Imperium
14 XIV - Longa Vida ao Rei
Jonathan Herondale cresceu sabendo que a posição de filho favorito do Rei não era algo seu.
Ele não se importava, honestamente. Até os oito anos de vida, a rainha estava mais do que feliz em compensar a falta de amor parental de seu majestoso esposo. Depois disso, Jonathan odiava o pai demais para se importar com sua opinião.
Deixe William ser o filho amado, o Príncipe perfeito e o cavaleiro dos sonhos de Stephen. Ele teria o reino inglês e todas as suas glórias, enquanto, para Jonathan, restaria sua doce liberdade.
O castelo de Rochester cresceu no horizonte, intocado desde a Guerra das Rosas, parecendo algo retirado de um dos contos de fadas de Cecily, e Jonathan se permitiu pensar no irmão pela primeira vez desde sua morte, quase dois anos antes.
William era bom. Não havia outra maneira de descrevê-lo. Ele era bom. Assumia os males dos outros como seus, chorava pela morte de desconhecidos e carregava crianças pobres nos braços, apoiando-as no quadril e as fazendo rir de maneira aguda e livre, como se nunca tivessem conhecido felicidade antes de encontrá-lo. Todos o amavam, ele era o Príncipe de ouro da Inglaterra. Jonathan queria ser como ele. Queria ser ele. O corpo do irmão já estava frio há sete palmos do chão e Jonathan ainda passava horas parado em seu quarto, olhando para um problema encontrado durante o dia e pensando, sem parar. O que William faria em meu lugar?
O Visconde estava em silêncio, olhando para a janela da carruagem como alguém andando para a sua morte. A expressão não condizia com seu belo rosto; parecia falsa, quase igual à uma máscara. Jonathan não tinha em si a vontade de incomodá-lo.
Ele preferiu pensar em sua última conversa com William ainda vivo, saudável, sem contar os delírios febris de um irmão moribundo. Parecia ter ocorrido em uma outra vida, totalmente diferente da sua atual. Jonathan ainda era o Duque de York, livre e despreocupado, sem uma esposa para proteger e um Rei para agradar.
William sempre foi mais alto do que ele, uma das vantagens de ser o irmão mais velho, e seu cabelo negro e lustroso brilhava sob a pálida luz da lua. Estavam em York, e o falecido Príncipe de Gales cavalgou o dia inteiro para encontrar o meio-irmão.
Jonathan tentou se lembrar do que conversavam exatamente, qual era o contexto da situação. William estava lhe dando uma bronca. Ele era mestre nisso. Para o herdeiro perfeito, o comportamento de Jonathan nunca era apropriado para um membro da principal — e única restante — linha dos Herondale.
No meio da conversa, William puxou a miniatura de um retrato do seu bolso e mostrou para seu irmão. Jonathan se lembra de ter batido os olhos na figura pintada ali, sem dar mais atenção do que o necessário. A imagem de uma criança o encarava. Longos cabelos vermelhos, olhos verdes vidrados e a pele pálida e doente.
— Bonita — Jonathan comentou, sem se importar demais. Era um pouco nova demais para seus gostos. Se tivesse que adivinhar, lhe daria doze anos no máximo. — Quem é?
— A Arquiduquesa Seraphina, única filha do Imperador — o irmão respondeu, olhando para o retrato como um pai olharia para sua filha. Seu cabelo, negro como a asa de um corvo, caiu por cima de seus olhos. — Minha futura esposa, talvez. Se nosso pai tiver seu jeito.
Jonathan havia segurado a risada e olhou para seu irmão com novos olhos.
— Deus, William — ele havia dito, a zomba laceada em sua voz. Quando estava com o Príncipe herdeiro, era impossível não cair no papel de irmão irritante. — Não sabia que as impúberes lhe atraiam tanto.
William não riu. Ele era mais maduro.
— Ela tem quatorze anos — William continuou e sua voz tinha um tom de tristeza. — Garotas mais novas são mães felizes. Não há problema, legalmente falando.
