​​O silêncio que se seguiu à queda da muralha de areia e cristais era pesado, cortado apenas pelo eco do vento uivando nas fendas do Vale. A poeira dourada e os fragmentos de cristal começaram a baixar lentamente, revelando a vastidão da cratera que eu acabara de abrir.

​No segundo em que o poder do bracelete se dissipou, meu corpo despencou. O baque daquela magia desabou sobre mim como uma avalanche física: minhas pernas cederam de vez e eu desabei de joelhos na poeira gélida. Um zumbido ensurdecedor travou nos meus ouvidos e a visão fechou-se em um túnel escuro. Um gosto metálico e quente inundou minha boca; virei o rosto, tossindo com violência enquanto um filete de sangue escuro escorria pelo meu nariz e pingava no chão rochoso.

​A respiração rasgava minha garganta em chiados curtos. Cada fibra do meu corpo parecia em chamas, consumida por uma exaustão avassaladora. Era a primeira vez. O preço de usar o Selo de Jade — de flertar com a morte com a certeza de que restavam apenas mais dois usos antes de o meu próprio coração parar para sempre — cobrava seu tributo de forma cruel.

​Antes que eu desmaiasse de vez com o rosto na terra, passos arrastados romperam o silêncio.

​Era Sasuke. Ele mal conseguia se manter em pé, com os músculos ainda convulsionando pelos efeitos residuais do veneno de Sasori. Ignorando o sangue que escorria denso de seus cortes e a própria dor lancinante, ele se projetou para a frente com urgência, desabando de joelhos ao meu lado para me segurar antes que eu desmoronasse.

​— Sakura... — a voz dele saiu sufocada, trêmula de esforço e puro pânico. Os olhos negros e arregalados fixaram-se no meu rosto pálido e no sangue que manchava meu nariz.

​Mas o horror em seu olhar aprofundou-se quando ele desviou a atenção para o meu braço direito.

​Onde antes o brilho verde-esmeralda pulsava com intensidade, a pele exibia agora uma marca aterrorizante. As veias do meu antebraço não haviam voltado ao normal; estavam totalmente negras, grossas e vincadas sob a pele pálida, parecendo trechos de raízes mortas cravadas definitivamente em carne viva.

​— O seu braço... — Sasuke murmurou, a respiração cortada, em um misto de incredulidade e reverência dolorosa diante daquela ferida imortal.

​Tremendo da cabeça aos pés, levei a mão esquerda até o antebraço direito, os dedos roçando com repulsa aquelas linhas escuras que pareciam queimar em brasa fria. Uma cicatriz invisível tornada visível. Uma contagem regressiva cravada na minha própria carne.

​Ao ver aquelas marcas, o maxilar de Sasuke tencionou em uma irritação profunda. Eu conhecia bem aquele olhar: era a mesma reprovação gélida das catacumbas, a certeza de que eu ainda não estava sendo honesta. A lembrança latente de que o preço pago pelo meu passado não havia sido apenas a perda das memórias, mas algo muito mais sombrio. Pelo modo como travou a mandíbula, ele parecia convicto de que eu escondia um segredo catastrófico.

​— Sakura... — ele sibilou entre dentes, a voz grave carregando uma urgência angustiada. — O que mais você está escondendo? Que tipo de preço você realmente concordou em pagar?

​A poucos metros, Gaara apoiou-se em uma estaca de cristal quebrada para se levantar. O lorde do deserto sacudiu a areia dos ombros, respirando fundo enquanto o ar limpo voltava a encher seus pulmões. Ele olhou para a cratera onde Sasori jazia sepultado, depois desviou os olhos de jade para a tensão evidente entre mim e Sasuke, fixando-se por fim nas veias negras do meu braço. A seriedade em seu rosto endureceu.

​— Guarde as perguntas para depois, Uchiha — Gaara interveio com voz firme, cortando o ar com autoridade, os olhos cerrados em advertência. — Ela acabou de salvar nossas vidas.

​Antes que Sasuke pudesse retrucar, ergui o rosto ensanguentado, forcei um sorriso torto através da exaustão e encarei o par de orbes ônix:

​— E aí... — sussurrei, a voz fraca, carregando o eco da nossa última conversa tensa no palácio. — Eu provei o meu valor?

