Immortal Star - Segunda Saga

5 Um vislumbre do desespero


Notas iniciais
E quando tudo está ruim, coisas acontecem que deixam a situação geral AINDA pior.

Começar lutas e não terminá-las de uma só vez não é uma questão de preferência minha, e eu também não estou tentando lhe irritar. Você também pode achar que isso é uma tentativa de lhe empolgar e manter em altos espíritos para saber o que vai acontecer, e sinceramente, essa não seria uma resposta errada. Mas o verdadeiro motivo disso é que muitas coisas aconteciam ao mesmo tempo naquele dia. Muitas coisas MESMO.

Provavelmente é mais difícil controlar meu conto dessa forma, como também é bem possível que você mesmo se perca quando eu for mudar de personagem. Então eu lhe peço para sempre se manter focado daqui em diante, pois uma grande mistura de acontecimentos está prestes a iniciar. E como eu já disse, é um acontecimento mais importante do que outro.

Vamos começar com um que é um tanto... Desesperador.

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As coisas aconteciam rápido demais em uma cidade como aquela. A Capital de Riven não era só a maior cidade do mundo, como também era uma das mais antigas. Seu sucesso e seu crescimento não tinha acontecido de um dia para o outro. O reino tem uma história gigantesca, rica em cultura e tradições, que infelizmente, foram se perdendo ao passar dos anos por causa das incontáveis guerras que o reino teve que aguentar.

Parece absurdo sempre tratar Riven como um reino cheio de guerras. Para entender melhor isso, você precisa saber que Riven era um grande amontoado de pequenos reinos com seus próprios reis, tentando conquistar as terras vizinhas. Então mesmo que você fosse um rei de um daqueles reinos e quisesse paz... Você era obrigado a se defender de outro reino que NÃO quer paz. As terras eram excelentes para plantios, e o clima era perfeito e equilibrado. Então mesmo com tantas batalhas, muitas pessoas vinham até aqui para tentar uma vida nova.

A unificação do reino aconteceu mais de duzentos anos atrás, por um rei conhecido por sua mente brilhante. Enquanto os outros reis se digladiavam em batalhas pequenas para tentar tomar posse de terras, esse rei, chamado de Imperius Fort Riven, organizava pacientemente seu exército, o treinava e mandava batedores fazerem buscas e mapeamento de área. Quando ele viu uma hora perfeita para atacar, seu avanço foi incomparável. Em menos de um mês, ele conquistou os dois pequenos reinos vizinhos, e com a adição de novas tropas, não demorou muito mais para seu avanço de conquista destronar outros reis.

Enfim, muito tempo se passou desde aquela época sangrenta, e o povo de Riven conheceu uma paz acolhedora. O exército do reino era tão grandioso e tão bem treinado, que nunca ninguém pensaria em atacá-los. Não existiam loucos o suficiente para isso! E talvez foi exatamente esse pensamento que fez o povo ficar mole, despreparado e, principalmente, destreinado.

Por isso que quando os ataques começaram, tanto o povo quanto o próprio exército se sentiu perdido. Pessoas foram feridas, outras mortas, outras simplesmente desaparecidas. A Guarda da Cidade estava sim, fazendo seu trabalho da melhor maneira que podia. Eles estavam bem espalhados, mas conseguiram salvar pessoas trancadas dentro de escombros, protegê-las de alguns monstros e até mesmo levar feridos para tendas médicas feitas na frente de alguns consultórios. Mas isso era menos de um terço do que estava acontecendo na Capital.

A situação parecia controlada no Castelo. Pelo menos nos muros que o cercavam, tudo estava organizado perfeitamente, e a defesa do perímetro nunca tinha ficado tão sólida e atenta. Muitas batalhas aconteciam na parte de fora dos muros, mas nenhum monstro ou soldado inimigo tinha conseguido pisar no solo sagrado do Castelo. Todos os monstros alados foram abatidos e as tropas do Exército Real estavam prontas para marchar pela cidade, com ordens específicas para onde deveriam ir e o que deveriam fazer.

Dentro do castelo, as coisas também pareciam controladas, mas isso porque foi ordenado que todos que não fossem soldados ou organizadores e conselheiros de guerra voltassem para seus quartos e permanecessem em silêncio. Então os corredores estavam silenciosos, a não ser quando passava um soldado levando ordens tanto para dentro quanto para fora. Todos sempre iam para o mesmo lugar, que era o Grande Salão Estratégico do Castelo. Nesse momento, lá era o único lugar que não parecia controlado.

— As tropas do Décimo Quarto e do Décimo Quinto Batalhão já estão prontas para marchar para o portão Sul, Senhor! — disse um forte homem vestindo um conjunto pesado de armadura prateada reluzente. Pelo símbolo no peito, dava para ver que ele era um Capitão.

— Ótimo! — respondeu Marcus Teodorus, General condecorado há pouco tempo e, como ele descobriu, em uma hora terrível. — Não podemos mais perder tempo! Envie os dois batalhões para lá imediatamente, e diga para os Capitães do Décimo Primeiro e Décimo Segundo correrem aqui para receberem novas ordens!

Com uma continência e um sonoro "SIM, SENHOR!", o Capitão se virou e saiu pela porta, que estava entreaberta. Marcus respirou fundo e tentou acalmar sua mente, assim como Raziel disse para ele fazer. Era ruim ser deixado sozinho e com tantas responsabilidades. Bom, ele não estava realmente sozinho ali. Todos os Estrategistas e Conselheiros do Rei estavam na grande sala retangular, todos olhando para o grande mapa da Capital estendida sob a mesa, que também era enorme. Como sempre, era possível ver muitas pequenas peças ao redor do mapa, e alguns palitos com bandeiras e até mesmo pequenas caixinhas com cores diversas. Eles marcavam tropas aliadas e inimigas, estruturas e até caminhos estratégicos.

— Com os dois batalhões e mais o General Berul, podemos dizer que o Sul estará protegido por algum tempo, mesmo que novas tropas apareçam. — disse um dos Conselheiros, pegando duas caixinhas azuis e puxando elas para o Sul, onde tinha uma mistura de pecinhas e bandeirinhas.

— Não é tão simples. — respondeu um dos Estrategistas. Era uma mulher, esguia e bonita, que usava óculos e tinha uma cara um tanto fechada. — Foi nos reportado que haviam tropas de quatro reinos diferentes vindo pelo Sul, e até mesmo Fildais teve que recuar temporariamente. — isso fez gotas de suor frio surgir nas testas daquelas pessoas concentradas. — É bem possível que nosso inimigo vá mandar suas tropas principais pelo Sul, mas vai fazer nossas tropas se distraírem com esses monstros que estão em toda cidade.

— Vai ser um desafio e tanto conseguirmos dividirmos nossos soldados para lutar contra nossos inimigos ao mesmo tempo que salvamos as pessoas dessas feras enlouquecidas. — disse mais um Conselheiro, um gordo bem vestido, que era um dos únicos sentados à mesa.

— A situação mudou.

A voz veio da porta e fez todos naquela sala receberem um choque psíquico que passou por suas espinhas e explodiu em suas mentes. A voz forte era de Julius, o Rei de Riven, que agora vestia sua Armadura Imperial. Era a terceira vez que Julius vestia a armadura de combate do Rei, mas era a primeira vez que ele se sentia tão desprotegido. Mas ele não podia demonstrar nenhum tipo de fraqueza. Nunca pôde, e nunca irá.

— Meu Lorde, tem certeza que deveria permanecer no Castelo? — perguntou outro Conselheiro.

— Mas é claro que sim! — respondeu o Rei, imponente. — Em que outro lugar eu estaria enquanto nossos tolos inimigos ameaçam inutilmente tomar nosso lindo reino? — com dois segundos de silêncio, todos entenderam a motivação insuperável de Julius, e ninguém era burro o suficiente para levantar a voz contra o Lorde. — Agora... Como eu ia dizendo, a situação mudou. Recebemos uma informação vital de um soldado que acabou de chegar, vindo do Oeste. — Julius entregou uma folha de papel não muito grande para Marcus, que não demorou nenhum segundo para começar a ler. — O soldado estava ferido, mas aguentou a viagem até aqui. Quero que lembrem o nome dele para ser recompensado mais tarde!