Jonathan olhou para a pintura de Seraphina novamente. Ela parecia tão jovem, tão inocente. Como o irmão poderia considerá-la como esposa era incompreensível para ele.
— Está dizendo isso para mim… — Jonathan começou, assustado com a possibilidade de quebrar a situação delicada em que estavam. — Ou para si mesmo?
William suspirou e colocou o retrato de lado, enfiando-o de volta em seu bolso. Ele olhou para o irmão e encostou em seu ombro, curvando a coluna para poder olhar em seus olhos.
— A realeza dificilmente se casa por amor, ou por vontade — murmurou o Príncipe. — Em breve, Cecily irá para a Espanha, um lugar que não conhece, enquanto Ella sofre na Prússia. Logo será eu com uma esposa desconhecida. Depois, é você.
Jonathan poderia gritar.
— Nunca irei me casar — retrucou.
William sorriu de lado e seus olhos tão azuis quanto safiras brilharam.
— Queria que fosse fácil assim — disse. — Eu e você somos os últimos varões da família Herondale. Nosso dever com o reino é casar e ter muitos Príncipes e princesas para carregar o nome de nossa família para frente. Senão, entregaremos à Inglaterra nas mãos da guerra.
— Do que está falando? — Jonathan perguntou, confuso. — William, você está me assustando.
— Seu amigo — o irmão disse. — Jonathan Wayland, o Duque de Buckingham. Depois de Cecily, ele é herdeiro ao trono. Sei que o Rei irá fazer nossa irmã abrir mão de seus direitos ao trono, assim como fez com Ella, mas, caso algo aconteça conosco, dúvido que Gabriel Lightwood e Frederick William não tentarão ganhar o reino de nossa família. Gabriel já ganhou uma guerra de sucessão antes e Wayland é ganancioso e tem uma sede pelo caos, assim como deseja ser rei. — William suspirou. — Se eu me casar com a Arquiduquesa, os exércitos de seu pai poderão defender nossos interesses e existe uma grã-duquesa russa da sua idade. Sabe o que dizem sobre os Morgenstern, o reino mais poderoso de toda a cristandade? Bella gerant alii, tu felix Austria nube. Deixe os outros fazerem guerra, você, feliz Áustria, se casa.
— O que isso quer dizer? — Jonathan perguntou. — Todos sabem que os Morgenstern são ligados em sangue à famílias poderosas em todo o continente. Está insinuando que deveríamos fazer o mesmo?
— De certa forma. — ele suspirou. — Se eu tiver um filho com a Arquiduquesa Seraphina, ele ou ela será neto do Imperador austríaco. Se você se casar com a grã-duquesa, terá um relacionamento próximo ao Tsar. Ambos iriam proteger os direitos de seus netos, de suas filhas.
Jonathan não respondeu. Ele apenas enfiou a mão no bolso de seu irmão e puxou o retrato de Seraphina. O artista não teve medo em pintar a verdade; a princesa não era muito bonita ou com uma aparência saudável. Jonathan olhou para a Arquiduquesa e soube que estava vendo como ela realmente era, desde o cabelo ruivo até a curva singela de seu nariz.
William suspirou.
— Eu não posso me casar com ela — disse e sua voz estava embargada. — Seraphina é uma criança e eu amo out…
Jonathan interrompeu seu irmão, entregando o retrato de volta e dizendo:
— Você está certo. — ele sorriu e sua expressão estava forçada em seu rosto. — A Áustria se casa para impedir guerras, porém não teve medo de atacar a Espanha depois da morte de Carlos II e a proclamação de Gabriel em Norfolk. Quantos morreram durante os treze anos da Guerra de Sucessão Espanhola? Duzentos mil? Quatrocentos mil? Não podemos deixar isso acontecer com a Inglaterra.
— Sei que não. — William balançou sua cabeça. — Bella gerant alii, tu felix Anglia nube. Deixe os outros fazerem guerra, você, feliz Inglaterra, casa.
— Sim — Jonathan murmurou. — Essa pode ser a forma mais rápida de chegar a paz, mas nós não somos a Áustria.
