Imperium

2 Democracia Ditatorial


A noite indicava como devia estar o movimento daquela avenida no sudeste de Imperium. Só que curiosamente o que devia ser um completo vazio, era perturbado por dois adolescentes com tinta em spray na mão. Ambos conscientes que o toque de recolher já tinha soado há algumas horas.

“FODA-SE O SISTEMA! DEMOCRACIA DITATORIAL!”

Os dois leram a obra de arte que haviam acabado de fazer no muro e se entreolharam divertidos. Alexis Ridler e Maia Loren estavam ambos com casacos escuros de capuz, e apenas ele com uma bolsa velha onde levavam os materiais necessários.

O jovem tirou uma câmera fotográfica pra registrar o feito que não duraria muito tempo em uma cidade tão bem policiada como aquela. Ela por sua vez tentava usar o resto que sobrava de sua tinta pra acrescentar um detalhe que acreditava ser importante.

-Porcaria, acabou... – Maia murmurou chacoalhando o objeto que a acompanhara nos últimos minutos pintando o local a sua frente e agora a deixava na mão.

-Já deu, tá bom assim. – Ele murmurou guardando a câmera e olhando ao redor na certeza de que não tinham muito tempo até a próxima ronda que acontecia a cada trinta minutos.

-Não saio sem assinar! – Ela rebateu estendendo a mão pra que ele entregasse qualquer uma das tintas que ele levava na bolsa.

Scott praguejou entregando o que ela queria enquanto quase simultaneamente o som dos carros vigia se mostraram mais próximos do que eles gostariam. Ele tentou puxá-la pelo braço que ela não usava pra pinchar.

-Quase lá! – Ela murmurou sem se deixar ser puxada colocando uma espécie de sigla abaixo da mensagem escrita antes.

-Porra, Maia! Tá surda? – Scott perguntou com relação ao som que ambos detestavam que estava cada vez mais alto.

“M.S”

-Pronto! – Ela gritou afoita dando uma última olhada antes que caçula Ridler a arrancasse dali a força.

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“A experiência não nos leva a conclusões universais, o conhecimento é poder”

Thomas Hobbes

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Mundus – Alojamento dos protetores

Anne abriu os olhos praguejando por ter seu quarto ao lado do campo de treinamento, tinha acordado com o som do que parecia no mínimo uma granada. Afundou a cabeça novamente no travesseiro buscando o conforto do sono novamente, até que o mesmo som que se repetiu por três vezes a fez desistir.

Bocejou espreguiçando o corpo e olhou o relógio ao lado da cama.

“7:15”

Ia ter que levantar em alguns minutos de qualquer jeito, então não viu o porquê de não começar um pouco mais cedo. Levantou da cama e caminhou até o banheiro que assim como quarto era simples e pequeno. A mobília não passava de uma cama de solteiro, um surdo-mudo e um guarda-roupa anexado a parede.

O ambiente não parecia muito personalizado, as paredes eram brancas e todos os outros tons ficavam entre cinza e marrom. Aquele era o padrão pros quartos de todos os alojamentos daquela divisão. Assim como os uniformes que vestiam todos os que pertenciam a ela.

Terminou de se arrumar e caminhou em direção ao surdo mudo fitando o calendário com certa frustração. Era hoje. E não é que não gostasse do seu aniversário. Só não achava prazeroso lembrar o presente que queria e que nunca poderia ter.

Balançou a cabeça negativamente tentando mudar os pensamentos, se enquadrar no que era designada a fazer, esquecer sobre idéias absurdas era a melhor atitude a se tomar. Pegou a arma que guardava na cabeceira da cama todas as noites e colocou na cintura, estava pronta.

Saiu do quarto passando o cartão de identificação no pequeno aparelho eletrônico na porta. Agora só alguém com um cartão igual poderia entrar no quarto. Não que tivesse algo a ser protegido nele, era apenas o procedimento padrão como tudo naquele lugar.

-Anne! – Ela olhou na direção da voz encontrando a figura masculina com os cabelos loiros desgrenhados, belos olhos castanhos e um sorriso divertido estampado no rosto. – Feliz aniversário!