— S-Senhor! — disse Marcus, gaguejando. Era a primeira vez que ele não aguentava a pressão de algo. Ele sentiu as pernas bambas, mas teve que se manter ereto e forte, pois estava na presença de Seu Rei. — Isso é...

— Horrível, eu sei. — respondeu Julius, sem esperar seu General terminar a frase. Ele se virou para o resto das pessoas que estava ali presente e continuou. — Três cidades do Reino Tailen se rebelaram e juntas, conseguiram dominar Prover.

A reação dos conselheiros e estrategistas foi idêntica. O susto misturado com medo e desespero deixou a sala em um clima obscuro e pesado. Tailen era o nome do Reino que fazia divisa com Riven, a Oeste. E Prover, uma das maiores cidades desse reino, era o centro da "Aliança da Lua Escarlate". Agora talvez você entenda a reação daquelas pessoas e o quase desabamento de Marcus.

— Mas isso não é tudo que diz aqui! — falou Marcus, reunindo coragem para voltar a falar. Ele ainda segurava o pedaço de papel com firmeza, esperando não estar tremendo. — Aqui fala que uma grande quantidade de soldados está marchando para nossa cidade nesse exato momento! — claro, isso não ajudou em nada a reação melindrada dos conselheiros e estrategistas naquela sala. — Diz que o próprio Exército Real de Valem-Nomar, a Capital do Reino, está incluído na marcha e que eles não levam a bandeira do reino, mas uma outra bandeira que nós nunca vimos!

— Isso não pode ser possível! — gritou Quantis, um dos Conselheiros mais próximos do Rei, e com certeza o mais emotivo. — O que está acontecendo aqui? Por que esses reinos decidiram nos atacar todos de uma só vez?

— Acalme-se, Quantis! — ordenou Julius, com um tom de raiva. — Não precisamos de explicações para proteger nossas casas! Marcus, Raziel já terminou de avisar todos os membros da Planetarium?

— Sim, Meu Lorde! Quatro deles já estão aqui. Um deles, Fildais, já foi para o campo de batalha.

— Bom. Então eu quero que você mesmo escolha um dos outros três e passe o comando das suas próprias tropas para ele, e que marchem para os portões do oeste e fiquem em guarda! — sem nem pensar em retrucar, Marcus bateu continência e saiu da sala, indo para onde os outros membros da Planetarium provavelmente estariam. Julius continuou com suas ordens. — Eu quero que alguém aqui contate quatro dos nossos mais rápidos mensageiros para entregar quatro ordens iguais para as quatro guildas que existem na nossa cidade.

Uma das Conselheiras, uma garota relativamente nova e muito bonita, se aproximou do Rei com um tipo de caderneta e uma pena com a ponta molhada em tinta.

— Eu faço isso, Meu Lorde. — disse ela, olhando com seriedade para o Rei. — Que ordem eu devo lhes passar?

— Diga que o Rei os ordena que todos os membros na cidade ignorem qualquer outro trabalho e que ajudem as pessoas que estão sendo atacadas por monstros ou por soldados remanescentes que não sejam de Riven. Deixe bem claro que não é uma questão de "escolha", e se caso alguma Guilda se recuse a ajudar, ela será imediatamente tratada como inimiga do Reino e será eliminada.

A mulher tentou o máximo não parecer surpresa. Era uma ordem e tanto. Mexer com as Guildas nunca era uma ideia muito boa, mas quando se tem um poderio militar do nível de Riven, algumas regras ganham exceção. Ela escreveu um bilhete rápido e saiu da sala também, em rápidos passos. Julius foi até a ponta da grande mesa, puxou uma das cadeiras e se sentou, olhando intensamente para o mapa. Ele tentava absorver todas as informações que ali estavam, mas sem nem precisar de explicações, ele sabia que a situação em sua cidade era péssima.

O Rei já sabia dos monstros e já sabia de alguns membros de guildas diversas espalhadas pela cidade e atacando soldados da cidade. Ele também estava ciente do fogo que começou magicamente e se espalhou em uma grande velocidade, mas sobre isso, lhe foi dito que as tropas estacionárias estavam conseguindo lidar eficientemente e que em menos de uma hora, todo o fogo já teria sido apagado.

Mas no momento, sua maior preocupação era os avanços do Sul. Semangard não estava brincando quando disse que os atacaria com tudo que eles tinham. Por um momento, Julius se sentiu culpado das batalhas terem chegado até os portões da Capital. Ele deveria ter agido mais intensamente antes, mandado mais tropas para o Sul e ter destroçado aquele reino maluco que decidiu comprar briga com eles. Mas agora era tarde demais. Ele precisava fazer de tudo para minimizar os danos ao seu povo. Seu Exército sabia lutar. Eles estavam preparados para darem a vida pelo Reino. Mas seu povo só queria saber de viver na proteção que Riven prometia dar.

— Ah! Que bom que eu lhe encontrei aqui, Vossa Alteza!

Todos na sala levaram um dos maiores sustos de sua vida. Alguém tinha magicamente aparecido na frente da porta dupla que servia de única entrada para aquela sala. A pessoa tinha acabado de fechar a porta e virar a chave na maçaneta, além de retirá-la e guardá-la no bolso.

A pessoa em si era assustadora. Ele vestia uma túnica pesada na mais pura cor negra, com capuz e que ia até o calcanhar. A túnica era fechada, então não dava para ver o que ele vestia por baixo. Só era possível ver suas mãos, que traziam luvas de couro negras e duas facas de lâmina comprida, banhadas em algum líquido vermelho que o pessoal temia ser sangue; e suas botas sem sola, também na cor negra. Seu rosto estava mascarado com uma faixa tampando do nariz para baixo, e um óculos muito esquisito e totalmente negro, que não deixava que ninguém enxergasse os olhos da pessoa. Com essa descrição, é fácil de se entender que ele era algum tipo de assassino. O problema era o "símbolo" que estava costurado na lateral esquerda do peito da túnica. Era branco, bem visível e extremamente fácil de ser reconhecido.

— Quem é você? Esse símbolo... — perguntou Julius com uma voz imponente e grossa, se levantando da cadeira em um impulso e a jogando para trás.

— Desculpe, Lorde Julius. Mas não tenho tempo para conversas. Eu estou aqui para lhe tirar a vida e eu peço gentilmente para que não tente reagir.

Lembra quando eu falei sobre a missão de emergência que Any passou para todos os membros na Guilda durante o início do incêndio? E lembra quando eu disse sobre Geovanna e Reita saírem e partirem para o Sul? Então você deve lembrar que Reita falou para Geovanna ir em frente enquanto ele cuidava de alguns monstros malucos que estavam por aquela área.

Bom, assim como um bom Caçador, Reita conseguiu cuidar dos monstros remanescentes sem tomar nenhum dano significativo. No momento, ele estava em cima de uma das casas, tomando fôlego e amarrando um pano molhado na perna direita, que tinha recebido um corte não muito profundo de um dos monstros. Mas sua preocupação não era com o machucado.

Ele desceu da casa com um salto e caiu na calçada do lado esquerdo da rua, bem perto de um dos monstros abatidos. Era um Ogro de Duas Cabeças, uma criatura de corpo humanoide, mas era bem mais alto, tinha cor cinza, era bem parrudo e, como o próprio nome já dizia, tinha duas cabeças idênticas e nada bonitas. Reita conhecia bem aquele tipo de monstro, mas percebeu uma coisa bem estranha durante a luta: os olhos dele. Eles tinham uma vermelhidão sobrenatural nos olhos, e pareciam mais raivosos do que de costume. Por algum motivo que ele não sabia explicar, aquilo lhe pareceu um mau sinal. E essa sensação só piorou quando sua percepção gritou em seu cérebro e fez seu corpo se mexer.

