Imperium

25 XXV - Infanta de Portugal


Ave, María, grátia plena, Dóminus tecum, benedícta tu in muliéribus, et benedictus fructus ventris tui Jesus — murmurou Clarissa, os olhos fechados enquanto as palavras de sua oração caiam por seus lábios. Ela estava segurando o rosário de rubis e diamantes em suas mãos com tanta força que era possível quebrar o colar com sua determinação, deixando todas as pedras preciosas caírem ao chão.

Ave Maria, ela pensava, pendendo seu corpo para frente e para trás enquanto rezava, Eu peço pela saúde de meu filho, o príncipe William Alexander. Ele é pequeno e frágil, mas tão importante. Um trono existe em seu futuro, minha senhora. A segurança de quatro desses reinos seus depende de sua sobrevivência. Clarissa abriu os olhos subitamente e olhou para frente. Estava ajoelhada no canto de seu quarto, onde um dos presentes de seu avô, o Rei da França, uma estátua da Virgem Maria talhada em mármore e folheada a ouro ficava, longe dos olhos de qualquer protestante que pudesse entrar. O rosto de Maria estava triste, as lágrimas de sangue que ela jorrou em nome do filho morto na cruz derramando por suas bochechas frias e duras e Clarissa não conseguia parar de pensar em como o Senhor nunca havia pedido sua permissão antes de colocar o menino Jesus dentro de seu ventre. Parecia que todos os homens eram iguais, quando se falava de filhos e mulheres.

Mas Deus não era um homem. Ele era tudo e todas as coisas. Os homens haviam sido feitos na imagem de Deus, mas os homens eram diferentes entre si. Havia homens altos e homens baixos, homens gordos e magros, homens com barba e homens sem barba, homens com pele branca e homens com pele negra. Todos eram homens, apesar de suas diferenças, então como seria a imagem a qual havia sido baseada em sua criação? Teria sido a Alma eterna e imortal que restava dentro de todos? Poderia a alma não ser um espelho dos corpos de carne?

Oh, como Clarissa gostaria de saber. Se recebesse todas as respostas do mundo naquele mesmo momento, não estaria completamente satisfeita. Desde criança, teve uma fome pelo conhecimento, facilmente compreendendo todas as lições de seus tutores enquanto Sebastian ficava para trás, encontrando dificuldades no latim, filosofia, matemática, geografia e tantas outras coisas. Às vezes, lhe parecia completamente injusto ele ser menino e mais velho quando ela era claramente mais adequada para o cargo de Imperador.

Mas um pensamento desse poderia lhe fazer receber um castigo físico se estivesse na Áustria e ela o desse uma voz. As amas sempre adoravam lembrá-la que Sebastian era o herdeiro por ser homem, pois homens eram superiores às mulheres em todos os assuntos. Sua inteligência era boa para uma mulher, mas seria muito simples quando comparada ao de seu irmão. Os deveres de um homem eram governar, enquanto uma mulher deveria dar muitos filhos para seu marido e senhor, de preferência mais meninos, para que eles pudessem governar no futuro.

Clarissa suspirou, olhando para a estátua da senhora chorona. A vida poderia ser muito entediante quando se era uma mulher. Muito entediante e muito trabalhosa. Ela havia dado à luz apenas dois meses antes, mas a Dinastia Herondale ainda não estava segura, e não estaria por bastante tempo. Clarissa precisava engravidar novamente rapidamente e ter mais meninos se quisesse que a Inglaterra continuasse nas mãos da família de Jonathan Christopher.

E que tristeza seria se ela falhasse em ter mais varões. Clarissa não conseguia parar de pensar em sua ancestral, Maria de Aragão, a segunda esposa do Rei Manuel. Durante sua vida em Portugal, Maria esteve quase continuamente grávida, tendo poucos meses entre um parto e sua nova gravidez. Ela foi rainha por dezessete anos e teve dez filhos. Ao dar a luz ao seu último bebê em 1516, ela estava tão exausta que ficou mentalmente confusa e morreu como resultado apenas alguns meses depois, em 1517.

