Imortal
1 Manhã Cinzenta
Notas iniciais
Acordei encharcado novamente. Outro pesadelo, como de costume. Levantei-me, respirando profundamente e sentindo o cansaço imensurável corroendo meus ossos. Girei a maçaneta, abrindo a ruidosa e velha porta reclamona de madeira e adentrei o banheiro tornando a olhar minha aparência. Estava horrível. O rosto estava magro e pálido, destacando minhas olheiras.
Abrindo a torneira, fiz a água gelada entrar em contato com meu rosto. Puxei com cuidado a portinhola que revelava um pequeno depósito de remédios controlados que há tempos eu já não enxergava motivos para me viciar. Olhava para eles algumas vezes durante o dia, sempre me perguntando quando é que tomaria coragem. A ideia de uma superdosagem me parecia mais conveniente a cada dia.
Me dirigi até a cozinha e contemplei o caos por alguns instantes. A satisfação pessoal de manter o ambiente limpo e organizado não faria mais diferença pra ninguém. Liguei a cafeteira numa tentativa falha de animar-me com o café.
De pé no meio do cômodo, lembrei-me da paz indescritível que sentia ao seu lado, até mesmo nas exaustivas e frenéticas correrias do cotidiano. Todos os dias, sentava-se ao meu lado enquanto tomava café e eu a observava atento, registrando cada detalhe de sua beleza em minha mente como se fosse a primeira vez.
Apertei o peito, sentindo minhas entranhas se remexerem. Eu estava me tornando uma ruína, sendo corrompido pelo tempo e, principalmente, pela saudade.
Ela não gostaria que fosse assim.
Peguei uma jaqueta antiga e em um de seus bolsos coloquei uma caneta e um pequeno e velho bloco de anotações. Há alguns anos, eu certamente levaria minha querida carabina, porém não tenho mais motivo para ter medo de morrer.
Abri a porta e, mais uma vez, percebi que a cidade se encontrava vazia, cinza e tão miserável quanto meu ser. Não havia uma única pessoa que se atreveria a sair de casa desde que o vírus acabara com o restante do que chamávamos de felicidade.
A praga destruía qualquer senso de humanidade daqueles que eram infectados e o mundo vivenciava um grande banho de sangue e luta pela sobrevivência. Nós os chamávamos de Rastejantes.
Trabalhávamos junto de uma equipe do governo cujo objetivo único era exterminar a doença. Recebemos, no meio da noite, uma ligação de um colega de trabalho dizendo precisar de ajuda pra testar mais uma possível cura. Fomos com urgência para o laboratório, cientes de que essa poderia ser só mais uma das inúmeras vezes que chegamos perto disso.
Auxiliava a equipe a carregar com cuidado os contêineres inflamáveis para a ala de testes quando três daquelas criaturas apareceram e ela se sacrificou.
A última expressão que pude ver de minha querida Alice foi o seu doce e perfeito sorriso de pureza incorruptível. Junto dela, foi-se meu motivo de viver e meu mundo voltou a ser preto e branco. O buraco em meu peito abria-se mais e mais todas as vezes que eu me deixava ser assombrado pelos fantasmas de tudo que nunca lhe disse.
Chacoalhei minha cabeça numa tentativa boba de esquecer o ocorrido, sabendo que essas visões nunca vão me abandonar. Estava andando em direção a um penhasco que antes fora um lugar muito querido para mim. Sentia o sol levemente aquecendo minhas costas, me trazendo uma sensação quase confortável.
Há alguns anos atrás, queimamos os corpos que jaziam pela cidade temendo que o vírus os reanimassem, mas todo o sangue ainda estava por aqui. Raramente havia um deles caçando pelo local. Todas as almas vivas e saudáveis estavam trancafiadas em casa, tremendo como ratos.
Sentei-me num banquinho branco que mais parecia uma obra de arte com todos os respingos sangue cor de ferrugem. Fazia isso todas as manhãs, me perdendo entre as memórias enquanto sentia o ar frio e o cheiro putrefato que podia ser encontrado por toda a cidade.
Fechei meus olhos e suspirei. O lugar onde pedi sua mão numa bela e estrelada noite de meia lua como naquela famosa tela cujo nome do autor já não importa mais.
Em meio aos devaneios, escutei algo e virei sem pressa minha cabeça.
Mal podia acreditar no que meus olhos estavam vendo.
Uma miragem? Levantei-me alarmado.
Sua pele estava pálida, esverdeada e seus olhos cor de mel haviam perdido o brilho assim como suas madeixas douradas que agora eram de um amarelo opaco com respingos avermelhados. Ainda estava vestida exatamente como da última vez que eu havia admirado sua beleza, embora agora suas roupas mais se pareçam com as vestes ensanguentadas de um açougueiro. De longe, era possível notar que a vida havia abandonado seus olhos.
Olhava fixamente para mim enquanto cambaleava em minha direção. Estava tão extasiado por tê-la comigo depois de tantos anos que não reagi quando ela cravou seus longos e afiados caninos desumanos em meu pescoço. Não sentia dor alguma. Ela nos conduzia lentamente para o abismo e eu sabia a que fim isso nos levaria.
Eu sempre a dizia que não conseguiria viver sem ela.
E não vou.
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