Reita deu um salto curto para o lado, e menos de um segundo depois, algo serpenteou no chão exatamente onde ele estaria se não tivesse saltado. Alguma coisa rápida atingiu o chão e retirou uma grande lasca da calçada de pedra, mostrando uma potente força. Se isso tivesse atingido a cabeça do Caçador...

— Vejo que o assassino dos meus monstros merece mesmo algum elogio. — disse uma voz obviamente feminina, vindo mais a frente de onde Reita olhava no momento. — Achei que você era só um maluco com um daqueles códigos de honra que não pode ver inocentes se ferindo e resolveu ajudar.

— Eu conheço você! — disse Reita, depois de analisar as vestes da mulher, que se aproximava lentamente dele. — Você é Margaret Vilstorfem, a Dama das Bestas da War Dogs! O que alguém de uma Guilda do Submundo faz aqui e... Não, melhor: o que pensa está fazendo ao tentar me matar daquele jeito?

— Ora! Estou lisonjeada! — disse ela, passando a mão rapidamente nos longos cabelos vermelhos. — Parece que meu nome é conhecido até mesmo por soldados de nível mais baixo! Ohohohoh!

Reita tentou não enlouquecer com a risada escandalosa da mulher. Era óbvio que ele reconheceria aquela mulher em qualquer lugar. Margaret era mundialmente conhecida por ser uma das últimas "Mestra das Bestas", uma Classe Perdida que nunca teve uma academia propriamente dita.

Ela se vestia de maneira um tanto peculiar para alguém com uma classe mágica. Para começar com a peça mais esquisita de sua roupa, era seu "cachecol-camisa". Era uma pele de lobo cinzento que se enrolava por todo seu pescoço e depois descia envolvendo os ombros e os seios, terminando um pouco acima do umbigo. Usava uma saia muito curta e bem aberta feita de penas vermelhas de alguma ave. Seus sapatos eram grossos, iam até quase o joelho e nas pontas dos dedos, tinha unhas como se fosse uma pata de tigre. A cor amarela com listras pretas dava exatamente essa impressão. Na cabeça, ela usava uma tiara com orelhas de gato, também cinza. Nos dois pulsos, usava um bracelete verde que era uma cobra fina e comprida enrolada. Suas unhas das mãos eram grandes e pintadas de um verde chamativo. Seu cabelo vermelho, comprido e liso era bonito, e acrescentando isso ao seu rosto liso e sem marcas, criava uma figura e um exemplo de beleza natural pouco vista no mundo da magia. O único "problema" era que ela tinha... Presas. Parecia um vampiro. Ah sim, e só para finalizar, ela trazia um longo chicote marrom, que no cabo tinha a forma de um escorpião, sendo que a parte do chicote era a "cauda" do animal. Reita torcia para que a ponta de ferro da arma não fosse envenenada.

Olhar para aquela pessoa colorida e não se lembrar das histórias contadas sobre sua Guilda era impossível. A War Dogs era uma das três maiores Guildas do Submundo — Guildas que não são bem vistas por nenhum reino, não dizem onde ficam suas bases e só fazem trabalhos que ninguém mais quer fazer —, e eles eram especializados em guerras. Não haviam muitos membros em sua Guilda, fazendo eles um batalhão único e imprevisível. Mas não pense que só por isso eles eram fracos. Eles ficaram conhecidos por destroçar inimigos sem deixá-los com nenhuma chance de se defender e depois sumiam com a recompensa, sem deixar nenhum rastro. A própria Margaret ganhou um Título Único por ser uma das maiores forças singulares da Guilda, podendo aguentar uma batalha contra esquadrões totalmente sozinha. Bom... "Sozinha" não era bem o caso...

— Nível baixo, é? — repetiu Reita, com uma voz claramente descontente. — Parece que você me conhece também.

— Não. Não faço a mínima ideia de quem seja você. — respondeu Margaret, dessa vez deixando Reita totalmente furioso. — Mas sei de sua Guilda. Foi me falado para ter cuidado com alguns dos membros da Immortal Star e que eu deveria "apagá-los" caso eu encontrasse com algum no caminho.

— Então tome cuidado! — disse Reita, liberando sua energia mágica e fazendo sua próxima oponente dar um passo para trás. — Pois esse "soldado de nível baixo" vai ter a certeza de que você não encontre mais nenhum outro membro da Immortal Star!

— Ah! Acha mesmo que pode me amedrontar dessa maneira? Se enxergue, garoto!

Margaret movimentou o chicote e o atacou contra o chão, fazendo um barulho curto, mas resoante. Ficou claro até mesmo para Reita que ela tinha mandado energia mágica naquele golpe. O que ele não tinha entendido era o "porquê". A descoberta foi dolorosa.

Reita percebeu que a terra estava tremendo, mas não sabia que isso acontecia somente debaixo de seus pés. Não era um terremoto nem nada tão violento, então o caçador conseguiu manter o equilíbrio enquanto puxava uma flecha de sua aljava. E quando ele viu um buraco se abrindo bem do lado de seu pé, já tinha sido tarde demais. Alguma "coisa" saiu do buraco em um tipo de explosão de poeira e o cortou da cintura até o ombro. Reita deu vários passos para trás, quase perdendo o equilíbrio. Ele não gritou, mas percebeu que tinha sido acertado em cheio quando colocou a mão no novo ferimento.

Agora ele pôde analisar o que era aquilo que tinha saído do buraco e lhe machucado. Era um monstro Classe A, chamado de "Toupeira-Broca". Imagine uma toupeira marrom escuro. Aumente seu tamanho até ela ter um metro. Agora coloque brocas de ferro no lugar das duas patas dianteiras e em seu focinho. Pronto, você tem um monstro com uma habilidade absurda em cavar e fazer buracos em tudo que não for de ferro sólido.

— Vejo que você possui uma boa habilidade para esquivar. — falou Margaret, debochada. — É uma pena que você não vai conseguir fazer isso para sempre.

— Nisso você tem razão.

Reita puxou o arco já armado com uma de suas flechas mortais e atirou contra a toupeira, mirando sua cabeça. Margaret bateu com seu chicote no chão mais uma vez, e o monstro deu um pequeno pulo para o ar e depois de se virar para baixo, fez as duas brocas girarem e criarem um buraco em uma velocidade recorde, fazendo o monstro sumir. A flecha se perdeu no nada.

O caçador da Immortal Star se ajoelhou e colocou a mão direita no chão, visivelmente abatido. Pelo menos foi isso que sua oponente achou que era. Margaret tinha certeza absoluta que estava enfrentando algum membro novato da Guilda e que não precisaria se preocupar com nada. Então ela bateu mais uma vez o chicote no chão, mandando seu monstro atacar da mesma maneira. Infelizmente para aquela mulher, Reita sabia que ela faria isso e não tinha se abaixado por pura tristeza.

— ARMADILHA DE URSO!

Reita mandou sua energia concentrada para o chão onde estava tocando e esperou mais dois segundos. Quando ele sentiu o tremor nos pés novamente, ele deu um grande salto para cima. Assim como esperado, a toupeira saiu de um buraco feito exatamente naquele lugar, do mesmo jeito que antes. Mas ele não esperava que uma armadilha mágica estava o esperando.

Assim que saiu do buraco, a magia de Reita se ativou, criando uma armadilha do tipo "dentadura". Imagine um tipo de boca de ferro grande aparecendo e mordendo com uma força descomunal seja lá o que fosse. No nosso caso, era a cintura da toupeira. O monstro soltou um grito esdrúxulo quando sentiu os dentes de ferro entrando em sua carne e o prendendo. Mas talvez isso não tenha sido o pior. Reita estava voltando do seu pulo e ele já empunhava sua fiel faca de combate. Assim que chegou perto, o caçador atingiu um golpe de ponta exatamente no pescoço da criatura e depois puxou o braço para baixo, com o impulso que seu corpo fazia da volta do pulo. Sangue e entranhas escorreram pelo chão enquanto a toupeira dava seus últimos suspiros.

