Império das Cinzas: A Ascensão Sombria
1 Capítulo 1 - Prólogo
O silêncio que se seguiu à queda da muralha de areia e cristais era pesado, cortado apenas pelo eco do vento uivando nas fendas do Vale. A poeira dourada e os fragmentos de cristal começaram a baixar lentamente, revelando a vastidão da cratera que eu acabara de abrir.
No segundo em que o poder do bracelete se dissipou, meu corpo despencou. O baque daquela magia desabou sobre mim como uma avalanche física: minhas pernas cederam de vez e eu desabei de joelhos na poeira gélida. Um zumbido ensurdecedor travou nos meus ouvidos e a visão fechou-se em um túnel escuro. Um gosto metálico e quente inundou minha boca; virei o rosto, tossindo com violência enquanto um filete de sangue escuro escorria pelo meu nariz e pingava no chão rochoso.
A respiração rasgava minha garganta em chiados curtos. Cada fibra do meu corpo parecia em chamas, consumida por uma exaustão avassaladora. Era a primeira vez. O preço de usar o Selo de Jade — de flertar com a morte com a certeza de que restavam apenas mais dois usos antes de o meu próprio coração parar para sempre — cobrava seu tributo de forma cruel.
Antes que eu desmaiasse de vez com o rosto na terra, passos arrastados romperam o silêncio.
Era Sasuke. Ele mal conseguia se manter em pé, com os músculos ainda convulsionando pelos efeitos residuais do veneno de Sasori. Ignorando o sangue que escorria denso de seus cortes e a própria dor lancinante, ele se projetou para a frente com urgência, desabando de joelhos ao meu lado para me segurar antes que eu desmoronasse.
— Sakura... — a voz dele saiu sufocada, trêmula de esforço e puro pânico. Os olhos negros e arregalados fixaram-se no meu rosto pálido e no sangue que manchava meu nariz.
Mas o horror em seu olhar aprofundou-se quando ele desviou a atenção para o meu braço direito.
Onde antes o brilho verde-esmeralda pulsava com intensidade, a pele exibia agora uma marca aterrorizante. As veias do meu antebraço não haviam voltado ao normal; estavam totalmente negras, grossas e vincadas sob a pele pálida, parecendo trechos de raízes mortas cravadas definitivamente em carne viva.
— O seu braço... — Sasuke murmurou, a respiração cortada, em um misto de incredulidade e reverência dolorosa diante daquela ferida imortal.
Tremendo da cabeça aos pés, levei a mão esquerda até o antebraço direito, os dedos roçando com repulsa aquelas linhas escuras que pareciam queimar em brasa fria. Uma cicatriz invisível tornada visível. Uma contagem regressiva cravada na minha própria carne.
Ao ver aquelas marcas, o maxilar de Sasuke tencionou em uma irritação profunda. Eu conhecia bem aquele olhar: era a mesma reprovação gélida das catacumbas, a certeza de que eu ainda não estava sendo honesta. A lembrança latente de que o preço pago pelo meu passado não havia sido apenas a perda das memórias, mas algo muito mais sombrio. Pelo modo como travou a mandíbula, ele parecia convicto de que eu escondia um segredo catastrófico.
— Sakura... — ele sibilou entre dentes, a voz grave carregando uma urgência angustiada. — O que mais você está escondendo? Que tipo de preço você realmente concordou em pagar?
A poucos metros, Gaara apoiou-se em uma estaca de cristal quebrada para se levantar. O lorde do deserto sacudiu a areia dos ombros, respirando fundo enquanto o ar limpo voltava a encher seus pulmões. Ele olhou para a cratera onde Sasori jazia sepultado, depois desviou os olhos de jade para a tensão evidente entre mim e Sasuke, fixando-se por fim nas veias negras do meu braço. A seriedade em seu rosto endureceu.
— Guarde as perguntas para depois, Uchiha — Gaara interveio com voz firme, cortando o ar com autoridade, os olhos cerrados em advertência. — Ela acabou de salvar nossas vidas.
Antes que Sasuke pudesse retrucar, ergui o rosto ensanguentado, forcei um sorriso torto através da exaustão e encarei o par de orbes ônix:
— E aí... — sussurrei, a voz fraca, carregando o eco da nossa última conversa tensa no palácio. — Eu provei o meu valor?
Sasuke retesou o corpo, e um rascunho de sorriso amargo formou-se no canto de sua boca.
— Você é realmente irritante.
Então, um som rascante e metálico cortou o silêncio da cratera.
Um rastro finíssimo de poeira abriu-se no meio dos escombros onde Sasori havia sido soterrado. Dali, rompendo a terra com um movimento sinuoso, emergiu uma pequena aranha mecânica, de engrenagens reluzentes e pernas articuladas. Ela disparou com velocidade pelo chão rochoso, subindo agilmente em direção ao cume da formação rochosa mais alta do vale.
No topo daquela muralha de cristal, recortado contra o cinza do céu tempestuoso, um vulto imponente erguia-se coberto por um manto vermelho-sangue que chicoteava com o vento. A aranha escalou a rocha e parou obediente aos pés daquela figura.
Lentamente, o indivíduo ergueu a mão enluvada, puxando o tecido pesado para trás. O capuz caiu, revelando fios loiros rebeldes e o par de olhos azuis mais frios e calculadores do que eu me lembrava.
O Primeiro Príncipe do Império do Sul.
Ele nos encarou do alto por um instante eterno, absorvendo a cena de destruição, o sangue no meu rosto e as veias negras na minha pele. Por uma fração de segundo, o cenho franzido de Naruto traiu uma surpresa genuína — aquela não era a garota dócil ou acuada que ele conhecera no palácio, cujos passos eram rigidamente manipulados por Sasori.
Contudo, a perplexidade durou pouco, dissolvendo-se rapidamente em um brilho de interesse faiscante e perigoso em seus olhos azuis. Um sorriso de canto, venenoso e fascinado, curvou-lhe os lábios.
— Então... é aqui que a minha noiva fugitiva veio parar? — Ele meneou a cabeça, a voz carregando um divertimento sutil e aterrorizante, avaliando cada centímetro daquele poder recém-descoberto. — Eu admito... você conseguiu me surpreender, Sakura. E eu odeio ficar entediado... Voltei para te buscar.
Meu estômago despencou. O cansaço extremo tentava apagar minha consciência, mas o pavor de ouvir aquelas palavras manteve meus olhos abertos à força.
Antes que o eco da voz dele morresse no vento, a fúria estalou em Sasuke. Ignorando a queimação do veneno correndo por suas veias, o Uchiha tencionou os músculos restantes, erguendo-se trêmulo e sacando a espada com um ímpeto assassino.
Mas já era tarde. Com um estalar de dedos do Primeiro Príncipe, um redemoinho de chamas rubras irrompeu ao redor dele, engolindo-o em um clarão abrasador. Quando o fogo se dissipou segundos depois, o topo da montanha estava vazio, deixando apenas o cheiro de fumaça e ozônio no ar.
O pesadelo não tinha acabado. Ele só estava começando.
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