Immortalibus

1 Capítulo Único


O voo tinha sido longo, o tempo chuvoso não ajudou em nada, mas Anita teve tempo de rememorar todos os segundos daquela manhã.

-Alô?

-Senhorita Avoir?

-Sou eu.

-Ele não tem mais tempo.

Encontrar uma passagem de Dublin para Paris em plena manhã de 31 de dezembro de 1989 parecia impossível, mas Anita estava decidida. Essa seria a última vez. Todos esses anos haviam passado e ela sabia que esse momento chegaria...

“Jon?”

“Anita?”

“O que foi que você me deu para beber noite passada?”

“Ah nada de mais. Só Algo que eu aprendi com uma tribo de índios alguns meses atrás, você está bem?”

“Eu te amo.”

“Feliz ano novo, Anita.”

O Boeing 656 da Air France aterrissou no aeroporto Charles de Gaulle, o Roissy ás oito da noite do horário local.

-Mesdames e Messieurs nous sommes arrives a le belle cité de Paris, Air france vous voules bonnes fetes.

Ladies and Gentleman we’ve arrived to the beautiful city of Paris, Air France wishes you great parties.

Anita pegou o taxi em direção á Montmartre, não haveria bairro em toda a França que melhor traduzisse o espírito de Jon, jovens e velhos festejavam, a rua parecia evanescer em álcool e alegria, a temperatura de oito graus e a chuva nunca esfriava o ânimo dos parisienses.

O porteiro do prédio dele já a conhecia, era a terceira vez que ela aparecia esse ano, mas Jon nunca recebia visitas, ela se lembrava da voz dele como ficou, parecia arranhar no fundo da garganta, os remédios tinham destruído o que sobrou dele, aquilo que a depressão, a tuberculose e a rejeição ainda não haviam destruído. A voz de Jon era melodiosa quando ele tocava “As times goes by” de Frank Sinatra no seu piano branco na casa de praia que os dois sempre alugavam em Cannes. Era sempre “As Times goes by”, porque Anita amava “Casablanca” e porque os dois também sempre teriam Paris.

-Anita?

O apartamento dele tinha cheiro de doença, de uísque barato e de cigarros ruins. Ele estava deitado no sofá.

-Jon, você não deveria se cansar.

-Eu achei que você só voltaria no ano novo.

-Me disseram que você viraria o ano sozinho, eu não achei justo.

— E seu marido? Ele não se importou de você passar o ano novo com seu amante?

— Ele não se importou de eu vir visitar um amigo, ele e Olivia foram para Berlim passar o ano com a mãe dele.

— Não é uma pena eu partir sem nunca ter conhecido a minha filha?

— Olivia não é sua filha Jon. Ela é de Lars.

— Diga-me novamente como a filha de Lars tem os meus olhos.

— Eu desisto, como você tem passado?

— Você sabe, eu me lembro de você dizendo que queria uma criança com os meus olhos, lembra-se? Em Cannes...

— Você tem olhos lindos, Jon.

— Então porque você não se aproxima e para de fingir que eu não notei que você está evitando ver como é que eu fiquei?

Ela suspirou, deu a volta no sofá e se sentou do lado dele. Jon tinha músculos fortes e mãos grandes de tocar piano, o corpo moreno de todo o sol que ele pegava nas expedições antropológicas em que ele vivia se metendo. O cabelo castanho era sempre na altura do ombro e Anita lembrava-se de ralhar para que ele o cortasse e parasse de esconder aqueles lindos...

- lindos olhos de um verde profundo era a maldita expressão que você insistia em repetir não era?

Aquele homem que estava ali era cego de catarata, inoperável na condição dele. Os cabelos longos e castanhos tinham caído, a pele não via sol ha meses e estava frágil e marcada, as mãos de “As times goes by” foram embora, não sobrou nada do belo antropólogo e pianista Jon Rathway.

- Nem antes de me ver morrer você vai admitir? Eu poderia de dar detalhes da noite em que nós fizemos a Olivia.

- Você estava bêbado.

