Império das Cinzas: O Nascimento da Vilã
6 Capítulo 6
O som suave de água quente sendo despejada numa grande banheira de mármore polido preencheu a sala de banho anexa. O vapor subia carregado com o aroma fresco de pinho e lavanda do Norte, criando uma atmosfera acolhedora que contrastava com o frio congelante do lado de fora.
— Prontinho, Senhorita Haruno! A água está na temperatura perfeita — anunciou uma voz firme e entusiasmada.
Virei-me e encontrei a jovem encarregada de me acompanhar. Ela vestia o túnico negro e justo das patentes intermediárias da Guarda de Ferro, com os cabelos castanhos presos em dois coques práticos no topo da cabeça. No peito, trazia um distintivo de especialista em armamento.
Tenten.
Ver mais um personagem do romance ganhar vida diante de mim era fascinante. No livro, Tenten era uma das poucas oficiais mulheres do exército imperial, conhecida por sua maestria com lâminas e táticas de cerco. Ter uma guerreira de elite encarregada de mim — em vez de uma simples serva da corte — era mais uma prova do cuidado rigoroso de Sasuke quanto à segurança daquela fortaleza.
— Muito obrigada, Tenten — agradeci, entrando na água quente e soltando um suspiro profundo de puro alívio. Sentir os músculos relaxarem completamente após os dias de fuga e dor era um paraíso.
— Não precisa agradecer! — disse ela, cruzando os braços e dando um sorriso aberto. — O Imperador foi bem claro: nada de servas comuns circulando por aqui para evitar o risco de espionagem antes do Conselho de Guerra. Então, hoje eu sou sua escolta e sua assistente pessoal.
Enquanto eu lavava o cansaço do corpo, puxamos conversa. Era acolhedor ter uma figura feminina que não tecia comentários sarcásticos para mim. Expliquei a ela de forma simplificada a minha situação — que eu era uma nobre vinda do território sulista, perseguida e jurada de morte pelas forças de Sasori após descobrir planos de traição. Tenten ouvia tudo atenta, indignando-se nos momentos certos e demonstrando um respeito genuíno por eu ter sobrevivido sozinha até chegar às terras do Norte.
Depois do banho revigorante, Tenten ajudou-me a arrumar o cabelo rosa num penteado meio preso sofisticado, deixando algumas mechas soltas emoldurando o rosto, e aplicou uma leve maquiagem que realçava a saúde da minha pele recuperada.
Enquanto ela ajeitava os detalhes finais, meu estômago dava nós. Um jantar. Era o que Kakashi havia dito. O motivo não era um mero evento social: eu iria me encontrar com Sasuke em seus aposentos privados para selar nosso acordo definitivo. Ele me entregaria a imunidade imperial assinada, e eu, em troca, entregaria a cabeça do primeiro traidor do seu conselho. Era uma negociação de altíssimo risco. A ideia de encarar o homem mais poderoso e intimidante do Norte a sós, sem a barreira dos guardas ou o abrigo da minha fraqueza física, fazia meu coração martelar de puro nervosismo.
— Fique calma — disse Tenten, notando o tremor sutil nos meus ombros pelo espelho. — O Imperador pode parecer feito de gelo por fora, mas é um homem extremamente confiável. Se ele marcou esse encontro a sós, é porque respeita a gravidade do que você tem a dizer.
Quando ela abriu o armário da suíte, fiquei sem palavras.
Diante de mim havia uma seleção inteira de trajes impecáveis, confeccionados com o mais nobre veludo encorpado, lã macia e detalhes bordados à mão. As cores variavam entre tons profundos de verde-esmeralda, azul-noturno e vinho.