— Chegamos — James Carstairs disse, retirando Jonathan de seus devaneios. Ele olhou ao redor e se viu na porta do castelo de Rochester, uma fortaleza histórica presa no meio de Somerset. — Venha, Vossa Alteza.
Jonathan ignorou a mão oferecida pelo cocheiro e saiu da carruagem, plantando os pés no chão. O sol descia para seu esconderijo por trás das montanhas e a lua já brilhava no céu azul.
As torres do castelo de Dunster se erguiam, rosadas e bem cuidadas, até as estrelas e Jonathan entrou na propriedade do melhor amigo de seu falecido irmão.
Os corredores estavam vazios, um longo tapete azul escuro e Jonathan seguiu Jem até a escadaria principal, subindo para o segundo andar do castelo. Apesar de ser apenas um Visconde e parente distante do Duque de Somerset, John Carstairs, James havia adquirido uma grande fortuna com seu relacionamento próximo aos Príncipes. Isso se refletia nas enormes decorações de sua casa, desde os quadros expressivos até as estátuas de mármores.
Eles entraram em uma sala com largas janelas de teto ao chão, o vitral refletindo luzes vermelhas e azuis no cômodo. Havia dois sofás compridos e uma pequena mesa no centro, coberta por pratos cheios de doces, bolos e biscoitos. Uma criada pequena e loira estava empurrando um carrinho com bules e xícaras de chá, antes de dar uma reverência e correr para um esconderijo atrás da porta dos servos.
Havia também uma moça sentada em um sofá no meio da sala, as saias azuis se espalhando pelo chão como água transbordando por entre os tijolos de argila. Seu cabelo longo e castanho estava solto, caindo em suas costas, e ela sorria de maneira calma. Não parecia ter percebido sua chegada, pois seus olhos cinzentos se mantinham focados no menininho sentado ao seus pés. Ela era extremamente familiar, como se ele já tivesse a visto em algum ponto de sua vida.
— Tessa — disse Jem e a moça ergueu os olhos ao ser chamada. Seu rosto oval parecia sábio além de seus anos, assim como os lábios rosados docemente curvados. — Deixe-me apresentá-los. Tessa, esse é o Príncipe Jonathan Christopher de Gales. Jonathan, essa é minha esposa, Theresa Starkweather.
— Mas é claro… — Jonathan sussurrou, reconhecendo instantaneamente os olhos cinza dos Starkweather. Theresa parecia muito com sua avó, uma presença frequente nas mesas de cartas da Corte de St James.
Tessa se levantou e caiu em uma reverência, abaixando o rosto em sinal de submissão. O menino olhou para ela, confuso, e puxou sua saia. Ele choramingou, enfiando três dedos dentro da boca.
— Não — disse Jonathan, envergonhado com todo esse decorum. Por Deus, nem mesmo Jem fazia uma reverência quando o via. Ou Alec. — Levante-se, Tessa.
Tessa se levantou e sorriu, uma luz tomando conta de todo o seu rosto.
— É tão bom te ver, Jace — ela disse e parecia prestes a cair em lágrimas. — William me contou tanto sobre você.
— William? — Jonathan perguntou. — Você conhecia meu irmão?
O Príncipe olhou bem para o rosto de Tessa e a viu, realmente, pela primeira vez. Ele estava certo. Já havia a visto antes. No funeral de William, quando todo o país se vestia de preto para ficar de luto por seu amado herdeiro, uma Cortesã parecia chorar mais do que qualquer outro nobre presente na cerimônia.
Aquela moça era ela. Tessa era a Cortesã, a que chorava como uma viúva.
— Fomos amigos uma vez — Tessa respondeu. Ela se virou para o menino parado ao seu lado. — James, cumprimente o Príncipe. Mostre para Vossa Alteza como você é um menino educado.
— James? — Jonathan se virou para Jem Carstairs e viu o amigo com outros olhos. Ele não era totalmente inglês, sua mãe era uma nobre do Império Chinês, porém tinha direitos perante a lei da Inglaterra. Direitos como os de que todo filho nascido de uma mulher seria, automaticamente, reconhecidos por seu marido. — Esse é seu filho?
