Immortalis
2 Capítulo 2 — Paralyzed.
Notas iniciais
Capítulo 2 — Paralyzed
Eu permanecia imóvel. Apenas sentindo meu coração batendo rapidamente, assim como minha respiração falhava, o sangue parecia ferver dentro das minhas veias conforme recebia a dose de adrenalina. Era uma sensação estranha, parecia estar numa espécie de inércia misturada a angustia. Meus olhos simplesmente não desgrudavam do Original parado a poucos metros de distância, como se quisessem acreditar que ele estava ali de novo. Depois de longos noventa e dois anos. O pior era saber o momento ao qual aquele reencontro aconteceria mais cedo ou tarde, afinal Nova Orleans um século antes fora comandada pelos Mikaelson.
Apertei minhas mãos úmidas pelo suor, percebendo o quanto sentia nervosa. Engoli em seco, molhando minha garganta seca enquanto olhava ao redor, sem coragem para encara-lo de volta. Conseguia sentir seus olhos perigosamente sobre mim, apenas me analisando, como se fosse à presa na mira de um caçador faminto. Cruzei os braços, me sentindo vulnerável e incomodada pelo clima estranho e o silêncio assustador.
A verdade era que naquele silêncio, estavam escondidos os ressentimentos e as dúvidas nunca esclarecidas da maneira correta, que nem mesmo o tempo havia danificado. Ainda existiam muitos assuntos inacabados do passado.
— Durante todos esses anos, nós pensamos que estivesse morta. — ele confessou um pouco atordoado, sorri entristecida voltando a encara-lo por fim. Sentindo meu coração afundar ainda mais no meu peito.
— Muitas coisas aconteceram. — balancei os ombros, sem saber o que falar. Eu não precisava dar explicações sobre as minhas decisões. E também não queria tocar naquele assunto delicado.
— Acho que você tem razão. — pareceu entender quando concordou, encarando seus próprios sapatos sociais e depois procurando outras palavras. — Você conhece uma bruxa chamada Sophie Deravoux?
— Por quê? — deixei a perguntar escapar involuntariamente, sendo vencida pela curiosidade de saber o porquê do seu retorno repentino a cidade. Elijah não fazia o estilo de querer dominar Nova Orleans sem motivos importantes, sempre havia alguém por trás.
— Algumas bruxas estão tramando contra Niklaus, por isso, preciso encontra-las para ter uma pequena conversinha. — contou pacientemente, deixando a ponto de escárnio bem clara. Então, de repente a voz de Chad surgiu na minha mente quando comentou sobre os planos das bruxas.
— Espera! Klaus está na cidade? — indaguei incrédula, começando a ligar os pontos automaticamente. Aquelas duas não seriam tolas ao ponto de atraírem o Híbrido Original a Nova Orleans.
— Sim. — Elijah confirmou desconfiado, analisando minha expressão confusa e surpresa. — Você sabe de alguma coisa?
O fitei ainda atônita com aquelas informações. Então, o grande plano das bruxas era atrair o impiedoso Niklaus Mikaelson para terminar o reinado de Marcel? Mas, pelo pouco que me lembrava de Klaus não gostava nem um pouco de ser confrontado por absolutamente ninguém, seja lá o elas estivessem o chantageando, ele armaria algum modo de derrota-las como sempre fazia.
— Não. — menti, não querendo me envolver naquele assunto. De algum modo iria descobrir em poucos minutos quando fosse conversar com Sophie. — Mas, sei que pode encontra-la no Rousseau's, ela trabalha lá.
— Obrigado. — agradeceu educadamente. Sorri sem mostrar os dentes, como um gesto de despedida. Não pronunciando mais nenhuma palavra, dei as costas, voltando a caminhar de novo. — Charlotte. — escutei me chamando, parei de andar permanecendo sem virar, mas esperando que continuasse. — Não houve um dia ao qual não pensei no que aconteceu ou em você. Eu realmente sinto muito por tudo de verdade.
Suspirei pesadamente, fechando meus olhos sentindo o impacto daquelas simples palavras dentro de mim. Por mais que tivesse me convencido durante todos aqueles anos, a verdade era a qual nunca havia se esquecido de nada daquela noite. Encontrar um Mikaelson tornava a maior prova da realidade. Minha feria permanecia intacta, nem mesmo tempo fora o suficiente para cura-la. Ela estava ali, sendo o avisto constante do motivo ao qual tinha desistido de tudo, o motivo que deveria manter distância segura se ainda quisesse manter meus próprios demônios mais sombrios adormecidos.