Corri os dedos pelos tecidos, sentindo a textura suave contra a pele. No romance original, eu me lembrava de como a nobreza do Norte apreciava vestimentas opulentas para isolar o frio rigoroso, mas ver aquilo pessoalmente era muito diferente. Sasuke havia reparado no estado lamentável da minha roupa antiga — rasgada e manchada com o sangue seco das punições de Sasori. Ele não apenas providenciou algo para eu vestir, mas garantiu que eu tivesse opções dignas de uma nobre, sem me fazer parecer uma prisioneira humilhada. Aquele gesto prático e atencioso, vindo de um homem tido como frio e inacessível, fez meu peito aquecer de um jeito inesperado.
Optei por um vestido verde-esmeralda escuro. Era a primeira roupa verdadeiramente elegante que eu vestia desde que fora transportada para este mundo. O corte era magnífico: a gola alta estruturada abraçava suavemente meu pescoço com bordados delicados em fio de prata, conferindo uma postura imponente e refinada. As mangas compridas ajustavam-se perfeitamente aos braços, terminando em punhos de veludo trabalhado. A saia era encorpada, caindo em pregas pesadas e elegantes até os pés, mantendo o frio distante sem perder a fluidez dos movimentos. O corpete ajustava-se com precisão à minha cintura, realçando a silhueta de forma sóbria e aristocrática.
Ao me olhar no espelho de corpo inteiro, mal reconhecia a garota machucada e exausta de dias atrás. A tonalidade profunda do verde-esmeralda fazia um contraste perfeito com a cor rosada dos meus cabelos e realçava intensamente o verde dos meus olhos, fazendo-os brilhar com uma vivacidade impressionante.
— Ficou incrível — elogiou Tenten, dando um tapinha encorajador no meu ombro. — O Imperador já está aguardando no gabinete privado. Vou acompanhá-la até a porta.
Enquanto caminhávamos, a apreensão só aumentava. Minhas mãos estavam frias. Eu repassava mentalmente cada palavra sobre o decreto e sobre Lorde Danzo, tentando me convencer de que estava pronta para aquele jogo de xadrez tático.
O gabinete privado do Imperador ficava no topo da torre oeste da fortaleza. O ambiente era sóbrio, imponente e viril: paredes de pedra escura polida, um tapete espesso de pele cobrindo o chão e uma lareira monumental acesa, cujas chamas espalhavam uma luz alaranjada, quente e acolhedora.
Sobre a mesa de madeira nobre, um banquete substancioso e refinado fora servido: cortes suculentos de cervo assado com crosta de pimentas e ervas do Norte, um caldo denso de cogumelos e legumes da estação fumegando em travessas de prata, pães artesanais dourados e jarras de chá aromático com especiarias aquecedoras.
Parada no batente da porta, segurei o fôlego por três segundos.
Sasuke estava de pé ao lado da lareira, de costas para a entrada, observando o fogo com uma taça de chá quente na mão. Ele não vestia a armadura pesada nem a capa militar negra da Guarda de Ferro. Usava apenas uma camisa nobre de linho branco, com o colarinho levemente aberto e as mangas dobradas até os cotovelos. Sem as placas de aço, seu porte físico ficava escancarado: ombros largos, peitoral trabalhado e a estrutura atlética de um guerreiro treinado. O brilho alaranjado do fogo desenhava o perfil do seu rosto firme, marcante e perigosamente atraente.
Ao escutar o roçar suave da minha saia de veludo no chão, Sasuke virou-se devagar.
No instante em que seus olhos negros pousaram em mim, todo o movimento dele parou. A mão que segurava a taça congelou no ar. Ele ficou completamente imóvel, travado no lugar por segundos que pareceram uma eternidade.
Seu olhar baixou lentamente do topo da minha cabeça até a barra da saia, absorvendo cada detalhe: a forma como o verde-esmeralda profundo abraçava minha silhueta de maneira refinada, a gola alta estruturada que me dava uma imponência quase régia e, acima de tudo, como aquela cor acentuava de forma avassaladora o verde radiante dos meus olhos e o tom rosado suave do meu cabelo. A figura da garota ferida, pálida e coberta de sangue que ele carregara nos braços na noite anterior desaparecera por completo. Em seu lugar, havia uma mulher deslumbrante, viva e dona de uma presença magnética.