A culpa lhe encheu rapidamente, um resultado de seus pensamentos negativos. Apenas o Senhor poderia decidir quantos filhos uma pessoa teria, ou seus gêneros. Ele era capaz de ver dentro de seu coração e poderia puni-la por desejar mal ao seu herdeiro escolhido, o segundo filho que virou rei com a morte do pai e do irmão. Ela fechou seus olhos novamente e continuou a oração, sussurrando as palavras com força e veemência.

Sancta María, Mater Dei, ora pro nobis peccatóribus, nunc et in hora mortis nostrae. Amen. — ela se ergueu, fazendo o sinal da cruz, e suspirou. Clarissa virou para o quarto e andou até sua penteadeira, colocando o rosário dentro de uma caixa de jóias. Ela já havia sido despida e estava usando apenas uma camisola simples de algodão por baixo de um roupão de seda, preso em sua cintura com um cordão lilás.

Estava cansada. O dia na corte não havia sido prazeroso, uma coisa normal em sua vida, e tudo lhe parecia irritar mais e mais. Naquela noite, havia brigado com uma de suas criadas enquanto ela penteava seu cabelo, mas não parecia que suas desculpas haviam sido bem recebidas. Estava estressada e cansada. Seu corpo parecia pesar, os braços puxando-a para baixo, e a cabeça doía com o início de uma enxaqueca terrível. Seus seios não lhe traziam nenhuma alegria. Estavam duros e inchados, sem nenhum bebê para aliviar o peso com sua sugação.

Ela se sentia uma vaca. Suada, inchada e dolorida. Não haveria fim para seu tormento, parecia. Seria ela destinada a ser como Maria de Aragão e tantas outras em sua linhagem ancestral? Presa em um ciclo eterno de gravidezes, partos e crianças pequenas. Lhe parecia estranho perceber que esse era o seu destino, ao invés dos tronos brilhantes e coroas decoradas prometidos por seu pai.

A porta se abriu e Sophia Collins entrou, caindo em uma reverência. Ao se levantar, a moça andou até Clarissa, com as mãos colocadas na frente de seu corpo. A Rainha franziu o cenho ao vê-la daquela maneira, sabendo já ter dispensado as criadas com o desejo de ir dormir. Sophia ainda estava usando seu vestido cinza, e não parecia pronta para ir para sua cama, com uma camisola ou qualquer coisa. Ela parecia… extremamente formal.

— Vossa Majestade — disse a dama, se aproximando. — O Rei está do lado de fora e pede para entrar.

O Rei? Clarissa poderia gritar. Por que aquele homem estava ali? Qualquer outra noite, ela o receberia com um sorriso, mas estava se sentindo completamente sem paciência, ou vontade, para consumar o casamento. Sabia o que devia fazer: deixá-lo entrar, fazer seu dever e ser uma boa esposa. Gerar mais filhos.

Mas não queria. Não naquela noite pelo menos. Não se sentia uma mulher ou uma esposa. Ela se sentia uma besta, selvagem e primal. Uma criatura barbarica incapaz de sentimentos humanos.

Por isso, ela balançou a cabeça.

— Diga que estou indisposta e, por isso, não poderei recebê-lo — murmurou, voltando a andar até sua cama.

Sophia, compreendendo tudo, assentiu e fez mais uma reverência antes de sair pelas portas em que entrou. Clarissa puxou seus cobertores e se deitou no colchão, apoiando as costas nos travesseiros enquanto cobria as suas pernas. Era uma noite fria, apesar de tudo.

Ela ouviu uma discussão no corredor, alta o suficiente para o som ultrapassar as inúmeras paredes até ela. Não conseguia compreender as palavras sendo ditas, mas conseguia reconhecer a voz de Jonathan entre elas, gritando o mais alto, e a de Sophia, tentando acalmá-lo.

— Se a Rainha está doente, então o médico deverá ser chamado! — ela conseguiu compreender antes de murmúrios irritados dos guardas, avisando-o para não ultrapassar aquelas portas duplas.

Charlotte Branwell, a Condessa de Pembroke, havia lhe dito que ninguém poderia entrar em seu quarto sem a sua permissão. Clarissa nunca pensou que isso poderia ser verdade. Aquelas terras eram governadas pelo rei, e ela era sua leal súdita. Se não estivesse se sentindo bem, ela o teria recebido de boa vontade, e nunca saberia o poder que estava em suas mãos.