— Eu também. — murmurei o baixo possível. Com certeza havia escutado, ainda assim não me importei, retomando meu caminho de volta para casa. Sabendo que não seria nosso último encontro em pouco tempo.
XXX
Encarei o quadro no centro da parede na sala do meu apartamento enquanto bebia o café forte rotineiro de toda manhã. A obra era um exemplar do "The Starry Night", feita por Van Gogh. Ela conseguia me fazer lembrar nitidamente daquela cidade, mesmo não sendo próxima a arte como gostaria, poderia entender muito bem. O pequeno vilarejo ao qual parecia adormecida alheio ao céu cheio de explosões emotivas, representava Nova Orleans enquanto seus habitantes descansavam durante a noite, não imaginavam os monstros do lado de fora, circulando livres pelas ruas. Foi o motivo acabando me cativando a compra-lo numa feita de artes próximo a Jackson Square. Quando ficava pensativa, não existia outra opção melhor a não observa-lo, sendo quase algo terapêutico.
Deixei a caneca de lado, sentindo meu celular vibrando em cima da mesinha de centro. Peguei o aparelho vendo no visor a mensagem de Joe, pedindo para que chegasse um pouco mais cedo à loja, pois iria resolver problemas pessoais. Levantei-me, escutando todos os ossos do meu corpo estrelando por causa da noite passada em claro depois do reencontro inesperado com o Original. Era impossível não pensar nas consequências de tê-los de volta a cidade, seria apenas questão de tempo para que começasse a acontecer.
Caminhei para o outro lado do loft, adentrando no meu quarto, depois seguindo diretamente ao banheiro, tomando um banho rápido. Em menos de vinte minutos estava vestindo a blusa de manga cumprida branca e calça skinny preta. Calcei as inseparáveis botas, peguei minhas coisas colocando-as dentro da bolsa. Tranquei o apartamento, descendo os lances de escadas até o térreo. Passei por Donna, uma senhora de idade a qual era zeladora do prédio há anos. Ela me cumprimentou com o mesmo bom humor de sempre. Fui até onde estava estacionado o carro na rua, dando partida um pouco apressada. Naquele horário havia o velho e insuportável transito caótico.
Estacionei o carro próximo ao estabelecimento, rumei à loja de música. Encontrando o homem negro, de olhos castanhos e cabelos raspados arrumando algumas mercadorias, era Joe Dalton. Meu sócio há dois anos, quando o conheci através de Chad, assim como meu amigo, ele também era um vampiro próximo a Marcel, porém aposentado. Como já conhecia a loja, então a proposta de sermos sócios surgiu da sua parte, consequentemente aceitei achando uma boa ideia. O lugar não era muito grande, mas bem organizado e tradicional, conhecido no bairro Francês pelos turistas e moradores.
O homem deixou as mercadorias de lado, indo atrás do balcão enquanto pegava algo que não identifiquei.
— Ei. — cumprimentou, colocando a caixa em cima do balcão. — Obrigado por vir mais cedo.
— Bom dia. — retribui o sorriso fraco, ainda o observando guardar algumas coisas dentro da caixa de madeira antiga. Fiquei curiosa, contudo tive de me controlar para não sair como intrometida. — Não tem problemas. Aconteceu alguma coisa, Joe?
— Nada demais. Apenas preciso resolver alguns problemas e depois tudo ficará bem. — respondeu descontraído, soltando uma risada divertida. Era uma bela forma de desconversar sem ser grosseiro. Ele terminou, finalmente me encarando pela primeira vez, mais uma vez a expressão divertida surgiu. — Deixe-me adivinhar: Não dormiu essa noite, não é mesmo?
— Eu sei que estou parecendo uma morta-viva. — neguei com a cabeça, frustrada por estar tão estampado assim.
— Mas, fica entre nós. — se aproximou como se fosse contar o segredo. — Você continua muito bonita.
— Joe! — o repreendi, gargalhando. Se não fosse típico de sua parte brincar daquela forma, já julgaria de outra forma suas cantadas baratas. — Mesmo assim devo agradecer, ganhei minha semana inteira por esse elogio.
