Imortais: sombras da guerra

1 Um mistério e um problema


Muito próximo do fim da tarde um cavaleiro vagava solitário pelas terras de um reino qualquer, um pouco mais a frente desse cavaleiro havia um pequeno vilarejo, mas estava muito movimentado e guardas corriam de lá pra cá se assegurando de que o local estaria seguro. Um pouco mais de uma hora se passou e o cavaleiro chegou no local, haviam cerca de quinze corpos espalhados pela praça da vila, todos mutilados, uns sem pernas, outros sem braços e cabeças, não sabia dizer qual membro era de quem, ele desmontou e se aproximou de um aldeão que observava a cena.

— Oi, tio — disse ele — o que aconteceu aqui?

— Algo terrível, jovem viajante — respondeu o senhor — uma besta gigantesca veio correndo de repente e atacou nossa vila, destruiu casas e matou várias pessoas, ele estava comendo elas vivas, esses aí que você vê são os sortudos que não acabaram sendo comidos por inteiro.

"Sortudos, é?" pensou ele caminhando na direção dos corpos, observando as marcas e o jeito como os membros foram arrancados, abaixou-se perto do cadáver sem braço de uma garota que aparentava ter pouco mais de onze anos e inspecionou o local onde o membro foi arrancado. Enquanto observava um soldado se aproximou dele e falou:

— Senhor, poderia se afastar? Estamos isolando a área, não queremos que ninguém atrapalhe até que chegue um especialista em... em... — o guarda pareceu não saber dizer de que seria o especialista até que falou — em monstros.

— Então não precisa esperar mais — respondeu o cavaleiro enquanto se levantava — sou um caçador de monstros da ordem da muralha das estações, quem é o responsável pelo comando dessas tropas?

— Eu — disse uma voz vinda de traz do soldado — sou Sir Gain, Joshua Gain. E você quem seria? — Sir Gain era jovem, aparentava ter pouco mais de vinte anos, tinha um cabelo loiro curto, olhos azuis e era um pouco alto, mas não muito. Ele usava uma armadura simples de ferro com um urso em pé no peitoral, claramente a bandeira daquele reino.

— Meu nome é Elam, Elam Loughs... — disse o cavaleiro, esse que já aparentava ser um pouco mais velho com quase trinta, tinha o cabelo preto, olhos castanhos e era um pouco mais baixo que Sir Gain, usava uma armadura leve de couro completa com uma capa de lã preta — Não precisa ser nenhum mestre na arte da adivinhação pra saber que foi um baldor que matou essas pessoas.

Sir Gain pareceu confuso no início mas depois de ouvir a explicação de Elam sobre a enorme distância do reino dele e do território dos baldors ele começou a compartilhar a mesma preocupação.

— Se é verdade que eles vivem tão longe daqui, não existe algum evento que faça com que eles tenham que passar por aqui para... não sei, algum evento migratório talvez — disse Sir Gain.

Elam levantou a cabeça na mesma hora e olhou para Sir Gain com um sorriso na cara, então correu até seu cavalo e pegou um mapa e o abriu na frente de Sir Gain.

— Você é um gênio — disse Elam enquanto apontava para um reino vizinho ao que ele estava agora — aqui fica Fainshill, é aqui que os baldors ficam nessa época do ano, quando é verão, no inverno eles migram para Southgran, aqui — disse apontando para outro reino no mapa — mas eles nunca passaram por Northrend antes, eles contornavam as cordilheiras brancas, nunca entraram nesse reino — continuou apontando para a cadeia de montanhas de Northrend, o reino que eles se encontravam — deve ter acontecido alguma coisa para mudar a rota deles pra cá, Northrend sempre tem o inverno mais longo, ele começa mais cedo e termina mais tarde, por isso o baldors evitam aqui, eles odeiam o frio, tenho duas hipóteses — disse ele guardando o mapa — a primeira é que eles se atrasaram e agora querem pegar um atalho passando por aqui ou algum outro grupo de monstros os assustou pra cá, fazendo com que eles dessem essa volta tão grande.

— Mas que tipo de criaturas poderiam ser essas que assustaram uma besta tão grande e assustadora assim? — perguntou Sir Gain — os aldeões dizem que ele tinha mais de oito metros de altura.

