Imperfect
16 Boneca de Porcelana
Notas iniciais
Pela primeira vez em anos ela sentia vontade de sair daquele lugar, estava escuro como sempre, só o pouco de luz que atravessava a janela iluminava o ambiente, ela estava em agonia, Luna estava a ajudando ou era mais um deles? Haviam outros?
— Rose? -a voz exclamou da porta e ela focou no local, onde uma cabeça de cabelos negros e olhos verdes esmeralda espiava.
Ela nada respondeu, apenas o observou, ele suspirou e entrou trazendo um objeto em mãos... Rose pulou da cama assustando o garoto, ela avançou sobre ele cambaleante e pegou a boneca em sua mão.
— Mary! -Rose exclamou apertando a boneca contra si
— eu achei que você a quisesse de volta- Alvo sorriu timidamente e a ruiva o encarou, ainda com pavor em sua expressão, porém com os olhos brilhando.
Ele olhou ao redor curiosamente, não havia nada de diferente, só uma Rose perdida agarrada a sua boneca. Ela não sabia se deveria falar, mas ele trouxera sua Mary, um voto de confiança poderia ser dado
— obrigado- Ela sussurrou e ele a olhou surpreso mais uma vez
— você lembra onde tinha deixado ela? Lily me entregou uma caixa com coisas suas, porque ela não queria ter que... Bem, ficar deprimida- ele tentou explicar girando as mãos
— eu a deixei na escada do Colégio, quando consegui passar pela janela e entrar- Rose respondeu acariciando os cabelos realistas da boneca de pele branca
— ela poderia ter que...
— ela é forte, jamais se quebraria
— e quanto a você, Rose? Você pode ser quebrada? — Alvo questionou e a prima fitou o chão
— ele a tirou de mim, quando... Enquanto me contava uma história
— ele te contava histórias? Quantos dias passou com ele?
— dois, ele cuidava de mim, até que começou a... -sua voz morreu e seus olhos se encheram de lágrimas, Alvo arregalou os olhos
— não chore- ele murmurou tentando pensar em alguma coisa- se não eu vou chorar também! -Exclamou a primeira coisa que veio à mente e ela lhe encarou por longos segundos, ela parecia ter descoberto um novo tipo de chocolate no rosto do moreno, pensava distante.
— Alvo? -Ela franziu o cenho e ele lentamente abriu um sorriso radiante
—sim- falou em um fio de voz, Rose arregalou os olhos
— eu pensei que vocês...
— espere, nos estivemos aqui o tempo todo- ele falou como se fosse óbvio, Rose torceu o nariz e se aproximou
— não estiveram não, não tinha ninguém- ela sussurrou como se contasse um segredo
— todos estão aqui, Rose, desde sempre- ele estava confuso, eram coisas desconexas, Rose não percebera ninguém durante todos esses anos?
—Eu vi o James, quando tinham várias pessoas no Jardim da vovó, ele falou comigo- ela comprimiu os lábios, os olhos que tinham um brilho há muito tempo não visto
— você?! Como me reconheceu?
— você sempre diz que vai chorar também se qualquer um começar a chorar — ela apertou os dedos ao redor da boneca
— eu não falo isso há muito tempo, Rose... E o James?
— Rosa, ele sempre me chamou de rosa ou ruiva
— e os outros? Nos sempre estivemos aqui, se você olhar melhor você vai ver
— sério? E se ela não deixar?
— ela? Ela quem?
—Alvo, eu preciso dormir, acho que tem alguém, alguém... — ela começou a murmurar andando até a cama, o moreno permaneceu estático, os olhos dela se tornaram vazios mais uma vez
— quem Rose? Quem?
— Uma Weasley- ela sussurrou esticando as pernas e se cobrindo na cama.
Alvo não conseguia entender nada, do que ela estava falando? Os Weasley não estavam a chamando ou procurando, bem, talvez procurando, mas não que pudessem a assustar. Rose deitou e fechou os olhos, apertando a boneca como se ela pudesse adentrar em seu corpo, ela podia escutar em sua mente, alguém estava a chamando.