— CERNIE! NÃOOOOOOOOO! — gritou Margaret, com a mão levantada e com lágrimas nos olhos.

— Cernie? — perguntou Reita, se virando para a oponente. — Você nomeou uma Toupeira-Broca de "Cernie"?

— Seu maldito! Desgraçado! — Margaret quase babava de raiva. — Você vai ter a morte mais demorada e mais dolorosa que eu conseguir pensar! — ela bateu o chicote mais uma vez contra o chão, exibindo ainda mais violência. — Ugor! Venha acabar com esse miserável para a Mamãe!

Reita teve que processar muitas informações ao mesmo tempo. Aquela mulher realmente tinha dado um nome para um monstro? Ele sabia que a habilidade especial de um Mestre das Bestas era ter controle quase absoluto de qualquer criatura sobrenatural do mundo. Quanto menor o nível intelectual de um monstro, mais fácil é de controlá-lo. Mas ainda sim... Quem os daria nome como se fossem bichinhos de estimação? E outra: "mamãe"?

Mas Reita não teve tempo para ficar se perguntando. O tal "Ugor" saiu de uma das casas que ficava bem perto do caçador, destruindo a parede em um só avanço. O problema imediato não foi nem a visão do monstro em si. Se tratava de um Orc Sanguinário da Tribo Uzukk-lu, um monstro de elite com uma força surpreendente e temido por muitos aventureiros.

Os Orcs também faziam parte das raças mais numerosas do globo. Eram criaturas de forma humanoide, mas geralmente eram maiores, mais musculosos, tinham cores variadas e pinturas dependendo de sua tribo e na grande maioria dos casos, tinham uma inteligência bem baixa. Mas o que lhes faltava de massa cerebral, eles tinham de massa muscular e instintos de sobrevivência. Viviam em pequenas tribos em florestas densas ou em cavernas não muito fundas, e não gostavam das outras raças. Eles eram racionais, mas se irritavam com uma facilidade surpreendente e eram extremamente violentos quando o assunto era "comida".

Vamos nos focar nesse de agora. Ele era grande, talvez maior que a média dos Orcs, era totalmente vermelho com pinturas negras em volta do corpo, não usava nada além de uma tanga, braceletes de couro e um colar de fragmentos de ossos com uma pequena caveira na ponta. Seu rosto era oval, tinha dentes podres saindo da boca, usava brincos esquisitos nas duas orelhas pontudas e era careca. Ah sim, e carregava um pedaço de ferro meio torto e plano na mão direita, que lembrava muito uma cimitarra, mas não tinha cabo — só um pano enrolado onde ele segurava a arma. E não, ESSE não era o tal problema imediato. O real problema foi que, quando ele saiu da parede destruída, ele gritou "MAMÃEEEEEEEEEEEEEEE!".

Reita conhecia muito bem aquela raça de monstro, sabia que eles eram burros e fáceis de se enganar. Mas para alguém chegar a mexer com a mente de um Orc a ponto dele gritar aquilo? Era hilário. Ou seria, se o monstro musculoso não corresse na direção do Caçador e tentasse decapitá-lo em um só golpe.

Reita pulou para trás se esquivando do golpe inicial, mas o Orc não parou seu avanço ali. Ele deu mais um passo para frente e desceu a lâmina dobrada na cabeça do Caçador, que levantou sua faca e defendeu o golpe. O que foi uma péssima escolha de movimento, porque ele presenciou de primeira mão a força física do monstro. Reita não aguentou o impacto e foi jogado para trás, caindo no chão de costas.

Mesmo naquela posição, Reita sabia que não podia parar de atacar. Ele já estava com uma flecha na mão, e ainda deitado, mirou para o monstro e atirou. O ataque não foi efetivo. O Orc vermelho levantou a lâmina e defletiu a flecha como se fosse uma pedra atirada por uma criança. Um ponto interessante: dentro de uma tribo de Orcs, existiam vários "cargos", por assim dizer. O líder era sempre o "Campeão". Os de nível mais baixo eram os "Peões". E os "Sanguinários", que era esse que enfrentava Reita, estava em um nível bem abaixo do Campeão e para os humanos, era um monstro Classe S. Eles eram extremamente habilidosos, além de possuírem uma força física absurda e grande fadiga. Era um perigo que não deveria ser enfrentado sozinho.

Não que nosso Caçador tinha alguma escolha. Ele sabia que estava em desvantagem naquela luta, pois um Mestre das Bestas poderia controlar um certo número de criaturas ao mesmo tempo, e ele não sabia exatamente quantos. Então a melhor estratégia ali era não fazer uma batalha duradoura e sim, atacar diretamente a controladora.

O Orc atacou novamente. Um golpe rápido, vindo de cima para baixo. Reita se jogou para o lado, se esquivando e se levantando logo em seguida. Ele puxou três flechas enquanto corria e mirou para a mulher ao longe. Colocou energia mágica no arco. Atirou.

— DISPARO TRIPLO!

As três flechas energizadas voaram rapidamente na direção de Margaret, que não parecia nem um pouco preocupada. Antes de mais nada, ela gostaria de dizer que não era "indefesa" sem seus monstros. Ela estava acostumada a lutar frente a frente também, e não eram três flechinhas que iriam tirá-la de jogada.

— DEFESA CIRCULAR!

Energizando seu chicote, Margaret começou a girá-lo em sua frente, criando um tipo de turbilhão. A energia projetava um tipo de parede quase invisível e que parecia alterar a pressão do vento ao redor da arma. As flechas voaram até aquele turbilhão e logo em seguida se perderam, indo para lados diferentes. A única coisa que havia sobrado era o sorriso chato da oponente do membro da Immortal Star.

Reita foi atacado novamente com uma combinação rápida de dois golpes horizontais. Um deles lhe cortou as costas, mas havia sido um corte bem leve. O Orc atacou mais uma vez, dessa vez com mais intensidade, com um golpe diagonal vindo de baixo para cima. Reita se esquivou dando um grande pulo e ficando em cima de uma casa que estava bem do lado. Ele estava começando a perder o fôlego por ter que ficar se movimentando ao mesmo tempo que atacava.

Margaret não esperou também. Ela chicoteou o chão mais uma vez, mandando uma onda invisível de energia para o Orc. O monstro pareceu ficar ainda mais vermelho. Ele urrou e levantou a lâmina que parecia... Liberar energia mágica? Aquilo não era possível! Orcs não utilizavam nenhum tipo de magia!

O Orc bateu com a lâmina na parede da casa onde Reita estava, e o resultado foi irreal. O golpe foi extremamente poderoso a ponto de criar uma explosão de madeira e pedras, fazendo a casa desabar só com aquele golpe. Reita tinha perdido o equilíbrio com o impacto e foi engolido pelos escombros da casa. Telhas, vigas e pedregulhos fizeram a figura do caçador sumir. Como se estivesse comemorando, Ugor deu outro berro, levantando os dois braços, vitorioso.

— FLECHA EXPLOSIVA!

Uma flecha brilhante e grossa atingiu o peito do Orc pelo lado esquerdo, e assim que ele sentiu a picada e olhou para o local, uma explosão de médio porte aconteceu. Ugor gritou de dor e caiu a uns três metros de onde estava, caindo no meio da rua. Ele sangrava sem parar, e não tinha mais o braço esquerdo e parte de seu peito do mesmo lado. Margaret estava aflita demais para sequer gritar o nome de seu "filho".

Reita saiu de trás do entulho que antes era a casa de algum azarado que nunca acreditaria na história "Ei, um Orc destruiu sua casa com um golpe de espada!". O Caçador estava com alguns arranhões por todo o corpo e sua roupa parecia uns trapos de mendigos. Sim, Reita NÃO tinha sido engolido pelos escombros, mas ele atuou para que parecesse. Assim que viu que a casa não aguentaria o golpe do monstro, ele se abaixou e se preparou, energizando as pernas. Para parecer real, ele precisaria fazer um salto na última hora, ou seja, quando a casa já estava caindo. Foi por isso que, assim que pulou, telhas, pregos e seja lá mais o que o cortou. Mas tinha valido a pena.