- Você também.

- Duvido que você lembre-se mesmo.

- Sabe, tecnicamente, você já confessou que ela é minha.

- Porque você não cansa disso?

- Eu lembro que você tinha acabado de escrever seu primeiro Best seller...

“‘Vejam se não é a nossa escritora premiada e recém-casada”! ’

‘eu não sei quanto à parte da premiada, esses velhos miseráveis da academia de artes se recusam a me dar qualquer coisa!’

‘Claro que sim, eles nunca vão reconhecer o talento de uma mulher. Da mesma forma que o Conselho de Antropologia nunca vai aceitar um projeto conduzido por um sodomita!’

Era Abril de 1984, Veneza, Mais especificamente, eles tinham se encontrado n’O Calvário da Gôndola A pior...

‘A pior taberna de Veneza! Não é lugar para escritoras premiadas como você, porque a gente não vai para o meu hotel?’

‘Sei, o seu hotel, aquele seu namorado modelo italiano não estaria nu na sua banheira esperando por um ménage a trois, estaria?’

‘Ah nós terminamos, aquele idiota insistia na besteira de ser monogâmico, quando há tantos rapazes bonitos por aí com quem eu não dormi!’

‘Você nunca muda Jon’

‘Eu senti sua falta, querida!’

Esse era Jon, ele não esperou, eles não tinham conhecidos em Veneza, o beijo foi profundo e ela esqueceu como fez o caminho da ‘Pior Taberna de Veneza’ até o hotel três estrelas em que ele estava hospedado, mais precisamente, até a cama do hotel três estrelas em que ele estava hospedado.

Entre as cinco garrafas de champanhe que ele havia pedido na Recepção ele apenas dizia: ’Porque um dia, você será a maior, meu amor ’ E quando ele deitou-se sobre ela, ele apenas refez o caminho que ele já havia percorrido mil vezes dez anos antes...

-Ah e eu dormi para sonhar com o seu cheiro e acordei sem você lá, é só fazer as contas.

-Você não pode me culpar, eu havia acabado de me casar com Lars, você ainda era tão...

-Jovem, bonito e saudável? Anita pare com eufemismos, você não está escrevendo seu próximo sucesso. Aliás, quantos foram mesmo?

-Não importa, o médico disse que você decidiu parar de tomar medicamentos? Pare de agir como um idiota! Isso é alguma experiência nova?! Porque diabos você resolveu que ia se matar? Hein? Você não pensa em mim?

— Eu te amo, Anita. Mas eu não posso mais viver, é simples.

— Eu nunca me importei com a droga da sua aparência!

— Você deveria ter vergonha.

— Eu o que?

— Do seu egoísmo.

— Você está delirando!

— Não, não estou. Diga-me se não é egoísmo seu sair daquela cidade viking onde você vive e vir aqui tentar me impedir de acabar com a minha existência medíocre só para poder voltar para Dublin com aquele alemão miserável com quem você acha que pode criar a minha filha e viver feliz, sabendo que eu vou estar aqui sobrevivendo para provar que todos esses anos e passagens que você desperdiçou não foram em vão.

— Ninguém mais poderia cuidar de você!

— Ninguém mais quer tocar em mim!

— Eu amo você, Jon, pare já com isso!

— Você me amava quando eu era seu, o que você tem agora é culpa, porque você acha que poderia ter impedido que eu ficasse doente! Pare de idiotice!

— Eu nunca pedi para você se comportar como...

— Como um homossexual? Você nunca aceitou que amasse outras pessoas, foi você quem terminou quando eu te contei que gostava homens também.

— Você havia me traído!

— Você já havia beijado o Lars naquela época, pare de me tratar como um idiota, ele é quem é o idiota e não nota que cria a filha de outro.

— Passaram-se anos e você não consegue reagir diferente.

— Depois de me deixar sozinho na minha cama em Veneza, você volta a Paris grávida e praticamente invade a minha aula de Antropologia Indígena na Sorbonne para me perguntar se é verdade que eu estou doente e nem agora, seis anos depois você ainda não admite que só veio até Paris porque estava com medo de estar doente também.

