Império de Paz
2 I. Uma príncesa europeia
Primavera de 1771
Havia uma grande quantidade de carruagens, acompanhadas de uma grande quantidade de guardas a cavalo. Eram tantos que as grandes florestas que marcavam a fronteira do Império Heisei pareciam pequenas se comparadas.
Eram as carruagens mais belas e luxuosas que se poderia adquirir na Europa, todas compradas na França ou na Prússia. Os guardas, apesar de terem feito uma longa viagem, tinham os mais belos uniformes de todo o norte da Europa, como se dizia. Tudo isso, o luxo e a beleza para a Imperatriz e Príncesa.
Essa era a grande comitiva de Sophia, Príncesa da Livônia, e logo também Imperatriz do Império Heisei. A comitiva era a personificação da própria príncesa, algo belo, mas também uma amostra de riqueza e poder ao Império.
– Logo estaremos chegando Sophia. Uma ansiedade, talvez mais do que você.- A príncesa no momento, não se mostrava grande como sua comitiva, na verdade ela parecia até mesmo um pouco cansada e triste.
– É bom saber. Foi uma grande gentileza da Imperatriz da Rússia nos deixar atravessar seu império, no contrário teria sido uma viagem muito mais longa.- Mas talvez teria sido melhor uma viagem mais longa.– Terei saudades da Europa.
Agora a governanta de Sophia, a Baronesa Juliana Von Bergan, estava com o mesmo olhar dela.
– É isso então que a entristeceu. Minha criança, é normal se sentir assim, você passou tanto tempo conosco e agora está sendo tirada.- Foram exatos oito anos.– Você vai se adaptar e logo vai nos esquecer.
– Acho impossível isso. Metade da minha vida passei lá, eu sei que sou a governante de um império asiático, mas meu coração é europeu.
Sempre iria ser assim. Livônia era a casa de Sophia, era apenas esse lar que ela conhecia, era aquela a família que ela conhecia. Sophia poderia dizer que os que a esperavam não eram na verdade sua família, ela nunca poderia dizer que amava verdadeiramente seu pai, quando a notícia de sua morte chegou a três anos, a tristeza de Sophia não era a de uma filha que perdeu o pai, mas a de alguém que perdeu seu soberano.
Sophia também nunca conheceu de verdade sua mãe, ela havia morrido afinal quando Sophia tinha apenas sete anos. Seus parentes eram desconhecidos e sua madrasta elas nunca nem mesmo se viram antes.
Mas era necessário esquecer disso. Afinal Sophia tinha também o problema de não conhecer também seu povo.
– Sophia... Sophia.- A baronesa Von Bergan, no entanto logo a acordou de seus pensamentos.– A carruagem parou, acho que chegamos no seu império.
E foi exatamente isso que aconteceu. Um dos guardas abriu a porta da carruagem, e Sophia pode ver que logo a frente estava uma nova comitiva, a do seu império.
– Agora tudo muda.
– Lembre-se minha criança. Sorria, seja gentil, nunca mostre falha ou sentimentos negativos, sempre olhe mas nunca comente. Seja a imperatriz.- Esse era o lema que a muito tempo Sophia ouvia. Ser a imperatriz.
Logo Sophia saiu da carruagem com sua governanta, e logo ela percebeu que suas damas de companhia da Livônia também a esperava.
– Minha senhora está pronta?
– A muito tempo estou pronta. Vamos.
Uma tenda havia sido preparada para Sophia, e ao entrar nela, Sophia foi logo recebida pela camareira da Imperatriz viúva, Taka Atsuko[1].
– Alteza é uma imensa honra a minha pessoa a servir nesse momento. Me acompanhe por favor.
Lady Atsuko a levou para sua cerimônia de troca, onde Sophia seria despida de suas roupas ocidentais e suas vestes orientais seriam colocadas no lugar.
Isso não era algo anormal para Sophia, era comum ser despida e vestida, todos os dias isso acontecia. Sophia estava completamente pronta para se despedir de suas roupas. Mas havia algo que ainda não.
– Não há necessidade de tirar os stays[2]. Eu gosto deles.- Essa era a única parte de suas roupas que Sophia não poderia abrir mãos.
– Mas senhora, o stay não serve apenas para marcar a silhueta ocidental? Não há necessidade disso em nossas vestes.
– Lady Atsuko eu insisto. Deixe o stay, me faz lembrar da Europa, me lembrará também do meu lugar.- A camareira não estava disposta a ceder a parecia que iria falar no entanto.– Lembre-se, camareira, quem é a imperatriz.
Lady Atsuko então cedeu e Sophia iria continuar com seus stays, uma de suas lembranças como uma dama europeia. Logo depois disso, Sophia foi vestida com um jūnihitoe o traje da corte imperial, com as cores da sua casa.