— Eu não... Acredito... — falava Margaret, totalmente inconformada. Ela estava com os olhos bem arregalados e quase babava. — Você... Você!

— Não devia ter subestimado esse "soldado de nível baixo" aqui. — respondeu o Caçador, deixando sair um sorriso. Ele puxou mais uma flecha e começou a juntar energia mágica. — Agora vamos termi—... ARGH!!

Reita cuspiu sangue e caiu de joelhos. Dor lhe enchia a mente, lhe enchia o corpo, lhe enchia cada pensamento, tudo. Sua visão turvou. O que tinha acontecido? O que era aquela dor. Vinha de suas costas, mas não parecia "certo". Meio tonto, ele tentou olhar para trás e para baixo, e a primeira coisa que viu foi sangue quente enchendo o chão bem debaixo dele. A fonte daquele sangue era do novo machucado em suas costas, um pouco acima da cintura. Machucado feito por uma lâmina de mais de quarenta centímetros e grossa o suficiente para decepar um boi. O Orc tinha parado de gritar, coisa que Reita não percebeu, e logo quando viu o homem preparando uma flecha, o Orc jogou sua espada. Sua mira não estava perfeita por causa do ferimento, mas pelo menos ele ainda o atingiu. E é claro, isso não seria possível se Margaret não tivesse enviado outra ordem psiquicamente. Ordenou que Ugor ignorasse a dor. Ordenou que ele jogasse a espada.

Esse foi o primeiro passo para o desespero do Caçador da Immortal Star. Assim que ele conseguiu segurar aquela lâmina e puxá-la — coisa que causou ainda mais dor em seu corpo —, ele se sentiu estrangulado. Machucado, tonto, com a garganta cheia de sangue e agora estrangulado? Que dia! Ele levou a mão no pescoço e percebeu que havia algo grosso enrolado ali. Ele se virou e entendeu que se tratava do chicote de sua oponente. Quando ela tinha se aproximado tanto a ponto de fazer esse movimento? Ninguém sabia.

— VAI PAGAR!!! — gritou Margaret, enviando uma nova onda de energia para sua arma. — LANÇAMENTO BESTIAL!

Margaret se virou e puxou o chicote com toda força que tinha. Ela estava quase cega de tanta raiva que estava sentindo. Ela era um tanto maluca com relação aos seus monstros, e até mesmo os outros membros da War Dogs tendiam a ficar longe dela. Era normal você querer ficar longe de uma mulher que tem um filho de dois metros de altura, é vermelho, empunha uma lâmina grossa e sinistra e grita "Mamãe".

A magia de Margaret não servia para enforcar o oponente. Não, ela era uma magia do tipo "arremesso". Depois de se enroscar no oponente, o chicote consegue, magicamente, tirar o oponente do chão independente do seu peso ou altura, e depois o jogar para qualquer lugar que o invocador bem quisesse. Nesse caso, Margaret escolheu atirar nosso Caçador contra uma barraca que vendia vasos de barro e porcelana, que ficava na calçada daquela rua, mais a direita. Reita bateu com as costas na barraca cheia de objetos, fazendo a pequena construção desabar em cima dele. Dessa vez, ele não tinha fingido.

De todos os membros da Immortal Star, aquele que teve mais azar foi com toda certeza, Shiro. E o mais engraçado disso, era que ele SABIA disso. Enquanto ele corria por sua vida, ele xingava a mãe de várias pessoas. Isso quando não se esquivava de flechas e espadas. Na verdade, ele conseguia fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

Começamos por sua saída. Ele estava na Base quando toda aquela confusão começou. Tinha acabado de chegar de uma missão chata lá do Norte, de uma cidade que ele tinha que se forçar para lembrar o nome. Tinha chegado vitorioso, com a missão completa com sucesso. Estava se sentindo o maioral, como sempre. Estava comendo e contando suas façanhas ao pessoal que o cercava no salão de alimentação. Estava sendo um dia divertido. Mas daí vem alguém e atira fogo na cidade. Super divertido.

Any tinha reunido todos os membros e tinha passado "Missões de Emergência" para cada um. Alguns saíram em duplas, outros em trios, e alguns poucos sozinhos. Shiro era um desses últimos. Mas claro, isso só o fazia sentir ainda mais necessitado.

"— Shiro, eu preciso que você corra até o castelo e entre em contato com os Generais ou com os Conselheiros de Guerra, que nesse momento já devem estar se reunindo e formando batalhões para lutar contra esse incêndio. Eu preciso que você seja nosso Intermediário, já que você é o mais rápido daqui. Diga para eles que nossa Guilda vai ajudar no que puder. Isso vai nos ajudar a ganhar alguns pontos com o Rei, principalmente se formos os primeiros a chegar lá. Por isso preciso que você vá o mais rápido possível."

Tinha sido a ordem de Any. Ser tratado como alguém especial e insubstituível era um presente que aquele ninja não ganhava todos os dias. A não ser quando levava xingamentos dos outros membros que não aguentavam seu falatório. Mas agora era diferente. Hoje, ele era o "cara". Ele sabia o quão importante era fazer com que a Guilda fosse bem vista pelo Rei, pois assim o próprio castelo começaria a fazer pedidos e trabalhos. E o lucro que eles poderiam tirar disso era incomparável.

Agora você deve estar se perguntando algo como: "Shiro é maluco o suficiente para voltar para o Castelo onde ele JÁ tinha sido capturado uma vez?". E a resposta é SIM. Ele era maluco. Mas é preciso lembrar que naquela ocasião, ele estava totalmente mascarado e não tinha dado tempo o suficiente para os Generais descobrirem sua real identidade. A única pessoa que poderia tê-lo denunciado era a Capitã das Explosões, mas ela não mais vivia nesse mundo. Então ele, ainda usando a sua tradicional roupa negra de investigação e espionagem, pegou suas armas e saiu. Ele nem penteou seu cabelo negro e cheio de pontas duplas. Ele não tinha mudado o penteado desde que entrou na Guilda, então ainda tinha um cabelo liso, bem cheio e sempre bem desarrumado, com algumas pontas para trás, outras para cima, outras para os lados. Era uma confusão. Sem máscara, ele parecia uma pessoa honesta e feliz. Seu rosto não tinha cicatrizes e seus olhos castanhos escuros emanavam sinceridade. Isso não acontecia quando ele estava em missão.

Até aqui, tudo bem. Mas assim como os outros membros de sua Guilda, o ninja logo descobriu que o fogo não era o único problema que assolava a Capital. Shiro deu de cara com monstros e com pessoas suspeitas encapuzadas, mexendo em um aparelho grande e que exalava energia mágica. Sobre as pessoas, ele não teve tempo de analisar melhor. Mas os monstros que o atacaram não lhe deixaram escolha.

O ninja enfrentou dois Goblins Arqueiros e um Hipogrifo. Os Goblins caíram muito rapidamente. Eram criaturas frágeis e nunca conseguiriam acompanhar Shiro. Já o Hipogrifo foi complicado, pois o monstro tinha o atacado de surpresa enquanto ele corria por cima das construções. Shiro ganhou um talho triplo nas costas, coisa que o fez querer matar o monstro mesmo que isso lhe tomasse tempo. Mas essa batalha também não demorou muito e logo em seguida, Shiro estava de volta na sua corrida para o Castelo.

Ele teve que pegar alguns caminhos mais longos para evitar o fogo. Pelo o que ele pôde ver, quanto mais próximo do castelo, mais era a intensidade do incêndio. Mas ele também percebeu que muitos Guardas trabalhavam em ajuda com alguns civis e estavam conseguindo controlar a situação.