— Isso não é impossível — respondeu Elam — mas muitos baldors não passam dos cinco metros, eles morrem antes de ficarem desse tamanho, se esse que eles viram era tão grande assim, temo que seja um ancião, líder de um grupo de baldors, se for, cadê o resto? Se não passaram por aqui, então pra onde eles foram?

Quando Elam terminou de falar, um grande rugido foi ouvido ao fundo e uma criatura furiosa veio correndo na direção da vila, todos os aldeões entraram em pânico e saíram correndo enquanto os guardas se preparavam, Sir Gain sacou sua espada e começou a gritar ordens para os soldados. Elam foi até seu cavalo, pegou sua espada, sua besta, algumas flechas e uns cilindros de madeira estranhos e seguiu na direção dos homens que estavam se preparando para a luta.

— Só vou dizer isso uma vez — gritou Elam — baldors tem medo de fogo, tragam umas tochas rápido!

— Ouviram o homem! — disse Sir Gain — achem algumas tochas rápido!

A noite já se aproximava e os poucos raios de sol que sobravam iam desaparecendo um por um, quando todos os soldados se enfileiraram com suas espadas, lanças e arcos na mão, a besta chegou rugindo ainda mais alto, uma criatura cinza escura com pernas minúsculas e com braços que eram três vezes maiores que suas pernas, sem dúvidas era um baldor, tinha aproximadamente seis metros de altura e quando chegou na vila ele golpeou uma casa com seu longo braço fazendo com que os destroços voassem nos guardas quebrando assim a formação, o primeiro homem a partir pra cima dele atacou a besta com uma lança e essa atingiu a perna esquerda do baldor, fazendo com que ele ficasse ainda mais furioso, depois disso a criatura golpeou o homem com tanta força que fez ele voar até a outra ponta da vila como se não pesasse nada. Elam avançou contra a criatura disparando uma flecha em seu rosto que acertou em cheio, depois ele atirou a besta para o lado e sacou sua espada, golpeando a barriga da criatura e depois seu flanco direito, abrindo feridas profundas de onde um sangue negro saia, o monstro tentou, sem sucesso, golpear Elam, mas ele era mais rápido e conseguiu desviar dos golpes facilmente e golpear o monstro muitas outas vezes até que ele se afastou da besta.

— Só isso não é o suficiente — gritou Elam — assustem ele com o fogo, temos que atingir suas partes mais sensíveis, as juntas das pernas e o pescoço — gritou enquanto desviava de mais um golpe e pegava um dos cilindros de madeira, ele puxou um pequeno fio que rapidamente acendeu no fogo de uma tocha que um soldado carregava e jogou na criatura — se liga, isso vai ser um estouro! Literalmente! — gritou Elam e então o cilindro explodiu na cara do baldor, fazendo com que perdesse o equilíbrio e caísse, no mesmo instante Elam correu e pulou no peito da criatura e cravou sua lâmina no pescoço do gigante cinza fazendo ele urrar uma última vez quando a espada foi tão fundo que atravessou o outro lado — e é assim... que se mata um baldor — gritou Elam enquanto caia, cansado — vocês não fizeram merda nenhuma, seus inúteis! — gritou ele enquanto se levantava para recuperar a espada.

— Assim você me ofende — respondeu Sir Gain — mas devo admitir, fomos inúteis, muito obrigado mesmo, senhor Elam, pela sua ajuda.

— Isso não foi de graça — respondeu Elam enquanto limpava a lâmina — umas trinta moedas de ouro deve dar, já que ele nem era tão perigoso assim.

— Um golpe dele e você voava longe como aquele homem de antes... falando nisso, vão lá checar se ele está bem — disse Gain para alguns de seus homens, o resto de vocês, montem vigia ao redor do vilarejo, pode haver mais baldors pela região, fiquem atentos!

— Se ele não me acerta, não me machuca, sei muito bem como é aquele tipo, era jovem, cheio de energia, atacava de qualquer jeito, sem medo de esconder seus movimentos, era como se ele me dissesse aonde ia atacar, devia ter cerca de uns doze anos, a época em que eles ficam mais energéticos. Mas mesmo assim, não sei dizer por que ele estava sozinho, baldors andam em grupos, sempre foi assim. — Elam fez uma pequena pausa e recuperou a besta no chão — você vai me pagar, faz parte do trabalho.

