada pelo o que fazia, tão dispersa mas ao mesmo tempo tão concentrada. Desferia golpes no nada com maestria e precisão, mas de que adiantava treinar sozinha?
Com esse pensamento súbito, porém decidido, ele a atacou.
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Por longos e longos minutos, a chuva molhava o corpo de ambos, mas nenhum dos dois se importavam ou se pronunciavam. Estavam tão compenetrados, tão entregues a uma dança de lâminas que a chuva era o menor dos problemas ali. Não importava o quão impetuosa fosse, nada os faria parar.
E nada se ouvia além do cintilar das lâminas. As respirações estavam controladas, o pouco suor que escorria era visto pelo outro, mas nada diziam. Apenas se olhavam e faziam com que seus corpos se mexem, fazendo o trabalho que havia sido ensinado.
Forjado no caso dela, forçado no dele.
Esse era o limite que os separavam, mesmo sem nenhum dos dois saber. Mas também era o que os uniam e os colocavam no mesmo patamar. Lutavam para um vencer o outro, lutavam porque aquela eterna rixa tinha que se acabar.
No entanto, aquele dia que deveria ser normal, em um determinado segundo passou a ser um dia especial tanto para Talon quanto para Katarina. Foi no exato momento que ele viu uma gota da chuva cair nos olhos verdes. Especificamente, no olho esquerdo. Ele sabia que algo mudaria.
Katarina parou tudo o que fazia, soltando suas adagas no chão. Ele apenas ouviu o som da queda do metal contra a grama, pois não conseguia desviar o olhar da visão a sua frente. Se sentia tragado pela aquela imagem. Queria ver mais, queria ver o que ela falaria ou como ela reagiria, pois ele também sabia a história.
Sabia que naquele dia ela lutava intensamente, igualzinho havia feito com ele. Sabia que havia sido um descuido, sabia que ela havia se trancado dentro de si depois do que acontecia, pois ele a observava. Dizia não ter nenhum interesse nela, mas a observava sempre. Notou as duas personalidades se sobrepondo, mas ele não sabia qual ele preferia.
De um lado, ela era intensa e impulsiva. E de outro, ela era aplicada e centrada.
Foi por isso que continuou a olhando, esperando que ela abrisse os olhos. Era um telespectador que não deveria estar ali para tal hora, mas queria estar. Porque queria ver. Porque queria a ver se sangrar de novo como antes, pois havia perdido a oportunidade.
Queria porque estava com sede.
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Mas ela nada fez, e ele ficou alguns poucos minutos a encarando, esperando por algo.
Katarina fitou o nada, a gota de chuva ardendo seu olho. Mas não era só isso que ardia... Ela mesma ardia. Ela borbulhava. Ela queimava. Ela flamejava. Era igual aquela vez, estava centrada, envolvida nos seus atos, mas dessa vez... Ela poderia fazer com que fosse diferente.
Ela podia realmente queimar.
Ela retirou uma de suas shurikens da calça e atacou rente a bochecha de Talon. Os olhos castanhos se arregalaram. Milésimos de segundos depois, um filete de sangue escorria. Ele só tivera tempo de ouvir o som que a shuriken fez ao ser prensada contra a grama.
– Quem disse que o mesmo erro será cometido de novo?! – Ela falou alto para ele, o olhando com as pupilas contraídas.
Talon piscou duas vezes, voltando para a realidade. Seus olhos ainda estavam quase amortecidos, travados de uma forma arregalada, demonstrando que ele sabia que ela poderia ter o matado.
– Por que você é tão sádico em relação a mim?! – Katarina começara a berrar. Talon abaixou a cabeça, seus cabelos castanhos caíram pelos olhos. Ela deu alguns passos até chegar em sua direção, o pegando pelo colarinho, enquanto o sacudia, querendo fazê-lo a olhar. – Por que?! Você sempre faz isso! Sempre quer ver as minhas expressões, sempre quer me ver cair na loucura.
Ela percebeu que o sacudir não adiantava nada. Mesmo com a diferença de altura entre ambos, ele não a olhava porque não queria. Porque estava envergonhado. Tinha vergonha de sua curiosidade, de sua guarda baixa, tinha vergonha de ser um sádico.
Pois era isso que ele era. Um indivíduo sádico. Com toda aquela sua natureza deturpada, querendo ver o sofrimento de alguém. Aquele era a sua sede insaciável, aquele era o vazio que precisava ser preenchido. Ela havia lhe mostrado aquela parte de sua natureza, mas ele também havia algo que queria a mostrar.
Ele riu de canto, pegou as duas mãos dela e as retirou de si, mas ainda as segurava.
– Pelo menos, você retirou essa maldita máscara. – Ele levantou a cabeça, se recuperando do pequeno choque que havia sofrido, mas aquilo era algo que ele não se importava. Olhou para as duas pupilas verdes, elas brilhavam algo que ele não sabia o que era. – Essa impetuosidade disfarçada nunca me enganou.
Quando Katarina se lembra daquele momento, ela não consegue se lembrar da chuva que caía ou até mesmo dos arranhões da luta, ela apenas consegue se lembrar daquele sorriso calmo.
Porque foram aquelas sutis palavras que fizeram seu coração começar a falhar.
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