Império das Cinzas: O Nascimento da Vilã
2 Capítulo 2
— O que você disse? — perguntei, a voz falhando na garganta seca.
Pressionei os dedos contra os olhos, tentando afastar a tontura. Eu devia ter batido a cabeça com força no asfalto. Aquilo só podia ser uma alucinação provocada pelo acidente.
— Qual é o seu problema, pirralha? — a mulher deu um passo à frente, e o ruído de suas saias pesadas cortou o silêncio.
Pisquei devagar, tentando focar a visão. À minha frente, a senhora de meia-idade vestia um traje de tecido nobre, mas de tom marrom austero e fechado. Seus cabelos grisalhos estavam rigidamente presos, sem um único fio fora do lugar. Ela ostentava um sorriso pequeno e sombrio, que não alcançava seus olhos frios.
— Agradeça ao Mestre por você ter um compromisso hoje — a boca dela entortou em um trejeito de puro desdém. — Conversaremos sobre o seu comportamento mais tarde... no Poço.
Uma descarga elétrica de medo puro percorreu minha espinha, fazendo os pelos do meu braço se arrepiarem. "O Poço." Eu conhecia aquele termo. Não era um lugar qualquer; era o calabouço subterrâneo onde a família Akasuna trancava e torturava quem ousasse desobedecer.
A governanta notou minha palidez e pareceu saborear o momento.
— Vista qualquer trapo — ordenou, virando-se para a saída. — Você tem dez minutos.
A porta se fechou com um baque seco, projetando uma sombra longa pelo chão de tábuas velhas.
— Mas que diabos... — murmurei, caindo sentada na cama.
Minhas mãos tremiam. Isso é um sonho, pensei, pressionando as palmas contra as bochechas até sentir dor. Um coma induzido por trauma. É a única explicação.
Mas a dor era real. O frio que vinha da fresta da janela era real.
Olhei ao redor. O quarto era miserável: uma cama de madeira desbotada, lençóis amarelados pelo tempo, paredes de tom creme manchadas pela umidade e um lustre de cobre opaco pendendo do teto. Não havia sinal da minha mochila ou do meu livro.
Arrastei-me até o pequeno guarda-roupa de duas portas, ao lado do qual pendia um espelho oval trincado. Decidi olhar meu reflexo para me certificar de quem eu era.
O ar fugiu completamente dos meus pulmões. Levei as duas mãos à boca para sufocar o grito que subiu pela garganta.
Aproximei-me da superfície de vidro. A garota que me encarava do outro lado tinha orbes de um verde-esmeralda hipnotizante e profundo. Cabelos cor de rosa silvestre caíam em ondas suaves sobre seus ombros como uma cortina de seda. A pele era pálida, quase translúcida, e o corpo era visivelmente magro — resultado claro de anos de negligência.
Puxei uma mecha rosa com os dedos trêmulos. Senti a raiz puxar o couro cabeludo.
— Não... Mentira...
Aquela não era Mitsuko. Aquela era a descrição exata da vilã de Império das Cinzas. A garota rejeitada, manipulada e destinada a morrer nas mãos do próprio enredo.
Corri para a janela e escancarei a fresta. Do lado de fora, estendia-se um domínio colossal: jardins perfeitamente desenhados, chafarizes de mármore e árvores seculares ladeando a propriedade dos Akasunas.
— Eu renasci no corpo da Sakura... — murmurei, o coração martelando contra as costelas.
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O tilintar metálico dos talheres do homem sentado à ponta da mesa ecoava como uma sentença no imenso salão de jantar. A mesa de carvalho negro acomodaria facilmente trinta pessoas, mas apenas nós dois ocupávamos o espaço. Luzes de velas projetavam sombras dançantes e fantasmagóricas pelas paredes de pedra fria.
— Está silenciosa hoje — a voz dele veio baixa, arrastada, provocando um calafrio visceral em minha nuca.
Lentei o rosto devagar, encarando a figura que devorava sua refeição com precisão cirúrgica.