Minutos se passaram antes das vozes se acalmarem e as portas de seu quarto se abrirem novamente, Sophia entrando e andando até a sua própria cama ao lado de Clarissa. Ela suspirou, arrastando as mãos pelo seu rosto suado. Dessa vez, Sophia já havia se trocado, colocando sua camisola e a touca para dormir, pronta para descansar durante a noite.

Ela olhou para a Rainha e sorriu, andando até o canto da cama. Sophia colocou uma mão na testa dela, apertando seus lábios em um bico. Clarissa sabia não estar com uma febre, pois a dor era mais intensa do que qualquer doença em suas veias.

— Vossa Majestade gostaria de que eu chame o físico? — ela perguntou mesmo assim, preocupada com o estado de sua companheira.

— Não, obrigada — murmurou.

Subitamente, Clarissa se lembrou da sua noite de núpcias. Estava com medo, sem saber o que ia acontecer, e buscou ajuda em sua amiga, achando que, por ser dez anos mais velha, ela teria algum conhecimento para dividir.

— Bom, — Sophie havia dito. — Eu tenho uma amiga que… que se apaixonou pelo primo do mestre da casa onde ela trabalhava e acabou dando a ele sua virtude. Nós somos muito próximas, então ela acabou me contando muito sobre o que aconteceu naquela noite.

Clarissa poderia ter se batido por não ter percebido tudo antes. Como era cega e tola, infantil. Achava-se uma boa pessoa, mas só se importava consigo mesma, sem ver as dores dos outros ao seu redor. Era egoísta.

— Sophie, — Clarissa começou. — Quando você me contou sobre sua amiga, apaixonada pelo primo de seu mestre, você não estava falando de uma conhecida, não é mesmo?

Sophia apertou seus lábios em uma linha fina e branca em seu rosto, certamente estressada com o rumo da conversa. A hesitação estava clara em seu rosto, enquanto ela se perguntava se era melhor proteger sua reputação e seu emprego ou mentir para a Rainha, como se Clarissa pudesse se importar com qualquer uma dessas coisas.

— Não — ela disse, por fim. — Não estava, Vossa Majestade. Fiz coisas em meu passado da qual não me orgulho, mas saiba que eu não o vejo há mais de um ano. Estou casada com meu emprego, agora.

— Ele era um primo do Duque de Norfolk, não? — Clarissa perguntou. — Qual era seu nome?

Sophie hesitou novamente, mas sorriu, triste,

— Ele era Sua Alteza Real, o Infante Gideon Lightwood da Espanha — admitiu, abaixando seus olhos em vergonha.

Clarissa sentiu seu coração se apertar em compaixão pela amiga, e simpatia por seus problemas no amor. Realmente, não era um mundo fácil para se ser uma mulher.

Ela se ajeitou na cama, se sentando, e retirou a mão de Sophie de sua testa. Clarissa pegou as duas mãos da sua amiga, entrelaçando seus dedos, e a puxou para se sentar ao seu lado. Se fechasse os olhos, poderia fingir que estava na Áustria novamente, e, no lugar de Sophia, estava Maia, sua amiga da infância mais amada.

— Infante Gideon se mudou para a Espanha logo depois do anúncio de minha gravidez — ela disse. — Eu sinto muito, Sophie.

Sophie deu de ombros, como se não se importasse, mas seu sorriso ainda estava triste. O amor era uma coisa estranha, realmente. Sophia ainda amva o Infante Gideon, que havia deixado o país, enquanto Clarissa amava seu marido adúltero. Os poetas estavam errados. Não havia misericórdia em uma relação humana.

— Ainda estou aqui — disse a jovem. Quando ela mexia o rosto, a luz da lua proveniente da janela fazia sua cicatriz brilhar como milhares de pequenos diamantes postos sobre a sua pele. Sophie nunca esteve tão bonita. — Ainda estou de pé.

Clarissa apertou a mão dela.

Nós ainda estamos aqui, nós mulheres — ela respondeu. Clarissa se arrastou até o meio da cama, batendo o lado vazio do seu lado com a mão. — E ninguém poderá nos atingir, enquanto estivermos unidas.

Sophia sorriu e se deitou ao lado de Clarissa na cama.

