Immortals: O Livro da Magia

11 Uma provação inesperada


Com o choque, os livros caíram dos braços de Maxine.

― Professor... O que... o que está fazendo...

― Quieta! – Ele afundou ainda mais a varinha no pescoço dela. Max engoliu em seco – Como meu mestre disse, você pode ser útil, portanto fique quieta antes que ele mude de ideia.

― Eu... como posso ser útil...?

Mas o Prof. Quirrel já a conduzia escada acima. Maxine não conseguia se mexer, não conseguia reagir. Ele a arrastava, e ela não conseguia sequer mover os braços. Feitiço do corpo preso... Mas porque a levar? Porque se importar com ela? Antes que pudesse ligar os fatos, estavam de frente a uma grande porta de madeira, e o professor já abria a porta, jogando-a para dentro.

Max respirou fundo. Diante dele estava um cão de três cabeças, pronto para devorá-la.

Mas que final épico, cantariam baladas sobre a morte dela por eras.

A pobre garota burra que andava sozinha no castelo, foi encurralada por um professor e oferecida de alimento ao Cérberos. Céus, ela conseguia imaginar a cara de felicidade de Parkinson ao descobrir de sua morte. Ela nem sequer conseguiria lutar por sua vida. Era ridículo, ela morreria da forma mais ridícula possível. Fechou os olhos ao ver as enormes bocarras prontas para desmantela-la, mas um som ecoou pelo ambiente.

Max abriu apenas um dos olhos. O cachorrão agora dormia, ninado pela flauta do Prof. Quirrel, que abriu a porta de um alçapão, e a jogou dentro. Com um baque surdo, Max caiu sobre alguma coisa macia, sentindo os movimentos voltarem pouco a pouco. Ela sentiu apalpou com as mãos dificilmente se movendo, e sentiu o corpo do professor cair ao seu lado e se remexer rapidamente, para chegar às paredes do fundo. No momento em que fez isso, a planta mudou.

― Pare, pare! – Max gritou, as gavinhas se enroscando em suas pernas como trepadeiras – Está nos afundando, pare!

― CALADA! – As duas vozes gritaram para ela.

― É visgo do diabo! Pare!

O Professor olhou para ela, atônito e parou. Ele sacou a varinha e lançou fogo na planta, que se encolheu e os soltou. Max caiu no chão em um baque surdo, o corpo dolorido com o aperto sufocante da planta. A Profa. Sprout tinha um péssimo senso de humor. Levantando-se com dificuldade, mal teve tempo de se mexer antes de Quirrell apontar a varinha para ela, acenando com outra varinha nas mãos; a varinha dela.

Quando ele a pegou?

― Caso se mexa, morrerá antes que possa perceber o que está acontecendo.

Max assentiu e ele a cutucou para que ela fosse em frente. Ela obedeceu quieta, e escutou um murmúrio.

― Então ou eu morro agora por coçar o nariz ou morro mais tarde de alguma forma mais terrível que o fofuxo aí de cima?

Mas cruzou os braços, bufando.

― Prefere morrer agora?

― Claaaaaro.... que não. Tenho cara de idiota?!

Quirrell inclinou a cabeça na direção da porta e Max seguiu, sentindo o cutucar da varinha das costas. Era óbvio que ela não seria uma burra acreditando ser valente e tentar algo cegamente. Esperaria a hora certa e então pegaria sua varinha de volta. Era questão de tempo e conseguiria fugir.

― Lance um Imperius nela – A voz que a arrepiava disse por trás dela.

Rápido como a ordem, ela escutou vagamente o feitiço e um raio chocar-se contra seu corpo. Sua mente nublou, sentiu-se vaga e uma ordem vaga sobre ela, mas Max expulsou aquela voz para longe, concentrou-se e continuou resistindo sobre aquele domínio, sobre a ordem que tentava sobrepuja-la, ela empurrou para longe, para fora de sua mente e com um grave arquejo, despertou, caída no chão.

― Eu... não consigo.

― Você é decepcionante.

― Desculpe-me, mestre.

Mestre?! Que diabos era aquilo? Que porra tinha acabado de acontecer?! Max tentou se acostumar com a luminosidade forte da câmara em que estava, ainda se recuperando. Era uma câmara super iluminada, com muitos passarinhos flutuando pelo teto abobado. A porta estava do outro lado da câmara, mas Quirrell já tinha percebido e tentava leva-la até lá, na certa usando-a de isca para ter certeza de que os passarinhos não haviam atacado-a. Mas ela estava no meio da câmara e nada tinha acontecido.