Depois de vários minutos Sophia finalmente estava pronta. Se olhando no espelho se poderia até mesmo a confundir com uma oriental, se não fosse claro seu cabelo e seus olhos. Mas agora que ela era agora um deles, estava na hora da despedida.
– Minha senhora, está linda como uma imperatriz uma deve ser.- Sophia era muito grata a Baronesa por isso.– Sentirei muito sua falta minha criança.
– Querida Bergan, eu sentirei o mesmo. Você foi para mim mais do que uma governanta, foi uma amiga, uma mãe até. Você me ensinou muito e sou muito grata a isso. Queria eu que nunca separarmos.
– Não chore minha crianças por favor. Você também Sophia, foi como uma filha para mim, minha maior alegria foi a educar.- Era agora a baronesa que quase chorava.– Mas você será Imperatriz, sabemos as tradições do seu povo. Seja Imperatriz, e eu serei governanta dos filhas filhas do rei britânico.
– Seja feliz na Inglaterra então.- Agora Sophia também teria que se despedir de suas damas, suas amigas.–Eu não me esqueci de vocês que fique bem claro. Mas já choramos tanto juntas que não acho necessário prolongar isso.
– Sempre a teremos com muito carinho alteza. Mas a senhora tem certeza que devemos voltar?- A condessa Louise foi a única que pode falar.
– A tradição diz que devem voltar. Também não é de meu desejo que vocês vivem aqui nesse lugar afastado de tudo e todos, levar Ulrike comigo já é um grande peso.
Sophia bem sabia como todos eram amigas e como isso seria difícil, mas elas tinham também uma vida. Louise e Wilhelmine estavam noivas, e Elisabeth desejava muito voltar a Saxônia.
– Escreva sempre para nós então Sophia.
– Eu irei não se preocupem.
Depois disso e de mais alguns abraços e quase lágrimas, Sophia e agora Ulrike, a dama que foi escolhida para a acompanhar voltaram a carruagem, que agora com a comitiva imperial se dirigiu para a Cidade de Verão.
Na carruagem agora também estava a camareira da Imperatriz viúva, e essa companhia fez com que a carruagem ficasse em silêncio por muito tempo.
– Minha senhora eu peço perdão se isso é indelicado, mas por que de irmos ao Palácio de Verão, não ao Palácio Imperial?
– É tradição que o novo imperadore fique lá antes de se dirigir a Cidade Imperial para tomar seu lugar como imperador. Existe desde os dias de Siegfried.
Sophia não se importava de Lady Atsuko a interromper e explicar no lugar. Talvez ela fizesse isso até que melhor.
– Iremos encontrar lá Ulrike, enviados de todos os quatro reinos, estarão todos lá para me prestar homenagem. E na Cidade Imperial estarão todos os quatro reis.- Essa era a parte disso tudo que Sophia mais estava ansiosa, conhecer os quatro reis, os homens mais poderosos do império.
– Eles devem ser homens com muita importância.
– Eles são heróis para nosso povo. São descendentes dos quatro reis que fundaram o Império Heisei, eles nos deram a paz, temos uma dívida com eles.
– Então agora eu sei Lady Atsuko que eles têm muito mais importância do que nos foi dito em Livônia. Mas minha senhora, esses quatro reinos. Eu ainda não entendo eles.
– Os quatro reinos são as divisões do Império, ao norte há o Reino Kita; no sul o Reino Minami; no leste o Reino Azuma e por fim ao oeste o Reino Nishi, quatro reinos, quatro reis, todos com suas tradições e leis, mas que estão em conformidade com a lei do Império e com a tradição da maioria.
As vezes Sophia gostava de comparar o Império Heisei ao santo Império, que estava dividido em pequenos estados quase independentes, mas que tinham o imperador como soberano onde se refugiavam sempre que precisavam de ajuda.
– Você está certa minha senhora. E agora que a condessa Ulrike sabe mais sobre nosso grande império, espero eu que ela não envergonhe a casa imperial com perguntas tolas e sem sentido.
Agora Lady Atsuko estava mostrando sua face, a de uma mulher controladora e regrada.
– Sei me comportar muito bem Lady Atsuko, eu sou a condessa Ulrike de Battenburg, da nobre família dos Battenburg. Filha...
– Creio que a nobre condessa pode parar agora.- Ulrike não ficou nada feliz com a interrupção, não foi falado o nome de seu pai um herói e de seu bisavô, outro herói de guerra.– Minha senhora creio que chegamos.
Nesse momento a situação pegou Sophia, olhando pela janela se poderia realmente confirmar que chegaram. Havia pessoas, muitas pessoas. Mas só havia uma coisa na mente de Sophia.
– Seja a Imperatriz.
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