Sasori no Akasuna. Cabelos vermelhos como sangue pisado, pele alva e olhos castanhos que pareciam duas pedras sem vida. Frio. Calculista. O homem que usou a própria irmã adotiva como uma peça descartável em seu tabuleiro político.
Por que eu não renasci como a protagonista? Gritei em pensamento, sentindo uma pontada de desespero. Minha vida no Japão já tinha sido uma maratona de solidão e trabalho duro. Se era para ir para um livro, por que eu não podia ser a mocinha amada por todos? Em vez disso, eu estava na pele de Sakura Haruno — a vilã mais odiada pelos leitores.
— Não estou me sentindo muito bem — respondi, mantendo o tom de voz baixo.
Sasori parou o garfo no ar. Seus olhos inexpressivos se fixaram em mim. No livro, a verdadeira Sakura teria feito uma cena: gritado com os servos, exigido atenção e tentado arrancar qualquer reação daquele homem.
— Devo cancelar seu encontro com o Primeiro Príncipe, então? — perguntou ele, o tom desprovido de qualquer carinho fraterno.
O Primeiro Príncipe. Naruto. O protagonista masculino.
— Não — corrigi-me rapidamente, tentando disfarçar o deslize. — Pode manter, por favor.
Sasori ergueu levemente uma sobrancelha. Sakura nunca respondia com um 'por favor', muito menos a ele. Engoli o seco. Eu precisava ter mais cuidado; Sasori era um mestre em manipular pessoas e não hesitaria em me eliminar se percebesse algo errado.
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Esperei por mais de duas horas na sala de recepção do palácio. Sentada em um banco rígido de madeira, segurava entre os dedos uma xícara de chá barato trazida por uma serva real — o líquido já estava completamente frio, ostentando uma fina película amarga na superfície.
A cabeça latejava. A verdade é que Sasori tinha armado uma armadilha fria: ele me enviara sem aviso prévio, ultrapassando em horas o limite de visitas permitido pelo protocolo imperial. Ele queria forçar uma afronta à coroa, usando-me como bucha de canhão para testar a paciência da família real.
E funcionou.
A porta dupla de carvalho finalmente se escancarou com um baque que ressoou pelo teto alto.
Um homem alto, de ombros largos e postura imponente, invadiu o salão. Fios dourados e levemente desalinhados emolduravam um rosto de traços marcantes e pele bronzeada pelo sol. Olhos azul-turquesa — intensos e profundos como um céu de verão — faiscavam com fúria. O uniforme militar branco com detalhes em ouro desenhava cada músculo de seu peitoral.
Meu coração errou uma batida. O ar fugiu completamente dos meus pulmões.
Naruto...
Eu o reconheceria em qualquer lugar. Ele era o herói das minhas madrugadas. O personagem por quem passei anos suspirando, cujas ilustrações eu tocava no papel enquanto sonhava em encontrar alguém assim na vida real. Vê-lo ali, em carne e osso, fez meu peito acelerar de um jeito avassalador. Por um segundo, a fã dentro de mim quase entrou em choque diante da perfeição do protagonista.
No entanto, a carranca de profunda exaustão e irritação em seu rosto me trouxe de volta à realidade.
— O que você pensa que está fazendo aqui, Sakura? — a voz dele ressoou firme, grave, carregada de autoridade real. — A sua família acha que pode ignorar todas as regras da coroa? Aparecer sem agendamento já é um absurdo, mas vir até o palácio depois de tudo o que você aprontou na semana passada?!
Engoli em seco. A firmeza na voz dele não era de um homem mesquinho, mas de um príncipe herdando o peso de um império — e lidando com uma noiva problemática.
Ele deu passos firmes até parar a poucos metros de mim, encarando meu vestido miserável e meus cabelos desalinhados com pura perplexidade.
— Eu tentei ser paciente — continuou ele, a voz baixando para um tom perigosamente sério. — Aturei você perseguindo meus passos por cada canto da capital. Aturei você humilhando e ameaçando qualquer nobre ou serva que ousasse se aproximar de mim. Tolerei seus escândalos infantis nos bailes reais para não envergonhar a casa Akasuna... Mas vir até aqui, quebrar o protocolo e exigir minha atenção como se o mundo girasse ao seu redor? Eu cansei.