— Acho que não voltarei por hoje, então até amanhã. — Joe se despediu, pegando a caixa, balancei a cabeça como despedida, observando sair do local.
Relaxei meus ombros, me distraindo em continuar reorganizando os vinis na ordem correta e outros Cd's nas prateleiras. Era muito comum em dias movimentados, os clientes desorganizarem as ordens, colocando-os em lugares completamente diferentes. Sobrando para nós colocássemos nos lugares corretos. Assim passou o resto da tarde, recebendo turistas acompanhados pelos guias turísticos.
Quando dei por mim, se passavam das sete e meia da noite. Contabilizei o dinheiro, guardando no cofre do escritório no segundo andar do prédio e apaguei as luzes corretamente, pegando minha bolsa, abandonando o lugar. Fechei a porta principal, guardando a chave. Mas, de repente parei sentindo uma sensação estranha dentro do meu peito como há tempo não presenciava. Não precisei me questionar, pois sabia muito bem o que era, ou melhor, quem era.
Virei-me completamente irritada, encontrando os dois homens parados próximos à guia da calçada. Um era moreno, com cabelos enrolados e outro mais baixo e loiro, tendo olhos mais claros. Apenas de encara-los sabia de lidaria com vampiros. Até que estava demorando em que Marcel mandasse seus leais homens a me questionar sobre a volta misteriosa de dois Originais.
— Meninos! — saudei, abrindo o sorriso mais irônico possível enquanto erguia meus ombros em sinal de dúvidas. — Como posso ajuda-los?
— Temos algumas perguntinhas para você. — O moreno mais irritadinho, avisou de forma intimidadora, dando alguns passos à frente. Fui obrigada a segurar a vontade de rir pela coragem tola do garoto.
— Bom, eu estou aqui ouvindo. — retruquei óbvia, arqueando uma sobrancelha, o que pareceu deixar o moreno ainda mais zangado.
— Não aqui! — se aproximou rapidamente, segurando meu braço com força, sem se importar com a movimentação de pessoas na rua. Rolei os olhos, não gostando da forma abusadora e ergui minha mão tentando ser o mais discreta possível.
— Smerte. — soprei no sussurro, fazendo-o involuntariamente largar o meu braço, caindo de joelhos enquanto soltava grunhidos de dor, colocando as mãos na cabeça. O outro parceiro tentou me conter, mas fiz o mesmo, aumentando a intensidade da dor. Curvei um pouco meu corpo, quase ficando abaixada e segurei seu rosto entre minhas mãos calmamente. — Eu lembro bem de você, seu nome é Diego, certo? — lembrei-me da feição familiar. Entortei meus lábios, fingindo sentir misericórdia. — Diga a Marcellus que ele mesmo venha me confrontar quando quiser porque eu não costumo aturar vampiros achando que os temo. E da próxima vez não sobrará ninguém para mandar recados. Estamos entendidos?
Continuei segurando seu rosto esperando que ele concordasse, mas o mesmo permaneceu mantendo a pose de corajosa, como se não sentisse dor.
— Estamos entendidos ou não? — repeti a questão, ficando ainda mais minhas unhas cumpridas na sua pele. Diego assentiu exasperado. — Muito bem. E se a pergunta for sobre a volta dos Originais, diga a ele que não absolutamente nada haver.
Larguei seu rosto de uma vez, acabando com o efeito de dor. Os dois se levantaram, Diego me lançou um olhar de puro ódio durante alguns segundos antes de desaparecerem.
Então, repentinamente notei o liquido quente escorrendo pelo meu nariz, passei a mão, vendo o sangue manchando minha pele. Arfei surpresa. Estava acontecendo mais uma vez quando usava meus poderes sem fazer o mínimo esforço. No momento seguinte, senti uma forte pontada na minha cabeça, fazendo tudo ao redor girar em círculos perfeitos. Tentei apoiar próxima a parede enquanto enxergava as coisas desfocadas, meus joelhos fraquejaram não me sustentando. Antes que pudesse cair no chão, acabei sendo amparada pelos braços fortes. Estreitei minha visão procurando saber quem era, mas minhas pálpebras pesaram, impedindo de qualquer outra coisa a qual não fosse ceder à escuridão, porém ainda consegui escutar a voz masculina ao longe dizendo no tom orgulhoso sarcástico:
— É bom ver você novamente, bruxinha.
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