Imortalidade
1 Os três estágios da imortalidade.
1. Rindo da Morte
A primeira vez em que Ercnard Sieghart ficou de frente com a morte ele estava apavorado.
Seu corpo jogado em algum lugar deserto, machucado e fraco. O pavor de ver a sua vida escorrendo de si lentamente o dominava e o entorpecia, mas um pequeno grupo vestido de preto e dourado o encontrou e cuidou de seus ferimentos. Essa foi a primeira vez em que ele morreu.
Na segunda vez em que ele morreu foi vendo as chamas que consumiam o esconderijo dos Highlanders, as labaredas queimavam sua pele enquanto tentava salvar seus irmãos de armas dos destroços do que um dia ele chamou de lar — o desespero que ele sentiu foi tão grande quanto o da primeira vez e ele desejou realmente morrer.
Na terceira vez ele estava menos assustado, então ele riu enquanto a sensação familiar preenchia todo o seu corpo e nublava a sua mente. Era só uma questão de tempo até ele acordar novamente.
Na quarta vez ele riu enquanto sua cabeça era decapitada de seu corpo.
Na vigésima vez ele não estava rindo. Ele já teve o bastante.
2. Nunca Termina
Sieghart costumava se perguntar como seria ser um imortal, quando ele ainda era apenas um jovem soldado ingênuo em busca de glória e reconhecimento. Ele imaginou como seria viver linearmente, dia após dia, ano após ano, sem se preocupar com a morte. Sem ter medo de entrar no campo de batalha.
(Ele não precisa mais imaginar.)
Agora ele imagina como seria morrer e não voltar mais, se existe alguma coisa do outro lado ou apenas a escuridão eterna. Um sono pacifico ou se seria atormentado pelos seus demônios pessoais.
Ele imagina se tirar a própria vida funcionaria, mas não se atreve a tentar — apenas no caso de realmente dar certo.
Então ele vive e sofre, dia após dia, ano após ano, década após década, século após século. Não existe fim.
3. Tempo
21.990 dias. 600 anos. 60 décadas. 6 séculos.
É uma quantidade de tempo inconcebível, mas Sieghart viveu isso.
O desespero em tentar entender o deixou louco em diversos momentos, às vezes por décadas, mas então ele morre de alguma forma e volta são — isso o levou a tomar decisões drásticas apenas para conseguir acalmar sua mente perturbada e ter um pouco de paz, mas era momentâneo. Tudo era momentâneo.
Ele ri quando se lembra de como era difícil no início; um riso cansado e sem vida.
Ele não tem escolha. Não há nada que ele possa fazer a não ser viver um dia de cada vez. Eternamente. Ele vai estar de pé quando todos ao seu redor não passarem de memórias em sua mente. Ele vai estar de pé quando a guerra que acabará com todas as espécies acontecer. Ele vai ver o mundo morrer aos poucos, ser despedaçado e então reduzido a ruínas.
Ele vai estar de pé quando não houver mais ar para respirar. Ele vai morrer, e então ele voltará e morrerá novamente. Ele sempre volta e isso nunca vai mudar. Nunca vai acabar.
É inconcebível, mas Sieghart tem tempo para tentar compreender.
Tempo é tudo o que ele tem.
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