— Faz parte do trabalho roubar dinheiro de aldeões pobres?

— É o rei quem paga um caçador de monstros, sempre foi, está nas regras, vamos até o castelo de seu rei e contar a situação, sem dúvida ele irá entender. Mas, eu não sei onde fica, será que o nobre cavaleiro poderia me mostrar o caminho? — Disse Elam com voz zombeteira.

Gain deu um leve sorriso e caminhou até onde estava o soldado que havia sido arremessado, o golpe foi tão forte que quebrou quase todos os ossos do corpo dele, estava morto, depois disso o sorriso de Gain desapareceu.

— Te levo lá — disse ele — quer partir hoje? Ou prefere esperar?

— Já anoiteceu, mas outro baldor pode aparecer, vamos esperar, partiremos amanhã ao nascer do sol — respondeu Elam levando seu cavalo para um estábulo — seria bom comer alguma coisa agora.

— Meus homens irão providenciar isso — disse Gain enquanto se virava e ia até um cavaleiro — avise a vossa majestade o que houve aqui, e também que iremos sair amanhã cedo.

A noite passou sem mais acidentes, Gain dormiu na casa de um de seus soldado enquanto Elam ficou em uma pousada. Logo nos primeiros raios do sol da manhã ambos estavam começando sua cavalgada para o a capital de Northrend, a Fortaleza Negra, um castelo feito de um misto de magia e trabalho braçal, todas as muralhas e torres eram negras pois eram feitas de obsidiana, um dos metais mais poderosos de todos os reinos, levou aproximadamente cinco horas para se chegar no castelo, quando se aproximaram dirigiram-se direto para os aposentos reais.

— É o seguinte, eu chego, falo com seu rei e saio daqui, tenho que reportar a muralha o mais rápido o possível, esse evento com os baldors é muito incomum — disse Elam enquanto entrava na câmara real.

— Que rei? — preguntou uma voz feminina ao fundo — Que eu saiba, tanto Northrend quanto Fortaleza Negra são governados por uma mulher.

Gain rapidamente se virou e se curvou para a mulher, Elam observou ela e percebeu que ela estava usando uma coroa, e de fato não tinha nenhum homem lá.

— Minha senhora, Elyse — disse Sir Gain — me apresento perante você para tratar da recompensa do senhor Elam Loughs.

— Para com isso Joshua, não precisa ser tão formal comigo, somos amigos de infância não é? — a rainha, uma bela mulher de cabelos loiros como o sol e olhos verdes, virou-se para Elam — você derrotou aquele monstro? Não aparenta ser tão forte assim.

— Certamente não foram seus soldados, não quero ofende-la senhora, mas, eles não são lá grande coisa — disse Elam enquanto fazia uma curta reverência — Como este foi um serviço rápido e fácil, não é mentira dizer que trinta moedas de ouro serão mais que o suficiente.

— Então Joshua, o que ele diz é verdade? — perguntou a rainha se virando para olha-lo de perto — você e seus cavaleiros não fizeram nada?

— Infelizmente, tudo que pudemos fazer foi ficar olhando enquanto ele derrotava o monstro.

— Você ouviu — disse Elam- eles não fizeram nada.

— Trinta moedas de ouro, como o senhor mesmo disse, sir Elam, vá busca-las sim? — disse a rainha para um dos criados no cômodo — o que pretende fazer agora?

— Como eu disse antes, tenho que reportar essa situação para a muralha, uma coisa dessas é muito incomum, talvez possam haver pessoas brincando com magia arcana por aí de novo, e isso está fazendo com que os animais hajam estranho.

— Magia arcana? — perguntou Joshua enquanto olhava para Elam — isso foi proibido desde que...

— Desde que o mundo foi quase destruído trezentos anos atrás — interrompeu Elam- sim, mas podem haver pessoas que não seguem as regras.

Quando o criado voltou com o dinheiro, Elam pegou a bolsa e contou rapidamente, após um curto período de tempo, ele se virou para a rainha, fez uma reverência e saiu pela porta.