Cada frase dele caía sobre mim como uma marretada.
As memórias do livro inundaram minha mente. Ele estava certo. A verdadeira Sakura era um pesadelo de noiva. No papel, lendo do conforto do meu quarto no Japão, a obsessão da vilã parecia só um drama divertido para movimentar a história. Mas estar ali, ouvindo aquelas acusações legítimas na voz do homem que eu admirava... doeu. A humilhação queimou no meu peito. Eu estava pagando a conta por crimes que não cometi, sendo julgada como uma garota doentia e mimada.
Uma onda de rebelião e cansaço subiu pela minha garganta. Eu passei a vida inteira no mundo real engolindo sapos, baixando a cabeça para chefes e aceitando a culpa por coisas que não fiz. Não ia aceitar isso de novo. Não na pele de uma vilã condenada à morte.
Pousei a xícara de chá frio na mesa lateral. O som da porcelana estalou no silêncio.
— Você tem razão — falei, a voz saindo surpreendentemente serena.
Naruto piscou, desacostumado a ouvir qualquer concordância vinda de mim.
— O quê?
— Você tem toda a razão, Vossa Alteza — levantei-me devagar, sustentando o olhar azul-turquesa que tanto me fascinava. — A Sakura que você conhece foi egoísta, escandalosa e insuportável. Ela te sufocou e fez da sua vida um inferno.
Naruto franziu o cenho, dando um passo involuntário para trás. A guarda dele, tão erguida para uma briga, vacilou diante da minha calma.
— O que é isso? Mais um dos seus jogos? — perguntou ele, o tom desconfiado, mas com uma réstia de incerteza.
— Não é um jogo — aproximei-me o suficiente para encarar o príncipe que eu amava nos livros. — Eu finalmente entendi o peso do que fiz. E é por isso que estou poupando você de ter que tolerar minha presença pelo resto da vida.
Peguei a xícara de chá frio na mesa. Com um movimento rápido e calculated, forcei o braço contra o dele, fazendo o recipiente de porcelana despencar no chão e se estilhaçar aos nossos pés. O líquido escuro encharcou a barra do meu vestido cinzento.
— O noivado está cancelado — declarei com clareza. — A partir de hoje, você está livre de mim. Nunca mais perseguirei seus passos.
Naruto travou no lugar. Seus olhos se arregalaram em uma mistura de puro choque e estupefação. A boca dele se abriu levemente, incapaz de formular uma resposta. A garota que era louca e doentiamente apaixonada por ele, a noiva que faria qualquer absurdo para mantê-lo ao seu lado... acabou de dispensá-lo com um olhar frio e decidido.
— Você... o que você disse? — ele gaguejou, o orgulho de príncipe totalmente desmoronado pela surpresa.
— Solte-me! Por que está sendo tão cruel?! — mudei a voz instantaneamente, projetando um grito embargado de pavor bem no segundo em que as portas duplas se escancararam.
Guardas imperiais e o escolta Akasuna invadiram o salão. O soldado da minha casa arfou ao ver o príncipe imóvel, com a mão estendida em minha direção, enquanto eu estava encolhida entre os cacos de porcelana com o vestido encharcado.
— Vossa Alteza! — o guarda Akasuna interveio, posicionando-se à minha frente. — Isso será reportado ao Duque Sasori imediatamente.
Soltei um suspiro trêmulo e me recolhi atrás do guarda, mantendo a postura de vítima machucada.
Antes de cruzar as portas do salão, olhei de relance por cima do ombro. Naruto continuava parado no mesmo lugar, me encarando com os dentes trincados, os olhos faiscando em uma mistura de fúria, confusão e uma profunda perplexidade. Ele tinha sido completamente engolido pelo meu golpe.
Apertei as mãos contra o tecido do vestido ao sair para a brisa fria do palácio. O noivado que me levaria à morte no livro estava cancelado... mas a expressão no rosto do futuro Imperador deixava claro que aquela não seria a última vez que nos veríamos.
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