Ela sorriu de uma forma não tão sincera quanto gostaria enquanto ele se aproximava pra um abraço. Ele se vestia com um colete verde igual ao dela, assim como a calça folgada e o coturno. Visivelmente os dois pertenciam ao mesmo escalão.

-Obrigada Bruno... – Ela murmurou sentindo os braços dele envolverem sua cintura, abraço que ela correspondeu.

-Ia cobrir pra você hoje como presente, mas sabe como é... – Bruno comentou e ela apenas afirmou a cabeça em resposta, já sabendo o que ele queria dizer.

-Engraçado você ter achado que ela concordaria. – Anne ironizou enquanto começavam a caminhar pelo corredor.

-Ah, eu ainda tenho esperança na Bianca. – Ele brincou rindo fazendo-a fazer o mesmo.

-O pior é que eu também... – Agora os dois riam mais ainda.

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Imperium – Residência da família Ridler

“Demorou um ano pra que todas as iniciativas para o Purgat estivessem completas. Em 2016 a segregação foi colocada em ação pelo governo, e foi aí que percebemos aonde todos tínhamos chegado com a nossa visão revolucionária de um futuro melhor.

Eu nunca quis opressão, nunca quis a ditadura e nunca planejei essa falta de liberdade de expressão. Mas as coisas não saem como sua visão utópica e futurista planeja, porque no final é quando dá a um homem o sabor do poder, é que você realmente o conhece.

Eu sei o certo. Eu sei o errado. Mas ás vezes as coisas não são tão simples assim. E em Imperium, elas não são simples mesmo e também nem tão belas quanto às fazem parecer.”

Adele parou de escrever assim que ouviu o ranger na porta imaginando que alguém se aproximava.

Alguns passos foi o que ela precisou ouvir pra pegar o papel que escrevia e jogar na lixeira, apertando um botão vermelho na lateral da mesma incinerando o pedaço de caderno que agora não passava de cinzas.

-Mãe?... – Ouviu uma voz masculina perguntar atrás de si.

-Alexis... – Ela murmurou com um sorriso maternal – Precisa de carona pra escola?

Ele afirmou com a cabeça saindo do quarto logo em seguida. O diálogo não era algo predominante naquela família, que há treze anos era formada apenas por dois membros.

Adele levantou do seu pequeno refúgio. Era naquela escrivaninha que desabafada quando se sentia farta de tudo, e depois queimava por questão de pura sobrevivência. Ela tinha cabelos curtos na altura dom ombro, pele com um branco pálido e uma aparência cansada que sempre acompanhava uma expressão frustrada.

Suspirou caminhando até o outro lado do quarto onde estava o closet. Era enorme assim como o quarto e extremamente luxuoso. Ela apenas pegou algo apropriado pra levar o filho na escola sem a menor emoção ao fazê-lo.

A família Ridler era provavelmente uma das famílias mais ricas da região mais nobre de Imperium e isso não fazia deles os mais felizes, não chegava nem perto. Adele daria tudo o que tinha pra que simplesmente o filho voltasse a se comunicar com ela como fazia quando criança.

Não era culpa dela. Era o que Adele queria dizer pro filho e convencer a todos, até a si mesma.

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Alexis voltou ao quarto calculando o que ainda faltava aprontar antes de sair. Outro dia letivo que pra ele era sinônimo de tortura, odiava aquela instituição de ensino e não pelos motivos que todos os outros. Ele realmente não concordava com o que eles diziam, com o que eles tratavam como verdade, com o que ensinavam como verdade.

Só continuava a ir por poucos motivos. Primeiro a mão enlouqueceria mais ainda e em segundo tinha Maia, que tornava tudo mais suportável. Ao contrário de todos os outros ela o entendia e acreditava nele.

Ao lembrar a garota murmurou um palavrão por ter esquecido algo que podia ser fatal, correu até a mochila suja que guardava embaixo da cama tirando uma câmera de lá. A foto continuava lá e os dedos dele hesitaram em apertar “delete”. O único registro que ele tinha da noite passada e seria apagado assim como qualquer outra coisa que tentassem fazer pra contradizer o sistema.

Praguejou ainda sem conseguir apagar até que o som de passos no corredor, o fez simplesmente arrancar o cartão de memória jogando-o em uma das gavetas. Ia lidar com aquilo o mais rápido possível, mas não seria agora.