O silêncio no gabinete tornou-se denso, pesado com uma tensão que fez minha pele arrepiar. Por um momento, os olhos de Sasuke perderam a habitual frieza calculista, revelando um lampejo de puro choque e admiração genuína — uma fresta em sua armadura emocional que ele claramente não planejava deixar exposta.
Ele permaneceu em silêncio por mais um instante, piscando devagar para quebrar o transe em que caíra. Pigarreou baixo para recuperar o domínio da própria voz, ajustando a postura com a maestria de um líder, embora a intensidade no seu olhar continuasse ali, queimando fixa em mim. Ele colocou a taça sobre a mesa e deu dois passos lentos na minha direção.
— Senhorita Haruno — disse ele, com a voz um tom mais grave e aveludada do que o normal, ressoando pelo ambiente. — O traje... lhe caiu perfeitamente.
Aqueceu-me o rosto com o elogio e a forma como seus olhos ainda me devoravam com sutileza, mas forcei-me a manter a firmeza, erguendo o queixo com um sorriso leve enquanto me aproximava da mesa.
— Vossa Majestade também parece bem mais confortável sem o uniforme — respondi, tentando disfarçar o tremor sutil na voz.
Um canto dos lábios dele curvou-se numa fração de segundo, um vislumbre raro de um sorriso contido com o elogio sutil.
— Sente-se. O jantar a sós é a melhor forma de garantir que nenhuma das nossas palavras saia destas paredes antes do Conselho.
Acomodamo-nos à mesa. A despeito do conforto do jantar, a atmosfera entre nós faiscava com a gravidade do que estava por vir.
— Devo admitir — comecei, cortando a carne com precisão —, que não esperava tanta consideração com trajes e aposentos privados para uma estrangeira que cruzou sua fronteira sem convite.
— Não confunda cortesia com ingenuidade, Senhorita Haruno — rebateu Sasuke, apoiando os cotovelos na mesa e fixando o olhar em mim. — Uma nobre do Sul que carrega informações capazes de derrubar um império, não é apenas uma visitante. É uma peça imprevisível no meu tabuleiro.
— Uma peça imprevisível? — apoiei as mãos na mesa, encarando-o sem recuar um milímetro. — Eu não sou uma peça do seu jogo, Majestade. Sou a única pessoa neste castelo que sabe exatamente por onde a lâmina de Sasori vai cortar o seu pescoço.
Sasuke sustentou meu olhar. A intensidade nos olhos negros dele era quase palpável, mas pela primeira vez vi uma chama de interesse genuíno acender naquela fresta de gelo.
— Audaciosa — disse ele, a voz baixando meio tom. — Mas para alguém que fala com tanta autoridade, você parecia terrivelmente vulnerável quando a recolhi no jardim.
A lembrança me atingiu como um golpe físico. Fechei os dedos em punho contra o guardanapo no meu colo. O orgulho e a frustração feridos queimavam no meu peito.
— Porque eu estava indefesa — admiti, e a vulnerabilidade crua na minha voz fez o silêncio da sala pesar. — Eu... Não sabia o que fazer... Ou como me defender... É frustrante ser apenas a moeda de barganha de Sasori — meus olhos focaram na lareira — Odeio lembrar disso. Odeio saber que a minha vida dependeu exclusivamente de um casamento arranjado com um homem que nunca gostou de mim... Eu nunca mais quero me sentir daquele jeito.
Sasuke não respondeu de imediato. Ele estudou meu rosto, absorvendo a raiva contida e a determinação implacável que brilhavam nos meus olhos. A postura rígida do Imperador cedeu um centímetro.
Ao final da refeição, ele limpou um canto da mesa e puxou um pergaminho pesado de velino, lacrado com a insígnia real do Norte em cera vermelha.