― Pegue a vassoura. – Quirrell disse, com a varinha novamente apontada para ela, parecia arrependido de tê-la levado até ali – Suba e procure uma chave grande e antiga, de prata. E se tentar algo...

Max se levantou, marchando para a vassoura, revirando os olhos.

― Já sei, já sei, estarei tão morta quanto a galinha da janta. Tá na hora de atualizar as ameaças aí viu Quirrell, tipo – Max alcançou a vassoura e virou-se para encarar o bruxo de turbante – “vou te deixar trancada na minha sala fedida a alho por uma semana amarrada com meu turbante nojento” – Max disse em uma imitação barata da voz de Quirrell, já rindo – Aí seria uma morte bem mais dolorosa e asquerosa...

― Crucius.

Max sentiu a vassoura cair de suas mãos, seu corpo era apunhalado por cada centímetro de carne, chamas a envolviam e a queimavam lentamente. Ela era consumida pelo queimar das brasas, uma dor lancinante na cabeça. Tão rápido quanto a dor viera, ela se foi. Subitamente livre, Max tinha a respiração acelerada ao abrir os olhos novamente e encontrar Quirrell sem qualquer sombra da hesitação de antes.

― Há coisas piores que a morte, menina. Não procure por mais disso.

Max assentiu, com a garganta seca a incomodando. Montou na vassoura e deu o impulso para cima, procurando pela dita chave. Sentia o rosto molhado, e os lábios crispados por pensar que tinha chorado na frente do desgraçado. Ele não tirava os olhos dela, a porta estava fechada e ele tinha a varinha dela, ou seja, zero chances de escapar rápido o suficiente. Concentrada em olhar para cima, procurou por uns cinco minutos de incertezas antes de achar a chave no alto. Ela voava mais rápido que as outras e Max decidiu por uma abordagem diferente; Max mergulhou para o chão, e subiu de uma só vez em um ângulo obtuso, chegando ao teto com a mão estendida agarrando a chave que tinha acabado de chegar ali.

A chave se debatia em sua palma fechada, as asas batendo rápido, mas Max já estava pousando na porta e a enfiando na fechadura. Foi um encaixe perfeito. O clique se fez alto, e antes que pensasse em usar a vassoura para fugir, Quirrell já a puxava pelo braço para dentro da câmara, dessa vez escura, mas que ao entrarem, iluminou-se completamente. Era um tabuleiro gigante de xadrez, atrás de peças pretas, e as brancas estavam na frente da porta, sem feições, impedindo o caminho.

Quirrel a jogou para a frente.

― Vá.

― Como assim, vá?! – Max praticamente gritou, cambaleando ao parar ao meio do tabuleiro.

― Toque na peça branca.

Max encarou a cuja, o rosto liso a encarando de volta e seu corpo tremeu.

― Nem a pau.

― EU NÃO TENHO TEMPO PRA ISSO! VÁ AGORA!

Max se moveu instantaneamente, atingindo o outro lado do tabuleiro. Algumas peças se armaram para ataca-la, mas continuaram imóveis. Ela parou frente a frente com o peão da rainha e o fitou. Ela não sabia o objetivo de Quirrell a princípio, mas agora tinha certeza, era a Pedra Filosofal que era guardada ali, protegida por trás dessas peças, e como Harry avisou, Quirrell queria roubá-la. Ela tinha uma leve intuição de que tinha a ver com a segunda voz na cabeça dele.

Quase certeza absoluta.

Max deixou-se levar pela intuição e estendeu a palma da mão, devagar, tremendo, e a encostou no rosto sem expressão, pronta para o fim de sua vida. Mas o golpe nunca veio, pelo contrário, todas as peças se desarmaram, e deram passagem à ela. Max suspirou aliviada, mas não teve tempo de correr, Quirrell mais uma vez a arrastava para a porta, para a sala seguinte, ela já estava ficando irritada demais com isso.

Assim que adentraram a câmara, chamas surgiram por trás deles, chamas surgiram na frente, impedindo o caminho deles.

― Porque o xadrez se desarmou? – Quirrel não respondeu, ele avaliava a câmara – Suponho que o objetivo de um obstáculo é não nos deixar passar, no entanto, nós passamos.

― Sim.

― Porquê?