-Está pronto? – A voz feminina soou e ele olhou de relance pra figura da mãe na porta do seu quarto.

-Quase. – Ele murmurou sem encará-la remexendo em algumas coisas na mochila escolar fazendo-a apenas acenar positivamente e sair do campo de visão dele.

Alexis respirou fundo aliviado por ela não ter percebido a mochila com sprays atrás da mochila escolar. Terminou de guardar as próprias coisas na mochila que não continha objetos ilegais e deu um ultima olhada no espelho antes de sair do quarto.

Os cabelos negros cobriam parcialmente seu rosto, mas seu par de olhos esmeralda ainda brilhava em uma revolta interna que existia há 13 anos.

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Mundus – Campo de treinamento dos protetores

Uma das peças mais importantes pra sociedade criada em Mundos eram os Protetores. Eles trabalhavam para manter Mundus sob controle e a barreira segura, impedindo que qualquer um saísse e verificando qualquer um que entrasse.

Como toda força em prol de controle eles eram organizados, eficientes e funcionavam sobre ordem hierárquica que tornava tudo mais simples. Você só sabia o que precisava saber pra cumprir sua função. Nada mais.

-Classe A, B, C, D e E. – Uma morena de belos olhos verdes começou em seu tom seco de sempre. – Dentro de cada classe existe seu respectivo ranking.

Sete protetores ouviam Bianca falar com atenção e em silêncio. Incluindo Bruno e Anne que nem trocavam olhares entre si.

-Vocês já tentaram mudar as classes e falharam. – Bianca falou em um tom debochado fazendo alguns se mexerem desconfortáveis. – Isso significa que não vão mais perder tempo nos treinamentos, vão aprender na prática sob supervisão.

Anne engoliu seco enquanto se concentrava pra não mudar a expressão pra não receber um comentário de Bianca. Tinha tentado três vezes passar de fase e não conseguira puxar o gatilho, em nenhuma das vezes. Sendo classificada como inapta.

-Eu odeio esse tipo de trabalho, e por nada eu ficaria com a classe E. – Bianca fez uma pausa pegando um papel com três nomes. – Os quatro da classe “E” saindo. E os que sobram da classe “D”. É, de vocês eu não consegui me livrar.

Dos sete que ouviam quatro saíram restando Anne, Bruno e um moreno que não olhava ninguém e vivia fitando os próprios pés.

-Eu não supervisiono incapazes. – Bianca avisou quando se viu só com os três. – E como eu não acho vocês competentes eu já informo, é melhor mudarem minha opinião e rápido. Ou vão sair da classe “D” pra se tornarem civis comuns de Mundus.

Os três sentiram um arrepio percorrer a espinha e não ousaram nem comentar nada fazendo Bianca dar um meio sorriso.

-Vocês dois trabalhem na postura do autista e treinem o quanto puderem antes do almoço. — A morena mandou os dois a sua frente apontando pro jovem pálido que ainda olhava os pés. – E estejam aqui de novo ás duas da tarde.

Os dois acenaram positivamente e olharam pro menor enquanto a supervisora enfiava a mão no bolso tirando três cupons. Anne olhou intrigada os papéis se perguntando se era mesmo o que ela achava.

-Pro almoço em um lugar diferente daquela pocilga que estão acostumados a comer. – Ela murmurou enquanto Bruno estendia ainda não acreditando na gentileza de Bianca. – É só pra se prepararem melhor pra tarde que eu vou proporcionar.

-Obrigada. – Anne murmurou com um sorriso enquanto Bianca apenas bufava puxava um cigarro e um isqueiro do bolso.

-Sumam logo antes de eu desista de liberar o tempo de antes do almoço. – Ela comentou acendendo o cigarro sem olhar pra nenhum deles percebendo que agora já se afastavam.

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Imperium – Instituição Alfa de Ensino

A sala de aula era ampla e bem iluminada, com cadeiras organizadas quatro fileiras uniformes. Os alunos trajados da mesma forma em tons azuis e branco, e o silêncio de todos era simplesmente admirável, enquanto o professor palestrava encostado em sua mesa percorrendo os olhos sob todos que o ouviam.