— Como prometido — declarou ele, estendendo o documento. — O decreto de imunidade total assinado com o meu sangue. Você estará oficialmente sob a proteção inviolável do Império do Norte.
Peguei o pergaminho, desenrolei-o e apanhei a pena sobre a mesa, assinando meu nome com letra firme no rodapé. Sasuke pegou o documento de volta, guardando-o no no gabinete.
-Vou lhe devolver quando confirmar suas alegações.
Em seguida, ele caminhou até o suporte lateral e apanhou duas adagas táticas pequenas de aço fosco — lâminas cegas de instrução militar. Voltou para o centro da sala e estendeu o cabo de uma delas para mim.
— O que é isso? — perguntei.
— Você disse que odeia se sentir indefesa — respondeu ele de forma direta. — O papel garante sua imunidade legal. Isso aqui garante a sua vida se o papel falhar.
Segurei o cabo de couro. O peso frio do metal na minha mão trouxe um choque de realidade.
— Acha mesmo que posso aprender a lutar usando um vestido de veludo? — provoquei, girando a adaga entre os dedos com certa hesitação.
— Quem tentar encurralar você não vai esperar você trocar de roupa — retrucou ele, a voz imperativa, embora os olhos entregassem um lampejo de curiosidade. — Aproxime-se.
Dei dois passos à frente. Sasuke não hesitou: posicionou-se imediatamente atrás de mim, colando a estrutura firme do seu corpo ao meu. A proximidade era avassaladora. O calor que emanava dele atravessava o veludo do meu vestido, e o som da sua respiração roçava a curva do meu pescoço. Ele cobriu minha mão direita com a dele, ajustando meus dedos sobre o cabo de couro.
— Segure curto. Lâmina voltada para baixo, protegendo o antebraço — instruiu ele, a voz grave ressoando baixa perto da minha orelha. — Se um homem segurar seu pulso por trás, não tente puxar contra a força dele. Você usa o peso e a gravidade a seu favor.
Com a outra mão, ele segurou meu pulso esquerdo com uma firmeza medida — apertando o suficiente para imobilizar, mas sem me machucar.
— Tente se soltar — ordenou.
Instintivamente, puxei o braço contra o aperto dele. Como esperado, a musculatura dele nem se moveu.
— Errado — murmurou ele, dando um passo ainda mais próximo para alinhar perfeitamente nossos quadris. — Você está lutando contra mim com força bruta. Nunca vai vencer um homem do meu tamanho assim. Use a alavanca. Gire o tronco, traga o cotovelo para dentro e desça a base do metal no pulso dele.
Respirei fundo, absorvendo a instrução e o calor do corpo dele. Em vez de resistir, cedi levemente ao peso, rodei o quadril com rapidez e forcei o cotovelo para dentro, usando o movimento do corpo inteiro. O cabo de aço bateu com um impacto seco contra a proteção do braço de Sasuke. O aperto dele cedeu instantaneamente.
— Excelente — elogiou ele, e um tom sutil de surpresa genuína escapou na sua voz. — Você aprende rápido. Agora de frente.
Sasuke deu dois passos para trás e girou a própria adaga cega com uma facilidade hipnotizante. Ele não avançou como um soldado bruto; seus movimentos eram calculados, elegantes e perigosamente fluídos. Era quase como uma dança ritmada — ele ditava o passo, e eu tentava antecipar os compassos.
Ele deu um passo à frente, simulando um corte diagonal lento na altura do meu peito. Eu recuei um passo, cruzando a lâmina para bloquear. O choque metálico ecoou pelo gabinete.
— Não feche os olhos — corrigiu ele, a voz firme enquanto mantinha as lâminas travadas a centímetros do meu rosto. — Mantenha o olhar no meu peito. Os ombros entregam a direção antes da mão.