― Porque esse colar que você traz – Max olhou imediatamente para o relicário no pescoço, que a Profa. Minerva havia dado a ela – carrega a magia de McGonagall. O tabuleiro a reconheceu como a velha e portanto, seguiria suas ordens.

Max xingou alto.

― E você me conta isso só agora?! Eu poderia ter feito a Rainha dar uma lavada nesse seu turbante sujo falante?! Poxa, que bela oportunidade perdida, os outros nunca irão me perdoar por isso.

― Cale-se.

Max se calou, não pela ordem, mas pelos pensamentos que a distraíam. Porque o relicário carregava a magia de McGonagall? Porque a professora havia dado a ela? Ela havia dito que era pra Max carregar a mãe com ela para todo lugar, como apoio, mas se fosse um mero presente, não funcionaria daquela forma, funcionaria?!

― Escolha uma poção.

― Ande pra lá, voe, escolha uma poção, você é tão mandão...

No entanto, ela seguiu a ordem, com raiva. Havia uma mesa com sete garrafas de formatos diferentes em fila. Um rolo de papel descansava ao lado das garrafas, e nele, Max leu:

O perigo o aguarda à frente, a segurança ficou atrás,

Duas de nós o ajudaremos no que quer encontrar,

Uma das sete o deixará prosseguir,

A outra levará de volta quem a beber,

Duas de nós conterão vinho de urtigas,

Três de nós aguardam em fila para o matar,

Escolha, ou ficará aqui para sempre,

E para ajudá-lo, lhe damos quatro pistas:

Primeira, por mais dissimulado que esteja o veneno,

Você sempre encontrará um à esquerda do vinho de urtigas;

Segunda, são diferentes as garrafas de cada lado,

Mas se você quiser avançar nenhuma é sua amiga;

Terceira, é visível que temos tamanhos diferentes,

Nem anã nem giganta leva a morte no bojo;

Quarta, a segunda à esquerda e a segunda à direita

São gêmeas ao paladar, embora diferentes à vista.

Isso com certeza era obra de Snape, ela arregalou os olhos ao ler.

― Escolha uma!

― Porque eu faria isso?!

― CRUCIUS!

A dor mais uma vez atingiu Max, que caiu de joelhos no chão, sentindo os ossos se partirem, serem moídos um a um, a pele sendo arrancada de sua carne à força... A dor passou, e Max demorou de se encontrar novamente, a cabeça estava tonta e o seu sangue fervia. Ela se levantou, decidida, mesmo sem enxergar direito, mesmo sem conseguir pensar, seguiu puramente seu instinto e escolheu a primeira garrafa que havia pensado; A garrafa menor.

― Beba um gole.

― Beba um gole, morra de veneno, morra por mim, que diferença faz, não é mesmo?!

Irritada, Max tomou um gole maior do que pensava e esperou pela morte certa. Quirrell tomou a garrafa da mão dela e tomou também, sorrindo confiante.

― Eu prefiro você com medo, seu sorriso é medonho.

Quirrell não a segurou dessa vez, como previra. Ele nem mesmo prestou atenção no seu comentário. Ele unicamente abriu a porta, e nessa hora, Max agiu.

Ela deu um pulo para a frente, puxando a varinha das mãos do bruxo. Mas seu ato de coragem foi ridículo, sem nada dizer, ele a jogou para trás, para o outro lado da Câmara, onde bateu contra a parede de pedra; a dor imediata a cegou, e semi-consciente, um grito tomou seus ouvidos enquanto algo pegajoso e morno escorria por sua testa.

Maxine tossiu, forçando os olhos a se abrirem e mesmo com a dor lacerante, ela conseguiu. Tentou se mover, rastejando no chão, sentindo o calor do medalhão colado em sua pele, mas Quirrel já estava diante dela, e com um empurrão do pé, girou o corpo da menina para que visse seu rosto.

Max tossiu uma risada, sentindo um gosto de ferro enferrujado.

― Me...gira de volta... não quero... que sua cara feia e nojenta... seja minha última visão...

Quirrel comprimiu os lábios.

― Menina tola.

Ele apontou a varinha para a garota; ela não escutou a palavra que fez seu corpo se contorcer novamente, a dor implodindo por dentro, estourando sua carne, esmigalhando seus ossos, comprimindo sua cabeça. Seus olhos ardiam, seus músculos se retesavam, e a garota gritava, chorava, clamava por ajuda. Ela estava morrendo, não poderia haver dor pior que aquela, e morreria lentamente.