O pequeno James se curvou, algo quase cômico em seu pequeno corpo de um menino de menos de dois anos, e ergueu os olhos grandes e impossivelmente redondos para Jonathan. O cabelo era preto como as asas de um corvo e os olhos, dourados, quase como se o Criador houvesse pegado duas pepitas de ouro e colado no rosto do menino. Ele era belo e amável, tão perfeito quanto uma pintura. Poderia ser filho de Jem, se tivesse puxado mais a família da mãe, a família de Tessa, algo não tão improvável.
Jem deu de ombros
— De certa maneira. — ele suspirou e deu um passo para frente. Tessa e Jem trocaram um olhar e mil palavras passaram por entre eles. — Era sobre isso que queríamos falar com você, Jace. Sobre James. Sobre William.
Jonathan franziu o cenho.
— Eu não entendo — ele disse. — O que James tem a ver com William? Certamente, meu irmão morreu antes mesmo do garoto nascer.
— Exatamente — respondeu Tessa, andando até Jonathan. Ela pegou a mão do Príncipe, acariciando seus nós com os dedos e sua voz saiu como um suspiro, quase inaudível. — Olhe para ele e verá a verdade. Olhe para meu filho e você verá qual a relação dele com William.
Jonathan olhou para o menino e viu. A verdade, os segredos, tudo. A pele era branca e luminosa, quase com um subtom dourado. Seus cabelos eram despenteados e caíam em seu rosto como tinta, escorrendo por entre os traços tão familiares. O nariz arrebitado e o sorriso quase maldoso em seus lábios. James parecia muito com seu pai.
— Impossível — ele sussurrou, não querendo acreditar, mas era difícil quando a prova irrefutável estava bem ali, encarando-o com confusão. — Meu irmão era um homem honrável. Ele nunca engravidaria uma mulher que não fosse sua esposa legítima.
— E ele não queria — respondeu Tessa com pesar. — William me amava com todo o seu coração, mas ele sabia seu dever. Nunca ficaríamos juntos, mas isso não significava que não poderíamos nos amar. — ela fungou e limpou uma lágrima rebelde descendo por sua bochecha. — Descobri estar grávida depois do funeral e eu não podia simplesmente me livrar do filho de Will, mesmo com todas as tentativas de minha família de convencer a fazê-lo. Jem se casou comigo para me poupar do escândalo de ser mãe solteira e ele nos tem apoiado desde então. — ela sorriu. — Sou muito grata à ele.
Jonathan se virou para James Carstairs e sentiu como se nunca o tivesse visto antes na vida:
— E você se casou com ela? — perguntou, chocado. — Por que está criando o filho bastardo de meu irmão?
— Porque eu a amo — Jem respondeu e sua resposta era simples, curta. — Tanto quanto William a amava. E James merece um nome, uma família.
Jonathan queria sentar. Sua cabeça estava pulsando, prestes a explodir, e ele sentia que todo o cômodo estava girando ao seu redor sem parar para lhe dar um descanso.
— Por que estão me contando isso? — perguntou, desesperado por respostas. — Não irá adiantar de nada. William está morto!
Ele gritou a última frase sem perceber, as palavras jorrando para fora de seu corpo, levando todo o seu fôlego junto com elas.
Seu irmão estava morto. William estava morto. Não havia nada no mundo que Jonathan poderia fazer para tê-lo de volta. Não queria sua liberdade, as vantagens de ser um membro da família real sem todas as responsabilidades de ser o herdeiro. Ele queria seu irmão de volta. Por sua infância inteira, seu melhor companheiro era a irmã, Cecily, mas depois dos doze anos, antes de ir para Eton e conhecer Alexander Lightwood, os dois foram separados. Cecily para as governantas e aulas de dança; Jonathan para aulas de histórias e sessões de esgrima com um general do pai. William, solitário com a saída de Ella para a Prússia, puxou o irmão para debaixo de sua asa, ensinando-o tudo que sabia. Aqueles foram os meses mais felizes da vida de Jonathan.