Sasuke aliviou a pressão e recuou, iniciando uma nova sequência. Ele investia com leveza, dosando perfeitamente a força para me testar sem me atropelar. À medida que os segundos passavam, o ritmo aumentou. Eu não tinha o treinamento de uma guerreira, mas a adrenalina e a observação afiada me guiavam. Quando ele investiu pela esquerda, desviei o corpo numa rotação rápida; quando tentou travar minha mão, usei o giro de pulso que ele acabara de ensinar para rasgar o ar e rebater a lâmina dele.
Para um observador de fora, parecia um tango perigoso sob a luz alaranjada da lareira: os passos sincronizados sobre o tapete espesso, o roçar suave do veludo verde contra o linho branco, o som cadenciado do metal cego se chocando e as nossas respirações se entrelaçando a cada esquiva. Sasuke conduzia o combate com uma maestria impecável, pegando leve a cada investida para me permitir reagir, mas os olhos negros dele queimavam com um fascínio cada vez mais difícil de dissimular.
Num impulso de ousadia, tentei romper a sequência dele. Avancei um passo além do esperado, girando os ombros para tentar um desfecho na altura do seu pescoço.
O movimento foi tão brusco e veloz que os grampos que seguravam meu penteado não resistiram. Com um som suave, o arranjo se desfez por completo.
A cascata rosada dos meus cabelos soltou-se de uma vez, voando pelo ar e caindo em ondas volumosas sobre meus ombros e costas, algumas mechas perfumadas roçando direto no rosto de Sasuke.
O impacto do aroma e da visão da minha cabeleira solta pegou o Imperador de surpresa. Os olhos dele se dilataram por uma fração de segundo, desacelerando o passo. Tentei aproveitar a brecha para completar a manobra, mas no entusiasmo do movimento, a barra pesada da minha saia de veludo prendeu com força na ponta dobrada do tapete de pele.
— Cuidado! — alertou Sasuke, a voz perdendo o tom professoral ao perceber meu desequilíbrio instantâneo.
Perdi o apoio dos pés. A adaga escapou da minha mão enquanto o chão fugia de mim.
Sasuke soltou a arma dele no mesmo milissegundo e projetou o corpo à frente, envolvendo minha cintura com os dois braços para amortecer minha queda contra a pedra. Contudo, o peso combinado, a velocidade do nosso "tango" e o impulso do movimento nos levaram direto para baixo.
BAAM!
Nós dois fomos parar pesadamente no chão, rolando sobre o espesso tapete de pele bem diante da lareira.
Quando o impacto passou, fechei e abri os olhos, com a cabeça rodando. Eu estava deitada diretamente por cima do peito de Sasuke. Minhas mãos tinham ido parar espalmadas contra o linho macio de sua camisa, sentindo a musculatura rija do seu peitoral subindo e descendo numa respiração acelerada. Meu cabelo rosa, agora completamente solto, caía como uma cortina ao redor dos nossos rostos, emoldurando-nos num capulo privado de sombra e luz avermelhada.
O ar entre nós pareceu paralisar. Consegui sentir o calor da pele dele contra a minha e o cheiro amadeirado de cedro e tempestade que o envolvia, impregnando meus sentidos. Meu olhar travou nos lábios dele, descendo e subindo para encarar o fundo dos seus olhos negros. Eles não estavam frios ou analíticos; estavam acesos, escuros, carregados de um choque denso e de uma atração magnética que fez meu estômago dar uma volta completa.
As mãos de Sasuke continuavam presas na minha cintura, os dedos dele apertando o veludo do meu vestido com uma firmeza involuntária, mantendo-me colada a ele. Senti o bater descontrolado do coração dele sob as minhas palmas — uma prova irrefutável de que ele não estava tão inabalável quanto aparentava. Nenhum de nós dois se moveu. Por três ou quatro segundos intermináveis, a distância entre nossos lábios parecia insignificante, e um arrepio quente subiu pela minha espinha com a percepção nítida do corpo dele pressionado contra o meu.
A tensão era sufocante, perigosa e inegavelmente atraente.