Quirrell continuou, por um bom tempo, e quando a garota já não conseguia mais sentir onde estava, ele parou, ignorando seu corpo moribundo e indo até um grande espelho na extremidade, um espelho que ela conhecia bem.

O espelho de Ojesed.

Havia algo estranho naquilo, ela sabia, seus instintos sentiam. Seu corpo se moveu de forma inconsciente, arrastando-se até o professor, mesmo que cada mísero movimento causasse uma dor terrível, mesmo que nem ao menos sentisse o chão, que sentisse-se voando, afundando em lama movediça, mesmo que as lembranças do trauma que nunca havia superado se misturassem ao presente, mesmo que vozes estranhas clamassem em sua orelha, mesmo que vultos a cercassem, prontos para reivindica-la. Tinha a ver com a pedra filosofal, e por algum motivo, Quirrell a queria, e ela tinha que o impedir.

Max escutou um barulho além. E uma voz, uma voz calorosa que serviu de âncora, puxando-a de volta.

― Max?! MAX!

Passos apressados correram até ela. Seu corpo parou, e logo era girada novamente, mas ao invés de encontrar o rosto nojento de Quirrell, foram olhos verdes intensos que a encararam, olhos que a deram forças. Era Harry... não era? A menina se perguntava, enquanto o testa-rachada tocava seu rosto, com preocupação, perguntando o que havia de errado. Com raiva nos olhos, ele se virou, e seu rosto tornou-se lívido.

― O senhor!

Ela escutava, tentando se virar para ver do que Harry falava, mas o menino a segurava com força, com candura, enquanto as vozes continuavam a se aproximar, continuavam a cerca-la, convocando-a, chamando-a para longe, para um limite etéreo, uma passagem enevoada. Harry falava, Quirrell falava, a mera menção da voz do homem fazia seu corpo estremecer, contrair-se de medo. Max agarrou a manga de Harry, tentando chama-lo.

― O senhor deixou o trasgo entrar?

― Claro que sim. Tenho um talento especial para lidar com trasgos. Infelizmente, enquanto o resto do pessoal estava procurando o trasgo, Snape, que já desconfiava de mim, foi direto ao terceiro andar para me afastar, e não só o meu trasgo não conseguiu matar você de pancada, como o cachorro de três cabeças nem sequer conseguiu morder a perna de Snape direito. Agora espere aí quieto. Preciso examinar este espelho curioso.

Harry se remexeu, e Max apertou a roupa dele com o máximo de força que conseguia.

― Ha...rry... – Ele se virou, angustiado perante seu sussurro dolorido – Ha...rry... fuja... ele... ele é pe...ri...goso...

Harry balançou a cabeça repetidamente, apertando-a com mais força dentro de seus braços.

Ele estava sendo idiota, Max sabia que ele estava sendo idiota.

― Seu... estú...pido...

Harry a ignorou, começando a falar sem parar para distrair o professor.

Max viu uma luz se aproximar dela, agachar-se ao seu lado, tentar segurar sua mão caída. Ela tentou se afastar, gritando, e mais sombras se aproximaram, cercando seu corpo.

Venha... venha conosco... está na hora...

― Não! Não!

― Max! Max!

Harry a sacudia, e Max tentava se sacudir, agarrar-se ao menino, proteger-se dos fantasmas que agarravam sua perna, puxando-a para longe.

― Deixe-a aí. – A voz de Quirrel soou — Potter, vem cá.

Max o segurou, sentindo a garganta queimar com seus gritos ainda mais altos.

― Vem cá – repetiu Quirrell. – Olhe no espelho e me diga o que vê.

― Não. – Harry disse, enquanto segurava Max com força.

― Use a garota. – a voz reapareceu.

Um arrepio percorreu a espinha de Max e os fantasmas se dissiparam.

― Crucius!

A dor mais uma vez a tomou. Max escutou um grito horrendo de longe, um grito aterrorizante, mas nada saía dela. Não havia mais nada a gritar, não havia mais Max, tudo que sentia era dor, tudo que sentia era a morte a reivindicando, cultuando seu sofrimento, aguardando por ela. Sentiu o corpo bater no chão, o frio a cercava, seu corpo estava imóvel...

Tudo se tornou um borrão, aquilo era um rosto nojento sob a touca suja de Quirrell?

Isso certamente explica tudo.

Max emitiu um fantasma de risada, e enfim a inconsciência a tomou.

Notas finais
Gente, e aí? O que acham que aconteceu? Estamos na reta final dessa primeira parte!!