William estava morto. Seraphina Clarissa Jocelyn era a esposa de Jonathan, não dele. Seu filho iria crescer sempre se perguntando porque não parecia com o pai. Tudo por conta de uma maldita doença.
Lágrimas quentes e gordas chegaram aos seus olhos e Jonathan mordeu a bochecha, tudo para não chorar. Jem ergueu os braços, talvez para consolá-lo ou abraçá-lo, mas ele se afastou, andando para longe e fora daquela sala.
O Príncipe andou por todo o castelo, passando corredor por corredor, até sair da fortaleza. Seus pés bateram no chão de pedra e o cocheiro, apoiado contra a carruagem, se aprumou ao ver o herdeiro, batendo nas costas dos quatro cavalos.
— Para onde vamos, senhor? — perguntou.
Jonathan bufou.
— Para o Palácio de St James.
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Querido Jonathan,
Quando receber essa carta, já estarei à caminho da Inglaterra. Uma das amantes de meu falecido marido, o Rei Frederick William, disse à Corte que ele não dividia minha cama há mais de um ano. Não é possível eu carregar um herdeiro para a Prússia em meu ventre e, como o combinado, ou ordenado por papai, eu voltarei ao nosso país natal. Espero ser bem recebida.
Minha querida Willhelmina estará vindo comigo. A Prússia não é um lugar muito rico, ou elegante. Ela poderá ser educada nas artes femininas e ser digna de um marido poderoso, talvez o futuro Rei da Dinamarca ou Suécia. Pelo menos foi isso o que o nosso pai me disse. Ele faz muitas promessas, mas dificilmente as cumpre. Você sabe disso muito bem.
Estou ansiosa para nos reencontrarmos; você era apenas uma criança quando fui embora, afinal. Também anseio em conhecer sua esposa e ser uma amiga para ela. A princesa deve estar tendo dificuldade em ficar longe de casa. Eu sei que eu tive.
Com amor,
Ella, a Rainha-mãe na Prússia
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Alexander Lightwood, o Duque de Norfolk, manteve sua expressão neutra enquanto relatava ao Rei sobre a gravidez da Arquiduquesa.
Stephen VII assentiu, apoiando seu rosto em sua mão e suspirou, fechando os olhos. Ele conseguia sentir a força do olhar do Duque sobre sua pele, certamente esperando alguma reação, positiva ao negativa, mas o Rei da Inglaterra não estava com vontade para deleitar o melhor amigo de Jonathan Christopher com suas ideias sobre a gravidez da nora. Não confiava em Norfolk. Apesar de o homem ser um dos nobres mais poderosos, segundo apenas, talvez, ao Duque de Buckingham, ele era leal ao Príncipe, não ao rei. Desde sua chegada à Corte, Stephen sonhava com uma faca em chamas cravando em seu peito, o sorriso maldoso de Alexander brilhando no escuro ao cometer regicídio no nome de seu grande amigo.
— Ótimo — disse Stephen, a sombra de um sorriso tomando seu rosto. — Isso me deixa muito feliz.
E era a verdade, não importa-se o quanto doesse admitir. Um dos motivos para ter pedido a mão de Clarissa era sua tenra idade, na flor de seus anos férteis, e, do jeito que seu filho era, seria extremamente difícil ele não colocar um herdeiro dentro de sua esposa antes do fim do primeiro ano de casamento. A Casa dos Herondale estava sob ameaça de extinção, Stephen e seus filhos eram os últimos que ainda carregavam o nome dos seus ancestrais e Jonathan era o único que poderia levar tal nome para frente. O Príncipe precisa ter filhos, muitos filhos legítimos, para salvar a família e, consigo, todo os domínios ingleses.
Esse bebê seria o primeiro de muitos, Stephen tinha certeza. Se fosse um menino, iria herdar o trono um dia e ter seus próprios filhos. Se fosse uma menina… bom, o Rei iria rezar para isso não acontecer.