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Dream on
Abri meus olhos e a luz me cegou instantaneamente, pisquei algumas vezes até focar, onde estava? Tudo estava branco, procurei por algo em que pudesse agarrar, minhas mãos encontraram ramos, raízes, folhas; estava tocando em flores, cocei os olhos e me sentei, era um Jardim florido, não havia céu, tudo era branco, tão branco quanto a neve. Olhei ao redor procurando respostas, e ao longe avistei uma garota, ela saltava em minha direção, deveria ter em torno de quinze anos, cabelos ruivos até os ombros, em um vestido verde florido, um vestido solto, que parecia flutuar aos seus passos, a pele branca e com poucas sardas sobre o nariz, os olhos em um brilhante azul, azul-Weasley.
— ei você! -Chamei me apoiando nas mãos e levantando, a jovem sorriu abertamente, conhecia aquele sorriso, mas não me lembrava de onde
— como você veio parar aqui? -Ela perguntou, sua voz doce, melódica, eu a conhecia, só não conseguia me lembrar de onde
— eu não sei, estava com minha mãe, acho que adormeci- murmurei coçando a cabeça, ela se aproximou e me envolveu em um abraço caloroso, ela cheirava a flores, como todo aquele lugar
— eu senti sua falta, eu ainda sinto, de todos- ela sussurrou um pouco chorosa, eu sabia quem era ela.
— como você veio parar aqui? Onde estamos? -Ela me soltou e enlaçou seu braço no meu, me convidando para uma caminhada, as flores começaram a dançar por onde passávamos
— faz tempo que estou aqui, eu chamo de lar, porque tudo aqui se aperfeiçoa a minha vontade- agora tinha certeza que a conhecia, aquele linguajar de dicionário ambulante.
— e como saímos? — ao longe havia uma árvore, e era para lá que nossos passos nos guiavam
— você pode sair a qualquer momento... -ela falava carinhosamente, como se suas palavras pudessem tocar em meu rosto me acariciando
— e você? — ao passo que alcançavamos a árvore eu podia enxergar uma figura, embaixo da árvore, uma pessoa talvez
—não posso sair daqui, as pessoas estão sempre vindo aqui e perguntando algumas coisas, alguns vão embora, mas outros entram.
—entram? Aonde?
— em sono eterno, não exatamente, eles não podem mais voltar, você é uma dos que podem voltar
— e você? Por que não pode sair? O que faz aqui?
— eu estou presa aqui, não há saída para mim- respondeu com a voz distante, agora podia ter certeza havia uma pessoa ali, encolhida de forma estranha, sua pele assumia um azul escuro chamando para o preto, ela tremia, como se chorasse, tentei me aproximar, porém ela segurou em minha mão
— O que?!
— Não tente tocar, tudo vai escurecer se fizer isso- falou alertada e eu vi medo em seus olhos, aquela era a...
—Rose? -Ela me encarou por alguns segundos e assentiu sorrindo, a puxei de volta para um abraço, um abraço de desespero, ofeguei e quando menos percebi as lágrimas começaram a rolar, ela estava ali, tão radiante, como sentira sua falta!
Ela também começara a chorar, parecia estar com medo, e era isso que seus soluços indicavam, então o lugar começou a ficar escuro, e a figura a minhas costas começou a rosnar, erguendo os olhos pretos inchados para nos duas
— você está voltando — Ela falou baixinho e eu ofeguei
— Eu quero te levar de volta! -Eu a apertei ainda mais
— Eu não sairei daqui, mas há uma chave...
— Que chave, Rose?
— A boneca, a boneca é a chave, ela guarda um segredo, não se deixe enganar pela aparência, eu estou presa aqui, não do lado de lá, eu não estou lá, perdi minha carne- ela sussurrava como se ninguém mais pudesse escutar
— O que quer dizer? Você está na casa da vovó...
— Não, Molly, não estou, não sou eu- ela murmurou rápida então comecei a sentir o vazio, meus braços agora me abraçavam solitariamente, ela não estava mais ali, e havia me deixado algo, uma chave, uma boneca.
Dream off
Ela sentou na maca em um pulo, assustando a mãe que logo se ergueu para atendê-la, Molly olhou para a mãe com os olhos arregalados
— Não podemos confiar... -A ruiva murmurou com a voz falhando
— Foi só um pesadelo, filha- Audrey falou tentando a acalmar, Molly olhou ao redor e ergueu a mão, terra, sua mão tinha terra molhada
— Rose, mãe, aquela não é a nossa Rose, não podemos confiar em uma só palavra- Molly exclamou cortante e Audrey ergueu uma sobrancelha, Molly tinha certeza, que há poucos minutos estivera abraçando a sua prima.
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