Foi no próprio Castelo que ele encontrou um certo problema. De longe, ele viu que a vigilância do local estava triplicada, se não mais. As torres estavam lotadas e Shiro imaginava que acabaria sendo recebido com flechadas se continuasse correndo pelos telhados. Quando ele se aproximou dos Soldados que guardavam o portão, ele teve que explicar rapidamente o motivo para sua vinda, mas os soldados tinham ordens específicas para não deixar ninguém entrar. A discussão estava ficando pavorosa. Mas então "alguém" de dentro falou para abrirem os portões e deixar Shiro entrar. Todos os soldados obedeceram na hora, pois reconheciam a voz. Nas palavras do próprio Shiro, ele tinha se sentido "o fodão".

Da entrada, Shiro conseguia ter uma boa ideia de como as coisas estavam corridas com os soldados. Dezenas deles gritavam e mandavam ordens de seus superiores, algumas dezenas se vestiam e verificavam suas armas, alguns outros já estavam em formação para irem para a batalha. Sem contar com outros que armavam armas de cerco e de longo alcance. Era bem provável que assim que esse ataque fosse detido, o Exército de Riven marchasse com força total contra seus inimigos, e o ninja já imaginava quem seria o primeiro alvo.

Assim que deu os primeiros dez passos, o ninja da Immortal Star foi cercado por muitos soldados do Exército Imperial. Shiro nem tinha conseguido contar. Ele ficou arrepiado por sua adrenalina lhe mandar um certo aviso de que as coisas não eram boas. Shiro estava tentando se controlar, pois sabia que o Exército teria que desconfiar de qualquer um que não fosse "um deles".

Entre eles, um se destacou, dando dois passos para a frente e chamando a atenção de Shiro por um motivo bem óbvio. Não eram as roupas simples cor gelo, as faixas enroladas na parte superior da cabeça, o sapato pontudo e nem a capa esvoaçante. Era o sorriso. Um sorriso que não era exatamente maligno, mas totalmente malicioso. O pior: Shiro já tinha visto o mesmo sorriso e nem fazia tanto tempo assim. Era o General da Brigada do Norte, Leon.

— Ora, ora, ora... — começou a pessoa, analisando cada centímetro do ser de Shiro. — Devo admitir que você tem muita coragem de mostrar a cara aqui, Senhor Ninja.

— Coragem? — Shiro se viu em uma meia confusão, e ainda se sentia acuado pelo cerco a sua volta. Todos os soldados estavam armados e pareciam prontos para pular em cima dele. — Eu estou aqui como mensageiro da minha Guilda e preciso falar imediatamente com os Conselheiros do Rei.

— Ah, mas é claro que veio! — dizia Leon, ainda com um sorriso. — Pode-nos dizer seu nome e sua Guilda, por favor?

—Meu nome é Shiro. Sou da Immortal Star. — respondeu o ninja, com uma certa contradição na mente. Como ninja, ele geralmente tentava se manter o mais secreto possível, mas naquele momento, ele não tinha opções.

Mas Shiro viu a reação que sua apresentação causou nos Soldados e até mesmo em Leon. Todos os soldados mudaram suas expressões para uma raiva descontrolada. Teria causado a mesma reação se Shiro tivesse falado para todos: "Acabei de matar todos os membros das famílias de vocês!". Leon, ainda mantendo a pose, limpou a garganta e olhou diretamente para os olhos do ninja.

— Shiro da Immortal Star! Você está preso sob a pior das acusações feitas sob solo sagrado de Riven! — Shiro deu dois passos para trás, completamente boquiaberto. — A tentativa falhada de assassinar nosso Rei irá custar muito caro para sua Guilda, meu caro ninja gatão.

Assim como dito anteriormente, a situação de todos os membros da Guilda era complicada, mas nenhuma delas chegava aos pés do buraco sem fundo onde Shiro tinha acabado de se meter. Tentativa de assassinato ao Rei? Isso era tão absurdo que parecia brincadeira. Era tão óbvio que alguém estava tentando tramar algo grande e colocar toda a culpa na Immortal Star... Mas o que o ninja poderia fazer naquela situação? Pela expressão dos soldados, Leon não estava mentindo. Alguém realmente tinha sido maluco o suficiente para tentar matar o Rei mais poderoso do mundo, em sua própria casa. Como contar para eles que a sua Guilda não tinha nada a ver com essa trama toda?

Os soldados, ao mesmo tempo, deram um passo a frente, fechando ainda mais o cerco e deixando o ninja sem quase nenhum espaço para andar. Leon continuava mais a frente e tinha tirado uma Algema de Restrição Mágica do bolso traseiro de sua calça larga.

— Espero que você se renda pacificamente. — disse o General, dando um passo a frente. — Claro que você não seria louco o suficiente para resistir se vendo em uma situação ruim como essa, não é?

— Vai a puta que te pariu, Leon! — gritou Shiro, liberando uma explosão de energia. — MERGULHO DAS SOMBRAS!

É claro que ele não seria louco o suficiente para reagir naquela situação. Mas ele também não era burro o suficiente para deixar ser pego. Ele não queria nem imaginar que tipo de torturas poderiam ser feitas com ele. O povo de Riven não estava em um clima amigável o suficiente para ouvir o que Shiro teria a dizer. E outra: agora que Shiro sabe desse ocorrido, era altamente possível que sua Base fosse vítima do primeiro grande avanço dos Soldados de Riven, e ele precisava avisar o seu pessoal.

Ele usou sua magia mais padrão e entrou na própria sombra criada por seu corpo, desaparecendo imediatamente e tirando muitos suspiros de susto dos soldados que o rodeavam. Os homens armados começaram a procurar ao redor, causando uma pequena confusão entre eles mesmos.

A magia de Shiro era excelente para fugas, mas ainda sim, havia um limite. Como já explicado uma vez, ele só poderia se teletransportar para um local que ele conseguisse "enxergar". Por isso ele não conseguia ultrapassar uma parede sólida, por exemplo. Então ele conseguiu se teletransportar para a parede do grande muro que rodeava o castelo, pois havia uma tocha acessa e criava uma pequena sombra no chão. Ele ainda estava muito próximo daquela quantidade absurda de soldados e o portão principal estava fechado. Sair por lá não era uma opção válida. Mas isso não o impediria de fugir. Claro, esse pensamento veio antes dele ser atacado.

Assim que Shiro saiu da sombra e olhou para o lado, vendo o portão e o grande número de soldados ao redor dele, a percepção do ninja lhe avisou que algo muito rápido estava vindo em sua direção, pelo lado direito. Shiro só teve tempo de cruzar os braços na frente do rosto, protegendo sua cabeça. Foi quando ele foi acertado por algo duro e com poder o suficiente para fazê-lo voar para mais de dez metros de distância. Shiro foi só parar quando bateu com as costas nas hastes que seguravam lanças usadas pelos soldados, destruindo totalmente os grandes objetos. Por sorte, a parte de metal da lança não haviam sido colocadas ainda, então Shiro só esbarrou em um monte de cabos polidos. Ainda sim, alguns ainda lhe cortaram por causa da queda.

Tentando reganhar o controle do corpo, ignorando a dor no braço esquerdo e se levantando devagar, o ninja olhou para onde estava há um segundo atrás. Ele viu Leon em posição de ataque, e sua mão direita estava brilhando intensamente com uma energia negra. Ele tinha dado um soco? Um soco potente o suficiente para fazer Shiro voar por dez metros? O ninja achava que nem os lutadores mais fortes de sua Guilda conseguiriam isso tudo.

— Não é muito inteligente da sua parte me xingar e depois tentar fugir, Senhor Ninja Gatão. — falou o General, dando um rápida piscadela para o suposto futuro presidiário.

Shiro nem teve tempo para retrucar. Um outro soldado partiu para cima dele empunhando uma espada larga. Acho que algumas pessoas ali não entenderam que o prisioneiro deveria continuar VIVO. O soldado atacou com um corte poderoso e vertical, de cima para baixo, mirando uma das pernas de Shiro. O ninja deu um impulso para trás, se esquivando de um possível amputação. Com um pouco de energia concentrada e retirando uma kunai de sua bolsa traseira, Shiro usou mais uma magia para tentar ganhar tempo.