— Diga à Condessa de Pembroke para seguir as orientações deixadas por minha mãe — murmurou, levantando seu rosto. — A Rainha Imogen detalhou maneiras apropriadas para uma mulher em tal estado viver. Quero sua garantia de que a Arquiduquesa Clarissa não irá quebrar nenhuma das regras.
— Muito bem, senhor — disse Alexander. — Irei observar a princesa pessoalmente.
Stephen mordeu o interior de sua bochecha. Apesar das palavras do Duque parecerem honestas, ele não conseguia acreditar nelas. Ele apontou para a porta, indicando para o nobre sair de seus aposentos, e o nobre saiu depois de uma curta reverência.
Norfolk não era confiável. Deixe ele pensar que tem uma importante tarefa dada pelo próprio rei. Os ouvidos de Stephen na Corte relataram uma proximidade entre o Duque e a princesa. Certamente, ele iria permitir que ela fizesse o que quisesse durante a gravidez, colocando o bebê e o futuro da Grã-Bretanha em risco.
Stephen iria colocar um de seus homens para observar a princesa. Só assim, ele garantiria a sobrevivência do menino.
Ele pegou a sua taça de vinho e deu um longo gole, sentindo o gosto doce descer por sua garganta seca.
O ar ao seu redor mudou. Se tornou frio, melancólico e o sabor de lágrimas não derramadas encheu a boca de Stephen. Ele olhou ao seu redor, procurando a fonte do vento gelado que atingia sua face, e a viu.
O cabelo loiro caía sobre seus ombros em cachos, emoldurando seu rosto como se ela fosse um quadro e brilhando como se fosse feito de fios de ouro, iluminando toda a sala. Os olhos dourados herdados por seu filho penetravam em seu espírito, vendo todas as suas falhas e mentiras. Ela usava um longo vestido branco e um véu negro cobria seu belo rosto, deixando apenas o brilho dos olhos visíveis pelo tecido espesso. Uma coroa brilhante havia sido posta em sua cabeça e ela usava jóias dignas de sua posição. A mulher deu um passo para frente e uma mancha de sangue cresceu em sua saia, manchando o tecido na altura de suas coxas. Stephen não se surpreendeu com isso. Céline havia morrido na cama de parto, afinal.
— Como está meu filho? — ela perguntou e sua voz fantasmagórica era antiga e pouco usada, quase rouca. Parecia estar vindo de todas e nenhuma direção ao mesmo tempo, como se estivesse nascendo dentro do peito do rei.
— Céline… — Stephen sussurrou, maravilhado. Doze anos haviam passado desde sua morte e ela não envelheceu um dia. — Há quanto tempo.
O véu estremeceu e ele a imaginou franzindo o cenho, irritada com sua resposta.
— Ele está bem — replicou, sem querer pensar em todas as brigas que tinha como o segundo filho. — Você não me visita há anos.
Céline se virou e o véu escorregou por seu rosto, caindo ao redor de seus ombros como uma capa. Seu rosto estava dolorosamente neutro e ela o encarava como se ele fosse apenas um besouro preso em suas saias, não o Rei de todas aquelas ilhas flutuando pelo oceano Atlântico.
— Eu não vi motivo para vê-lo — ela disse e sua boca não se mexeu, permanecendo como uma linha fina em seus traços. — Você sempre foi cruel comigo quando eu estava viva. Por que seria diferente quando eu estivesse morta?
— Eu só queria que você fosse… — ele não conseguiu terminar. Nem sabia o que estava planejando dizer. Perfeita? Como Linette? Como Amatis? — Eu tinha cinquenta anos e você, dezesseis. Éramos muito diferente.
— E ainda assim, se casou comigo — retrucou Céline. — Eu era uma criança, uma flor e você me matou.
Stephen fechou seus olhos e a imagem de Céline em seu leito de morte explodiu em suas pálpebras. Havia tanto sangue e ela sofria tanto, as lágrimas descendo por seu rosto e se misturando aos líquidos e fluídos corporais manchando o colchão de parto. O bebê respirou por algumas horas antes de se juntar à sua mãe. Era outro menino.