— Eu me importava com você!

— Você não queria que eu interferisse no sonho perfeito que você construiu.

— Era para ser você, A gente planejava lembra?

— Você a grande escritora, eu o grande pianista, acertamos dois de um.

— Você ainda poderia tocar se quisesse.

— Me leve até o piano.

Não foi difícil, Ele não deveria ter mais de 40 quilos.

— O que vai ser?

— Ne Me Quitte pas.

— Você sabe que eu odeio a Edith Piaf.

— Por favor.

Ele errou, mas ela fingiu que não notou, foi à música que ele tocou da primeira vez em que dormiram juntos.

— Já fazem o que? Dezesseis anos?

— Desde aquela noite em Cannes? Dezesseis, você tinha vinte e um e eu dezenove, era ano novo que nem hoje.

— Eu te amo.

— Feliz Ano novo, Jon.

— Ainda falta uma hora, eu acho.

— Eu não me importo.

— Mas me diga qual o título do seu próximo livro?

- Eu já o mandei para o editor, se chama “O Imortal”.

- Sobre o que é?

- Sobre um pianista que larga sua jovem noiva e foge para a América do Sul com um fashionista brasileiro deixando uma carreira promissora para trás e volta doente, depressivo e viciado e se envolve com todo o tipo de rapaz promíscuo ficando mais doente e mais promíscuo.

- Ah original, minha querida, e como a história termina?

- A ex-noiva coloca veneno em sua vagina e o induz a fazer sexo oral nela e o idiota morre envenenado de luxúria.

Ele riu.

- Você pensou mesmo em fazer isso comigo?

- Quando você me largou por aquele brasileiro? Foi a coisa mais gentil que eu pensei em fazer, a mais violenta era te empalar com um taco de baseball, mas como você era passivo na época, você provavelmente ia gostar.

- Os pais do seu público infanto-juvenil sabem que você usa essa linguagem nos seus livros? Acho que vou questionar se seu último best-seller não foi uma aventura erótica.

- Porque você não pega logo aquela maldita caixa de remédios e deixa eu te medicar e nós acabamos com essa idiotice?

- Divida comigo uma taça de vinho antes, mas primeiro me leve até o sofá e me dê os remédios, eu sei ler braile e ainda toco piano bem para um cego.

Ela o deixou no sofá e foi até a cozinha que parecia ter sido utilizada nos últimos anos nenhuma vez.

- A sua enfermeira não cozinha aqui? — Ela gritou

- Ela traz tudo de casa. – Ele respondeu em meio ao barulho dos vidros de remédio tilintando.

Ela escolheu vinho seco, um Malbec. Mas nem chegou a servi-lo. Ao ouvir um baque surdo no chão da sala ela já sabia do que se tratava.

A igreja de Sacrecœur bateu meia noite. Por toda a Paris os fogos começavam. A Torre Eiffel estava iluminada. O arco do triunfo estava em cores. E Jon estava no chão da sala, com uma seringa espetada no braço e um vidro de morfina na mão direita.

- Seu idiota!Porque você fez isso?

- Porque você veio a Paris hoje, e não só no meio de janeiro como você tinha me dito que faria da última vez em que esteve aqui, caso contrário, eu teria terminado com isto antes.

Parecia muito difícil para ele articular as palavras.

- Isto é a sua vida!

— Não, você já é uma escritora grande o suficiente para saber a diferença entre viver e sobreviver.

— Eu cuidei de você todos esses anos, para você terminar assim?

Uma única lágrima caiu do rosto de Anita, nos lábios de Jon.

— Desde que eu te falei sobre o vírus, você sempre soube como ia acabar.

— Ela é sua, Jon, Olivia é a sua filha, ela é nossa, só nossa!

— Me beija.

Os lábios dele pareciam de papel, e ela já não podia mais sentir a presença de Jon por trás dos lábios.

— Eu te amo.

— Feliz ano novo, Anita.

FIM.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!