— KUNAI DA IMOBILIZAÇÃO!

A pequena arma voou rápida contra o soldado que tinha acabado de lhe atacar. Shiro não havia mirado para a cabeça ou até mesmo para o corpo do soldado. Ele havia mirado em sua sombra. E sua mira foi perfeita. Assim que a kunai enterrou no chão exatamente onde a sombra do soldado permanecia, o próprio soldado sentiu um choque percorrendo seu corpo e seus músculos paralisando. O medo começou assim que ele viu que não conseguia mais se mexer. Shiro nem esperou qualquer outra reação. Deu as costas e começou a correr o mais rápido possível. E para o mais longe de Leon também.

— KUNAI DA IMOBILIZAÇÃO!

O corpo se Shiro parou. O choque pelo seu corpo foi algo rápido e não esperado. Shiro estava paralisado. Só seus olhos conseguiam se movimentar, e ao olhar para baixo, ele viu uma kunai feita de energia bem no meio dos seus pés.

— Não, não, meu querido. — era a voz de Leon, que se aproximava pelas costas do ninja. — Fugir não é uma opção para você. Apenas seja um bom garoto e desista, que eu juro lhe tratar muuuuuuuito bem.

Shiro não precisava encarar Leon para saber que ao falar aquelas palavras, ele estava rindo e provavelmente se lambendo. O que tornava tudo mais absurdo. Tortura infinita talvez não fosse tão ruim quanto passar meia hora dentro de uma sala com aquele esquisito. Shiro xingou mentalmente a mãe de seu oponente. Ficar paralisado era uma coisa, mas por sua própria magia? Isso era demais! Shiro sabia que Leon tinha uma Classe Perdida que o fazia copiar magias das pessoas, mas ele não sabia que só de as "ver", o General já poderia copiar. Com toda certeza, seria alguém extremamente difícil de se enfrentar. Não ajudava nada o fato de que mais de dez soldados corriam na direção dos dois, com armas em mãos.

— Como se sente? — era a voz baixa de Leon, que assoprava no ouvido de Shiro. Ele tinha se aproximado por trás, colocando as duas mãos nos ombros do ninja e falado para que só ele ouvisse. — Preso por sua própria habilidade... É irritante, não acha?

— Não tão irritante quanto você tentar me encoxar! — respondeu o ninja, liberando um pouco mais de energia mágica.

— Huhuhu! O que você quer fazer dessa posição? — Leon perguntou rindo, inicialmente não ligando para o preparo de seu oponente. Ele sabia que Shiro estava paralisado e não conseguiria atirar nenhuma magia daquela maneira.

— Esqueceu que tas lutando com a "Sombra da Morte"? Manipular livremente as sombras é a minha especialidade. — Shiro ria, mas Leon não conseguia ver por estar nas costas do ninja. — POÇA DAS AGULHAS NEGRAS!

Shiro mandou toda sua energia concentrada para os pés, diretamente se fundindo com a sombra embaixo de si. Leon sentiu o perigo nascer do chão bem aos seus pés e então tentou dar um salto para trás, se distanciando. Mas ele não tinha sido rápido o suficiente. Da sombra de Shiro, nasceram dez formas de estacas feitas de sombra que em menos de um segundo, ficaram com um metro de tamanho. Para a sorte do General, ele não tinha sido empalado, mas saiu com dois cortes nas pernas e um no lado do corpo, perto da barriga.

As estacas de sombras não fizeram só o oponente se ferir e se afastar. Elas também destruíram a kunai de energia que prendia o ninja, dando-o liberdade. Shiro não esperou mais. Os soldados já estavam bem próximos e ele sabia que era impossível enfrentar tanta gente junta. Ele se virou e começou a correr, ao mesmo tempo que levou a mão direita em outra bolsa em sua cintura. Ele encheu a mão de alguma coisa e depois soltou no chão, enquanto corria. Os soldados escorregaram e caíram sem equilíbrio nenhum, se empilhando e causando uma cena mais cômica do que ruim. Shiro tinha liberado pequenas esferas de ferro que eram usadas exatamente para derrubar soldados com botas de ferro. As esferas não eram muito diferentes das que Mulkior usava em seus combates.

Leon apareceu ao lado de Shiro e o atingiu de novo. Assim, do nada. Shiro não conseguiu reagir a tempo e por isso levou um poderoso soco no rosto, o fazendo desequilibrar durante sua corrida e ir ao chão. O ninja rolou pelo chão umas três vezes e depois se virou, ficando de joelhos no chão. A tontura era pior do que a dor.

— Mas que caralho! — xingou o ninja, cuspindo sangue no chão. — Como é que você consegue se mover tão rápido?

— Se-gre-di-nhoooo!

Leon partiu para cima do ninja, sem esperar mais. Shiro se levantou e ficou em posição defensiva. Ele colocou as mãos para trás e procurou suas duas armas gêmeas. As pequenas foices não estavam lá. Shiro quase se desesperou. Onde estavam suas armas? Ele TINHA entrado no castelo com elas, ele lembra bem disso. Infelizmente ele nunca descobriria que suas armas tinha caído quando ele bateu nas hastes de madeira, há poucos minutos atrás.

O General não foi amigável. Ele começou atacando com uma série rápida de socos precisos mirando principalmente o rosto e os braços de Shiro. O ninja, por sua vez, levantou os dois braços e defendia o quanto podia. Ele odiava admitir, mas lutar desarmado nunca foi seu forte. Ele sabia sim, lutar Ninjutsu, mas por falta de prática, era bem possível que até San soubesse mais do que ele. Shiro recebeu mais dois golpes na cara e três socos doloridos nos braços antes de pular para trás.

O ninja parecia encurralado, mas não podemos esquecer que ele foi alguém habilidoso o suficiente para ganhar um Título Único. Quando Leon avançou novamente, Shiro esticou o braço esquerdo o endurecendo e estralou os dedos da mão direita. Assim que Leon deu o primeiro soco alto, Shiro aparou com o braço esquerdo e usou a mão esquerda para agarrar o pescoço do oponente. A ideia do ninja era óbvia: um movimento assassino, esmagando a traqueia do oponente com um grande aperto. Para isso, Shiro não economizou energia e passou uma grande quantidade para sua mão atacante.

Assim que se sentiu estrangulado, o corpo de Leon amoleceu. Mas ele também era um guerreiro fino e forjado no sangue do campo de batalha. Não seria tão fácil matá-lo. O General segurou o braço que lhe enforcava pelo pulso e, usando energia mágica, começou a apertar o mais forte que pôde. Shiro sentiu o esmagar de seu pulso e imediatamente soltou a garganta do oponente. Ele estava usando "fogo contra fogo". Mas Shiro ainda não deixaria impune, e aplicou um poderoso chute no estômago do General. Leon se afastou do ninja, vomitando saliva.

Essa era a oportunidade de ouro para Shiro. Os soldados que tinham levado um tombo já tinham se levantado e acabaram de voltar a correr em sua direção. Shiro precisava sair dali o mais depressa possível. Assim que se virou e deu o terceiro passo, o ninja gritou de dor. Suas costas, na parte do ombro, tinha sido atacada por algo que parecia a maior abelha do mundo. Shiro sentiu uma picada horrível e quase foi ao chão novamente. Ele levou a mão até a região e viu que se tratava de uma flecha.

— Ahah... — ria Leon, ficando em pé novamente e limpando a boca. — Não achou que isso seria uma luta justa de um contra um, achou?

Uma porta se abriu muito atrás de Shiro, em um dos cantos do castelo, e mais soldados saíram dela. Em menos de cinco segundos, Shiro seria cercado novamente. Mas metade daqueles soldados já tinham entendido que isso não era o suficiente para deter o ninja. Então o que será que eles fariam? Atacariam tudo de uma só vez? Isso poderia matar o ninja, mas eles estavam em pé de guerra. Acidentes acontecem, correto? Quando se é soldado da melhor tropa guerrilheira do mundo, você pode acabar tendo alguns pensamentos desse tipo.