Gideon observou a carruagem se aproximar no horizonte. Era uma belíssima construção rosa e branca, com enormes rodas de madeira e puxada por seis garanhões negros. Na frente e atrás da carruagem, havia largas procissões de membros da corte portuguesa, cavalheiros e damas, vindos dar um bom adeus a sua princesa. Eles estavam ali para mostrar aos Lightwood, novos entre os grandes jogadores da Europa, o poder dos Monteverde e de seu largo império.

Ele suspirou quando a carruagem parou em sua frente. Estavam na Raia, uma ponte entre Algarve em Portugal e Andaluzia na Espanha. Parados no meio do caminho entre as duas grandes terras, o chão banhado pelo Rio Guadiana. Ali, Gideon iria conhecer a sua nova esposa, o casamento arranjado por seu irmão com o Rei de Portugal para acalmar os Monteverde, que temiam o Rei da Espanha e sua reputação de sanguinário.

Sabia que esse tratado traria paz e estabilidade a sua família. Com uma esposa, Gideon teria filhos legítimos, capazes de herdar o trono caso a linhagem de seu irmão venha por acabar. Se tivesse varões, Espanha estaria salva dos Morgenstern, e o sobrinho, Philip Christopher, poderia crescer sem sofrer o mesmo destino do irmão mais velho.

Tudo ficaria bem e o seu casamento era apenas o primeiro passo em um caminho direcionado à paz.

A porta da carruagem se abriu e uma mulher saiu, segurando a mão oferecida por um guarda. A Infanta Maria Amália era uma jovem de dezenove anos muito bonita, segundo o seu retrato. Ela estava usando um vestido creme, no estilo polonês, com flores bordadas no tecido caro. Em seu peito, havia um largo diamante em forma de gota, e seu cabelo era de um tom pálido de loiro, quase prata.

Ela andou até ele com um sorriso no rosto, lado a lado do embaixador português. Eles fizeram uma reverência ao ficarem frente a frente com ele, e Gideon fez o mesmo, dobrando seu corpo na altura de sua cintura.

Sabia estar vestido bem. Usava uma longa jaqueta marrom bordada com fios de ouro e o cabelo estava penteado e bem arrumado. Gabriel havia deixado bem claro o quão importante era essa aliança com Portugal e Gideon não poderia cometer o erro de estragá-la no primeiro.

Mas ao ver sua noiva sorrindo amavelmente para ele, Gideon não conseguia parar de pensar em outra pessoa, do outro lado do mar. Sophie Collins estava em sua terra natal, servindo a Rainha e não pensava nele no modo como ele pensava nela. Ela o havia mandado embora, dito para ele se casar, mas Gideon não conseguia parar de pensar em como isso era errado. Maria Amália não era destinada a se tornar sua esposa, mãe de seus filhos. Esse papel deveria ser de Sophie.

Sophia era séria e muito reservada. Não teria gostado da pompa da procissão, ou do vestido detalhado da Infanta portuguesa. Ela não teria tirado sarro da moça, longe disso, mas certamente teria a julgado, se sua posição na sociedade lhe permitisse. Mais tarde, Gideon poderia beijar sua pele nua, lamber o seu suor e sussurrar em seu ouvido sobre como sempre pertenceria a ela; coração, corpo e mente.

Maria Amália sorriu ao vê-lo, fazendo mais uma reverência.

— Vossa Alteza Real, — disse o embaixador português. — Essa é Sua Alteza Real, a Infanta Maria Amália da Casa de Monteverde, filha mais velha de Sua Alteza Real, o Príncipe do Brasil, João Monteverde. Vossa Alteza, este é o Infante Gedeón da Casa Lightwood, terceiro na linha de sucessão ao trono da Espanha e seu futuro esposo.

— É um prazer, Vossa Alteza — disse a Infanta, sorrindo ainda mais, como se isso fosse possível.

Gideon engoliu em seco, sentindo um gosto terrível em sua boca. Preferia acabar logo com tudo aquilo e poder voltar para seu quarto, onde ele leria as antigas cartas de Sophie e fingiria estar de volta na Inglaterra.

Mas ele não podia. Precisava interpretar o papel de noivo feliz, então fez mais uma reverência e sorriu.

— O prazer é meu, Vossa Alteza — ele respondeu, formal, com a imagem dos olhos castanhos de Sophie estampados em sua mente.