​Sasuke retesou o corpo, e um rascunho de sorriso amargo formou-se no canto de sua boca.

​— Você é realmente irritante.

​Então, um som rascante e metálico cortou o silêncio da cratera.

​Um rastro finíssimo de poeira abriu-se no meio dos escombros onde Sasori havia sido soterrado. Dali, rompendo a terra com um movimento sinuoso, emergiu uma pequena aranha mecânica, de engrenagens reluzentes e pernas articuladas. Ela disparou com velocidade pelo chão rochoso, subindo agilmente em direção ao cume da formação rochosa mais alta do vale.

​No topo daquela muralha de cristal, recortado contra o cinza do céu tempestuoso, um vulto imponente erguia-se coberto por um manto vermelho-sangue que chicoteava com o vento. A aranha escalou a rocha e parou obediente aos pés daquela figura.

​Lentamente, o indivíduo ergueu a mão enluvada, puxando o tecido pesado para trás. O capuz caiu, revelando fios loiros rebeldes e o par de olhos azuis mais frios e calculadores do que eu me lembrava.

​O Primeiro Príncipe do Império do Sul.

​Ele nos encarou do alto por um instante eterno, absorvendo a cena de destruição, o sangue no meu rosto e as veias negras na minha pele. Por uma fração de segundo, o cenho franzido de Naruto traiu uma surpresa genuína — aquela não era a garota dócil ou acuada que ele conhecera no palácio, cujos passos eram rigidamente manipulados por Sasori.

​Contudo, a perplexidade durou pouco, dissolvendo-se rapidamente em um brilho de interesse faiscante e perigoso em seus olhos azuis. Um sorriso de canto, venenoso e fascinado, curvou-lhe os lábios.

​— Então... é aqui que a minha noiva fugitiva veio parar? — Ele meneou a cabeça, a voz carregando um divertimento sutil e aterrorizante, avaliando cada centímetro daquele poder recém-descoberto. — Eu admito... você conseguiu me surpreender, Sakura. E eu odeio ficar entediado... Voltei para te buscar.

​Meu estômago despencou. O cansaço extremo tentava apagar minha consciência, mas o pavor de ouvir aquelas palavras manteve meus olhos abertos à força.

​Antes que o eco da voz dele morresse no vento, a fúria estalou em Sasuke. Ignorando a queimação do veneno correndo por suas veias, o Uchiha tencionou os músculos restantes, erguendo-se trêmulo e sacando a espada com um ímpeto assassino.

​Mas já era tarde. Com um estalar de dedos do Primeiro Príncipe, um redemoinho de chamas rubras irrompeu ao redor dele, engolindo-o em um clarão abrasador. Quando o fogo se dissipou segundos depois, o topo da montanha estava vazio, deixando apenas o cheiro de fumaça e ozônio no ar.

​O pesadelo não tinha acabado. Ele só estava começando.

Notas finais
Aos leitores de longa data e aos que acabaram de chegar: Sejam muito bem-vindos ao Livro 2 de Império das Cinzas! ✨ ​Se você caiu de paraquedas por aqui, não se preocupe: deixei o link do Livro 1 no finalzinho para ajudar todo mundo a se situar (ou para quem quiser matar a saudade e reler, kkk). ​Sendo bem sincera, eu nunca imaginei que a história tomaria esse rumo... mas olhem onde estamos! E preparem-se, porque, como autora, eu posso afirmar: nós estamos apenas no começo. ​Aqui não tem previsibilidade, não tem rota comum e o sofrimento vem com brindes surpresas, kkk! ​Ah, e sobre a capa... Gente, eu aaaaamei demais o resultado! A do Livro 1 continua tendo um espacinho especial no meu coração, então ela vai ficar firme e forte por lá. ​Deixem seus comentários: preparados para essa nova jornada? Até a próxima atualização! 🔥 Link do Livro 1: https://plusfict.io/n9GHVH (Ou acessem o livro diretamente no meu perfil ❤️)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.