Shiro desejava muitas coisas. Uma mulher bonita e legal para namorar, uma casa aconchegante em alguma praia ao longe, passear pelas ricas terras do Norte. Mas uma coisa que ele desejava ainda mais era permanecer vivo. Ele não iria perder a paixão pela própria vida só para satisfazer as vontades de um General homossexual que estava louco para prendê-lo na cela mais escura. Então para que isso não aconteça, Shiro se viu com uma única opção: usar uma de suas Técnicas Secretas.

— RITUAL SANGUÍNEO — CLONE DAS SOMBRAS!

Vamos por parte. Shiro primeiramente concentrou um tanto de energia mágica ao redor do corpo e fez de tudo para que sua concentração não fosse afetada pelas dores. Seu próximo passo foi arrancar a flecha enterrada em seu corpo, coisa que quase fez ele falhar seu primeiro objetivo. Depois de jogar a flecha no chão, ele se ajoelhou e com a mão suja do próprio sangue, tocou o solo, mandando a energia previamente concentrada para lá. Daquele ponto do chão, um círculo mágico foi surgindo e emanando ainda mais energia. Leon sabia que aquilo não era qualquer magia de ataque.

O efeito da magia aconteceu imediatamente. Daquele anel mágico criado no chão, uma forma escurecida foi ganhando vida e ficando cada vez maior, até ter o mesmo tamanho de Shiro. A forma foi clareando e ficando cada vez mais humana, até que por fim, ficar exatamente como o ninja. Agora haviam dois ninjas, exatamente iguais.

Os soldados pararam ao ver a aparição de mais um inimigo. Eles sabiam que aquilo era feito de pura magia, mas ainda sim, não poderiam fazer qualquer movimento impensado agora que haviam dois deles. Alguns soldados olharam para Leon, que já se preparava para um novo avanço. O General não precisava de instruções e nem indicações para saber como continuar aquela luta. Ele iria terminá-la logo, e não era nenhum clone mágico que iria ficar entre ele e o objetivo obscuro dele. Leon correu em direção a Shiro, fazendo todos os outros soldados, tanto os da frente quanto os de trás, correrem também.

— MERGULHO DAS SOMBRAS!

Isso foi dito pelos dois "Shiros", ao mesmo tempo. Os dois ninjas entraram em suas sombras e desapareceram momentaneamente dos olhos de todos os atacantes. Os soldados e Leon pararam suas corridas e começaram a procurá-lo. Parece que todos tinham entendido que a magia de Shiro era limitada e que ele não poderia simplesmente "desaparecer completamente".

— Lá está ele!!!

O grito de um dos soldados fez com que todos os outros virassem em sua direção e vissem que ele apontava para um outro lado. Um dos ninjas estava correndo em direções às catapultas que ficavam nos muros da direita do castelo. No momento, não havia nenhum outro soldado por lá, e por isso que os outros soldados imaginavam que esse era o motivo dele estar correndo para aquela direção.

— Ele vai tentar usar a catapulta para fugir do castelo! Peguem ele antes que ele chegue lá! Arqueiros!!!

O grito de um outro soldado que se destacava entre aqueles que ali estavam fez com que toda aquela tropa começasse a correr atrás do ninja fujão. Aquele soldado que deu a ordem era um dos Capitães de Batalhão, e ele já tinha se sentido ridículo o suficiente quando tropeçou do amontoado que seus próprios soldados fizeram com seus corpos. Ele estava tentando apagar aquilo da mente, e capturar o fugitivo iria acabar com qualquer erro que ele ou um dos seus homens houvesse cometido. Assim que ele percebeu que os arqueiros que ficavam nas torres de vigília já se preparavam, ele também começou a correr.

Mas o "verdadeiro" Shiro não tinha um plano tão doido quanto usar uma catapulta que provavelmente não estava armada para tentar fugir. O verdadeiro Shiro agora corria por um dos corredores laterais dentro do castelo. "Como ele chegou lá", você pergunta? Para isso, eu devo explicar a segunda parte daquela magia secreta dele.

Shiro consegue criar um clone dele mesmo usando a própria energia mágica. O clone agia exatamente como ele e era quase impossível distinguir qual dos dois era o falso. Mas claro, o clone tem bem pouca resistência e se desfaz se ele receber alguma magia direta no corpo. Shiro usou um pouco de sua energia vital nesse clone, mesmo que ele pudesse usar a magia utilizando só energia mágica. Mas usando energia vital, ele fortalecia o corpo do clone e o faria durar mais tempo. E claro, dependendo de "quanto" de energia mágica Shiro passa para o clone, o próprio clone pode utilizar magias.

Então vamos aos fatos: assim que invocado, os dois ninjas usaram a mesma magia e desapareceram momentaneamente da frente dos olhos treinados daqueles homens. O Shiro verdadeiro sabia que lutar ali no meio de tanta gente seria suicídio, então ele precisava fugir e se esconder em algum lugar mais seguro. Infelizmente, o único lugar disponível seria o próprio Castelo, o que não lhe traria boas lembranças. Mas ele não tinha escolha. Então ele fez o seu clone ir para o lado contrário e aparecer mais perto para que ele fosse visto primeiro. Assim que ele atraísse a atenção dos soldados para o outro lado, o Shiro verdadeiro teria tempo o suficiente para adentrar o castelo por aquela porta que tinha sido aberta por último, por onde tinham vindo mais soldados. O ninja não sabia onde aquilo daria, mas com certeza seria melhor do que ficar ali fora.

Então agora o verdadeiro estava andando por um dos grandes e largos corredores do leste do castelo. Shiro ia se arrastando pela parede, com uma das mãos na ferida feita pela flecha. Aquele ferimento não parecia ter sido leve e se não fosse tratado o mais rápido possível, poderia ser fatal. Não pelo local do ferimento, mas pela provável falta de sangue que aquilo lhe causaria.

Assim que Shiro avistou uma porta aberta mais a frente, antes de chegar em uma esquina do corredor, ele foi atacado mais uma vez. Algo pesado lhe acertou as costas e o fez voar para frente, caindo e rolando pelo chão, totalmente mole. Shiro logo conseguiu superar a dor e se arrastou até a parede mais próxima, usando-a para se levantar. Ao olhar para frente, ele encontrou seu velho seguidor chato.

— Filho da puta, cara... — dizia Shiro, tentando recuperar o fôlego e ignorar a nova dor nas costas. — Você não pode me deixar em paz, não?

— Eu já lhe disse, meu caro ninja gostosão... — começou Leon, estralando os dedos da mão. — Você não tem escapatória daqui. Vai ser meu brinquedo pessoal antes de eu entregá-lo diretamente ao Rei!

Essa foi a gota d'água para o ninja. Shiro não se perguntou em como diabos Leon havia o encontrado tão rapidamente. Ele não queria mais saber. Pro inferno com os detalhes! A irritação de Shiro chegou a um ponto que ele conseguiu ficar no meio do corredor, com a cabeça baixa, apertando as duas mãos. Ele já estava cansado de ser perseguido e acertado pelo General e por fim, concluiu que só havia uma maneira de aquilo terminar de vez. Ele concentrou um pouco de energia mágica, coisa que fez Leon ficar em posição de ataque mais uma vez.

— INVENTÁRIO DAS TREVAS!

Shiro desceu sua mão para o chão e ela entrou em um mini portal feito de sombras. Não permaneceu nem dois segundos naquela posição. Ele logo puxou sua mão de volta, trazendo uma inseparável companheira com ele. Izayoi, sua poderosa ninja blade pulsava com energia negra, parecendo ser alimentada pela fúria que o ninja sentia. Leon estreitou os olhos quando percebeu o novo perigo que estava em sua frente.

— Você quer brincar comigo, Leon? — perguntou Shiro, manejando duas vezes sua espada. — Então vamos brincar de "Matando o General Baitola"!

Notas finais
E no próximo capítulo, a Immortal Star vira alvo não só de outras Guildas, como também do próprio Reino onde a Base é situada.