Alexis mal ouvia o que o senhor comentava, estava mais preocupado com o cartão de memória que tinha esquecido em casa, e com a falta que Maia estava fazendo naquela sala de aula. O sinal tocou fazendo-o suspirar aliviado recolhendo o próprio material e saindo o mais rápido que conseguia.

Não estava exagerando na preocupação. Depois do que tinham feito na noite anterior qualquer coisa o deixava com o coração na mão. Caminhou pelo corredor sem demorar muito pra encontrar a figura feminina que esperava ver.

-Maia. – Ele chamou a atenção dela vendo-a estampar um sorriso fraco em resposta enquanto ele a alcançava e a abraçava.

Um murmúrio de dor fez com que ele tirasse os próprios braços do corpo dela tão rápido quanto ele colocara.

-Tá tudo bem?

-Tá sim.

Alexis arqueou a sobrancelha reconhecendo o sorriso forçado que ela tentava esboçar sentindo um frio na espinha.

-Alguém te pegou? – Ele perguntou preocupado enquanto ela apenas balançava a cabeça negativamente.

-Não aconteceu nada, nada mesmo.

-Então tira o casaco. – Ele desafiou percebendo olhar aflito que ela o lançou. – Ou só diz o que aconteceu.

-Eu esqueci de te dar a tinta spray ontem, acabou ficando no meu casaco, eu cheguei em casa e... – Ela começou com a voz embargada fazendo Alexis sentir uma raiva imensa se apoderar dele. – Mas eles estavam certos, está tudo bem mesmo.

-Certo? Tudo bem? Maia olha pra você! – Ele reclamou indignado com o comportamento dela perante a situação.

-Eles tinham razão, sim! – Ela rebateu transformando o tom de voz, agora bem mais irritado. – Imagine se um oficial me pegasse! Eu coloquei todos em risco! Todos os que me criaram até agora entende?

-Foi o que eles te disseram enquanto te batiam!? – O tom da voz dele chamou a atenção de alguns alunos que passavam ao redor fazendo Maia abaixar a cabeça, e tentar dar um passo pro lado sendo impedida pela mão dele.

-Eu não pensei duas vezes ontem. – Ela comentou com a voz fraca. – Mas também não posso dizer que eles não tinham esse direito depois do que fizeram por mim.

-Ninguém tem direito de...

-Já deu Alexis, nada que me disser agora vai mudar nada. – Ela falou interrompendo ele levantando o rosto pra fitá-lo nos olhos. – Se isso foi o que tive que pagar pelo que fiz ontem, eu faria de novo sem pensar duas vezes. Não precisa se sentir culpado por isso.

-Eu só... – Alexis pensou no que dizer, mas acabou suspirando e cedendo. Não tinha nada que ele pudesse fazer mesmo. – Só sinto muito mesmo.

-Eu sei, eu sei. – Maia comentou agora com um tom até mais alegre – Mais eu sou forte pra caramba, lembra? Eu represento a resistência.

Os dois riram com o comentário dela caminhando pra sala que seria ministrada a próxima aula.

-E sobre ontem eu tenho que te contar uma coisa... – Alexis murmurou quando os dois estavam atravessando a porta da sala. – Eu meio que ainda não apaguei a foto.

Notas finais
Ai, demorou, demorou, demorou! Eu sei, a pressão de escrever essa aqui foi complicada, tava tentando escrever a muito tempo... e ainda assim não ficou do jeito que eu queria, mas... bom é ó pra entenderem os personagens (os que deu pra apresentar) e bom, espero que me digam o que acharam.Vou entrar em temas mais profundos e explicar como tudo funciona ao longo de tudo, não da pra parar e explicar tudo, não sei escrever assim e perde a magia da coisa. Ai gente, insegura pra caramba de escrever um tema como esse apesar de ser apaixonada por isso porque eu critico muito as coisas que seguem a mesma linha futurista que tornam tudo em uma porcaria.Uooou, parei e me digam o que acharam, ok? Dessa vez é muuuito importante mesmo... os próximos vão demorar bem menos pq a merda é começar.. depois... é de boa.Bjooo e brigada a todas as reviews no prólogo, e a qualidade delas tb. Valeu mesmo e eu adorei o apoio as idéias, a curiosidade e tudo mais.