Nesse exato milissegundo, a porta do gabinete foi escancarada com violência. Kakashi, que fazia a ronda pelo corredor e ouvira o estrondo pesado da queda, entrou de lâmina em riste, pronto para um combate.
— Vossa Majestade—!
Kakashi travou no batente.
A lâmina em sua mão congelou no ar. O silêncio que se instalou no gabinete foi mortal.
Diante do Lorde Comandante estava a cena inacreditável: a nobre convidada caída por cima do Imperador do Norte sobre o tapete de pele, as adagas de treino jogadas ao lado, os rostos a milímetros de distância e Sasuke segurando a cintura dela com evidente choque, o peito arfando e as maçãs do rosto marcadas por um rubor quente.
Kakashi baixou a espada devagar. O único olho visível piscou duas vezes antes de se estreitar numa expressão de puro divertimento contido. Ele guardou a arma na bainha e pigarreou.
— Minhas desculpas, Vossa Majestade — disse Kakashi, mantendo o tom estritamente formal, embora o brilho de ironia nos seus olhos fosse inconfundível. — O som da queda fez parecer que tínhamos uma invasão na torre. Vejo que a instrução tática de hoje foi... excepcionalmente intensa.
Um choque de realidade nos atingiu como uma ducha de água gelada.
Corei, sentindo o sangue subir inteiro para o meu rosto num tom de vermelho queimante. Tentei me levantar às pressas, mas o pânico me fez tropeçar na barra do vestido longo. Sasuke tentou me apoiar pelos cotovelos para me ajudar a ficar de pé, mas com o nervosismo a mão dele deslizou no veludo, tornando a cena ainda mais desajeitada. Consegui finalmente me equilibrar, afastando-me dois passos rápidos e ajeitando o corpete desalinhado com as mãos visivelmente trêmulas, sem coragem de encarar ninguém.
Sasuke levantou-se num movimento fluido, mas a postura impecável do Imperador estava completamente abalada. Ele ajeitou as dobras da camisa branca com uma rapidez quase desesperada, passando a mão pelo cabelo escuro numa tentativa clara de esconder o rubor forte que subia do seu colarinho até a orelha. Ele encarou o comandante com um olhar que tentava ser mortal, mas que transparecia seu absoluto embaraço.
— Kakashi. Retire-se. Agora — ordenou Sasuke, a voz grave falhando minimamente antes de recuperar o tom gélido.
— Como desejar, Majestade — respondeu Kakashi, curvando a cabeça de leve antes de dar um passo para trás, sem conseguir disfarçar um leve sorriso por baixo da máscara. — Apenas certifique-se de que a Senhorita Haruno esteja inteira para o Conselho de amanhã cedo.
A porta pesada de madeira fechou-se novamente.
O silêncio que sobrou no gabinete era denso, sufocante e carregado de um constrangimento absurdo. Evitei olhar diretamente para Sasuke. Apanhei a adaga cega do chão rapidamente, usando a tarefa para esconder o rosto corado, e a recoloquei no suporte lateral. Meu coração parecia querer rasgar meu peitoral, batendo no mesmo ritmo acelerado do dele.
Sasuke aproximou-se da mesa, limpando a garganta duas vezes. Ele apoiou as mãos na borda da madeira, respirando fundo para forçar a máscara de autocontrole de volta ao lugar, embora a chama nos seus olhos negros ainda estivesse longe de apagar.
— Bom... — começou ele, a voz um tom mais baixo do que o normal enquanto tentava focar de volta no negócio. — Agora que tem seu decreto e sua primeira lição... cumpra sua parte, Senhorita Haruno. Diga-me quem é o primeiro conspirador do meu conselho.
Ajustei a postura, erguendo o queixo e forçando-me a sustentar o olhar do Imperador, embora o calor nas minhas bochechas ainda entregasse o impacto do que acabara de acontecer entre nós.
— O homem que vendeu os segredos do seu flanco para Sasori... é o seu General do Flanco Leste, Lorde Danzo.
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