— Meu querido Jonathan — ela sussurrou, virando-se para a janela e Stephen, cuja mesa estava perto da parede de vidro, viu a carruagem do filho se aproximar do castelo. Ele saiu sem minha permissão? — Ele é jovem demais para as responsabilidades que você lhe deu. Imaturo demais. — ela fungou. — Eu nunca te amei, Stephen. Todo o meu amor pertencia aos meus filhos. Mortos ou vivos. Imagino que isso não te chateie. Você também não me amou de volta. — o fantasma de Céline de Montclaire se virou para ele e seus olhos acenderam como duas chamas de ouro líquido. — Observei o caminho dele por todos esses anos e rezei para minha criação ser o suficiente para impedi-lo de se tornar como você.
— Céline, — ele murmurou, chocado. Nunca imaginou ouvir tais palavras de sua segunda esposa, falecida ou não. — Como pode falar assim comigo?
— Eu digo a verdade — ela retrucou. — Passei minha vida inteira tentando te agradar, tentando ser perfeita aos seus olhos, mas agora eu vejo a verdade. Linette era sua favorita não por sua personalidade ou seu útero fértil. Ela era sua favorita, porque morreu antes de poder te decepcionar. — Céline suspirou e fechou seus olhos. Seus ombros tremeram e ela parecia estar prestes a chorar. — Sinto tanta pena de Seraphina. Ela é como eu costumava ser. Inocente, ingênua, apaixonada. Esse reino doente irá quebrá-la.
— Clarissa está grávida — disse Stephen, sem saber exatamente o porquê. Talvez esperasse que isso abrisse seu coração. — Ela terá um filho de Jonathan. Meu neto. Nosso neto.
— Eu sei — Céline respondeu e havia a sombra de um sorriso em sua voz. — Ela irá gerar crianças perfeitas, pois ela mesma é perfeita. Seus descendentes irão governar meio mundo. O império onde o Sol nunca se põe. Rex e Caesar.
O ar congelou e uma nova figura apareceu ao lado de Céline. Dessa vez, era um menino vestido de preto. Os cabelos loiros e compridos pareciam flutuar ao seu redor. Ele tinha um rosto angelical e igualmente neutro. Seus olhos eram azuis, iguais aos de Stephen.
— Mamãe — ele disse, sua boca permanecendo parada. O menino pegou a mão de Céline e a olhou com adoração. — Vamos. Está na hora.
Mamãe?
Os olhos de Céline brilharam e seus ombros relaxaram. Ela tocou no rosto do menino com carinho, acariciando sua bochecha gorducha.
— Querido Edmund… — Céline sussurrou e ela se virou para o rei. — Você nunca o batizou, nunca se importou com os filhos que não sobreviveram. Eu tomei a liberdade.
Edmund olhou para Stephen, confuso, e deu um passo para frente. A mão de Céline viajou de sua bochecha para seu ombro, impedindo-o de continuar e aproximar do homem que um dia foi seu pai.
— Nunca amou aqueles nascidos do meu ventre — ela disse. — Meu Jonathan. William era o herdeiro sempre desejado por você, mas Jonathan é seu filho, o mais parecido com você. Talvez fosse por isso que nunca conseguiu sentir por ele nada além de desprezo. — Céline olhou para a mesa, onde o cálice vazio e manchado de vinho ainda estava ali, esperando ser enchido de novo. — Eu deveria ter vindo antes. Deveria ter te avisado para não beber o vinho. Está envenenado.
Stephen tossiu, sentindo como se algo estivesse queimando sua garganta, bloqueando e fechando suas vias aéreas, e o choque tomou seu corpo como uma faca enfiando-se em sua barriga. Ele agarrou seu pescoço, querendo abrir a pele e expor sua traqueia em uma tentativa de respirar, mas suas forças deixavam o seu corpo tão rápido quanto o ar lhe faltava. Sua visão se escureceu e ele caiu, o corpo inteiro tremendo em desespero.
— Infelizmente, — continuou Céline e sua voz parecia distante. — Agora é tarde demais para isso.
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